Eu sou a mula presente e paciente, como um campo vivo de girassóis falantes.

Sábado, Dezembro 26, 2009

Que gênio-louco você é?





Faça você também Que gênio-louco é você? Uma criação de O Mundo Insano da Abyssinia

Quinta-feira, Dezembro 17, 2009

A vida em ciclos

- E só por isso você não o quer mais como amigo?
- Como "só por isso"? Ele causou meu divórcio.
- Bobagem. Você nem gostava mais dela.
- Casamento é coisa séria.
- Por que nunca nos casamos?
- E você ainda o defende.
- Foi tudo inadvertido.
- Foi de propósito. Eu sei daquele canalha. Ela vivia pra mim! A gente era feliz.
- Me passe o açúcar.
- Nossa casa era mesmo um lar. Tínhamos tudo do nosso jeito. Ela adorava flores, e eu escolhi os quadros. Agora não tenho mais quadros.
- Não me diga que aquele arlequim foi escolhido por tu?
- Não é assim que se diz.
- "Por você". Quantas convenções!
- Eu adorava o arlequim. Comprei numa viagem. Um pintorzinho escocês me vendeu na Irlanda. Tomávamos café num vilarejo...
- Num vilarejo clichê, e aí veio o pintor clichê para vender o quadro...
- Mais autêntico do mundo. Está vendo? Você dificulta as coisas! E aquele desgraçado acabou com tudo! Minha vida era certinha.
- Você vai comer isso? Não? Posso?
- Ela detestava brownie. Dizia que era pedante. Sabe? Tem gosto de brownie "demais".
- Tinha que ter gosto de quê?
- São pequenos detalhes. O pior é que eles nem eram amigos.
- Mas há intrigas até onde a língua humana alcança.
- Eu nunca me casaria com você.
- Porque a ênfase no "casaria"? O que faria comigo então?
- Você me entendeu. Ela era a mulher perfeita. Não discutia, gostava da casa...
- É linda...
- Isso não conta tanto. Juro.
- Sei.
- Ele sabia disso e mesmo assim...
- Ele não fez nada. Você vai ver. Ainda serão muito amigos. Você é padrinho do filho dele. Ensinou o menino a montar.
- O filho dele é outra história.
- E tem a mulher dele.
- Ahhh, sempre linda. Isabella.
- Pensei que isso não contava.
- Não quando é sua mulher.
- Eu não tenho mulher. Não sou homem.
- Por isso ninguém quer você. Quem quer uma mulher cabeçuda?
- Eu não sou cabeçuda.
- E que atira? Quem quer uma mulher com uma arma na mão?
- Aparentemente, todos os homens de Hollywood.
- Não há homens em Hollywood. Precisa pôr tanto sal nisso?
- Aqui elas vêem sem sal. Eu gosto bem salgadinhas. Mas eu não sou cabeçuda. Ele era seu amigo e olha no que deu.
- Agora você está contra?
- Meu Deus, quem está contando os pontos? Já esqueceu do seu arlequim e da...
- E da mulher que eu amo!
- Amava. Amaaaava. Amava. Agora me passe o cardápio.
- Pra onde vai tudo isso?
- Eu tenho um quadro de borboleta!
- Não é a mesma coisa. Era o clima, sabe? O jeito que a coisa tem.
- Minha casa tem aqueles cabideiros antigos de colocar chapéu.
- Onde você comprou? Eu nunca encontrei um desses.
- Foi numa viagem. Uma velha senhora passava...
- Uma velha senhora clichê...
- Eu sou a mulher perfeita.
- Vamos pedir um vinho?
- Você sabe que eu moro perto...
- Não vou poder dirigir.
- Amanhã eu trabalho.
- Vamos assistir filmes. Preciso de um ombro amigo.
- Tem café da Colômbia.
- E você tomando esse lixo? Já pra casa. Garçom!
- Não precisa, eu tenho conta.

Sábado, Novembro 21, 2009

Cansei

Tadinhos dos judeus. Eles sofreram tanto. (Vamos esquecer tudo o que aconteceu antes da Segunda Guerra Mundial, ok?). Pois então, eles sofreram tanto. E sofreram, mesmo - sem sarcasmo. Não preciso explicar, porque crescemos sabendo dos horrores e etc. Tanto que hoje, qualquer coisa que não os mostre como os bonzinhos que sofreram muito, é imoral.
Quase acabaram com a carreira de Mel Gibson porque ele disse que os judeus mandaram matar Jesus (e criou imagens para isso em seu filme "A Paixão de Cristo"). Foi achincalhado, humilhado, tachado de doido e antissemita, acusado de nazismo e tudo mais.
Qualquer autor ou artista de qualquer segmento que fale de judeus como cidadãos, seres humanos, pessoas sujeitas a erros e acertos, é antissemita. Os judeus têm que ser venerados porque foram perseguidos e mortos aos milhares (e novamente peço por favor que esqueçamos tudo o que aconteceu durante toda a história da humanidade desde seus primórdios até antes da Segunda Guerra Mundial).
Pois bem, um filme, um filme apenas, virou motivo de ódio contra um artista que já era consagrado por sua brilhante carreira. "A Paixão de Cristo" é ruim porque diz que os judeus erraram, que foram temerários e que pediram a cabeça de um inocente. E ninguém pode dizer isso porque quem diz qualquer coisa não-ótima a respeito de judeus é tão mau quanto Hitler e merece uma morte dolorosa e horrível. E por falar em morte dolorosa e horrível, me lembrei de outro filme.
"Bastardos inglórios".
Neste filme, judeus executam outros homens de maneira horrível e dolorosa.

Mas tudo bem, né? Tadinhos, eles sofreram tanto. Eles não pediram para tirar esse filme de cartaz, como fizeram com "A Paixão de Cristo". Eles não acharam aquilo medonho e violento ao ponto de lhes revirar o estômago.
Ah sim, em "A Paixão de Cristo" o que revira o estômago não é a parte gráfica da coisa, mas sim um incômodo sentimento de não-perfeição que deixa os judeus numa situação difícil. Como foram lembrar disso?
Em "Bastardos inglórios" é diferente porque os judeus são os mocinhos. À moda de Tarantino, claro. Explodindo cabeças a pauladas e fazendo espirrar sangue a dezenas de metros em volta. Mas eles podem porque sofreram tanto. E as cabeças que eles arrebentam são de soldados nazistas.
Não estou defendendo os nazistas. Para mim, criminosos são criminosos e merecem punição pelos seus crimes. Devem ser julgados e, se condenados, devem pagar de maneira justa e pré-estipulada.
Mas tadinhos dos judeus. É melhor dar a eles uma desforra. Se mostrassem cariocas arrebentando cabeças a pauladas, seria o horror. Se mostrassem mórmons esmigalhando quaisquer outros homens, seria o fim dos tempos. O único grupo social que pode fazer isso são os judeus, porque, coitados, eles sofreram tanto. E afinal, no filme eles matam nazistas.
Quando alguém fala a palavra "palestinos" perto de algum judeu, nossa! Que indignação! Os judeus são bonzinhos, não são monstros! Jamais explodiriam crianças e mulheres acuados como animais selvagens! Judeus são as vítimas e não os algozes. Portanto, eles podem matar soldados em filmes e ninguém jamais vai dizer que as cenas são muito violentas, pois não há violência que baste para saciar a necessidade de vingança dos judeus. Eles podem aparecer nas telas destruindo pessoas quando essas pessoas são "más", porque os judeus são bonzinhos.
Em "A Paixão de Cristo" ninguém disse que todos os judeus concordaram com o que foi feito contra Jesus Cristo, ninguém disse que os judeus são maus, etc. Mas eles tomam as dores! Eles nunca podem ser mostrados como um povo que cometeu erros e até crimes!
Contra os nazistas a coisa é diferente, já que está na moda odiar Hitler (geralmente pessoas com baixo conhecimento de História e que nunca ouviram falar de nenhum outro genocídio).
A hipocrisia dessa situação toda para mim é indescritível. Por isso mesmo, optei apenas por citar os fatos. É isso que acontece. Mas me faltam palavras para dizer exatamente o quanto e como acho tudo isso absurdo. O quanto acho que os judeus são tão humanos quanto tutsis, índios, noruegueses, indianos, argentinos, esquimós e qualquer outro povo. O quanto acho injusto que um fato histórico patente seja contestado apenas porque não agrada, enquanto que uma obra de ficção violenta e repulsiva não seja contestada porque os mostra sob uma ótica de vítimas vingativas. Ou seja, mais vale uma mentira agradável que uma verdade nem tanto.
E no entanto, as pessoas nem os atacam quando se diz a verdade sobre eles. Eles só não querem e pronto.
Essa história toda de nazismo, holocausto e o que mais há, para mim é algo obscuro e que não deveria ser remexido. Ainda mais num filme bárbaro e descabido, escrito de forma absurda, ridícula e tendenciosa.
E o pior de tudo é que os envolvidos são justamente Tarantino e os judeus, que eu admirava muito, cada um à sua maneira. Agora acho-os vulgares, que não são inocentinhos nem melhores que ninguém.
Fica esse gosto ruim na boca, amargo, rançoso. Gosto de hipocrisia braba.

Quinta-feira, Novembro 05, 2009

Chelsea, lately

Há alguns dias assisti a um programa chamado Chelsea Lately. Até agora me pergunto se Chelsea é o nome da apresentadora ou o quê.
A dita-cuja tem uma cara tão sem graça e cínica que assisti-la me deu urticária. É daqueles tipinhos americanos que forçam tanto para ser engraçados que se tornam vulgares e feios.
Os entrevistados dela idem. Cada um competindo para ser mais espirituoso e rápido nos comentários sarcásticos e amargos sobre a vida alheia. As subcelebridades comentadas provavelmente sorriam condescendentemente da pobre moça e seus companheiros de esculhambação.
Mas como eu estava levemente alcoolizada e o controle remoto tem botões demais (e, tendo o copo de vinho em mãos, nada mais me importava), continuei assistindo àquele embaraçoso programa.
O assunto eram as mulheres (perdoe-me, leitor) "lobas" - velhas que gostam de namorar moços mais novos e os motivos pelos quais esses garotos se submetem a isso, que não vou comentar porque vocês sabem muito bem.
Em dado momento a apresentadora (Chelsea, talvez? Ah, que se dane) comentou que passou o final de semana no Rio com seu namorado e isso acabou com a imagem que ela tinha do Brasil e suas mulheres "maravilhosas".
Ela imaginava que as brasileiras fossem todas lindas e gostosas, porém todas que viu eram velhas gordas, queimadas de sol, de fio-dental e - ao que parece - a moda no Brasil é ter celulite.
Nesse momento quase fiquei sóbria porque, de fato, ela deve ter estado no Brasil. Caso contrário não teria falado com tanta propriedade. Mas essa gente daqui insiste que no Brasil só existe gente linda e que o resto do mundo é feio.
A verdade é que o Brasil é brega e as velhas daqui não sabem mais se comportar. Acham que são "lobas" e que mostrar o traseiro aos 70 anos é lindo e digno de aplausos. E realmente o que se vê na praia são mulheres esturricadas e pelanquentas que se acham A deusa.
Ninguém tem que ser perfeita, entretanto. Até a Gisele um dia envelhecerá (duvido) e embarangará (duvido).
Porém, não se trata de ser linda sempre, e sim de saber se comportar. Criem vergonha, coroas obscenas! Ninguém quer ver seus traseiros laranjados cheios de dobras e crateras em biquínis que nem suas netas deveriam usar.
Envelheçam com dignidade, usem roupas e acessórios apropriados, não nos matem de vergonha pelo mundo afora.
Incrível.

Quinta-feira, Outubro 22, 2009

"Emma Bovary c'est moi!"

Esses dias uma colega comentava sobre sua decepção ao conhecer um autor de cujos livros gostava. E se sua fascinação ao conhecer um autor de cujos livros não gostava.

Não por acaso, o autor que a decepcionou é brasileiro. Segundo ela, ele "é deselegante de todos os modos possíveis". O outro, português, é "um gentleman, educado, sofisticado, classudo, irresistível". Palavras dela, não minhas.

Refleti longamente (3,19 segundos) sobre isso e cheguei à excelsa conclusão de que, realmente, não devemos querer conhecer os artistas. Não conheço nenhum artista consagrado pessoalmente, mas acredito mesmo que não gostaria.

Eu idealizo os autores e os imagino como personagens de seus próprios livros. Não há como não imaginar Poe como um homem melancólico como Usher, Lovecraft como um homem neurótico perseguido por criaturas estranhas e imaginárias, Alexandre Dumas como um cavalheiro barrigudo e bonachão de espada à cinta e um copo de vinho à mão, recitando poesia, etc.

Conhecê-los e saber que ficavam em casa em roupas comuns olhando pela janela e consultando o dicionário, reclamando da empregada e roendo unhas é muito chato. E pior seria sabê-los mesquinhos, preguiçosos, mau-humorados, céticos. Afinal, a arte é beleza e não dá para imaginar gente feia fazendo arte.

Um de meus atores preferidos jamais se dá a conhecer, nem sequer a colegas. Ele mesmo disse que mal conhece outros atores e que nunca interage com eles fora de cena. Um belo dia vazou na internet uma discussão dele (um bate-boca da pior espécie) com um colega de trabalho. Fiquei arrasada. Então é um simples zé-mané? Apenas um bom ator? Ele não é bom em tudo? Não é valente como seus personagens, paciente, engraçado, corajoso, amoroso, etc? Então é um cara normal que provavelmente reclama da empregada e rói unhas? Que péssimo.

Terça-feira, Outubro 20, 2009

Conversa intelectual de um casal...

... sobre I Can Has Cheezburger?

- Shashu papar delícia ração
- Que diabo é isso, enlouqueceu?!
- Estou imitando o gato.
- E gato fala desse jeito?
- Você lê aquele site de gatos todo dia e não sabe que eles falam tudo errado?
- Aaaahhh, então aquilo são os gatos falando...

Sábado, Outubro 03, 2009

Desditosa canequinha

Eu tinha uma caneca de tomar café que me causava constrangimento. Era tão velha e cafona que todo mundo me pedia para jogá-la fora (branca, esmaltada, com flores azuis pintadas). Foi com o coração pesado que me desfiz da minha relíquia.
Comprei uma moderna e elegante caneca vermelha de plástico que pode ir ao microondas e ao freezer (não tenho nenhum dos dois).
Todas as manhãs tomo café na supracitada e ela adquiriu um cheiro peculiar (de café, imagine!), de modo que quando ia tomar outra coisa (água, nescau, vinho, chá) tudo tinha aroma de café.
Essa semana tive a magnífica ideia de experimentar uma daquelas medonhas sopas instantâneas e, por preguiça de sujar pratos e talheres, fiz na caneca.
A miserável adquiriu um gosto intenso de cebola com parmesão que não diminuía nem com sucessivas lavagens. Apelei para sumo de limão.
A caneca ficou com cheiro de café com cebolas e limão.
Ontem me ocorreu fazer um chá bem aromático e deixar "de molho" para ver se neutralizava os outros odores. Escolhi um de maçã com canela. Deixei o saquinho mergulhado na água durante a noite toda.
Quando fui usar a caneca, o cheiro tinha mudado: tinha cheiro de tiramisu com maçãs, quibe cru e orégano.
Não sei de onde veio o orégano.

Quarta-feira, Setembro 23, 2009

Hoje ainda é Quarta-feira

E portanto, o Sábado ainda não passa de um sonho distante e utópico, angustiante e praticamente irrealizável.

Tédio - agora em versão de bolso

Anteontem queimei meu melhor cartucho contra os Dias Úteis, ou seja, dormi cedíssimo. Ontem, fiz muito exercício (qualquer atividade que não envolva raciocínio ajuda a combater os Dias Úteis).
Hoje, resolvi responder um meme. É que não exige raciocínio - só talvez um pouquinho de franqueza - nem esforço físico.
Além disso, estou numa fase cute (olha pra mim e diz que sou cute) e o Verão está às portas. Adoro Letras Maiúsculas.
Vamos ao meme?

Le list

1. Mood: Modorrenta e pessimista.

2. This morning I told myself to: Me afastar o máximo possível do telefone.

3. Three bits of makeup advice: Beba água, não tome banhos escaldantes e faça o favor de usar filtro solar direito, criatura!

4. Last text message I sent: Ok, obrigada.

5. Eyes/lips/cheeks: Olhos: Lápis sombra marrom Avon, mascara alongadora Abelha Rainha e corretor de sobrancelhas Wet'n Wild. Lábios: Tinha batom, mas comi. Cheeks: Filtro solar.

6. Worst current skin issue: Espinhas próprias da (muita) idade.

7. ____ makes me happy. Minha horta.

8. ____ makes me bitchy. O hemisfério Sul.

9. Outfit: Calça de pular brejo, cinto e camiseta verde. E sapatinhos peep-toe.

10. Weekly goals: Sobreviver aos Dias Úteis e chegar ao Sábado lúcida o bastante para usufruí-lo.

E você? Como vai sua semana?

Segunda-feira, Setembro 07, 2009

Segunda-feira, feriado

Essa noite eu sonhei com o Gugu Liberato. Sonhei que ele era homem e tinha se casado com uma mulher. E que eles tinham filhos.
Mas voltando à realidade, hoje é feriado e estou ociosa, com o humor esplêndido de sempre e com preguiça. Sete de Setembro é uma data estonteantemente indiferente para mim, exceto talvez pelo Rally da Independência, mas como é longe, nem ligo.
Pensei em retomar o mundo de RPG que estou escrevendo (mentira, isso só me ocorreu agora) ou dar banho na minha gatinha (só mais tarde). Se não fosse pelo sol, eu sairia. É que gosto de dias claros, ensolarados e com ventinho, mas detesto tomar sol e meu dia acaba se o sol bate na minha cara.
Eu sou a única pessoa que conheço (eu me conheço, oi) que anda por aí de chapéu - de chapéu mesmo - para me proteger do sol. Não é moda. Não é disfarce. É proteção. Por falar nisso, mandem-me links de chapelarias que entreguem na borda do mundo e cujos chapéus sejam lindos e baratos. Ficarei feliz em retribuir indicando lojas de tupperwares e pincéis para gouache.
Estou a fim de fazer compras e meu banco não está me ameaçando, então acredito que ainda posso gastar nos sites de cosméticos, mas tem outra pessoa me vigiando (na verdade não, mas preciso pensar que sim senão vou lá e gasto tudo).
Há um mês ou mais eu resolvi fazer uma horta. Como manda o figurino, encomendei sementes orgânicas de um país distante que vieram por Correio e custaram uma fábula. Plantei-as aleatoriamente em vasos e hoje tenho uma pequena lavoura de alimentos não-identificados (as sementes vieram misturadas e não sei diferenciar um pé de milho de uma couve). Estão a coisa mais linda! Porém os vasos são pequenos e não sei até que tamanho elas crescerão. Se alguém tiver dicas, aceitarei com gratidão.

Um pé de alface. Ou não.

Tudo isso para dizer que estou lendo um livro estranho e estou com preguiça de continuar. Se alguém já leu "Shikasta" da Doris Lessing, por favor me conte o final.
Agora com licença que vou vagar por outros blogs e fazer comentários impróprios.

Domingo, Agosto 23, 2009

O porquê de tudo

A vida é um negócio péssimo. Viver, dormir, comer, ter cabelo, tudo é ruim.
Algumas pessoas nascem feias, outras bonitas. Aleatoriamente. Umas são ricas, outras bondosas, outras são cegas, outras são pilotos de jatos da Força Aérea. Nunca é igual para todo mundo.
Fico pensando que isto é injusto. Por que Deus nos fez assim? Sei que é pecado questionar isso, afinal ele é o oleiro e faz o barro como quiser, blábláblá. Mas quem fez o vaso questionador foi Ele. Sabia que íamos pecar e nos fez assim mesmo.
Em última análise, é pecado existir. Então o pecador é quem nos fez existir. É o mesmo que pintar um quadro de vermelho e o proibir de ser vermelho, sabendo que ele o será. E instituir um castigo para isso: a obliteração. Ou o fogo do Inferno, sei lá.

Fico imaginando o dia da Criação, Deus e o Verbo lá em cima no nada, voando.
Aí Deus tem uma idéia.
- Sabe, Filho. Eu andei pensando. Por que a gente não cria o homem?
- O homem? O que é isso?
- Um animal que eu pensei. A gente cria vários deles e põe num planeta. Eles e outros animais diferentes.
- Pra quê?
- Como, "pra quê"? A Arte não tem que ser utilitária. Para ter, .
- E esse homem vai fazer o quê?
- Vai viver mediocremente e morrer.
- Morrer? Tipo, deixar mesmo de existir?
- É só por um tempo. Depois ele ressuscita.
- E vai ficar nisso pra sempre? Morre-ressuscita-morre...?
- Não, . É assim: a gente cria um e estipula um tempo de vida. Dependendo de como ele agir nesse tempo, poderá ressuscitar. Se agir mal, morre pra sempre. Entendeu?
- Mais ou menos. Então ele vai ter corpo?
- Sim, já pensei em tudo (abre os blueprints do projeto). Tá vendo? Esse aqui é o homem. Esse aqui é o irmão dele, a companheira fêmea.
- Esse é mais bonito.
- Nem sempre, Verbo. Pensei em fazer cada um de um jeito. Uns assim, outros mais feios... esse aqui sem pernas, ó. E esse com um braço a mais.
- Que horror, pra quê isso? Uns vão ter vantagens sobre os outros?!
- É, pra gente não precisar interferir muito. Eles mesmos se ferram sozinhos.
- Mas Pai, e o lance de "justo e bom" que tem aqui nessa planilha...
- Ah, isso é um detalhe menor. Quero que uns sejam feios, outros pobres, uns totalmente fodidos.
- E eles vão viver de que jeito? Qual será o sentido da vida deles?
- Isso eu não vou revelar. Meu plano é bem grandioso. Já pensei em tudo: primeiro eles pecam...
- Pecam? O Senhor vai deixar?
- Deixar eu não vou, mas eles vão me desobedecer.
- O Senhor não é todo-poderoso? É só não permitir.
- Mas e a emoção, meu Filho? Não quero um monte de autômatos. Quero que eles escolham.
- Escolham desobedecer. Não vi vantagem.
- Preciso que escolham para que comam o fruto proibido. É assim que vão pecar. Aí, obtêm conhecimento.
- Estranho. Conhecimento é pecado?
- É, quando o afasta de Deus.
- Então não dê o conhecimento.
- Mas aí não terão livre-arbítrio.
- Peraí, eles não vão precisar de livre-arbítrio para escolher pecar? Ou vão comer o fruto à força? Isso é contraditório.
- É verdade, vou ter que fazer uns ajustes. Já sei: sabe aquele anjo cretino, que achou que era o bam-bam-bam? Vou botar ele na história.
- Mas esse cara não presta, vai estragar seus brinquedos.
- A idéia é essa, dar um pouco de emoção. Lúcifer...
- Satanás, Pai. Você mudou o nome dele.
- Ah é, nunca lembro. Satanás os convence a comer o fruto do conhecimento.
- Isso vai afastá-los de você.
- É preciso, porque sem o livre-arbítrio, não vão me adorar espontaneamente.
- Então o Senhor vai se dar a conhecer a eles?
- Em partes. Vou confundir um pouco a cabeça deles. Pensei numa sarça ardente...
- Que tal nuvem de fogo?
- E coluna de fumaça, hein? Que me diz?
- Legal. Mas então eles vão ter que Te adorar...
- Oh, não será obrigatório. Eu quero que seja espontâneo e sincero.
- Mas aqui diz que quem não o adorar será morto.
- O salário do pecado é a morte. Nisso Eu sou categórico. Quem pecar, babau.
- Mas não vão ter livre-arbítrio? Bastava eles não comerem o tal fruto. Isso está confuso.
- Ai, Verbo, como você pensa pequeno. Eu quero que eles me amem, e quem não amar será morto. Mas isso é só no final, no Dia do Julgamento.
- Não entendi. Quantos você vai fazer? Uma meia dúzia?
- Nãããão, milhões, bilhões deles. Uns vão morrendo e outros vão nascendo.
- E como é que vai ter um dia em que todos serão julgados? E os que já tiverem morrido?
- Eles ressuscitam. Ninguém poderá faltar.
- Aí eles serão julgados, e os que forem achados em falta morrerão de novo.
- Isso.
- Muito dispendioso. Não dá para cortar os gastos? E se eles viverem só alguns dias?
- Aí não dá tempo de pecar. Nem de buscar o arrependimento e me adorar.
- Então todos vão pecar.
- É claro.
- Não vai sobrar muita coisa depois desse julgamento.
- Claro que vai.
- O Senhor está sempre se contradizendo. Se todos vão pecar, por que só alguns vão morrer?
- Ah, vou fazer um acordo com eles. Já estou pegando amor por estes vermezinhos. Eles terão que se arrepender.
- Certo, então todos vão pecar e precisarão se arrepender. Quando aprenderão que pecar é errado?
- Eu pensei em dar exemplos. Primeiro eu executo vários. Olha aqui este projeto (pega uma pasta chamada "Dilúvio").
O Verbo folheia.
- O Senhor vai afogá-los?! (arregala os olhos de espanto)
- Sim, para eles aprenderem!
- Mas eles vão morrer todos! Onde fica o tal exemplo?
- Olha mais para o final. Vai sobrar uma família.
- Ah, Noé. Mas num barco? Isso nunca vai dar certo.
- Vai sim. Eles salvam os animais.
- Assim não vai caber todo mundo.
- Cabe, Eu dou um jeito. Eles só vão descobrir as leis da Física bem depois.
- Então assim eles aprendem com o erro e não pecam mais...
- Não seja simplório, Verbo. Eles vão pecar muito mais ainda.
- Mas então já será permitido? - pergunta tímido.
- Não! O salário do pecado é a morte! Morte, entendeu? Sangue, sofrimento e morte! Quero que me adorem e não pequem. Quem o fizer, vai pagar. Olha só o que eu tenho para eles (joga a pasta "Sodoma & Gomorra" sobre a mesa).
- Vai afogar todo mundo outra vez?
- Não, pensei em algo diferente. Vou lançar fogo e enxofre na cabeça deles.
- Senhor, isto é horrível! (Abre uma planta do projeto) Eles sentirão dor! Olha só essa pele! Olha esse sistema nervoso!
- Eu sei, fui Eu que inventei isso aí. É para eles aprenderem que pecar é errado.
- E se não pecarem vão fazer o quê? Dormir o dia inteiro?
- De jeito nenhum! A preguiça é pecado gravíssimo. Eles têm que me adorar. E trabalhar feito loucos para sustentar as crianças.
- Só que a Natureza já vai dar tudo. E se eles vão adorá-lo o dia inteiro, será contra a vontade deles.
- Não, terá que ser sincero. Terão que me amar de verdade. E a Natureza não vai ser essa mãe que você está pensando. Vou dificultar as coisas. Neguinho vai ter que sambar para comer um pão.
- Assim fica difícil te amarem: uns nascerão feios ou burros, e sobre isso não terão escolha. Terão livre-arbítrio, porém tudo o que escolherem que não seja adorá-lo será pecado. A Natureza será perigosa e eles vão ter que trabalhar. O Senhor vai exterminá-los e só deixar umas testemunhas de que pecar é errado, mas não os impedirá de errar outra vez. E os fará pagar pelos erros com sangue, sofrimento e morte!
- Exatamente! Meu plano é ambicioso. E é aí que entra meu acordo com eles.
- Ah é, o acordo. E qual é?
- Alguém vai morrer por eles.
- Boa idéia! Isso é misericordioso. Assim eles serão gratos e o adorarão. E não precisarão morrer para satisfazer suas regras. Quem será o felizardo? Satanás?
- Não, você, meu Filho.
- EU?! Eu nem tenho parte nisso! Só passei para perguntar como tem passado, ver o que o Senhor anda fazendo...
- E agora já viu. Você vai me ajudar a criar tudo isso. Eles precisarão de ajuda, também. Como recompensa, você será o Rei deles.
- Mas eu não quero ser rei, nem de coroa eu gosto. Eles fazem tudo errado e eu vou pagar a conta?
- Sem isso não sobrará nenhum. Quero que eles continuem a existir. Os que acreditarem que você morreu por eles serão os escolhidos. Farei um lugar bem bonito, chamado "Reino de Deus". Vai ser uma espécie de Disney, mas com uns carneirinhos, e esse tipo de planta que deixa a pessoa feliz...
- Tá, mas por que Eu? Por que o Senhor não os faz sem pecado, para eu não ter que ir lá morrer?
- Mas você não vai só morrer. Você vai viver lá, como um deles. Por apenas meia hora, mas parecerão trinta e três anos. Já expliquei que não posso fazê-los sem pecado, se quiser que me amem livre e espontaneamente.
- Eu não quero viver lá desse jeito! O Senhor faz suas criaturas imperfeitas e eu tenho que nascer num corpo fedorento e frágil, passar por humilhações e morrer? Não tem outro jeito mais fácil?
- Infelizmente, não. Mas eles vão te amar, acredite. Quer dizer, não todos. Alguns vão te crucificar. Mas depois você volta pra cá.
- O Senhor vai jogar fogo e enxofre na minha cabeça?
- Eu não vou fazer nada. Quem vai te matar são eles próprios. Eles é que vão te matar. Mas de todo jeito é sangue, sofrimento e morte, então pra mim está valendo.

(O Espírito Santo surge num canto e vem falar com o Verbo)
- Verbo, vim ver se nossa partida ainda está de pé.
- Não vai dar, Espírito. Meu Pai vai fazer uns negócios e eu tenho que ajudar. A gente joga outra era.

(Deus se aproxima, expansivo e genial)
- Você também vai ajudar, Espírito! Vou precisar de um boy para levar meus recados. É só por uma eternidade, depois você volta. Você vai amar meus hominhos!
- Por que o Senhor não manda um anjo? Já estou muito atarefado.
- Okey, mas as tarefas de confiança é você quem vai fazer.
(O Espírito Santo vai embora, voando)

- Mas Pai, como é que eu vou nascer lá?
- Eu pensei em tudo, Filho. Já tenho até o slogan, olha aqui nesse folder: "O Verbo se fez carne e habitou entre nós". Que tal, hein?
- Mas eles vão me matar! O Senhor mesmo disse! Como é que vão me amar e depois vão me matar?
E por quê num corpo humano? Não posso ser uma formiga? É bem mais bonita, resistente... olha as anteninhas dela (mostrando os croquis do modelo).
- Não, não. Tem que ser como homem mesmo. É uma questão de credibilidade. Eles têm que ver que você estará lá por eles, entende? O sofrimento e a morte têm que ser como se fossem deles. Estou sendo claro?
- E eu vou ter que criar eles com o Senhor...
- Claro, senão você não vai amá-los. Como vai morrer por uns zés-manés que você nem conhece? Não pode ser de bobeira, tem que ser um negócio sério.
Já escolhi sua mãe. E você vai ter até nome, sabia? Vai se chamar Jesus!
- Jesus? Não pode ser Átila?
- Não, já escolhi esse nome para outro cara.
- O Senhor sempre pega os nomes bons para seus personagens! Para mim só sobra Emanuel, Jesus, esses nomes...
- Mas quem é que está mestrando isso aqui? Tive o maior trabalho de imaginar um mundo, criar as regras, montar o sistema, fazer personagens, e você só reclama! Quando eu for jogar suas aventuras, vou meter o bedelho em tudo. E os dados são meus, Eu jogo os dados!
- Tá, então vamos criar isso de uma vez, seja feita a sua vontade e não a minha.
- Tem que ser na seqüência, do jeito que está no projeto. Quando eu contar três: Um, dois... três!
- Faça-se a Luz! - disse o Verbo bem alto.
A luz surgiu, e Deus viu que isso era bom.
- E agora?
- Agora a gente descansa. Amanhã faremos o céu, depois a terra, e por aí vai.

(Alguns dias depois)
- O que vamos criar hoje, Pai?
- Hoje vamos criar enxames de seres viventes para habitar isso que a gente já fez.
- "Seres viventes"? Não tem nome melhor pra isso?
- Sei lá, "ácaros"? "Áscaris"?
- Não, acho melhor "animais", que tal?
- Mais ou menos. Capricha nessas palavras aí, hein, Verbo!
- Mas esse aqui é difícil! Tem bichos demais, e o Senhor fez uns parecidos... Olha esse aqui, meu Deus!
- Estou vendo. É pra fazer assim mesmo. Manda brasa!
- Shazam!
- Que merda é essa de Shazam?! Mas você quer mudar tudo? Sou Eu que mando nisso aqui e você vai fazer direito, moleque.

O Verbo fez como estava no script, e os animais surgiram.
- Que diabos é aquilo lá embaixo? - perguntou o Verbo, indignado.
- O nome daquilo é "girafa". É pra ser assim mesmo.
- Com aquele pescoção? Pai, você me mata.
- Mato sim, Filho. Mato sim. Mas antes vamos criar o homem, para começar a festança.

O Verbo fez lá um homem muito mais ou menos, e para sua repugnância, Deus tirou a mulher da costela dele.
- Custava ter me falado? Eu faria outro igual a esse, porém fêmea.
- Isso é um simbolismo, tem que ser desse jeito. Tudo tem um propósito.
- Sei. E agora?
- Agora a gente larga eles pra lá.
- É só isso? Não tem que fazer mais nada?
- Não, é só deixar eles aí que vão começar as loucuras. Satanás vai declamar a fala dele em instantes. Quero estar na primeira fila; não vou perder isso por nada.
- E depois vamos ver o que eles...
- Depois Eu não vou ver nada. Se quiser pode ficar assistindo; eu já sei o que acontece. Vou tirar um cochilo. Me acorde no dia do Juízo Final.