terça-feira, janeiro 10, 2017

O que havia antigamente

- Antigamente, havia o frio.
- E como era, mãe?
- As pessoas precisavam se proteger. Em alguns lugares, caía gelo do céu, em forma de pequenos cristais flutuantes. Eles caíam devagar e se acumulavam nas ruas, formando montes.
- E doía?
- Doía o quê? O frio?
- Não, os cristais quando caíam nas pessoas, machucavam?
- Não, eram muito leves e pequeninos, como se fossem nuvens minúsculas...
- E para que servia o frio?
- Era algo que acontecia. Assim como havia rios, cachoeiras, bichos correndo no mato. Não tinham uma utilidade específica, apenas existiam.
- Então não serviam pra nada?
- Meu filho, só porque algo não nos serve, não quer dizer que não é útil. Serviam para seus propósitos. Quando essas coisas existiam, os homens viviam em casas. Ninguém precisava cavar, porque era possível ficar lá em cima. As pessoas buscavam o sol. Os antigos dizem que as pessoas conversavam com o Sol e o adoravam, como se fosse uma pessoa, mas vivendo lá em cima entre os planetas, como se fosse o rei deles.
- E quando fazia frio, para onde as pessoas iam?
- Não iam a lugar nenhum. Ficavam em casa ou saíam para brincar na neve.
- Você brincava na neve? Perguntou o menino, cada vez mais incrédulo e confuso.
- Oh não! Quando eu nasci, o frio já não existia mais. Todas essas coisas foram há muito tempo... disse a mãe, com olhos sonhadores.
- Mãe, quando eu crescer, eu quero ver uma neve.
- Vai ser muito difícil, meu filho. Somente no topo das mais altas montanhas existe um pouco de neve. Mas já não há ar para respirar lá em cima. Depois que o mundo foi destruído, não temos mais como chegar a lugares distantes. Era preciso usar máquinas, carregar ar em garrafas para respirar. Não temos mais essas coisas. Mas você não deve desistir de sonhar. Pode ser que um dia, nossos irmãos que viajaram voltem, e tragam coisas boas para nós. Eles estão lá no céu, procurando um lar para nós. Eles viajam dia e noite, voando entre as estrelas, em suas naves. As naves são máquinas como aquelas que encontramos outro dia, mas em vez de andar na terra, elas voam. 
- Mas eles nunca chegam?
- Talvez já tenham chegado a algum lugar. Lá no espaço é frio, sabia? Não é quente como aqui. E lá eles comem algas, que são plantas que eles mesmos fazem nascer na água, dentro da nave.
-  Tem água dentro da nave? Água como a que pegamos aqui? Como cabem algas na água?
- Eles levaram muita água! Não é como a que pegamos aqui. É água bem limpinha, muita água, daria para encher nossa caverna, talvez até mais! Uma das naves tem muitas árvores e animais, e todos vivem dentro da água. Eles bebem água todo dia e são inchados e lisos, e sem cabelos.
- Sem cabelos?!
- Foi o que sua avó me disse. O avô dela era do seu tamanho quando as naves foram embora. Disseram que não era mais possível viver aqui. Mas nós vivemos aqui, não é mesmo? Eles foram procurar um lugar mais bonito, onde pudessem morar.
- Mãe, e as outras pessoas, onde foram morar?
- Não sabemos, filho. Eu e seu pai procuramos muitas vezes, mas nunca encontramos. Nosso grupo deve ser o último que resta. As máquinas não funcionam mais, ou nós não sabemos usar. Tem algo no céu que envia mensagens, mas ninguém consegue entendê-las. Talvez não tenha mais ninguém por aí. Mas se houver, deve estar esperando as naves, assim como nós.
- Não quero mais esperar a nave. Quero poder andar lá em cima como um animal.
- Para isso você vai ter que esperar a Terra cicatrizar. Lembre-se do que sua avó disse. Lá fora é perigoso, tem raidiação. A raidiação faz muito mal. Só vamos lá se precisar. Até a Terra cicatrizar, temos que relembrar, estudar e relembrar, para quando as naves voltarem, nós estarmos prontos para ir para o planeta.
- Eu não gosto da raidiação.

sábado, março 14, 2015

O maior queijo que já caiu na Terra

- São sininhos.
- Bem podiam ser pessoinhas.
- Pessoinhas? Voando?
- Podiam estar penduradinhas.
- Você está vendo algum fio?
- Então são sininhos voando.
- São sininhos e um carneiro. Ao lado do bule de chá.
- São vários bules. O vapor atrapalha a vista. Mas dá pra notar que são vários.
- E vamos pegar algum deles?
- Não seja idiota, estão cheios de chá quente. Pegaremos o queijo...
- E as pessoinhas?
- São sinos, besta! Você mesmo disse!
- É mesmo. Então pegaremos o queijo... você tem certeza de que dá para descê-lo inteiro? Porque não temos roldanas...
- Preocupa-me o carneiro dormindo. Se ele nos vir roubando o queijo, pode tocar os sininhos, e alarmar a cozinha toda. Vê aqueles sujeitos lá embaixo da mesa, rolando o salame?
- Nem nos notarão, mesmo que o carneiro berre. Estão atarefados.
- O vapor pode nos atrapalhar. Imagine se caímos de cima daquela mesa! Já pensou se caíssemos no leite?
- Um balde daqueles de leite daria para o país inteiro beber...
- Durante uma semana! Mas olhe, tem aquele monte de palha onde o gato dorme, ao pé do forno...
- A entrada para o Inferno. E o gato deve ser o demônio em pessoa! Eu não queria cair na palha, seria pior que cair no chão duro.
-Veja, lá vêm as mulherzinhas de que nos falaram, elas têm a língua solta e se nos virem, farão escândalo. Note como carregam peso! Cada xícara daquela deve pesar o mesmo que...
- Vamos agora! Rápido!
- Ooooooh abaixe-se!
- Agora, atrás da manteiga!
- Fale baixo, imbecil. O carneiro vai nos ouvir.
- Por sorte é do nosso tamanho. Podia ser um carneiro gigante. Podia ser como aquele gato.
- O queijo! Como é grande!
- É maior do que eu pensava.
- Empurre!
- Não vamos conseguir. É pesado! Oh não, veja! O carneiro!
- Volte a dormir, seu maldito! Shhhhhh! Volte a dormir.
BÉÉÉÉÉ
- Agora, no três. Sobre a palha do gato. Um, dois, trêêêês
PLOFT
- Vire-o! Vire-o! Agora, vamos rolar. Eu vou na frente para não deixá-lo tombar, não me esmague. Rápido!
MIAU
- Para a porta! Xô, gato de Satã! E depois?
- Depois cairemos da nuvem. Vai ser o maior queijo que já caiu de uma nuvem na Terra!

segunda-feira, outubro 28, 2013

Criança desaparecida

- Leite de verdade? Onde quer que eu arranje leite de verdade? Você já viu uma vaca alguma vez na sua vida?
- Mas este leite é esquisito...
- Olhe aqui, garoto, eu não sei de onde você vem, nem quem criou você, mas não existe uma vaca sequer num raio de 300 Km. Portanto, se você experimentou leite, deve ser filho de algum rico ou deve estar delirando. Eu nunca provei leite. E este aqui está muito bom, é de milho, eu mesma fiz. Leite de vaca, onde já se viu?
- Eu como carne no almoço todo dia...
- Chega dessas mentiradas. Ninguém come carne há séculos. Além de nojento, é raro e caríssimo. Só um membro da liga pode ter pombos, peixes e essas coisas todas...
- Meu pai tem um rancho com mais de cem ovelhas.
- Ovelhas? Escute aqui, moleque, se não parar de inventar histórias, eu vou dar esta caneca para a sentinela. Todos nós aqui passamos fome, e a comida mal cresce nessa terra cinzenta. Não existem cem ovelhas no mundo. Seu pai deve estar procurando você, ou acha que os captadores já pegaram seus órgãos. Crianças não andam sozinhas por aí, então alguém deve estar à sua procura. Enquanto isso, é só uma boca a mais para eu alimentar. Não quero perder a paciência com você, então pare com as mentiras.
- Não é mentira!
- Então quem o trouxe aqui? E por que essas suas roupas?
- Eu vim sozinho pra cá. Na minha escola tem um túnel... eu e meu amigo entramos. Aí eu achei a caixa. Eu não quis mostrar para ele, porque ele ia tomar de mim. Ele sempre toma tudo de mim. Levei a caixa para casa e escondi no celeiro. À noite, depois de jantar, eu fui para lá e...
- Você anda assimilando textos demais...
- E quando eu abri a caixa, tinha muitos botões e telas. Eu fiquei mexendo nela para ver se era uma televisão...
- Televisão? Como assim, televisão?
- De tanto eu mexer, acendeu uma luz vermelha. A tela ficou iluminada e quando eu coloquei a mão nela, senti um frio e um calor. Uma luz bem forte acendeu e iluminou o celeiro inteiro. Quando essa luz apagou, eu senti muito frio. Aí eu vi que não estava mais no celeiro do meu pai. Fiquei escondido lá nas predas...
- "Pedras".
- ... nas pedras, onde você me achou.
- Então você não veio de longe? E esse seu sotaque estranho?
- Eu não saí do lugar... só acendeu a luz...
- Espera. Tinha uma caixinha com você lá nas pedras. Era aquela a caixa que acendia?
- Uhum.
- Esvazie os bolsos.
- Por quê?
- Vamos. Coloque tudo em cima da mesa. Deixe-me ver. Moedas antigas?... um lápis? Lápis? E o que é isso?
- Chiclete.
- O quê?
- Chiclete. É um doce. É de mastigar.
- Chiclete? E isso aqui?
- Um celular.
- Celular? Onde arranjou isso?
- É meu, de ligar para meus pais.
- Eu nunca vi um desses na vida. Como funciona?
- Você liga aqui, ó...
- Menino, eu acho que você está ferrado. Se tudo aconteceu como você contou, você está no tempo errado. Eu nunca acreditei nessas lendas, mas pelo visto funciona. Você veio do passado. Você percebeu o quanto aqui é estranho? Viu algo que não conhece?
- Uhum.
- Por isso reclamou do leite. Os antigos bebiam leite de animais. É isso! Lembra-se do campo que atravessamos? Pois é. Depois dele tem um cemitério de máquinas. Vamos até lá, pegamos o que for possível e voltamos para as pedras. Vamos tentar fazer o aparelho funcionar. Você sabe em que ano estava quando veio parar aqui?
- 2012.
- Dois mil e doze? Dois mil e doze na contagem antiga... oitenta e cinco antes da guerra... duzentos antes da... espera! Isso faz uns seiscentos anos! É antigo demais! Eu não entendo de tecnologia tão antiga. Não temos muita coisa hoje, sabe... Qual sua idade, em anos solares?
- Hã? Solares?
- Quantas revoluções? Quantos anos você tem?
- Seis, ó (mostra com os dedos).
- Só isso e é grande assim? Oh! Os antigos viviam bem! E olhe esses dentes! Os captadores dariam fortunas por um como você. Fortunas... poderíamos comprar água, protetores, omnicilina... a vida é muito difícil...
- O que são captadores?
- Não importa... escute... Hoje você descansa. Amanhã vamos ver um amigo, está bem?
- E depois eu vou pra minha casa?
- É... pra casa... vamos ver o que ele consegue... amanhã tudo vai mudar...

quarta-feira, outubro 24, 2012

Como parecer rico

Há muitos posts na internet que nos ensinam a parecer ricas. Não "emergentes", que nada mais são que pobres que têm dinheiro, mas gente de classe, estirpe e nobreza - pessoas de famílias tradicionais que há séculos detêm o poder em suas mãos. A ideia é boa: se todos nós começássemos a nos portar como gente bem-nascida e bem criada, erradicaríamos a farofagem, a vulgaridade e a pobreza de espírito da face da Terra.
Mas sejamos realistas. Não é fácil forjar algo que vem sendo lapidado há milênios de civilização. A cultura das famílias ricas e nobres é muito diferente da nossa (desde o berço). E não falo "nossa" como se abrangesse a todos; falo de nós, pessoas alfabetizadas e que mastigam de boca fechada.
De qualquer maneira, existem meios de suavizar a diferença entre "nós" e os admiráveis ricos de nascença, os famosos quatrocentões.

- Aparência: os ricos são limpos, discretos, elegantes e cheiram bem. As mulheres são magras e os homens são atléticos. Uma barriguinha burguesa é permitida - revela os prazeres à mesa. Se estiver muito acima do peso, alegue um problema na tireóide e encerre o assunto (ricos nunca falam de doenças). Suas unhas são discretas, curtas e limpas, e no caso das mulheres, pintadas de cores cremosas e profundas, ou então cores próximas à da cor da pele. Nunca, nunca, têm glitter, desenhinhos fofos ou cores berrantes (a menos que a rica em questão tenha menos de dez anos). As roupas são boas, duráveis, bem cortadas e sem muitos enfeites (lacinhos, zíper colorido, botões em excesso, bolsos falsos, etiquetas brilhantes e coloridas, etc.). Nunca saem de moda, porque são escolhidas a dedo ou feitas sob medida. Se não puder arranjar algo igual, compre na C&A mesmo, mas tenha o cuidado de eleger peças simples, de cores neutras e que lhe caiam bem. Tenha uma ou duas peças-trunfo: um vestido cocktail de cor alegre, uma camisa de seda em tom pastel, ou lenço de cor berrante, para combinar com seu guarda-roupa simples.
Maquiagem simples, discreta, de cores neutras e foscas. Somente o batom pode ser de cor gritante, é até charmoso - mas nunca preto.
O perfume é imprescindível: sempre usado com parcimônia (apenas duas gotinhas), deve ter uma fragrância agradável, nunca forte demais, mas nunca imperceptível.
Os cabelos são curtos ou médios, jamais longos, e devem ter brilho e movimento. As ricas cuidam do cabelo. Se não puder cuidar, corte-os curtos e mantenha-os bem limpos e com a cor em dia (sem raízes brancas). Os homens têm cabelos curtinhos ou são carecas, e ponto final. Sua única inovação pode ser uma barba discreta ou um bigode aristocrático, porque um pouco de ranço de antiguidade é sempre sinal de nobreza.
As joias e relógios são simples e de bom gosto. Apenas um acessório pode ser exagerado: um anel de esmeralda ou um colar de brilhantes. Todo o resto fica low-profile. Se não puder comprar joias, use apenas uma aliança ou anel de formatura (verdadeiro), e dispense os acessórios. Prefira investir num batom de cor viva, óculos escuros grandes ou numa bolsa de qualidade.
Lembre-se: pessoas ricas dão-se o luxo de ter acessórios que ninguém mais tem. Por isso, pense em algo diferente que lhe seja útil e cause admiração. Pode ser um apito para cães (se você tiver um cão de estimação), luvinhas de dirigir de pelica, um chapéu maravilhoso, gravata borboleta, etc. Nada de presepada: este objeto é sua marca pessoal, deve ser belo, único e de excelente qualidade, e estar sempre com você.

- Postura: Os ricos são felizes. Estão satisfeitos consigo mesmos e com a vida que levam, e têm muitos prazeres. Por isso andam leves, com os ombros alinhados, e olham de frente. Nunca se arrastam corcundas ou de cabeça baixa. Um sorriso no rosto, ou ao menos um semblante leve, são fundamentais: rico mau-humorado está à beira da falência. Sentam-se e levantam-se sem ruídos, braços abertos ou grandes agitações. Caso tenham dificuldade de se locomover, usam bengala, mas sem perder a pose. Manter as costas eretas é fundamental. As mulheres abaixam-se com delicadeza, dobrando levemente os joelhos, sem nunca curvar-se ou abrir o decote. Acenam sem levantar muito o braço e com um sorriso jovial (nunca agitam os braços gritando "e aíííí?"). Aliás, ricos jamais gritam. Falar baixo é essencial. Caso se assustem, colocam a mão no coração sem emitir um ruído. Quando riem, o fazem baixinho e rapidamente, sem gargalhar por horas. Quando vêem algo nojento ou horrível, lamentam com um "que desagradável". E quando se irritam, dizem apenas "o senhor será contatado por meu advogado", sem perder a compostura. Cumprimentam com apertos de mão ou beijinhos no rosto, sem encostar de verdade (somente os filhos e o marido recebem beijinhos de verdade). Os grandes e antigos amigos recebem abraços e expressões de alegria "Como é bom revê-lo! Que saudade!" e nunca tapas nas costas e expressões vulgares como "Por onde andou, seu safado de uma figa?". Os ricos nunca andam com o celular na mão e nunca o atendem à mesa, porque estão sempre em companhias importantes, e porque receberam educação. Quando o atendem, afastam-se e falam baixo. Encerram logo a conversa e desculpam-se com os convivas.

- Cultura: Ricos estudaram em escolas boas e tiveram berço. Se você não teve essa sorte, nunca é tarde para se aprimorar. Vá a um sebo ou biblioteca pública e leve para casa os grandes clássicos da literatura. Leia-os, custe o tempo que custar. Nada de resumos. Além de aprender coisas novas, você poderá citá-los em conversas ou fazer alusões espirituosas, até mesmo parafraseando personagens. Lembre-se: ricos recebem educação tradicional, portanto nada de ler os autores da moda. Seja condescendente com quem lê essas coisas e diga que os lerá se um dia tiver tempo (assim mesmo). Jamais seja descortês com quem gosta de Paulo Coelho e Crepúsculo: ricos acham até bonitinho que os seres inferiores tenham tais peculiaridades, e agrada-os ver que sabem ler. Mas você, você rico de nascença, lê somente os Grandes Autores. Se não souber quem são, procure no Google. E não precisa ler tudo de uma vez: três ou quatro livros por ano já aumentam sua cultura.
Outro ponto importante: ricos não militam. Nunca. Ricos nunca são de esquerda e se o são, é apenas por excentricidade. Nunca fazem propaganda política, a menos que o cônjuge seja candidato à Presidência. Ricos pouco se importam com o que você crê. Nunca rebatem militância nem elevam a voz em protestos. Doutrinam pelo exemplo, discretamente, sem nunca discordar ou ser ríspidos.
Quanto à religião, geralmente são judeus, ou católicos. Se forem protestantes, são luteranos ou presbiterianos, nunca pentecostais. Os novos-ricos, emergentes, ex-pobres, escolhem religiões novas, recém-fundadas. Portanto, se você é religioso, frequente templos antigos de religiões milenares. Seja discreto em sua fé e nunca, jamais, tente converter ninguém - nem seu melhor amigo. Vá a cerimônias de outras religiões e fique calado. Ricos não se apegam a mesquinharias e discussões fúteis sobre quem está certo - ele sabe que quem está certo é ele, e sente-se seguro e confortável, por isso não discute.

- Filhos: Não têm. Ou têm apenas um, e o mandam estudar na Europa. Nada, mas nada mesmo, grita "pobreza" como ter um monte de filhos, especialmente se todos tiverem a mesma inicial no nome. Mulheres ricas não passam metade da vida gerando crianças. Elas dão ao marido um herdeiro, e depois angariam fundos para caridade. Elas ajudam os filhos dos "menos favorecidos" a receber educação, higiene e comida. Mas repelem a simples ideia de procriar indefinidas vezes. Elas são ocupadas, inteligentes, espertas e divertidas; não lhes sobra tempo. Ah, e pode notar: as ricas somem quando estão grávidas. Nada de exibir por aí os pés inchados como pães e o rosto todo manchado: Só dão um pulinho na praia (pela vitamina D) e depois vão para o campo, respirar ar puro e comer verduras até o bebê nascer. Só voltam a aparecer em público quando já estão magras e lindas novamente. Aos homens, só cabe ficar ansiosos. Nada de filmar parto, ir a curso de ioga para gestantes, esta baboseira toda. Homem só espera a notícia de que o bebê nasceu e distribui charutos. Se você não é rico de verdade, esforce-se por conter este impulso pobre de procriação.  Tenha um filho, dê a melhor educação que puder, e só o exponha aos amigos quando ele já não lhe causar embaraços, a fazer birra e se cobrir de ranho. Crianças pequenas devem ficar em casa, com a babá ou avó. Elas dão trabalho, irritam as pessoas, podem se machucar ou simplesmente sumir. Quando o herdeiro já estiver com dez ou doze anos, vista-o com uma camisa pólo e bermudas de safári e leve-o a um passeio ao ar livre, para conhecer seus amigos. Antes disso, deixe-o na escola e o faça praticar esportes, aprender idiomas e visitar museus. Não deixe seu filho virar um completo babaca. Na verdade, é bem provável que ele vá se tornar um desses moleques feios que usam crocs e ouvem funk no celular - sem fones de ouvido -, por isso, se puder evitar ter filhos, faça-o antes que seja tarde. E na hora de escolher o nome da criança, as diretrizes são estas:

1 - Nomes de família são preferíveis; exemplo: Damiana, Adolfo, Laura, José Carlos, Carmem, Inácio, Joana, Cândido.

2 - Nomes de santo são permitidos; exemplo: Bento, Clara, Pedro, Cecília, Tiago, Margarida, Antônio, Maria, Bartolomeu.

3 - Nomes de cidade, estado ou país (ou derivados destes) são toleráveis: Genebra, Paris, Haifa, Líbano, Iran, Atena, Munique, Lyon, Bristol, Florence.

4 - Nomes de celebridades não são recomendados; Katy, Beyoncé, Michael Douglas, Sharon, Cicciolina, Xuxa, Luan, Mara, Brad Pitt, Angelina, Sheldon, Tufão. (Tufão nem sequer é nome.)

5 - Nomes americanizados, inventados e cheios de Y são terminantemente e irrevogavelmente proibidos: Kaiky, Rayca, Huiã, Oksonn, Jakelinny, Kleuzys, Irlanny, Jaks, Dionny, etc.

- Bens e posses: Se você não tem onde cair morto, não alardeie posses. Simplesmente não fale desse assunto. Se já teve a oportunidade de passear de barco, jet-ski, ou de esquiar na neve, voar para o exterior ou fazer viagens exóticas, fale disso com um ar blasé, sem nunca dar detalhes mesquinhos ou dizer que os veículos eram seus. Fale como se fosse seu dia-a-dia, sem delongas e sem deslumbre. Ricos não se espantam com coisas caras e maravilhosas - para eles é normal. Eles nunca se impressionam por suas posses. As únicas coisas capazes de encantar os ricos são coisas únicas e que ninguém no mundo tem outra igual: uma gema de grande valor, o túmulo de um faraó, o manuscrito original de uma ópera ou de qualquer coisa de Da Vinci, um animal de estimação de grande beleza ou esperteza, obras de arte, conversas agradáveis, companhias divertidas, cartas de amigos. Parecem bobagens, mas são, de fato, coisas de grande valor. Quanto às Ferrari, os celulares de edição limitada, os computadores supermodernos... essas são coisas que "todo mundo tem", e que servem apenas de instrumento para o que os ricos querem fazer. Nada é mais pobre que gritar de emoção diante de um carro novo, ou de pedir para ver o celular incrível do amigo (a menos que seja para resolver algum problema, por gentileza).
Fingir que é dono de um iate ou de fazendas no Paraná pode deixá-lo em maus lençóis, e fazê-lo passar vergonha. Porque um rico de verdade pode ser o dono de tais fazendas, ou pode simplesmente pedir para visitá-las, ou dar uma volta no seu iate. Afinal, com os ricos é assim, eles se convidam, engendram festas e jantares, e tudo está sempre disponível para eles. Eles apenas combinam um dia que não vá incomodá-lo e aparecem (com uma malinha minúscula e um sorriso no rosto, achando tudo muito pitoresco). Se você não tiver um iate ou casa na praia, não minta. Mas também não precisa ficar dizendo que é pobre. Simplesmente não fale disso. Se seu carro é velho ou simples, só comente se alguém perguntar - diga que foi herança, ou que gosta muito dele. E não dê mais detalhes. Ricos são todos um pouco excêntricos. Podem até pedir para dar uma volta. Se mora num apartamento minúsculo e fora da zona nobre, diga apenas que está "reorganizando sua vida": todos deduzirão que teve um divórcio difícil ou uma de suas empresas foi a falência, ou que está escondendo bens da Receita. Não precisa mentir, dizer essas coisas. Deixe que imaginem, não fale nada. Logo eles falarão de outra coisa, porque os ricos viajam, vêem coisas interessantes e têm mais do que falar que de seu carro rodado ou de sua casa pequena.
Também evite falar de negócios que não conheça - ricos são desconfiados, gananciosos e discretos. Por trás daquela fachada de empresário filantropo, pode haver coisas ilegais - e você não quer saber de nada disso. Tudo que é comprometedor é tabu. Fale de outras coisas: notícias dos jornais, desempenho dos políticos (europeus, não daqui), e do que conhece de verdade. Seja você mesmo no que tange aos negócios: se é um bom vendedor, fale de mercado. Se é artista, fale de artes. Se é atleta, fale de esportes. Fale de ciências, de números, de bichos de estimação, de pipoca, do que souber fazer melhor. Todo mundo, rico ou pobre, gosta de ouvir alguém falar com propriedade de um assunto interessante. E pode até surgir um emprego novo, que o faça subir na vida.

- Hobbies: Ricos gostam de hobbies diferenciados, sejam eles toscos ou não. É comum caçarem, pintarem, montarem a cavalo ou colecionarem selos, bonecas de porcelana, joias, livros raros, carros, etc. Mas também pode ser interessante terem hobbies menos aristocráticos: jardinagem, origami, aeromodelos, colecionar souvenirs de viagem, desenhar, criar algum animal (cães, gatos, patos, ou até animais mais caros como cavalos), nadar, dançar, tocar algum instrumento musical. É importante apenas que haja um hobby, porque é preciso arejar a cabeça (muito exigida por conta dos negócios multimilionários). As mulheres podem dedicar-se à filantropia e os homens, a apostar de leve na bolsa de valores (arriscar fortunas na bolsa é coisa de desesperados). Caso não tenha condições de fazê-lo, escolha um hobby mais simples e dedique-se a ele com alguma frequência: logo encontrará algum rico que se interessa pelo assunto e que vai compartilhá-lo com você.

- Excentricidades: Todos os ricos têm alguma particularidade interessante: alguns só bebem água com gás, outros são judeus e estritamente Kosher, uns não gostam de voar, outros viajam à África a passeio. São detalhes menores. Só os PODRES de ricos podem ser realmente excêntricos. Para os simples mortais, excentricidade é sinônimo de loucura, irresponsabilidade.
Sim, você deve ter personalidade. Deve ter seus gostos e idiossincrasias. Mas evite ser exótico demais, ou será tido por fanfarrão - ninguém vai levá-lo a sério. Saiba portar-se entre as pessoas, não banque o engraçadinho com quem não conhece bem. Hobbies bizarros ou de mau gosto, hábitos detestáveis, expressões absurdas, tom de voz muito elevado, sotaque forte demais (de caipira, de paulistano, de baiano, de gaúcho) são exageros desnecessários e que afastarão as pessoas de você.
Um toque de estranheza é sempre divertido - mas só um toque, e não toda uma vida de maluquices. Lembre-se, você quer pertencer ao grupo, e não ser excluído dele. Se não estiver disposto a abrir mão de certas esquisitices, desista e volte a ser pobre.

- O que dizer (frases próprias dos ricos, em lugar das frases de pobre): Tenha o cuidado de pronunciar corretamente as palavras, sem sotaque forte e sem comer letras.

Oiiiiiii: "Olá, como vai?"
Tchau tchau: "Até logo, foi um prazer revê-la"
Pode entrar!: "Entre, por favor"
Alô, aqui é o Nelson: "Pois não? É claro que sou eu" (Lembre-se: os ricos nunca precisam se identificar, as pessoas sabem quem eles são).
Que legal: "Fascinante!"
Gente boa, ela!: "Oh, ela é o máximo"
O que que é isso aí?: "Que interessante, o que é?"
Eu tenho faz um tempão: "Está na família há três gerações"
Credo, que nojo!: "Que desagradável"
Não gosto: "Sou alérgico"
Adoro: "É fantástico"
Detesto: "Nunca me impressionou"
Traz a conta?: "A nota, por favor"
Não tenho dinheiro para ir: "Receberei uma visita importante neste dia"
Não fui porque estava sem grana/ gasolina/ carona: "Não fui, pois tive um compromisso inadiável, mas farei o possível para ir da próxima vez".
Que mulher feia!: "Que interessante"
Que mulher bonita/ gata/ gostosa: "É realmente belíssima"
Tá lá no quarto: "Está em seus aposentos"
Que delícia (de bebida, comida, temperatura da água, etc): "Agradabilíssimo", ou "No ponto ideal".
Eu sei lá!:  "Não me recordo" ou "Ainda não tive oportunidade de conhecer"
Quanto custa isso?: NUNCA PERGUNTE, a menos que se trate de um castelo na Escócia ou do cavalo mais premiado da Europa. Para todo o resto, se não puder descobrir o preço por conta própria, seja discreto e evasivo, como: "De quanto devo dispor?", ou "Em dólares ou Reais? Qual a cotação do dólar para hoje?".

Alguns assuntos são simplesmente tabu: ricos não comentam doenças, especialmente as de pouca gravidade. Nunca falam de azia, chulé, caspa, dor de dente, gases e dor de barriga. Quanto não se sentem bem, têm "uma indisposição" ou um "ligeiro mal-estar", e só. Quando se trata de doenças graves ou terminais, apenas falam que "Fulano adoeceu" e dizem se está em casa ou no hospital. E nunca comentam minúncias de acidentes: apenas dizem que "Fulano sofreu um acidente" e onde está internado, se estiver. Perdas materiais só são citadas se forem de grande monta: uma fábrica que pegou fogo, um jato que caiu, um quadro valiosíssimo que foi roubado. Para pequenos danos domésticos, apenas alegam ter sofrido "um pequeno aborrecimento".
Do mesmo modo, as alegrias só devem ser comentadas se forem de mérito e dignidade: Formaturas, casamentos, medalhas de honra, vitórias em esportes, viagens e passeios, triunfos variados, aquisição de um novo imóvel para uso próprio (as casas de aluguel não são comentadas). As comprinhas bobas do dia-a-dia (celular novo, bijouterias, supermercado) nunca são comentadas, porque são assuntos medíocres.
E atente para a etiqueta: ricos são educados até (e principalmente) com as pessoas de quem não gostam. Isso lhes dá aquele ar de arrogância que todos gostaríamos de ter.

Muito bem! Agora que você já sabe o segredo dos ricos, é só sair por aí emanando finesse e conquistando admiradores.

domingo, setembro 30, 2012

O orfanato

Foto: Christiano Galvão

Nunca havia visto outras pessoas. Às vezes, perguntava-me se a mulher não mentia, se não éramos só nós no mundo. O mundo não poderia ser tão grande como ela dizia.
À volta do prédio, apenas o silencioso pátio onde de dia, ouvia-se o suave chiado do vento nas ervas daninhas, e à noite apenas os piados lúgubres das aves noturnas.
Os portões de ferro quase nunca se abriam. Seu rangido lamurioso parecia cortar a alma de quem o ouvisse; era como se abrissem as portas do próprio inferno, como se estivéssemos expostos e indefesos.
Certa vez a mulher fez pão: não era sempre que o tínhamos, e quase sempre nos contentávamos em comer biscoitos duros molhados no leite de cabra. 
Trouxe grossas fatias quentes e um pedaço de manteiga já não tão fresca, mas ainda saborosa. Neste dia ela disse que precisaria sair por um tempo. Não nos disse quanto tempo. Olhamo-nos silenciosos e depois, suplicantes, fitamo-la esperando um esclarecimento. Não nos disse muito mais, e com estranho laconismo, apenas disse que "nada de mau poderia acontecer" e que "ninguém vem aqui mesmo", e depois "acho que nos esqueceram".
Deixou-nos recomendados ao capelão e ao jardineiro, duas figuras que pouco víamos e que, talvez, temíamos. O capelão ocupava um casebre junto à cerca e o jardineiro dormia nos fundos, num quartinho com ferramentas.
Éramos apenas oito crianças. Três garotas, uma delas bem pequena e que não queria falar. Eu falava, mas bem pouco, porque ninguém nunca ouvia, e porque minha voz às vezes me assustava. Nos corredores do orfanato, nossas vozes ecoavam estranhas: às vezes pareciam vozes de anjos, às vezes pareciam os grunhidos das bestas.
Na manhã seguinte veio um carro. Já o tínhamos visto muitas vezes, pois era o mesmo que trazia tecido, farinha, remédios e outros bens necessários. Sacolejante e coberto de pó, fazia um barulho incrível e sempre me assustava muito, porque adentrava os portões e vinha quase até a porta, soltando fumaça preta e cheiro de óleo.
A mulher se aprumou no banco do carro, avermelhada de calor, e não olhou para nós quando partiu. Levava apenas uma mala pequena, mas não tinha muita coisa, e usava sempre o mesmo vestido.
Ficamos todos agarrados à grade enquanto o carro diminuía, até que tomou a curva e sumiu. Sem saber o que fazer, voltamos ao casarão, pensando em pegar nos livros.
Alguns de nós liam muito bem, e Ana nos ensinava (Ana era a menina mais velha, tinha quase quatorze anos, e era boa em leitura).
Naquele dia ninguém nos mandou tomar banho, e quando escureceu, procuramos o que comer na despensa, pois ninguém veio cozinhar.
À noite, quando os grilos começaram a cantar, propus dormirmos todos no mesmo quarto, porque estava com medo. O casarão parecia ainda mais velho e vazio sem a mulher por ali.
Mais tarde, quando o cruzeiro já estava fora da vista, espiei pela janela e vi o portão aberto. Mas em nenhum momento ouvi seu rangido triste, por isso achei que estivesse sonhando.
Pelo caminho do portão até a porta, vinha um velho de chapéu. Parecia ser um velho porque estava bem curvado, e trazia uma bengala fina em sua mão direita. Na outra mão, um pequeno lampião com um toco de vela. O velho vinha devagar, e no meio do caminho, parou, olhou em volta (tudo estava muito escuro, não sei o que procurava), levantou a cabeça devagar e me olhou nos olhos. Eu sei que eram seus olhos, porque os vi, mas pareciam duas luzes, duas estrelas, duas fagulhas de fogo.
Abaixei-me depressa e prendi a respiração. Ninguém mais estava acordado, não havia o que fazer.
Esperei até que pudesse ouvir o som das botas do velho na escada; e hesitava entre fugir para fora ou trancar a porta. Não podia ser o jardineiro? O capelão era gordo, mas o jardineiro não. Mas o jardineiro era moço, e não tinha os olhos em chamas, e não vinha a este lado do pátio, e era por isso que o mato crescia.
Fiquei bravo com meus pensamentos. Não era hora para divagações, o velho vinha a qualquer instante, e nos agarraria... e depois faria o quê?
Decidi fugir correndo, derrubá-lo no corredor e ir até o casebre. Quando ouvi a porta abrir-se, não pensei duas vezes - livrei-me dos lençóis e corri. Quando passei pelo velho, senti cheiro de enxofre, vinho e bolor. Ele agarrou meu braço com seus dedos frios, mas puxei a camisa e deixei parte dela para trás. Quando alcancei a porta, ouvi o murmúrio do velho, que parecia praguejar, indeciso entre continuar ou voltar em minha busca.
No pátio do orfanato, tive medo do escuro, pois a lua fraca mal iluminava nada, e eu estava descalço e muito nervoso. Queria muito voltar para dentro, mas a figura do velho me desanimava até a morte. Preferia enfrentar a escuridão.
Corri à casa do capelão. O sujeito vivia para comer e rezar o terço, e nunca nos dava atenção. Poucas vezes vinha ao salão do prédio para fazer orações com a mulher que nos olhava; ele e ela nunca conversavam durante o dia, e acho que se detestavam.
Bati na porta várias vezes, e depois encostei o ouvido na porta: apenas o ronco leve e paciente do capelão, que provavelmente dormia de barriga cheia e com um rosário na mão.
Fui até o portão de ferro. Estava mesmo aberto, mas como? Olhei para a janela do quarto, e lá vi uma das meninas - a pequena, que não falava. Ela estava com a boca aberta, e olhava para mim. Parecia gritar, mas eu não ouvia nada. Lá dentro, uma luz fraca e trêmula se movia pelo quarto. Não ouvi os outros meninos.
Passei pela grade e saí correndo. Via, muito longe, pequenas luzes, que julguei serem estrelas, porque nunca acreditei que fossem casas. Mas se só havíamos nós no mundo, de onde vinha o velho? Meus pés descalços batiam a terra seca e os carrapichos se agarravam às minhas calças, arranhando meus tornozelos, mas não parei para tirá-los, porque imaginava que o velho viria, me alcançaria, e suas mãos ossudas me arrastariam de volta para o orfanato, para juntar-me às outras crianças que lhe serviriam de banquete...
Corri o mais que podia, até que cheguei a um grande pasto de capim macio, onde vi alguns cavalos e mais adiante, um casebre. Era muito humilde e baixo, mas parecia habitado, então tudo estava certo.
Bati na porta. Abriu-se quase instantaneamente e surgiu uma vela acesa. Uma senhora parda, bem velha, sorriu com olhos bondosos e me acolheu sem falar. Dentro do casebre, um leve odor de enxofre, vinho e pão bolorento.

terça-feira, janeiro 17, 2012

A folia de Santos Reis

Comecei a ouvir a música lá longe, como se fosse imaginária, ou uma lembrança vaga e impertinente como as que surgem quando o dia está nublado e as horas parecem difusas e nunca sei se é manhã ou tarde ou que horas são.
Aos poucos os batuques e agudos se juntaram e formaram um círculo perceptível e sólido, e pude ver com meus próprios olhos o que aqueles sons desenhavam. Era uma memória antiga minha, que eu nem sabia que ainda tinha (foram tantas faxinas): a folia de Santos Reis.
Aqui mesmo, no mundo real, no Presente, havia uma folia de Santos Reis acontecendo!
E ao passo que isso parecia natural e simples, também me pareceu bizarro, mal colocado e vagamente medonho. A folia de Santos Reis não percente ao Aqui e ao Agora.
Tive medo de vê-la, de ver os palhaços aterrorizantes com suas espadas de pau e barbas de estopa... tive medo da bandeira, das flores, dos pandeiros... tive medo que aquilo me alcançasse e existisse bem na minha frente, e tive também vergonha ou estranho constrangimento.
É óbvio que eu tinha que me esconder. Mas havia a possibilidade de eles baterem na porta da minha casa e eu ficar acuada lá dentro. Ou eu podia correr para a rua e dar de cara com eles.
Os gritos da canção foram ficando mais agudos e longos, como uivos, e eu até podia ouvir os tacões das botas dos palhaços batendo no piso de cimento de alguma casa. Qualquer outro som se tornou nulo: eu tremia de ansiedade e expectativa.
Nunca entendi bem esse meu medo da folia de Santos Reis. São apenas um grupo de músicos e dois ou três palhaços dançarinos. Eles vão às casas das pessoas anunciar as boas-novas (o nascimento do menino Jesus) e recolher donativos para a festa do Divino Espírito Santo. E quando vão às casas, sua chegada é anunciada pela Bandeira do Divino, que é considerada sagrada. Algumas pessoas fazem pedidos ou agradecem as graças recebidas pendurando flores ou fotografias na bandeira. Quando você recebe a bandeira das mãos do mensageiro, significa que receberá a companhia na sua casa. Eles entram, cantam, anunciam o nascimento do Menino, pedem as doações e vão embora levando a bandeira. Além de um pouco pitoresco, deveria ser apenas mais uma manifestação religiosa tradicional, certo?
Não.
Algo nesta representação me é terrivelmente medonho. Não sei se é o fato de ser uma companhia só de homens e o som de suas vozes sair agudíssimo, ou se são as flores e a bandeira com vago toque mexicano (que sempre me lembra Morte), ou se são os terríveis palhaços floridos dançando e lutando com suas espadas de pau... ou se tudo isso parece antiquado e deslocado do Tempo, como houvessem dobrado a história e todos os antigos terrores extintos pudessem retornar à vida... pode ser que tudo isso se embaralhe na minha cabeça para criar um ligeiro ataque de pânico quando ouço o som da folia.
É claro que não fui vê-los. Não quis conspurcar minha memória deste evento com imagens atuais. Talvez meu medo seja esse: o de finalmente me dar conta que o passado já foi embora e que os tempos são outros, minha infância é morta. Não quero. Lembro-me com carinho da minha bisavó nos empurrando (vigorosamente, diga-se de passagem) para obrigar-nos a honrar a bandeira e assistir à dança dos palhaços. Ela era uma mulher de costumes severos e antiquados, como convém a toda bisavó. Não quero apagar da minha lembraça o cheiro da grama pisoteada depois que os palhaços iam embora, ou a imagem da companhia chegando, festiva e colorida, e os cães do sítio enlouquecidos de medo e curiosidade. E também havia as Festas do Divino, as mais belas festas do interior, feitas para juntar o povo e comemorar a esperança que nos dava o nascimento de Cristo. Finalmente, o Messias veio! As pessoas trocavam presentes como os Magos haviam presentado Jesus. Comia-se e bebia-se bem e às custas dos donativos, que eram generosos. Por que eu estragaria todas essas memórias com a visão de um arremedo de folia que passa de porta em porta em pleno século XXI, tentando recuperar à força uma tradição esquecida, cujo público atual não tem o perfil de mantenedores nem de participantes da festa? 
Mal consigo imaginar os atarefados e moderninhos cidadãos urbanos de hoje tirando fotos com seus iPhones e BlackBerries para postar no Facebook. Isso seria uma desonra ao cunho espiritual e amoroso da festa. Leva-se esperança e alegria a uma casa (e provavelmente muitos pesadelos às crianças que moram nela), e ao invés de participar, as pessoas ridicularizam este esforço... Não.
Recuso-me a reconhecer a existência atual da folia de Santos Reis. A folia é uma memória ambígua do passado, que ao mesmo tempo que me enche de medo, também me lembra quão boa era a vida quando eu era criança e vinha da Capital passear no sítio da minha bisavó. Era quando eu pisava em espinhos, cortava os dedos e ralava os joelhos brincando com os cães, o cavalo e as outras crianças, igualmente raladas e sujas de terra, mas todas felizes e cheias de vida. Nadávamos no rio limpo, andávamos no meio das vacas e bois fazendo carinho em suas caras macias, e nenhum de nós tinha medo ou vergonha de nada disso. E se a lembrança da folia de Reis está associada à memória da minha infância, que seja: vou guardá-la. Digamos que as férias acabaram e voltei para a cidade, dessa vez permanentemente, e se um dia eu voltar ao sítio vai estar tudo lá: cães, bois, crianças sujas de terra, minha bisavó e sua amada Folia. Aí sim eu aceitarei de bom grado ser arrastada à força para assistir à festa.

quarta-feira, março 02, 2011

Sonho cinematográfico

Esta noite sonhei que eu e a Priscila, uma antiga amiga, estávamos andando em Rio Preto e não conseguíamos voltar pra casa antes de escurecer. Mas à noite a cidade era perigosíssima pois monstros vagavam pelas ruas matando os humanos, e tudo mais que passasse perto. Na verdade os monstros eram pessoas que tinham se tornando zumbis ou coisa parecida, por efeito de alguma radiação ou poluição.
Todo mundo sabia dessas criaturas, então pouca gente se arriscava fora dos portões e grades depois que o sol se punha.
Estávamos na praça cívica, mas no sonho o rio que a corta não era coberto, era tudo aberto e mais parecia um parque ou bosque. Como estávamos perto da rodoviária, decidimos cruzar a praça, tentando não chamar a atenção dos zumbis, evitando ruídos e movimentos bruscos. Meu coração disparou só de pensar em andar na negra e suja praça, sabendo que ali aquelas criaturas terríveis faziam carnificinas.
Depois de hesitar muito, demos as mãos, baixamos a cabeça e tentamos ir rápida e silenciosamente, pois o caminho era curto.
Porém, bem ao nosso lado parou um cara de moto com o farol aceso, e o imbecil mexia tanto a moto que o farol iluminou um grupo de monstros à nossa frente. O piloto, desajeitado, não conseguia desligar o farol e a pessoa que estava com ele não se decidia se subia ou descia da moto, causando estardalhaço. Os zumbis vieram correndo e tivemos que fugir correndo para a rodoviária, lugar gradeado e fortemente protegido (no sonho). Só que àquela hora ela também já estava cheia de maloqueiros, bandidos e pessoas suspeitas, ainda que não fossem monstros. Ninguém ousava ficar na rua, nem os tipos mais perigosos. Fiquei com a minha amiga enquanto ela chamava um táxi. Depois que ela foi embora, não liguei para o meu pai por causa da hora, e resolvi ficar na rodoviária até amanhecer.
Junto à rodoviária havia um prédio público - que na verdade não existe - onde funcionava o Centro de Ciências Aerospaciais, uma escola para pilotos, uma espécie de NASA, etc. Eu trabalhava lá, mas apenas em serviços burocráticos.
Notei que os zumbis avançavam confusamente para a rodoviária. Começaram a aparecer nas televisões notícias de invasões e ataques das horríveis criaturas. Os zumbis já eram maioria - havia poucos humanos não-infectados. A vida das pessoas era um inferno. Muitos haviam perdido parentes, que agora vagavam pelas ruas matando pessoas. Era desesperador. Os zumbis se escondiam em lugares sórdidos, eram assutadores, matavam pessoas e animais, destruíam. Na verdade não eram mortos-vivos, mas pessoas doentes, contaminadas, privadas da razão. Podiam ser mortos, como pessoas normais, porém havia um debate sobre a ética de atirar em pessoas doentes, etc. Ninguém queria ver seus parentes serem mortos pela polícia nas ruas, por mais abomináveis que estivessem agora.
Quando já estava amanhecendo, fui direito para o prédio onde trabalhava. Lá chegando fui informada de que estavam recrutando equipes de pessoas com variadas habilidades para tripular naves de fuga para fora da Terra. Uma vez que a situação no planeta estava insustentável, e que tinham sobrando poucos humanos saudáveis e capazes de recomeçar a vida fora dos domínios dessa doença, e como alguns poucos humanos tinham mais resistência ao contágio, o órgão público decidiu disponibilizar naves e recursos para que tentássemos viver em outro lugar.
Fui incluída numa das naves por sorte. Não tenho habilidades especiais, e no sonho eu era eu mesma. Chegando ao local de treinamento, fui conhecer o aparelho. Não era uma Battlestar, mas também não era uma geladeira. Era mediana, com cinco andares, nos quais acomodaríamos arquivos, estoques de víveres, objetos de uso pessoal, horta, plantas, combustível, equipamentos e nós mesmos.
A preparação para o vôo foi rápida devido ao perigo que corríamos. Os engenheiros e cientistas estavam afoitos para liberar cada nave tendo a certeza de que garantiriam sua sustentabilidade. Uma tremenda correria.
Recebemos sementes, mudas e embriões de animais conservados em animação suspensa, que depois seriam revividos e cultivados por nós quando achássemos ambiente adequado. Nossos estoques incluíam toneladas de alimentos liofilizados, um tanque de algas (engraçadíssimo que em gravidade zero a alga se espalhasse toda pela redoma de vidro, formando uma espécie de cortina de veludo. Era difícil cuidar disso).
Havia também algumas árvores e plantas, fechadas num terrário gigante no qual podíamos entrar às vezes. O chão era telado para segurá-las no lugar. O sistema de irrigação usava água reciclada das latrinas.
Viveríamos de maneira muito limitada, em pouco espaço, sem banho e a maior parte do tempo, sem gravidade. Havia um meio de mimetizar a gravidade, mas consumia muita energia e teríamos que poupar todo o combustível possível, sem saber quando e se voltaríamos à Terra ou encontraríamos outro planeta.
A equipe destacada para a minha nave era composta de: Uma capitão (Sigourney Weaver, yeah), um piloto experiente, um engenheiro mecânico de aparência decrépita, uma bióloga, um cientista jovem e lindo cuja especialidade não lembro, eu - que fazia "de tudo", duas estagiárias e um estagiário. Na última hora foi incluída uma louca lá, que entrou no prédio quando fugia do próprio pai que tinha virado zumbi. Ela estava muito chocada e, como estávamos de partida, argumentei que era muito mais chocante abandonar a Terra, que talvez fôssemos apenas morrer em outro lugar, etc. e a levamos junto..
O que a equipe toda tinha em comum era uma resistência elevada à radiação que contaminava as pessoas. Esta radiação era causada pela poluição ou algo assim.
No dia da nossa partida (três dias depois de eu ser perseguida pelos zumbis na praça cívica), arrumamos as malas, levamos tudo o que podíamos e queríamos e demos adeus à Terra.
Nossa nave se chamava Nostromo. Qualquer semelhança com a ficção não é mera coincidência.
Depois da decolagem passamos alguns minutos sem conversar, esperando que algo terrível acontecesse. Nada aconteceu. Depois da sensação de alívio, veio a ausência de gravidade. Perturbador e limitante. Tudo fica difícil. Contivemos o desejo de simular gravidade usando os recursos da nave. Utilizamos apenas o mínimo possível de cada coisa. Assim, estávamos sempre excessivamente agasalhados, porque o aquecimento era mínimo. Mantínhamos as lâmpadas UV acesas somente para as árvores, plantas e algas, e ficávamos na penumbra. Assim elas geravam oxigênio e alimento e nós ficávamos em letargia.
De cara, não gostei do piloto. Arrogante e reclamão, ele estava sempre pronto a criar caso, especialmente com o mecânico, velho acabado e mau-humorado.
Nossa capitã (capitã ou capitão?) falava pouco e estava sempre ocupada com a criogenia e a pesquisa de astros que nos fossem convenientes.
A bióloga era gente boa e me explicou muitas coisas sobre o cultivo de algas, a diferença de desenvolvimento em gravidade zero, os efeitos do frio e do ar rarefeito sobre as espécies, etc. Muito interessante.
O outro cientista eu mal via. Talvez se ocupasse de pesquisas que eu jamais fosse capaz de compreender. Os estagiários passavam a maior parte do tempo nos alojamentos, brigando, brincando ou estudando. Tinham recebido bem a fugitiva de última hora.
Era deslumbrante a paisagem vista pela pequena escotilha de observação. Não dava para ver a Terra, devido ao ângulo, mas víamos outros corpos celestes. Estávamos saindo do Sistema Solar. Não acreditei que acharíamos algo facilmente. Usávamos a gravidade de certos astros para ajudar na propulsão. Não me lembro qual o combustível usado e qual o consumo, mas lembro que carregávamos um certo minério que era utilizado na nave em estado bruto.
Precisávamos encontrar um planeta ou satélite cuja temperatura fosse suportável, que tivesse água ou gelo, que tivesse atmosfera e gravidade razoavelmente parecidas com a da Terra, e cuja superfície contivesse alguns minerais essenciais para nossa vida. Estávamos há meses navegando. Algumas plantas morreram, outras atrofiaram significativamente, outras cresceram desmesuradamente. As algas continuaram firmes e fortes na sua redoma, e dela tirávamos proteínas e nutrientes, além do oxigênio. Levávamos pequenos pacotes de minerais em pó que adicionávamos à água para nutrir as plantas.
Nosso banhos consistiam de pequenas toalhas embebidas numa loção ou emulsão. Cada uma vinha dobrada e embalada num plástico. Uma era suficiente para o banho. Todos tivemos que cortar os cabelos, por não termos como lavá-los. Não excursionávamos em volta da nave, mantendo-nos sempre protegidos. Todo nosso lixo era reciclado pelos estagiários - se bem que não era muita coisa. Na maior parte do tempo, líamos, estudávamos, ou nos ocupávamos com trabalhos manuais.
Fazer exercícios era tremendamente difícil e estranho, por mais adaptados que fossem os aparelhos, e por isso, nossos corpos doíam e nos queixávamos de dores nas juntas. Estávamos magros, pálidos, cansados e desesperançados.
Até que nossa capitã anunciou a descoberta de um asteróide ou planeta diminuto de superfície rochosa, com órbita definida e alguma gravidade. Isso no sonho; nem sei se isso existe e se bastaria para nos acolher.
Pousamos a nave entre picos de rocha e ravinas. O solo era coberto por cascalho vermelho. Parecia magnetizado, parecia puro ferro, mas não sei se era. Sentir o efeito da gravidade depois de vários meses foi estranhíssimo. Sentíamos dificuldade de nos mover e até para respirar. Parecia que estávamos sendo compimidos contra o chão. E olha que a gravidade do objeto nem se compara à da Terra.
Enquanto nos ambientávamos (deitados, sofrendo e reclamando), a bióloga e o engenheiro resolveram descer da nave e ver o planeta. As condições não eram promissoras: ventos fortíssimos, pouca luz, temperaturas baixíssimas, e nem sinal de água. Iam estudar mais para ver se algo ali se aproveitava, e depois partiríamos.
Fui descansar no alojamento dos estagiários e lá eles me mostraram, pela pequena escotilha de observação, que parecia haver vida no lugar. E realmente, dentro de uma fenda na rocha, havia um artefato obviamente fabricado. Uma criatura que parecia humana o manipulava. Logo, de dentro do que parecia ser uma arma, saiu um pequeno aparelho que parecia um foguete em miniatura; ele veio até a janela e comentei: ele vai quebrar a janela e estamos perdidos. Mas o objeto atravessou o vidro e lançou sobre nós uma luz verde, mas não sentimos nada. Depois lançou uma luz vermelha na parede e ela começou a se desfazer em pedaços. Nos apavoramos e corremos para fora do alojamento, gritando para alertar a chefe. Ao perceber o ataque ela ordenou a partida. Saímos sob ataque pesado e, mal decolamos, o foguetinho que nos atacou e que ainda estava lá dentro, caiu no chão da nave, inanimado. Parece que a distância da base o fez desligar. Ficamos com ele para análise.
Estávamos apavorados, cansados, desesperados.
Depois de viajar muito tempo, notamos que precisávamos de mais combustível ou algo que o substituísse (mas como?). Graças a Deus encontramos outra nave terrestre, do mesmo modelo que a nossa, a pouca distância no espaço. Fomos até eles e não conseguimos contato.
Embarcamos, atracando nossa nave à deles e arrombando a entrada. Lá dentro, nenhum sinal de vida humana. Encontramos tudo como devia estar no dia da partida. Nada havia sido usado, retirado, destruído. Depois de uma busca encontramos a tripulação em animação suspensa. Apenas um devia ter ficado de fora, logicamente o piloto, mas não o encontramos em parte alguma. A nave estava à deriva, sem destino programado e com consumo mínimo de propulsor.
Num ato de egoísmo de rapinagem, levamos metade de tudo que eles tinham. Até tanques de oxigênio e cargas de combustível (era transportado em contêiners). Deixamos os pobres coitados com apenas metade do necessário para viver miseravelmente. Mas agora, pensando bem, se estavam em animação suspensa, demoraria até que precisassem de alguma coisa. E como não pareciam ter a intenção de chegar a lugar algum, os considerávamos suicidas e covardes. Carregamos nossa nave e nem nos preocupamos em procurar o piloto ou desocobrir o que tinha acontecido aos colegas.
As árvores e plantas deles estavam morrendo por falta de cuidados. Foi doloroso vê-las murchar e definhar daquela maneira. Quis levá-las, mas não era possível. Tive apenas o cuidado de recolher as algas, que haviam se multiplicado exageradamente, e filtrá-las para levar para nós. Assim, ao menos, comeríamos comida fresca e boa, já que nossas "lavouras" estavam escassas depois de meses de consumo.
Viajamos por mais algum tempo e ouvi o barulho de pedrinhas batendo no casco da nave. O barulho foi ficando mais forte, achei que estávamos sob ataque, ou numa chuva de meteoros. O barulho não parava, e de repente acordei. Era a chuva batendo na minha janela, hoje de manhã.

terça-feira, outubro 26, 2010

Batom vermelho

Hoje comprei um batom vermelho. A bem da verdade, dois.
Não que não tivesse nenhum antes. Eu tenho. Uns dois. Mas nenhum tão vermelho quanto o que comprei hoje. O um, não o outro - que é vermelho amarronzado.
Faço questão de diferenciá-los porque o que realmente me conquistou foi o primeiro, vermelho de verdade. Um puro-sangue dos batons vermelhos. Alta pigmentação.
Minha carolice passada não me permitia esses desvarios. Usava batom rosa, cor-de-champagne (cor mais frígida não há), cor de caramelo, cor-de-buraco-de-cerca. Mas um vermelho de parar o trânsito, nunca.
Hoje saí de casa com sapato vermelho. Nas mãos, levava uma pasta vermelha cheia de documentos. Documentos de banco. Cartão de crédito cancelado; fizeram uma fraude, me levaram uns dólares. Fui resolver a embrulhada. Malditos argentinos! Cartório, copiadora, banco, fui e voltei. Saí da batalha em frangalhos.
Quer saber? Mereço um batom vermelho. Daqueles que nunca usei. De fazer corar a meretriz da Babilônia.
Lá se vão os sapatinhos vermelhos pelo comércio em busca do sonhado troféu. Loja de perucas, loja de shampoos, loja de bolsas. Enfim, loja de tudo. Perucas, bolsas, shampoos e um stand só de batons. De todos que havia, só dois eram vermelhos. Levei os dois.
No meu quarto, eu de pijama (são 18:39 h), meias listradas e batom vermelho berrante.
Agora sou Branca de Neve. Agora sou Bettie Page. Agora sou Louise Brooks.
(Pouca coisa é mais capaz de acalmar uma fúria)
Agora sou Malévola, Marilyn Monroe, Miss Mundo. Agora sou um hidrante, um extintor de incêndio, uma Ferrari, um rubi.
Que venham as filas de banco, os cartórios, os bancos de espera, as senhas, os departamentos, setores competentes, requisições.
Hoje finalmente compreendi por que, a certa altura da vida, as mulheres passam a usar batom vermelho. Não é para pintar os lábios, é para colorir o dia.

domingo, junho 13, 2010

Zapocalipse

Você está preparado para quando os zumbis chegarem?
De todas as previsões para o fim da vida humana na Terra, o zombie apocalypse é a mais aterradora. Mortos-vivos atacando pessoas para comer sua carne e, principalmente, seu cérebro. Além de uma explosão de mau gosto, o Zapocalipse é também uma hipótese remotamente plausível (veja aqui os motivos por que perder o sono).
Como gosto de me manter atualizada, e viva, juntei aqui algumas informações úteis para o caso de seus amigos e vizinhos se transformarem em zumbis loucos para mastigar sua cabeça:

Em caso de zumbis, o primeiro passo é manter um período de quarentena. Mantenha-se no mesmo lugar (em casa, no trabalho, num hospital ou outro local fechado com instalações seguras), de preferência com portas e janelas fechadas, apenas com as pessoas em quem confia, e que façam parte do seu grupo de sobrevivência. Reúna meios de informação (rádio, televisão, telefones celulares e outros equipamentos) e aguarde. Se for alarme falso, ótimo.
Se for verdade, prepare-se para verificar se alguma das pessoas presentes está infectada. Pessoas infectadas devem ser separadas das demais, por motivos óbvios. Se possível, elimine o doente para que ele não infecte outras pessoas.
Tente manter-se calmo. Não durma, não compartilhe objetos de uso pessoal e não entre em contato físico com as outras pessoas em quarentena. Após um período de 48 horas, será possível saber se está infectado ou não. Se não estiver, é tempo de passar para a próxima fase do plano: manter-se vivo.

Para esta etapa do programa de sobrevivência, é preciso ter se preparado antes. Você vai precisar de armas para se defender, alimentos, combustível, abrigo e muito sangue-frio. Onde obter tudo isso? Com alguns meses de antecedência, você pode começar a juntar todos os elementos de que precisará para essa hora.
Lembre-se: só os que estiverem preparados sobreviverão.

Grupo de sobrevivência

É o grupo de pessoas com quem você se reunirá para resistir ao ataque dos zumbis. Seus parentes mais próximos e amigos mais queridos devem ser orientados com antecedência sobre como agir, para onde ir e como se comportar durante um ataque de mortos-vivos. Ninguém sobrevive sozinho. Faça já sua parte alertando as pessoas que você ama. Lembre-se, o grupo deve ser restrito. Quanto menos pessoas e mais preparadas estiverem, maiores as chances de dar certo. Grupos grandes tendem a ser dispersos, e a ter membros que questionem ou ignorem a liderança e teimem em resolver as coisas "do seu jeito". É melhor estar cercado apenas das pessoas de cuja companhia você não abre mão em nenhuma circunstância.

Preparo físico

Se você não é do tipo atlético, é melhor se habilitar. Pessoas com dificuldade de locomoção (obesos, grávidas, sedentários) serão os primeiros a cair nas mãos dos zumbis.
Perca peso, mantenha-se flexível, cuide da sua saúde. Quando precisar correr de uma horda de zumbis horrendos e famintos, você ficará feliz por ter pensado nisso antes.
Não precisa se tornar um Rocky ou um Schwarzenegger. Comece por manter-se dentro do peso saudável para seu tipo físico. Faça exercícios regularmente (caminhada, corrida) e inclua atividades que requeiram esforço físico na sua rotina (carregar peso, cavar, montar, pular, abaixar-se e levantar-se, etc.). Isso fará com que seu corpo esteja preparado para enfrentar o cansaço e os trabalhos que você certamente encontrará no seu caminho. Correr, pular, abaixar-se e levantar algum peso serão habilidades imprescindíveis numa emergência e podem salvar sua vida.
Também é bom criar uma rotina saudável. Regular as horas de sono, fazer refeições leves e em horários estipulados, cuidar dos olhos e dos dentes (a última coisa que você quer é precisar desesperadamente de tratamento de canal quando os zumbis estiverem nas ruas comendo gente) serão fatores cruciais de preparo para o Z-day.

Alimentação

É nossa necessidade mais crítica. Claro que a água é fundamental, mas a alimentação vai compôr grande parte das suas preocupações durante o Zapocalipse.
Os alimentos não são apenas o meio pelo qual nutrimos o corpo. Eles também têm grande relevância social e emocional. As pessoas se reúnem para comer, comem para se alegrar, para se sentir seguras e confortáveis, para se sentir mais belas, para aprofundar vínculos, para demonstrar afeto.
Ter uma boa reserva de comida limpa e segura será vital. Sem comida, você se desesperará e provavelmente vai se expor. Isso pode lhe custar a vida.
Existem vários tipos de alimentos que você pode estocar em casa. Calcule o quanto você consome por dia, menos 10% (por motivo de racionamento) e estoque o bastante para, pelo menos, três meses.
As conservas são a maneira mais prática de guardar comida. Num lugar seguro, longe da luz e do calor, junte latas de alimentos variados. A variedade é importante porque você precisará de vários tipos de nutrientes: proteínas, vitaminas, carboidratos, gordura, fibras.

Prefira os seguintes enlatados:
Feijão, vagem, ervilhas e outras leguminosas.
Carnes, sardinhas, atum e patês, se você consome, ou Proteína Vegetal pronta para o consumo.
Frutas em conserva (figos, pêssegos, abacaxis, etc.).
Vegetais e hortaliças (espinafre, cogumelos, milho, cenoura, etc.).
Outros cuja validade seja grande e que você aprecie.

Quando estiver fugindo de zumbis, você precisará se manter nutrido. Fraqueza e doenças significação a morte.
Além dos alimentos enlatados, você vai precisar de outros de preparo imediato, do tipo "basta adicionar água". Macarrão instantâneo, sopas e caldos dão energia extra rapidamente.
Fibras e açúcar poderão ser obtidos dos cereais em barras, granola, frutas desidratadas e doces. Lembre-se de escolher os produtos com maior prazo de validade.
Inclua café solúvel, chá e achocolatados para manter seu metabolismo acelerado, combater a sonolência e estar sempre alerta. Para as crianças, sucos de caixinha ou em lata, e leite em pó ou extrato de soja em pó.

Algumas empresas comercializam alimentos liofilizados. São alimentos cuja água foi removida por um processo físico-químico, e seus nutrientes ficaram intactos. Em alguns casos, a validade destes alimentos pode ser muito longa, de até 25 anos. Todas as empresas que conheço que produzem estes alimentos estão em outros países. É interessante, se você tiver condições financeiras, importar um kit desses. Você não terá que se preocupar com a validade, poderá variar o cardápio e não lhe faltarão nutrientes essenciais.

Um meio de conservação de alimentos é o sal de cozinha. Ele ajuda a conservar o alimento e é importante para manter a homeostase, que é, a grosso modo, a estabilidade da regulação de água e sais minerais do organismo. Um organismo estável mantém hidratação, temperatura e excreção em condições ideais para sobrevivência. Por isso, é bom lembrar de manter uma boa quantidade de sal de cozinha estocado.

Quanto aos alimentos frescos, o único meio seguro de obtê-los durante uma invasão será plantá-los você mesmo. Não é possível sair à procura de um sacolão enquanto os zumbis vagueiam em busca da sua carne. Será preciso consumir vegetais frescos para evitar escorbuto e outras infecções.
Cultivar alimentos em casa é fácil e seguro, e vai lhe poupar a vida.
Um canteiro de 1,0 x 1,0 m já é um bom começo. Se não tem terreno disponível, arranje vasos e floreiras. Algumas pessoas cultivam hortas no telhado. A ideia é boa, porque é um lugar de difícil acesso para os zumbis.
Os alimentos mais fáceis de cultivar nesses espaços são os arbustos e plantas compactas e os que não requerem processamento depois de colhidos.

Exemplo de alimentos que podem ser consumidos logo depois de colhidos:

Tomate
Alface
Rúcula
Agrião
Morangos
Pimentões
Melancia

Pesquise a forma de cultivo e escolha os alimentos de sua preferência. Adquira um calendário agrícola, um regador e pequenas ferramentas.
Prepare a terra e comece a plantar desde já. Além de lhe proporcionar a experiência necessária para manter a produção durante o período crítico, também será uma forma de economizar, criar uma rotina e afastar o estresse.

Cuidado com a caça: mesmo os animais podem ter sido contaminados com o z-vírus e não é seguro abatê-los para consumo. Certifique-se de só consumir carne previamente processada.

Aprenda a identificar plantas espontâneas comestíveis, medicinais ou venenosas. Em terrenos e canteiros públicos sempre há matos que podem servir de alimento emergencial ou de remédio, e também os que podem matar.Saiba identificar cada um, seus usos e a dosagem adequada. Lembre-se de conhecer sua vizinhança e quais as plantas espontâneas mais comuns na sua cidade, seu bairro, etc. Certifique-se de que estão livres de pragas ou agentes contaminantes antes de ingeri-las.
Uma dica importante: Acostume seu paladar a todo tipo de alimento. Nada de frescura: tudo que tem nutrientes é alimento e você precisa estar apto a ingeri-lo para conservar-se saudável.

Água

Arranje meios de obter e purificar água. Quando as pessoas começarem a morrer e o caos estiver estabelecido, provavelmente os serviços públicos serão cortados. E o abastecimento de água é um deles. Estocar água é um dos meios de garantir sua provisão, mas a água só pode ser estocada por um curto período. Arranje embalagens escuras e esterilizadas. Guarde pelo menos 20 litros por pessoa para cada dia. Isso é o suficiente para beber, preparar alimentos e para o mínimo de higiene requerida enquanto os zumbis mastigam pessoas lá fora.
Um filtro de água já é um bom meio de purificar água antes de consumi-la. Nem sempre será possível fervê-la, embora esta seja a maneira mais eficaz de eliminar bactérias, algas, parasitas e outros contaminantes biológicos. Existem pastilhas purificadoras próprias para camping e outras atividades, arranje algumas e inclua no seu kit de sobrevivência. Captar água da chuva pode ser uma alternativa, mas dependendo das causas da contaminação, não será viável. Se for utilizar água da chuva, ela deverá ser decantada ou filtrada e depois fervida para garantir a segurança.
Tenha sempre um cantil de água ou garrafa squeeze cheia, por via das dúvidas.

Abrigo

Sua casa pode lhe parecer o local mais seguro e confortável do mundo, mas no caso de um ataque de zumbis, quão seguro você estará lá dentro? É bom providenciar alguns reforços se este for ser seu esconderijo.
Grades fortes nas janelas, portas invioláveis, blindagem nos vidros e lajes reforçadas são bons meios de evitar a entrada de mortos-vivos.
Se tiver pouco espaço, uma alternativa é fazer um alçapão no piso e abrir um buraco de 1m de profundidade e 2m x 1m de largura, cimentado. A tampa do alçapão servirá de piso, que você pode cobrir com um tapete. Neste lugar dá para guardar grande quantidade de materiais e produtos, evitando assim que ocupem espaço na casa. Em caso de bombardeio, pode até servir para uma ou duas pessoas se esconderem.
Um "quarto do pânico" também pode ser uma alternativa. Trata-se de um cômodo com paredes de concreto armado, forradas com placas de aço ou outro material resistente, com piso isolante térmico, acústico e elétrico (borracha ou madeira sobre o concreto). Ele deve ter instalações sanitárias (um lavatório e um vaso), lâmpadas de emergência, filtros de ar e armários para a estocagem dos produtos que você vai precisar consumir enquanto estiver lá.
(Este abrigo também pode ser útil se, em vez de mortos-vivos, ocorrer um tornado ou bombardeio)
Se achar que sua casa não é segura o bastante, escolha, com sua família, um lugar conhecido por todos e para onde todos corram em caso de emergência de zumbis. Pode ser a igreja do bairro, a biblioteca, sua empresa, ou outro prédio de estrutura reforçada. Deixe tudo combinado com antecedência, pois você não sabe o dia e a hora. Todos os membros do grupo têm que estar informados e conhecer bem o local. Convém deixar preparado o kit de sobrevivência no abrigo, para você não ter de levar coisas para lá quando já for muito tarde.

Proteção individual

Além de montar um esquema de sobrevivência num local apropriado, é bom pensar na sua segurança enquanto estiver fora do abrigo.
Como não é possível saber a hora exata do ataque, o máximo que se pode fazer é andar minimamente prevenido.
Use roupas confortáveis, resistentes e práticas. Calças jeans, camisetas e tênis são as mais adequadas. Se precisar correr ou se esconder, a última coisa que você quer é estar de shortinho ou de salto alto. Carregue uma bolsa ou mochila com alguns pequenos itens de proteção:

Um mini kit de primeiros-socorros
Um pequeno kit de ferramentas
Sua arma (veja o tópico a respeito)
Algumas barras de cereais
Capa de chuva, agasalho, óculos de proteção
Telefone celular

Não parece muita coisa, mas se você ficar preso atrás de uma porta trancada ou se for perseguido na chuva, agradecerá por ter pensado nisso antes.

Armamento

Se sua intenção não é apenas se esconder, mas combater os zumbis carniceiros, arranje armas.
Teoricamente, a única maneira de abater um zumbi é arrancar-lhe a cabeça. Isso ainda não foi comprovado, mas por via das dúvidas, treine a pontaria.
Se puder, legalize uma arma de fogo e mantenha-a num local seguro. Aproveite para treinar a pontaria em clubes de tiro ou propriedades afastadas.
Se não for possível, arranje armas de corte de cabo longo (você não quer ter que chegar perto de um zumbi, nem mesmo para matá-lo).
Se seu preparo físico estiver em dia, não será problema improvisar com outros equipamentos. As armas mais úteis, comuns e fáceis de manejar são machados, facões e foices.
Também é bom ter cordas, bastões de ferro, redes, arcos, etc. por perto.
Evite um confronto com um zumbi. Não se sabe exatamente quão forte ou quão ágil um morto-vivo pode ser. Não presuma que eles serão lentos e tolos como os zumbis de filmes de terror. Se, em vez de atacar, encontrar chance para fugir, faça-o imediatamente. Não entre em contato com o sangue contaminado nem permita que os zumbis o toquem.

Primeiros-socorros

Numa tentativa de fuga é comum sofrermos alguns ferimentos. Quando estiver protegido, trate-os imediatamente. É possível que você se contamine com o z-vírus por causa de uma ferida aberta. Se pretende sobreviver, deve evitar isso ao máximo.
Como os médicos e enfermeiros provavelmente serão criaturas assassinas ou alimento para elas, aprenda a se cuidar sozinho.
Cortes e raladuras devem ser desinfetados e protegidos. Use antibióticos locais para evitar infecção. Se precisar de suturas, use material estéril.
Treine outros membros do seu grupo de sobrevivência para aplicar os primeiros-socorros.
Existem vários manuais e livros sobre o assunto, arranje um para deixar no abrigo.
Tenha um mini kit de primeiros-socorros sempre com você e um kit completo no abrigo.

Mini kit de primeiros-socorros

Esparadrapo
Álcool
Bandagem de pano
Band-aid
Algodão
Tesourinha
Spray atisséptico
Pomada para contusões
Antitérmico e analgésicos de uso oral
Colírio ou soro fisiológico
Sal de cozinha

Kit completo de primeiros-socorros

As quantidades vão variar conforme o número de pessoas que farão uso do kit. Lembre-se de ter uma margem de segurança.

Bandagens de tecido em grande quantidade
Esparadrapo e micropore
Band-aids de vários tamanhos
Lenços de pano e de papel
Um pacote de algodão estéril
Curativos de silicone
Spray antisséptico
Gaze
Álcool líquido para desinfecção
Álcool em gel para higiene
Éter
Lenços umedecidos para higiene de bebês
Antibióticos de uso tópico e de uso oral
Agulhas e linha para sutura
Pomada para contusões
Soro fisiológico
Filtro solar de alto fator
Repelente de insetos
Vaselina
Pomada contra assaduras
Remédios de uso contínuo (prescritos pelo médico)
Analgésicos
Antitérmicos e antiinflamatórios
Remédios contra náuseas e diarreia
Colírios lubrificantes e clareadores
Tesoura pequena
Pinças
Luvas de látex
Máscaras protetoras
Camisinhas
Fio dental, enxaguante bucal, creme dental, escovas
Água mineral ou purificada
Manta térmica
Filme plástico
Talas de madeira ou plástico
Elásticos
Sacos de gelo instantâneo
Sabão líquido e sabonete em barra
Suplementos vitamínicos e minerais
Sal de cozinha
Açúcar cristal
Outros itens que você achar necessários
Uma mochila grande e vermelha para conter os itens
Mel - o mel serve como remédio tópico para queimaduras e escaras, combate a hipoglicemia, é alimento, cosmético para a pele e cabelos, e se mantido em embalagens e condições adequadas, conserva-se indefinidamente

Estes kits não garantirão sua sobrevivência em caso de grandes lesões internas, mas farão grande diferença em caso de fratura, contusão, dores, etc.
E você precisa estar sempre preparado para correr e fugir, certo?

Kit de ferramentas e utensílios

Tenha um com você e um no abrigo. Seu kit pessoal pode se resumir a uma caixinha de ferramentas encaixáveis (cabo + chave de fenda, phillips, allen e perfurador), um alicate, um canivete suíço de boa qualidade, um isqueiro e uma lanterna pequena, que pode ser um chaveiro ou caneta.
O kit completo do abrigo deve incluir:

Lanternas
Pilhas ou baterias para as lanternas
Uma lanterna com dínamo (em caso de falta de carga)
Um rádio AM/FM/OC
Baterias para o rádio
Um radinho portátil com dínamo
Telefones celulares e carregadores
Carregadores com adaptador para carro
Walkie-talkie e as respectivas baterias
Espelho de mão
Martelo e pregos
Pá, picareta e pazinha pequena
Alicate universal e alicate de bico
Bomba de ar, para pneus e objetos infláveis
Lona ou plástico grande
Capas de chuva
Mantas de emergência e cobertores
Sacos de dormir ou colchonetes
Sacos plásticos pequenos resistentes
Sacos de lixo grandes, reforçados
Cantis extras, garrafas térmicas
Veneno spray contra insetos, à base de água
Benzina, querosene e gasolina
Álcool etílico
Estopa
Velas
Fósforos, pedra de magnésio, isqueiro
Dois abridores de lata manuais
Abridores de garrafa
Arame, fio elétrico
Lâmpadas sobressalentes
Balde de alumínio e balde de plástico
Fogareiro de camping a álcool e a gás
Extintor de incêndio
Detergente e desinfetante
Galões vazios para armazenamento de água
Funil
Filtros de papel e filtro de água
Faca de corte, faca serrilhada, faca de mesa
Talheres, copos e pratos descartáveis
Silvertape e fita crepe
Toalhas de papel, papel higiênico e guardanapos
Manual de sobrevivência
Embalagem impermeável para documentos
Outros itens que achar necessários

Por via das dúvidas, já que o assunto é precaução, arranje umas máscaras de gás daquelas que cobrem o rosto todo e têm filtros. Não adianta arranjar tanques de oxigênio de mergulho, porque duram apenas 60 minutos. Portanto, não exagere, você vai precisar de espaço.
Todos estes itens devem estar organizados num local seco, limpo, longe do sol, do fogo e de instalações elétricas, protegidos da umidade e fora do alcance de crianças e animais.
Instalar um armário suspenso no abrigo é uma boa alternativa.
É bom lembrar que, se você tem animais domésticos, deve incluir:

Jornais
Pratinhos e vasilhas extra
Manta e caminha
Ração em sachês
Ração em latinhas
Ração seca em embalagem hermética
Remédios para animais
Água extra
Casinha desmontável
Caixa de transporte
Vacinas, seringas e agulhas
Álcool
Talco para pulgas, coleira extra, peitoral, focinheira, apito
Tapetes higiênicos ou areia sanitária
Uma caixa de papelão

Todos estes kits deverão caber uma área relativamente pequena do abrigo, portanto seja organizado e racional. Lembre-se que será preciso haver espaço para você e os outros membros do grupo de resistência.
Eu sugiro montar três armários: Um com armamentos e ferramentas, um com alimentos e utensílios de cozinha, e um menor, com o kit de primeiros-socorros. A água você pode armazenar em galões ou num tanque sem acesso à rua.

(Estes suprimentos também podem ser úteis caso você perca o emprego ou passe por outro tipo de privação de recursos)
Além de todo esse preparo, ressalto que ninguém vive sob constante pressão psicológica. Enquanto durar o ataque, mantenha-se calmo. Sua sanidade será a ferramenta mais importante para enfrentar o Zapocalipse.
Tenha itens de lazer à disposição. Além de distraí-lo, reforçarão a esperança de que você sobreviverá e que dias melhores virão. Junte seus livros preferidos, diário, fotografias, caixinha de música, quebra-cabeças, baralhos e outros jogos numa caixa. Ela lhe trará conforto e ânimo para sobreviver. Se é uma pessoa religiosa, tenha um ou mais livros da sua religião no abrigo e um sempre com você.
Leve para o abrigo uma barra, halteres e colchonete de exercícios, para manter-se em forma.
Tenha disciplina com estudos, lazer e exercícios, mesmo em meio ao caos instaurado.
O Zapocalipse é apenas uma hipótese, entre muitas, de como o mundo vai acabar. Seja num terremoto, guerra ou outro tipo de desastre, é sempre bom estar prevenido.
Mantenha o bom humor e viva feliz enquanto pode.
Somente quem resistir bem aos primeiros momentos conseguirá sobreviver até o final. Quando chegar o Z-day, fique alerta aos noticiários. Reaja imediatamente. Não espere pela boa vontade de estranhos, nem pela ação das autoridades.
É comum, durante catástrofes, haver saques, assassinatos e outros atos de violência e desespero. Evite sair à rua, exceto se estritamente necessário. Desconfie de tudo e de todos.
Fique vivo e boa sorte.

domingo, abril 19, 2009

Donald, Where's Your Trousers?

(words and music Traditional)

I just down from the Isle of Skye
I'm no very big but I'm awful shy
All the lassies shout as I walk by,
"Donald, Where's Your Trousers?"

Let the wind blow high and the wind blow low
Through the streets in my kilt I go
All the lassies cry, "Hello!
Donald, where's your trousers?"

I went to a fancy ball
It was slippery in the hall
I was afeared that I may fall
Because I nay had on trousers

I went down to London town
To have a little fun in the underground
All the Ladies turned their heads around, saying,
"Donald, where's your trousers?"

The lassies love me every one
But they must catch me if they can
You canna put the breeks on a highland man, saying,
"Donald, where's your trousers?"

Legal, né? Vi ontem em The Sarah Connor Chronicles. Assistam a esse trecho aqui.