quinta-feira, janeiro 12, 2017

Minimalismo diário

O minimalismo é uma espécie de reeducação pessoal. Reavaliamos nossas prioridades, nossa postura diante de questões básicas do dia-a-dia, nossa interação com outras pessoas, com animais, plantas, ar, água.
Estou nesta jornada há menos de um ano. Nesse período, doei, vendi ou joguei fora três quartos de tudo que possuía. Nunca fui rica, não sou acumuladora patológica. E ainda assim, ao longo dos anos, uma grande quantidade de coisas se acumulou na minha vida. Todas as portas e gavetas da minha casa guardavam coisas (muitas delas, inúteis para mim). Objetos em desuso, velhos, alguns ainda com a etiqueta da loja.
Foi um grande esforço mental e físico pegar um por um dos meus bens pessoais, avaliar se devia ou não mantê-lo, sortir tudo que eu tenho e tive, e depois desfazer-me de tudo que não me servia mais, de uma maneira ou de outra.
Depois de livrar-me de literalmente um caminhão de coisas - daria para fazer uma mudança - minha casa não ficou completamente vazia. Ficou praticamente só o que estava em uso. Poucas coisas, já que fico muito pouco em casa. Não vou mentir, ainda há coisas para mandar embora.
É difícil nos acostumarmos à ideia de que não precisamos estocar coisas para uma eventual necessidade. E que "coisas" não são o que precisamos mais, em caso de uma emergência. Coisas são apenas coisas. Elas não resolvem problemas, não nos confortam, não nos alimentam, não nos ensinam.
Tive que doar lençóis, tapetes, móveis, centenas - talvez milhares - de livros, uma infinidade de roupas e calçados, utensílios de cozinha, objetos de decoração, joias e bijuterias, maquiagem. Também joguei fora muitas coisas. Vendi apenas um item. O restante ainda está lá. É o que uso, por enquanto.
Infelizmente é tentador navegar pelos sites procurando objetos para comprar. Coisas únicas, que ninguém mais tem. Coisas bonitas, boas de se olhar. Roupas maravilhosas. Calçados maravilhosos. Quadros, cortinas, almofadas, caminhas para os gatos. Mas a verdade é que no fim das contas, nada disso satisfaz. Nada disso me faz feliz. Nada disso me completa. Navegar na internet ou bater perna nos shoppings não tem nada de culturalmente excitante. É um meio de perder tempo e dinheiro, e de acumular inutilidades e frustrações.
E por falar em frustrações, tive que abrir mão de pessoas, também. A "limpeza" não foi apenas nos armários e gavetas. Às vezes, acumulamos à nossa volta pessoas que não nos trazem qualquer positividade - não nos alegram, não nos amam, não nos ensinam, não nos divertem. Pelo contrário, algumas nos arrastam a situações vergonhosas. Brigas, intrigas, fofocas, "mal-entendidos", confusões, maus negócios, tristezas, traições, inimizades. As pessoas em geral têm defeitos, eu sei. Mas alguns desses defeitos nos afetam mais. É preciso avaliar friamente o impacto que as pessoas têm nas nossas vidas. Se é negativo, é hora de distanciar-nos. Eu me distanciei de muita gente. Não necessariamente pessoas ruins, más. Em sua maioria, pessoas em cuja presença eu não ficava à vontade. Algumas, nem isso - eu não sentia nada. Poucas eram pessoas malignas. E o esforço para livrar-me delas foi infinitamente maior que o de livrar-me de objetos. Humanos se apegam, tomam ares de proprietários. Querem imiscuir-se em nossas vidas. Julgam. Invejam, mentem, omitem, negligenciam . Nem sempre é sem querer. E ainda que fosse por indiferença - para que manter-me ali, se não tinha importância?
Não é um processo simples, nem rápido, nem indolor. Mas o minimalismo tem feito maravilhas pela minha pele, pela minha saúde, pelo meu bem-estar. Desde que dei os primeiros passos, não fiquei mais doente - ao menos, não gravemente. Menos dores físicas. Mais tranquilidade. Tenho feito mais exercícios, porque passo menos tempo movendo as coisas de um lugar para o outro, limpando, organizando. Tenho lido mais, também. E até voltei a pintar - toscamente, mas é talento que me falta, não tempo. Gasto menos dinheiro em bares e restaurantes, minha alimentação melhorou. Durmo melhor, também, com menos preocupações e num quarto mais limpo. Parece até que a casa está mais silenciosa - não que as coisas fizessem barulho, mas a sensação que eu tinha era de agitação, confusão, atrito. Com menos estímulos, tudo ficou mais claro, tranquilo.
Ainda há uma trilha enorme a percorrer. Ainda tenho muitos objetos que estão ali por pena, por dó de jogar fora. Não devemos ter sentimentos pelas coisas. Pena, compaixão, são coisas que devemos ter por seres vivos, que sofrem. Coisas? Nem tanto. As xícaras e pires que não uso poderão achar quem os queira, e não sentirei remorso nenhum ao deixá-los partir.
Este não é um post com fórmulas. Não ensina a "ser minimalista". Não tenho um passo-a-passo de como fazer. Apenas achei interessante contar minha experiência. Também quero falar dos resultados práticos: menos tempo gasto em limpeza e arrumação, menos lixo produzido, e até comecei uma poupança. O dinheiro que não gasto mais em roupas, maquiagem, sapatos, livros, decoração. Estou lentamente aprendendo a utilizar as coisas que já tenho e a ter criatividade.
Ainda cometo muitos erros, sofro arrependimentos. Mas nem tanto como antes. Talvez no futuro eu encontre meios de não precisar me preocupar mais com nada que não seja absolutamente vital. Não sei. Talvez eu não volte a falar do minimalismo. Mas queria compartilhar minha experiência e incentivar outras pessoas a tentar. Não existe fórmula exata para um estilo de vida minimalista - uma quantidade máxima de objetos, um tempo máximo de contato com outras pessoas. Isso é papo furado. O que existe é um esforço consciente para causar menos impacto negativo ao mundo, e principalmente, para evitar que o mundo cause um impacto negativo em nós. 

terça-feira, janeiro 10, 2017

O que havia antigamente

- Antigamente, havia o frio.
- E como era, mãe?
- As pessoas precisavam se proteger. Em alguns lugares, caía gelo do céu, em forma de pequenos cristais flutuantes. Eles caíam devagar e se acumulavam nas ruas, formando montes.
- E doía?
- Doía o quê? O frio?
- Não, os cristais quando caíam nas pessoas, machucavam?
- Não, eram muito leves e pequeninos, como se fossem nuvens minúsculas...
- E para que servia o frio?
- Era algo que acontecia. Assim como havia rios, cachoeiras, bichos correndo no mato. Não tinham uma utilidade específica, apenas existiam.
- Então não serviam pra nada?
- Meu filho, só porque algo não nos serve, não quer dizer que não é útil. Serviam para seus propósitos. Quando essas coisas existiam, os homens viviam em casas. Ninguém precisava cavar, porque era possível ficar lá em cima. As pessoas buscavam o sol. Os antigos dizem que as pessoas conversavam com o Sol e o adoravam, como se fosse uma pessoa, mas vivendo lá em cima entre os planetas, como se fosse o rei deles.
- E quando fazia frio, para onde as pessoas iam?
- Não iam a lugar nenhum. Ficavam em casa ou saíam para brincar na neve.
- Você brincava na neve? Perguntou o menino, cada vez mais incrédulo e confuso.
- Oh não! Quando eu nasci, o frio já não existia mais. Todas essas coisas foram há muito tempo... disse a mãe, com olhos sonhadores.
- Mãe, quando eu crescer, eu quero ver uma neve.
- Vai ser muito difícil, meu filho. Somente no topo das mais altas montanhas existe um pouco de neve. Mas já não há ar para respirar lá em cima. Depois que o mundo foi destruído, não temos mais como chegar a lugares distantes. Era preciso usar máquinas, carregar ar em garrafas para respirar. Não temos mais essas coisas. Mas você não deve desistir de sonhar. Pode ser que um dia, nossos irmãos que viajaram voltem, e tragam coisas boas para nós. Eles estão lá no céu, procurando um lar para nós. Eles viajam dia e noite, voando entre as estrelas, em suas naves. As naves são máquinas como aquelas que encontramos outro dia, mas em vez de andar na terra, elas voam. 
- Mas eles nunca chegam?
- Talvez já tenham chegado a algum lugar. Lá no espaço é frio, sabia? Não é quente como aqui. E lá eles comem algas, que são plantas que eles mesmos fazem nascer na água, dentro da nave.
-  Tem água dentro da nave? Água como a que pegamos aqui? Como cabem algas na água?
- Eles levaram muita água! Não é como a que pegamos aqui. É água bem limpinha, muita água, daria para encher nossa caverna, talvez até mais! Uma das naves tem muitas árvores e animais, e todos vivem dentro da água. Eles bebem água todo dia e são inchados e lisos, e sem cabelos.
- Sem cabelos?!
- Foi o que sua avó me disse. O avô dela era do seu tamanho quando as naves foram embora. Disseram que não era mais possível viver aqui. Mas nós vivemos aqui, não é mesmo? Eles foram procurar um lugar mais bonito, onde pudessem morar.
- Mãe, e as outras pessoas, onde foram morar?
- Não sabemos, filho. Eu e seu pai procuramos muitas vezes, mas nunca encontramos. Nosso grupo deve ser o último que resta. As máquinas não funcionam mais, ou nós não sabemos usar. Tem algo no céu que envia mensagens, mas ninguém consegue entendê-las. Talvez não tenha mais ninguém por aí. Mas se houver, deve estar esperando as naves, assim como nós.
- Não quero mais esperar a nave. Quero poder andar lá em cima como um animal.
- Para isso você vai ter que esperar a Terra cicatrizar. Lembre-se do que sua avó disse. Lá fora é perigoso, tem raidiação. A raidiação faz muito mal. Só vamos lá se precisar. Até a Terra cicatrizar, temos que relembrar, estudar e relembrar, para quando as naves voltarem, nós estarmos prontos para ir para o planeta.
- Eu não gosto da raidiação.

segunda-feira, setembro 05, 2016

Não há Deus

Arisa acordou impaciente. Havia lido até muito tarde na noite anterior, ostensivamente, para usufruir do ambiente bucólico da casa de fazenda cercada de pampas verdes e longuíssimos eucaliptos de idade indeterminada. 
Ríspida com a empregada, recusou o café da manhã e vagueou pela casa sem intento, feito besta, intrigada e de sobrancelhas franzidas.
Antes do almoço, afastou-se da casa e foi até o limite do bosque, para absorver o ar puro e sentir o frio da sombra das árvores. 
(Havia quase seis anos que morava no mato, como dizia. Não tolerava a chatice e a falta de privacidade da cidade grande, e adorava animais. Sentia-se segura, agora, mas ressentia-se da falta de praticidade de algumas coisas que evidentemente deviam ser mais simples.)
Teimava em repensar, martelava.
"Não há Deus. Não há."
Objetava. É claro que há; quem fez os ipês? Olhe! Quem fez as aves? E o sistema digestivo das vacas? E os tartígrados?
"O acaso. Milhões de anos de evolução. Mutações randômicas. Sobrevivem aqueles cujas mutações os tornam mais adaptados. Os outros morrem. Todos morrem. Mas alguns passam adiante os genes que os ajudaram a manter-se vivos por mais tempo. Todos morrem, e não vão para lugar nenhum. Apenas morrem, e é bom que seja assim."
Voltou pra casa. Os cães, normalmente festeiros, olhavam-na de longe, intrigados, como se tentassem determinar se valia o risco chegar mais perto.
É bom que se diga que Arisa nunca foi uma mulherzinha frágil, mas também tinha seus medos. Quando criança, os meninos da escola implicavam com ela - feia! dentuça! branquela! - e apanhavam. Apesar disso, nunca tornou-se rude ou orgulhosa. Era apenas impaciente, de maneira geral, como aliás, quase todo mundo é.
A leitura da noite anterior a havia perturbado muito. Todas as suas indecisões uniram-se num nó que tornava sua vida impossível. Tinha de resolver isso agora ou não poderia continuar a existir. 
Foi até o quarto e abriu o guarda-roupa. Puxou uma grande caixa branca quadrada. Ergueu a tampa, afastou um fino lenço de pano pintado à mão, e tirou um enorme revólver cromado que mais parecia coisa de filme.
Foi até o pátio, nos fundos da casa.
Descarregou a arma, seis tiro para o alto.
"Não há Deus", pensou. Ninguém para socorrê-la quando orasse: "Não nos deixeis cair em tentação".
Entrou na caminhonete e dirigiu até perto da ponte. Desceu do carro, foi até a margem do rio. Não parou para apreciar os barrancos cobertos de mato, as copas das árvores quase pretas, a água escura e caudalosa do rio, não parou para ver nada.
Jogou a arma no rio.
"Não há Deus."
Amém.

segunda-feira, maio 30, 2016

Mulher

- Se ela não ficasse se mostrando isso não aconteceria.

- Olha aí, nós fomos dar direitos para elas, elas já foram arrumando dor de cabeça.

- Uma mulher quer agir como homem, é nisso que dá. Bem feito.

- Mulher neurótica, ciumenta, que fica no pé do marido, merece apanhar na cara.

- Homem não tem ciúmes, tem cuidado com as coisas dele!

- Se a mulher obedecer o marido, não tem motivo para eles brigarem.

- Só porque se separaram não quer dizer que a mulher pode sair por aí fazendo o que bem entender. Ela continua devendo respeito ao homem!

- Eles se separaram, ele não tem mais obrigação nenhuma de respeitar a ex-mulher.

- Ele é pegador, passa o rodo, curte a vida. Está certo. Ele é novo, bonito, tem mais é que aproveitar. Solteiro sempre, sozinho nunca!

- Ela sai com vários caras, não presta, só porque é gostosa acha que pode sair por aí dando pra qualquer um. Uma vadia dessa não tem moral.

- Ela não quis transar na primeira noite, se acha muita coisa, ficou se fazendo de santinha, não passa de uma vagabunda.

- Ela transou na primeira noite, não presta, não passa de uma vagabunda.

- A mulher tem que tomar anticoncepcional. Se ela engravidou o problema é dela, ela é que tem obrigação de se cuidar. Senão, é uma pistoleira.

- Mulher não pode exigir que o homem use camisinha. Ele usa se quiser, afinal usar camisinha é como chupar bala sem tirar o papel.

- O embrião não tem culpa se a mulher foi estuprada! Ela não pode abortar! Tem que levar a gravidez adiante e ter o filho!

- Mãe não pode abandonar o filho! Ela quis ter, agora tem que criar!

- Até uma vaca ama o bezerro, mas essa mulher abandonou o próprio filho.

- Se ela não tem condições de criar, tivesse pensado nisso antes de sair por aí dando para qualquer um. Vai fazer faxina, vai lavar roupa, se vira. Na hora de abrir as pernas tava bom, né?

- O pai nem sempre tem condições de sustentar a criança, isso não é culpa dele. E se ele estiver desempregado, vai fazer o quê? Matar, roubar?

- Ela não teve pena de largar o menino na creche com apenas quatro meses de idade, é uma desnaturada sem coração. Ter filho para os outros cuidarem é fácil.

- O pai precisou ir embora para trabalhar. O que ele ia fazer? Ficar em casa dando mamadeira pra criança? Ele tinha que ir, a gente não sabe o porquê de ele nunca ter voltado.

- Ele foi embora quando soube que o bebê que ela esperava tinha microcefalia. Agora ela quer que o governo a sustente, mas a culpa não é minha se o filho dela tem problema.

- Neurocirurgião, um dos melhores do país.

- Neurocirurgiã? Tá louco que eu vou deixar uma mulher operar minha cabeça?

- Mulher ao volante só faz cagada.

- Ela pediu aumento ao chefe, ele riu na cara dela. Só porque os outros funcionários ganham mais, não quer dizer que ela tem que ganhar o mesmo, afinal ela é mulher.

- Por que mulher aposenta mais cedo? Era só o que faltava! Dando uma de coitada! Quer direitos iguais mas não quer ter que trabalhar o mesmo que um homem trabalha.

- O homem chega cansado do trabalho e a mulher ainda quer que ele ajude a fazer comida, lavar roupa, olhar os filhos? Isso é problema dela. Ela também trabalha fora, mas é servicinho fácil, não trabalha como ele.

- O sujeito estava estressado, cansado, sob pressão. Por isso ficou furioso daquele jeito. É normal.

- A mulher é uma neurótica, rainha da TPM, histérica. São todas loucas.

- Olha só, uma mulher passar em primeiro lugar! Nem dá nem pra acreditar!

- O cara passou em primeiro lugar, claro, afinal ele estudou.

quinta-feira, fevereiro 04, 2016

A sinceridade das crianças

Alguns anos atrás, eu estava passando esmalte nas unhas para a festa de aniversário do meu sobrinho, feliz e tranquila, quando chega o próprio - Criança nº 01 - e pergunta: - Tia, por que vocês mulheres passam esses negócios?
- Pra gente ficar bonita.
- E por que não fica?
- Ah, Enzo, mas pelo menos a gente tenta.
- Mas você não é muito feia.

Em outra ocasião, estava bebendo suco de caixinha em companhia de uma pequena manada de crianças. Uma delas - chamemo-la de Criança nº 02 - me observa atentamente, fixamente. Cumpre dizer que não bebo suco normalmente, aos poucos. Bebo tudo de uma vez, sem respirar, aos goles. E a criança me observando. Quando terminei a caixinha de suco, a criança jovialmente me olha nos olhos e diz: - Pescoço de gente velha é esquisito, né?

E é por isso que eu sou triste.

domingo, janeiro 10, 2016

Alexander Jansson

Ilustrações oníricas.
Curiosas ilustraciones de cuento de hadas producidas por un talentoso joven artista sueco Alexander Jansson
Posted by CCTV on Sunday, January 10, 2016

domingo, dezembro 20, 2015

A última ação do ano

A gangue estava toda ali. Maquinado, Bacada, Rude e Luvão. Quatro sujeitos com mais de quarenta anos, bonitões, parrudos, todos com cara de mau.
Juntavam seus perteces para levar para o carro. Fazia um tempo, já, que não faziam essas coisas. Quando eram jovens, eram até conhecidos. Mas agora eram homens de bem, casados. Já nem tinham coragem. Só que hoje a coisa parecia ser boa, parecia que ia valer a pena. Então eles combinaram de se encontrar. Fariam tudo muito rápido, cada um pegaria sua parte e ia embora. Sem perda de tempo e principalmente, sem brigas. Afinal, quatro negões bem vestidos num Monza sempre chamam atenção.
Bacada era de todos o mais seco, daí o nome. Tinham braços grossos e era atarracado e suado. Estava sempre suado, quer dizer. Não sabiam muita coisa dele, ele sempre se mudava de casa, de bairro, de mulher. Foi ele quem arranjou o negócio. Iriam no carro do Rude, mas a ideia era dele. Ele era quem tinha os esquemas.
Rude, coitado, nem de longe era rude. Era o mais altão de todos, o mais manso também. Tinha esse apelido porque se chamava Rudenilson. Ele estava bem nervoso, porque tinha crescido na área onde iam atuar, e porque iam no seu Monza.
Chamavam Maquinado assim porque ele sempre bebia umas antes, pra criar coragem. De todos era o mais talentoso, o mais velho e o mais calado. Conhecia bem o estabelecimento. Costumava dar movimento. Concordou prontamente com Bacada, podia valer a pena, podia dar certo.
Luvão era um menino ainda comparado aos outros três. Muito meticuloso, gostava de usar luvas, nem tanto para não deixar digitais nas coisas, mas mais para não oxidar o cano de metal. Os outros zombavam dele. "Você pensa que é um gângster, bestão? Precisa mesmo dessas luvas?". Luvão sorria, humilde. Precisar, não precisava, ué. Mas gostava delas.
Subiram a Pedro Amaral já de noite, passando pelos pedestres que, talvez, iam para o mesmo bar. Tentavam não pensar muito no que iam fazer, para não ficarem tensos. Iam fazendo piadas, olhando a rua. Quando chegaram à Boa Vista, começaram a virar esquinas e mais esquinas até acharem o lugar. Pararam debaixo duma árvore, duas casas pra frente.
"Certeza que é aqui?", perguntou Luvão. Bacada, que dirigia, não respondeu. Desceram, pegaram as coisas no porta-malas.
Entraram no bar.
O lugar estava escuro, fumacento, mesmo sendo proibido fumar lá dentro. Só tinha luz perto do palco, o resto estava no escuro. O palco era lá no fundo.
Entraram, cada um segurando um negócio daqueles, e foram até o fundo do bar, sem olhar para os lados. O dono do bar os viu entrar e ficou de boca aberta, olhando-os passar.
Chegaram na beirada do palco, abriram seus cases, e de lá tiraram seus instrumentos. Subiram no palco com o coração a mil. Era agora.
Cumprimentaram a todos e começaram a tocar. Sem afinar instrumentos, sem "passação" de som. Simplesmente tocaram. E foi uma apresentação tão boa como há muito tempo não faziam. Até quem estava na rua resolveu entrar para ver a banda. Quem eram aqueles caras?! Foi uma coisa linda. Até a molecada nova, esses playboys que acham tudo chato, estava lá dentro na pista de dança.
Depois de tudo, o dono do bar trouxe chopp e uma porção de mandioca frita. "O bar bombou esta noite. Vocês deram lucro mesmo."
Maquinado estava todo orgulhoso. Ria feito besta: não só compraria presentes para os bacuris, como a esposa ganharia um vestido novo. Ia ter até Champanhe, pensou.
Cada um fez planos e contas enquanto comia rapidamente, para irem logo embora.
Os quatro saíram do bar em seguida, e Rude levou cada um pra sua respectiva casa (todos moravam longe). Na rodovia, rumo à Vila Toninho, foi pensando que talvez exista mesmo esse negócio de Espírito Natalino, afinal de contas.

quinta-feira, dezembro 10, 2015

A escolha de Flerion

"Na escolha de seu animal, o mago deve ser bastante cuidadoso. Especialmente se pretende usar encantamentos de licantropia, como o Mutação Reagente ou Transformação Parcial. Há magos iniciantes que, por falta de estudo, deixam-se arrastar pela vaidade, escolhendo tigre, lobo ou urso como seu animal. Esquecem-se que estes animais são bastante agressivos e difíceis de controlar, e que uma vez concluída a transformação, pelo menos nas primeiras vezes, a consciência animal sobrepuja a do ser humano, deixando o mago à mercê da própria estupidez de fera.
Uma vez escolhida a besta, não pode ser substituída, portanto a escolha jamais deve ser equivocada. Grandes vampiros-magos obtiveram meios de trasformar-se em mais de um animal. Mas tais encantamentos requerem, muitas vezes, sacrifícios humanos, que são horrivelmente desagradáveis e malvistos.
É bom lembrar que nem sempre o mago assume a forma física de sua besta, porém pode invocar certos sentidos aguçados, destreza ou outras capacidades que lhe forem convenientes no momento.
Alizarus de Modana, o Simples, escolheu para si o lagarto saltitante, e na famosa Batalha de Serinaya, pôde atravessar o Pântano Avesso e o Bosque Pulsante com a joia Etrina na boca, e finalmente devolvê-la à coroa de Serinaya, pondo fim à Guerra dos Três Reinos e ganhando como recompensa um belo escravo númio, o Berimbau Inaudível e a Cornucópia de Primavera. Se tivesse escolhido uma fera enorme, jamais teria completado a tarefa e hoje seu nome teria sido esquecido.
Já a Feiticeira Thrya, ainda adolescente, sob a tutoria de Ravius Nigro, teve a esperta ideia de selecionar o camaleão como seu animal. E todos sabem de suas fabulosas peripécias durante a recuperação do espólio dos atlantes refugiados em Hiva. Graças à astúcia da prudente camaleoa, mais de seis mil objetos e encantamentos hoje estão seguros sob a Pirâmide Maior de Eldorado, bem longe das garras imundas dos salteadores S'ip e dos monges Ajuna. Porque a magia não deve servir à ganância ou à vaidade, mas à cultura, à manutenção do equilíbrio e... Mas o que está fazendo? Deixe-me ver esses rabiscos! Um jabuti, uma taturana, uma lesma... diga-me, senhor Flerion, quando for um mago de terceiro grau, se um dia o for, de que lhe servirá transformar-se em lesma? O senhor poderia escolher, por certo, um rinoceronte, um chimpanzé... e digamos que encontre-se numa situação de infortúnio, preso, ou em batalha, que proveito teria o senhor ao se transformar em taturana? O jabuti sem dúvida tem seu casco, mas as lanças Asires são capazes de perfurar os portões de basalto deste castelo, que dirá o senhor do seu jabuti? Thura, por sua vez, escolheu a lontra! De que serve a lontra, pequena feiticeira?"
- "A lontra é rápida."
- "E o que mais?"
- "Move-se na água."
- "E o que mais?"
- "Rouba coisas."
- "Ah! Temos aqui uma jovem ousada. Vejam, vocês três devem estudar a fundo seus animais. Não façam escolhas tolas. A magia não é diversão. Questionem sua vocação. De onde vieram? Por que estudam a magia? Quais os encantamentos que deverão utilizar e como deverão formular seus próprios para que sua trasformação ocorra de maneira eficaz? Amanhã, em nossa visita ao campo de ylang-ylang, quero que cada um discorra sobre o bicho escolhido. Não devemos retardar mais isso. Se querem aprender comigo, devem fazer render meu tempo."
Os três aprendizes saíram, cabisbaixos, carregando seus grimórios, com ar de abatimento. Dimitrus era um mago severo. Mas Flerion, teimoso, já havia feito sua escolha. Seria o jabuti mais matreiro de toda Illevrant, de todo o mundo. Haveria se escrever seu nome nas páginas da História sob o signo do jabuti. Isso sim.

sábado, março 14, 2015

O maior queijo que já caiu na Terra

- São sininhos.
- Bem podiam ser pessoinhas.
- Pessoinhas? Voando?
- Podiam estar penduradinhas.
- Você está vendo algum fio?
- Então são sininhos voando.
- São sininhos e um carneiro. Ao lado do bule de chá.
- São vários bules. O vapor atrapalha a vista. Mas dá pra notar que são vários.
- E vamos pegar algum deles?
- Não seja idiota, estão cheios de chá quente. Pegaremos o queijo...
- E as pessoinhas?
- São sinos, besta! Você mesmo disse!
- É mesmo. Então pegaremos o queijo... você tem certeza de que dá para descê-lo inteiro? Porque não temos roldanas...
- Preocupa-me o carneiro dormindo. Se ele nos vir roubando o queijo, pode tocar os sininhos, e alarmar a cozinha toda. Vê aqueles sujeitos lá embaixo da mesa, rolando o salame?
- Nem nos notarão, mesmo que o carneiro berre. Estão atarefados.
- O vapor pode nos atrapalhar. Imagine se caímos de cima daquela mesa! Já pensou se caíssemos no leite?
- Um balde daqueles de leite daria para o país inteiro beber...
- Durante uma semana! Mas olhe, tem aquele monte de palha onde o gato dorme, ao pé do forno...
- A entrada para o Inferno. E o gato deve ser o demônio em pessoa! Eu não queria cair na palha, seria pior que cair no chão duro.
-Veja, lá vêm as mulherzinhas de que nos falaram, elas têm a língua solta e se nos virem, farão escândalo. Note como carregam peso! Cada xícara daquela deve pesar o mesmo que...
- Vamos agora! Rápido!
- Ooooooh abaixe-se!
- Agora, atrás da manteiga!
- Fale baixo, imbecil. O carneiro vai nos ouvir.
- Por sorte é do nosso tamanho. Podia ser um carneiro gigante. Podia ser como aquele gato.
- O queijo! Como é grande!
- É maior do que eu pensava.
- Empurre!
- Não vamos conseguir. É pesado! Oh não, veja! O carneiro!
- Volte a dormir, seu maldito! Shhhhhh! Volte a dormir.
BÉÉÉÉÉ
- Agora, no três. Sobre a palha do gato. Um, dois, trêêêês
PLOFT
- Vire-o! Vire-o! Agora, vamos rolar. Eu vou na frente para não deixá-lo tombar, não me esmague. Rápido!
MIAU
- Para a porta! Xô, gato de Satã! E depois?
- Depois cairemos da nuvem. Vai ser o maior queijo que já caiu de uma nuvem na Terra!

segunda-feira, dezembro 01, 2014

Drusila e o ovo

Ofegante, Drusila fugia pela floresta. Em suas mãos, um pequeno tesouro que valia muitas vidas: um ovo do mundo. Guerreiros armados a perseguiam em busca do ovo. Muitos já haviam morrido por ele, em muitas ocasiões, em muitas batalhas.
O pai de Drusila o havia roubado de um feiticeiro, que por sua vez o havia roubado de um jovem rei, morto no combate.
Este ovo havia cruzado continentes, mares, eras geológicas. Continha dentro de si uma nova Gênese, um mundo esperando por nascer. Quem saberia dizer o que nasceria dali?
Quando soube do paradeiro do ovo, Elaya de Deuyan, regente de Alleritt, pôs suas tropas particulares para marchar em busca dele. Se podia ser soberana de um mundo só seu, pensou Elaya, para que preocupar-se em reger Allerit para os filhinhos do velho rei? E este velho rei sabia que seu vizinho possuía o tesouro. Só não teve presença de espírito bastante para tomá-lo.
O velho feiticeiro ainda vivia, em algum recôncavo do reino. Sabia onde estava o ovo. Sabia quem era Drusila. Porém seu imenso terror de um mundo novo e todas as implicações desta nova Criação o estarreciam de tal maneira que, covardemente, encerrou-se em seu palácio e jamais tornou a sair. Passava os dias e noites a temer, a sofrer, a grunhir. Folheava febrilmente livros e rolos de pergaminho, conjurava encantos, protegia-se com armas e encantamentos, temeroso dos vazios cósmicos que seriam preenchidos por, talvez, novos planetas e astros, novas forças e grandezas, nova luz, novas trevas, seres que todo feitio, cores desconhecidas, divindades sanguinárias, novas formas de morrer.
O cheiro de mato confortava Drusila, que sabia ser impossível surpreendê-la na mata. Era filha de cimérios, criada em Zingara. Jamais seria pega por um bando de Laonitas imbecis com suas lanças cegas.
Pretendia buscar recompensa pelo ovo com algum Senhor de outros mundos. Sabia que revoluções grotescas teriam início se as notícias desse objeto de espalhassem. O desvario do velho feiticeiro contagiaria metade do mundo, enquanto a outra metade lutaria com furor até ter a posse daquilo que podia significar um novo Universo e um novo Domínio.
Nenhum Deus estaria disposto a negociar. Sendo mortal, seria imediatamente aniquilada por possuir tal tesouro. Teria que buscar outros meios de trocá-lo por riquezas. Mas que riquezas? Pensava, enquanto se esgueirava por entre troncos imensos e grossas raízes de árvores milenares, por entre galhos retorcidos e gigantescas folhagens escuras da densa floresta. O cheiro de milênios subia do solo, parecendo-lhe doce, acre e macio, como o cheiro que os delírios têm.
Os soldados laonitas corriam parvamente, ferindo-se e a seus companheiros de busca. Elaya contratava mercenários para fazer seu jogo sujo, pois empregar tropas alleriten em tal missão egoísta despertaria a suspeita e depois a fúria do Conselho de anciães de Allerit.
Drusila corria como o vento, pois conhecia a selva tão bem quanto seu próprio rosto. Então, avistando ao longe o cume do monte Aiónios, desviou sua rota para a esquerda, no sentido inverso ao que levava ao rio Phobos. Certamente a patrulha seguiria em direção ao rio, julgando que ela o faria. Mas Drusila sabia que os rochedos inóspitos a oeste seguramente a ocultariam pelo tempo necessário. Lá, teria de descobrir como fazer sua oferta. Primeiro, buscaria a proteção dos Aggos, seres viventes dos rochedos, supersticiosos gigantes cujo medo os faria lutar até mesmo com os não-nascidos. Só então sopraria seu segredo, para ser levado pelo vento aos quatro cantos do mundo.
Teria de despertar Entes adormecidos, teria de invocar aberrações de dimensões desconhecidas - imortais, espectros, seres imaginários. O que poderiam lhe oferecer em troca de um novo Mundo?