terça-feira, setembro 30, 2014

Canseira da vida

Parece cansaço, mas é tristeza. Lá no fundo, onde ninguém chega, algo belo morreu.
As ondas brandas de melancolia que chegam aos meus olhos escondem a fúria contida, a espuma do mar, a tempestade.
Em meio ao negror das nuvens, relâmpados ferem os ares com meus gritos de pavor oculto, afogado sob a massa de águas que se revolvem na minha alma.
A paz existe. Uma vela branca enfunada pela brisa, um fio de fumaça que sobe alegre para o céu.
Mas não hoje. Não aqui. Eis-me náufrago lutando contra o mundo sozinho, sem eira onde me assentar, surdo aos murmúrios da terra e do ar que continuam a existir e a viver, a despeito da minha revolta.
Uma rosa se afoga no mar de desgostos mundanos e trivialidades sórdidas, e suas pétalas de prata são para sempre sepultadas antes mesmo de florescer aos olhos do mundo.
Hoje sou trevas, e chumbo, e horror. Hoje meu sangue congela e apodrece nas minhas veias. Amanhã, quem sabe, renasço como de costume, de sob os montes de pó, de sob os restos da minha face neutra morta e convincente.
E aquilo que pouco se mostra sob a forma de cansaço passará a ser, de fato, uma imensa canseira da vida.

segunda-feira, setembro 15, 2014

Os olhos castanhos

Arlena parou em frente do espelho e se olhou por um longo tempo, sem na verdade enxergar. Apenas fitava seus olhos negros no reflexo, e sua mente vagueava por paisagens perturbadoras de eras passadas, por brumas sinuosas e fétidas em planetas distantes, por céus de cores desconhecidas e por notas de sons estranhos.
Seu rosto pálido era como uma tela pronta para receber tinta, como um palco pronto para receber atores. Nada havia de mais vazio que seu rosto; nem mesmo seu coração...
Arlena desviou os olhos de sua imagem e sorriu.
“Coração”, disse em voz alta.
Seus braços finos tremiam de frio. Os azulejos brancos das paredes pareciam incrivelmente velhos. “Quando a enfermeira virá?”
Sem sua medicação, ela se perdia cada vez mais profundamente na selva de pensamentos obscuros e lugares desconhecidos. Apenas uma vez vislumbrou a paz em seus pesadelos: grandes olhos castanhos cheios de afeto olhavam-na direto na alma, enchiam-na de calor e pareciam sorrir, a despeito da solidão que a cercava. Nunca soube de quem eram aqueles olhos, mas sabia, de alguma maneira, que não eram fruto de sua alma deturpada.
“Quando a enfermeira virá?”
O pequeno leito no canto do quarto parecia pequeno demais para conter seus sonhos, e Arlena andava pelo quarto tentando escapar do hálito de podridão que emanava de sob a cama, das frestas da porta, do piso frio, da luz azulada que se infiltrava pelas vidraças da janela.
Ouvia de novo o som nauseante da flauta. Parecia poder ver o horror que soprava aquela alucinação, solto no vazio desde sempre, a ignorá-la.
“Pobre Arlena”, pensou.
A penumbra era boa, a luz era ruim. O frio era bom, o calor era ruim.
Arlena tentava cansar-se para se opor ao medo que a invadia, e andava pela sala em busca de uma solução. Visualizava uma estrada, caminhava por ela, mas sempre acabava nas estepes cinzentas cobertas de fungos e de névoas espectrais de cores bizarras.
Há muito tempo tinham levado todos os livros embora, mas Arlena se lembrava deles, ela os via – Oh! Os mortos!
“Quando a enfermeira virá?”
A porta se abriu de repente e aqueles belos olhos castanhos se aproximaram de seu rosto. Podia sentir o cheiro de coisa viva, de calor e de afeto. Sentiu-se aninhar nos braços e no peito daquela criatura, e sentiu-se como uma árvore, como algo que tem raiz... sentiu vida correr em suas veias e sentiu o chão sob seus pés. Arlena estava feliz. Seu sorriso era tão belo e sereno que poucos ousaram se perguntar a que atribuí-lo, quando ela foi encontrada sem vida pela enfermeira, num canto de sua cela.

quarta-feira, abril 30, 2014

Renovação

Ajeitou a lapela do casaco e olhou o próprio reflexo no vidro da prateleira. Mordeu a ponta do dedão. Era realmente um azarado. 
Havia sido deixado pela amante por meio de um simples bilhete, recebido no dia anterior, à hora do almoço, depois de ter sido recusado em três entrevistas de emprego e de ter tido uma desagradável discussão com a esposa alguns dias antes.
Tudo lhe parecia abafado e morno. 
Desceu as escadas devagar, revirando a chave do carro entre os dedos. Voltaria ao antigo escritório, para trabalhar com a chefe autoritária, e dois colegas absolutamente estranhos (desconfiava que um deles fosse russo ou tivesse algum transtorno). 
Havia imaginado tanto para a própria vida. Havia almejado tantas coisas. Seus planos eram saudavelmente realistas e em nenhum momento quis algo de inalcançável. Ainda assim, seus esforços foram insuficientes.
Abriu a porta de correr que dava acesso à rua e sentiu mais frio do que esperava. Estava contrariado e sentia-se gasto e velho. Não era caso para chorar, mas havia uma expressão birrenta e furiosa em seu rosto. Queria mandar todo mundo à merda. 
A caminho do trabalho, guiou distraidamente, evitando ruas lotadas e áreas comerciais. Mastigava sem vontade um cigarro enquanto ouvia o chiado do rádio. Por um momento, hesitou entre voltar para casa e seguir em frente. 
Reduziu a velocidade em frente a uma loja pequena e vazia do centro. Na vitrine, manequins semivestidos com os lançamentos da moda, um cartaz de promoção, bugigangas sem valor. 
Parou o carro, entrou na loja e fez umas compras. Chapéu, algumas camisetas brancas, algumas revistas. Suas últimas cédulas foram morosamente passadas para a mão da moça do caixa, que o olhava com autêntica indiferença. Entrou no carro, acendeu outro cigarro e virou na próxima esquina. 
Refez seu caminho como se voltasse para casa. Passou em frente ao prédio, mas não parou. Seguiu em frente até a rodovia. Olhou o marcador de combustível e concluiu que não precisaria parar por um bom tempo. Dirigiria enquanto pudesse. Dirigiria sem parar. Desligou o celular, aumentou o volume do rádio e desejou que jamais tivesse que fazer o caminho inverso. 
Haveria de esquecer o próprio nome.

segunda-feira, outubro 28, 2013

Criança desaparecida

- Leite de verdade? Onde quer que eu arranje leite de verdade? Você já viu uma vaca alguma vez na sua vida?
- Mas este leite é esquisito...
- Olhe aqui, garoto, eu não sei de onde você vem, nem quem criou você, mas não existe uma vaca sequer num raio de 300 Km. Portanto, se você experimentou leite, deve ser filho de algum rico ou deve estar delirando. Eu nunca provei leite. E este aqui está muito bom, é de milho, eu mesma fiz. Leite de vaca, onde já se viu?
- Eu como carne no almoço todo dia...
- Chega dessas mentiradas. Ninguém come carne há séculos. Além de nojento, é raro e caríssimo. Só um membro da liga pode ter pombos, peixes e essas coisas todas...
- Meu pai tem um rancho com mais de cem ovelhas.
- Ovelhas? Escute aqui, moleque, se não parar de inventar histórias, eu vou dar esta caneca para a sentinela. Todos nós aqui passamos fome, e a comida mal cresce nessa terra cinzenta. Não existem cem ovelhas no mundo. Seu pai deve estar procurando você, ou acha que os captadores já pegaram seus órgãos. Crianças não andam sozinhas por aí, então alguém deve estar à sua procura. Enquanto isso, é só uma boca a mais para eu alimentar. Não quero perder a paciência com você, então pare com as mentiras.
- Não é mentira!
- Então quem o trouxe aqui? E por que essas suas roupas?
- Eu vim sozinho pra cá. Na minha escola tem um túnel... eu e meu amigo entramos. Aí eu achei a caixa. Eu não quis mostrar para ele, porque ele ia tomar de mim. Ele sempre toma tudo de mim. Levei a caixa para casa e escondi no celeiro. À noite, depois de jantar, eu fui para lá e...
- Você anda assimilando textos demais...
- E quando eu abri a caixa, tinha muitos botões e telas. Eu fiquei mexendo nela para ver se era uma televisão...
- Televisão? Como assim, televisão?
- De tanto eu mexer, acendeu uma luz vermelha. A tela ficou iluminada e quando eu coloquei a mão nela, senti um frio e um calor. Uma luz bem forte acendeu e iluminou o celeiro inteiro. Quando essa luz apagou, eu senti muito frio. Aí eu vi que não estava mais no celeiro do meu pai. Fiquei escondido lá nas predas...
- "Pedras".
- ... nas pedras, onde você me achou.
- Então você não veio de longe? E esse seu sotaque estranho?
- Eu não saí do lugar... só acendeu a luz...
- Espera. Tinha uma caixinha com você lá nas pedras. Era aquela a caixa que acendia?
- Uhum.
- Esvazie os bolsos.
- Por quê?
- Vamos. Coloque tudo em cima da mesa. Deixe-me ver. Moedas antigas?... um lápis? Lápis? E o que é isso?
- Chiclete.
- O quê?
- Chiclete. É um doce. É de mastigar.
- Chiclete? E isso aqui?
- Um celular.
- Celular? Onde arranjou isso?
- É meu, de ligar para meus pais.
- Eu nunca vi um desses na vida. Como funciona?
- Você liga aqui, ó...
- Menino, eu acho que você está ferrado. Se tudo aconteceu como você contou, você está no tempo errado. Eu nunca acreditei nessas lendas, mas pelo visto funciona. Você veio do passado. Você percebeu o quanto aqui é estranho? Viu algo que não conhece?
- Uhum.
- Por isso reclamou do leite. Os antigos bebiam leite de animais. É isso! Lembra-se do campo que atravessamos? Pois é. Depois dele tem um cemitério de máquinas. Vamos até lá, pegamos o que for possível e voltamos para as pedras. Vamos tentar fazer o aparelho funcionar. Você sabe em que ano estava quando veio parar aqui?
- 2012.
- Dois mil e doze? Dois mil e doze na contagem antiga... oitenta e cinco antes da guerra... duzentos antes da... espera! Isso faz uns seiscentos anos! É antigo demais! Eu não entendo de tecnologia tão antiga. Não temos muita coisa hoje, sabe... Qual sua idade, em anos solares?
- Hã? Solares?
- Quantas revoluções? Quantos anos você tem?
- Seis, ó (mostra com os dedos).
- Só isso e é grande assim? Oh! Os antigos viviam bem! E olhe esses dentes! Os captadores dariam fortunas por um como você. Fortunas... poderíamos comprar água, protetores, omnicilina... a vida é muito difícil...
- O que são captadores?
- Não importa... escute... Hoje você descansa. Amanhã vamos ver um amigo, está bem?
- E depois eu vou pra minha casa?
- É... pra casa... vamos ver o que ele consegue... amanhã tudo vai mudar...

segunda-feira, março 04, 2013

O tesouro

Sentei-me no chão da sala e olhei em volta. As paredes, forradas de finas sedas e valiosas tapeçarias, eram de perfumado pinheiro branco.
À minha frente um baú: simples, limpo e sem adornos. Tirei a longa chave da manga. Ela esteve comigo por muitos anos, desde sempre, e suas origens se perdem na bruma das eras.
Estava calmo e satisfeito. Sabia que o tesouro ali contido era o remédio de que meu espírito necessitava: como a água fria de um ribeiro manso, haveria de refrescar-me a alma e me limpar-me de todo o cansaço.
Girei a chave três vezes, e ouvi um estalido: a fechadura azinhavrada se abria, e com um frêmito de curiosidade, ergui a tampa. Dentro do baú forrado de veludo vermelho, apenas um diminuto livro encadernado. Sua capa, de madrepérola, reluzia à luz da vela amarela que queimava lentamente sobre a mesinha, e até a chama parecia alegrar-se curiosa para ver seu conteúdo.
O livrinho se abria aos poucos, em vários compartimentozinhos que continham segredos. Os segredos se manifestavam por meio de adágios, escritos em papel de seda, em delicada aquarela de várias cores, sobre intrincadas dobraduras que representavam, cada uma, um sonho. Dentro de cada sonho, um enigma: uma escultura tão leve quanto a asa de um inseto.
Os segredos de cada compartimento se complementavam, e diante de meus olhos vi abrirem-se as páginas de um novo mundo, um mistério.
Boquiaberto, cerquei-me desse tesouro. Por séculos meditei sobre suas pistas, suas indicações. A cada momento do dia uma nova inspiração me surgia; e incomodado, vasculhava minhas memórias e meu coração. A cada novo desafio vencido, sentia-me revigorado e jovem.
Pouco a pouco, montei o quebra-cabeças, e com os fugazes filamentos luminosos que cruzavam meus pensamentos, teci essa teia, tão ansiosamente almejada.
No momento da conclusão, tornei-me de fato um herói: Ao desvendar a charada, encontrei a resposta para mim mesmo.

terça-feira, janeiro 15, 2013

Ano novo, de novo

Levei dias para me recuperar, mas consegui. Embora o choro convulsivo tenha deixado meus olhos inchados e minhas mãos trêmulas, já sou capaz de escrever novamente.
E vim aqui só para deixar registrado meu veemente e ineficaz protesto contra o não-acabamento do mundo.
É de extremo mau-gosto excitar de tal maneira a expectativa de alguém, e depois não cumprir o esperado. Não entregar o prometido. Não executar o combinado.
Vejam só minha situação! O mundo tinha que acabar!
Para me confortar, um amigo disse que, embora o mundo não acabe, as pessoas todas vão morrer. Sem exceção. Até deu uma melhorada, mas depois ele esclareceu que não vai ser todo mundo ao mesmo tempo. Ou seja, ficamos na mesma: o mundo não acaba, o... povo continua a existir (palavrinha nefasta), a superpopulação só aumenta, a degradação também, e eu aqui sentada reclamando. Não há nada que eu possa fazer a respeito.
Mas de todo modo, eu não poderia deixar o blog acabar uma vez que o mundo persiste; por isso reuni forças, enxuguei o ranho e vim aqui depositar toda minha indignação - e também boa parte do meu tédio - num texto absolutamente irrelevante, mas marcado pelo sofrimento e pela decepção.
Da próxima vez, nem me convidem. Já sei que esse tipo de evento sempre é cancelado de última hora.
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Isso até me fez sentir saudade do deus Bíblico do Antigo Testamento, que dizia que ia fulminar e fulminava mesmo, nunca se preocupou com conta de água ou... de combustível. Era dilúvio aqui, fogo e enxofre ali, o único deus cumpridor de promessas. Mas, mas. Não posso me deixar enlevar pelo passado. O que passou, passou.

segunda-feira, dezembro 17, 2012

Festas de fim de ano e o fim do mundo


Este ano é um ano especial. Além de todos os sucessos dos doze meses de glória que compuseram esta data singular, é bom lembrar que este é o ano do fim.
Sim, todos os seus esforços serão recompensados. Neste fim de ano, teremos, como é de praxe, maravilhosas festas de confraternização em que as pessoas se entopem de rabanada e trocam quinquilharias em festas constrangedoras em churrascarias, ou em casa de parentes com os quais temos relações de amor e ódio e situações financeiras mal resolvidas. Mas além das citadas festas, teremos também um evento vistoso, feliz e realmente importante: o Fim do Mundo.
Também conhecido como Armagedon, Fim dos Tempos, ou como singelamente diriam nossos irmãos lusitanos, o Armagedão, o Fim do Mundo é um evento ansiosamente aguardado pelo mundo inteiro, desde sempre – tanto é que a cada dois ou três ou cinco anos anuncia-se este evento, que infelizmente nunca acontece.
Mas desta vez pode ser diferente; dizem que os Maias previram que desta vez é o fim mesmo (mas eles não disseram nada disso, apenas encerraram a publicação de seu calendário).
Na lufa-lufa de compras de Natal, consumismo desenfreado de bugigangas inúteis, comilança descontrolada de nozes e panetones gordurosos, carnificina furiosa de animais para a ceia e outras atitudes completamente injustificáveis e absurdas, ainda arrumamos tempo para planejar o fim do mundo com requintes de sofisticação jamais igualados nas outras edições do evento.
O fim de ano é época de crianças ranhentas e gritalhonas rolando no piso dos corredores de lojas, gordas patéticas agarrando pernis na seção de frios de supermercados, sujeitos marrentos arrastando fardos de cerveja para os carrinhos de compra, velhinhas infernizando os solícitos repositores de gôndolas, abatedouros fazendo hora extra para sacrificar milhares e milhares de bichos cujos restos mortais serão o festim de famílias já bastante problemáticas sem a dose reforçada de hormônio e gordura, além de o trânsito se transformar num campo de batalha em que vence quem é mais estúpido e inconseqüente.
Acrescente a isso a maior e melhor festa de fim do mundo, em que todos querem somente o bom e o melhor (já estão estocando água e enlatados desde o fim de outubro para que nada falte), com pequenos focos de guerra inútil pelo mundo afora e os países em desenvolvimento metendo os pés pelas mãos entorpecidos por seus próprios triunfos. Quem não vai comemorar o título de seu time do coração, enquanto faz orações para conseguir pagar as contas em janeiro e obriga o filho a comer tudo porque há crianças famintas na África...?
As festas de fim de ano já têm sua fórmula pronta, mas as festas de fim do mundo são muito mais emocionantes: não sabendo se devemos comemorar ou lamentar, fazemos um misto dos dois, e no dia seguinte é sempre decepcionante e prazeroso verificar que, na verdade, o mundo não acabou. Assim como o ano novo não é novo, nada muda, a vida segue, não cumprimos nossas resoluções nem nos importamos de passar por moles, frouxos e fracotes.
Bem, como sabiamente dizia minha bisavó, o fim do mundo é pra quem morre, então para os que tiverem a sorte de bater as botas no dia 21/12 não haverá decepção – é bom comer rabanadas e distribuir presentinhos nos dias que antecedem a festa.
Eu não sou do tipo mau humorada, não fico resmungando como aquelas tias chatas que fingem não gostar de Natal para chamar a atenção. Eu entro na brincadeira, compro presentes, faço brinde, tudo como manda o figurino. Não que eu ache isso o máximo, mas as pessoas esperam que sejamos normais. Então vamos nós, mais uma vez, passar por tudo isso de novo, gentarada, multas de trânsito, cansaço, gastança – mas desta vez, pelo menos uma vez, o mundo podia acabar de verdade.

domingo, dezembro 09, 2012

A estrela

Subi no palco cansado. Sabia que seria a última vez.
Ouvia os gritos da plateia e não sentia aquela corrente elétrica que me percorria antes, que queimava meus fusíveis e me fazia sentir imortal.
Agora, estava entendiado, diante de milhares de criaturas miseráveis que se agarravam à minha imagem como se eu fosse um mito, uma lenda.
Eu não sou nada disso.
Vi minha mãe morrer lentamente, numa batalha lenta e cruel contra o câncer, e não pude fazer nada. Meu pai, arrasado, bebeu até enlouquecer - ou porque tinha enlouquecido - e vive sozinho. Não quer ver ninguém. Minha irmã vive uma vida medíocre numa cidade grande onde ninguém se conhece e suas filhas nunca viram o campo, o mato, nunca brincaram na terra.
Estou cansado de tocar. O que eu digo já não é o que quero dizer. No começo era; mas o público cria expectativas e agora só posso dizer o que querem ouvir.
Um grande executivo da gravadora cortou oito músicas de um álbum novo porque "iam decepcionar os fãs".
Fãs.
Que palavra insuportável.
São como ervas parasitas que cresceram no meu tronco e que sugam a vida e não me permitem criar, crescer, abrir minhas asas ou projetar meus galhos imundos sob a luz do sol.
Os outros caras da banda se conformam: o dinheiro é bom e eles gostam de viajar, curtir a vida. Mas para mim isso não é curtir a vida. Usar banheiro de avião e comer lixo de lojas de conveniência não é curtir a vida. Não posso andar na rua, ir à banca de jornal, dar uma volta com a minha mulher.
Há tempos não faço nada disso.
Minha mulher não reclama, mas ela quer ter filhos, quer me contar como foi seu dia, quer ir à praia. Eu não posso fazer nada disso. Não sou um companheiro para ela, sou um fardo.
Às vezes queria que ela arranjasse outro cara menos paranoico, alguém mais simples e feliz.
Mas não tenho tempo para discutir relações, nem para me divorciar. Além de tudo ela me faz bem e preciso de alguém como ela, confiável e que não me cobre o tempo todo para "curtir a vida".
Eu quero que a vida se dane.
Mais uma vez eu começo o show. Aos primeiros acordes todo mundo uiva como lobos feridos; esta música é um statement, uma obra-prima, que na época significava minha própria essência e como eu via o mundo. Hoje, é apenas uma repetição mecânica do mantra cósmico que encheu meus bolsos de dinheiro e botou uma corda no meu pescoço: se você se afastar muito, vai se enforcar.
Malditos fãs. Vocês me amam sem me conhecer. Sabem tudo da minha vida: onde vou, com quem durmo, o que como e o que faço. Sabem o nome do meu cão e das minhas sobrinhas, o meu prato preferido e a que eu sou alérgico. Mas não me conhecem. Nada. Não sabem quem sou sob a pele, meu ardor, minha luta, meu maior medo. Não sabem com o que tenho que lidar quando abro o chuveiro e a água morna me limpa de toda a melancolia e escorre com meus sonhos para o ralo, me deixando sóbrio, correto, mas sem um pingo de vontade de continuar.
Eu não vou tolerar essa violência.
Grito desesperado ao microfone como quem grita ao próprio Deus; não odeio vocês, mas preciso de alguém em quem possa me apoiar, não posso ser dessa maneira, não posso sentir minha garganta ser apertada por suas garras egoístas.
Me sinto tão pequeno.
E durante o show inteiro respondo com brutalidade, com fúria: destruição, auto-destruição, raiva, impotência, caos. Lançam coisas para mim: camisetas, óculos, flores, bandanas, mensagens. Pequenos pedaços de suas almas miúdas e tímidas. Querem ser deuses. Subam aqui e verão que não sou nada disso, sou menor e pior que vocês.
Ouçam a letra dessa música: ela fala do que eu era. Eu era como vocês: cheio de desejo, de inocência e de vontade de fazer algo novo. Eu era um vulcão em erupção.
Agora mastigo um cigarro enquanto soletro esses versos olhando para o horizonte, e parece que estou cantando, mas este é um lamento de dor.
Dedilho simples minha armadilha, e dela sai beleza, fúria e um adeus. Este é o presente da minha alma.
Esta noite vou dormir com os anjos.
(Da série: memórias de fatos que nunca ocorreram)

quarta-feira, novembro 28, 2012

O plano

Zafira olhou por sobre o ombro esquerdo. Atrás de si, no salão do palácio, doze heróis de guerra contavam seus feitos e celebravam suas vitórias com vinho, música e aromas.
As dançarinas, intoxicadas pela fumaça, moviam-se em transe, com seus olhos baços, e deslizavam languidamente os dedos pelos dorsos dos leopardos que circulavam pelo aposento, procurando restos do banquete dos guerreiros.
A música inebriante ondulava sombria pelos corredores de pedra, entrecortada por risos e sons de golpes de armas.
Bem humorados, os valentes lutavam entre si, e Zafira os observava, como a um bando de meninos agitados nos pátios.
Constultaria o mago, pensou - exigiria a resposta para tamanho descontentamento.
Sete luas de batalhas, onze cidades rendidas, dois rios conquistados, oito poços de plemenite, duas naves de guerra e mais de cem híbridos Lepa. Tudo ia bem. O Rei Pravice, enlevado pela própria vitória, absorvia os aromas de olhos fechados e sorriso no rosto, deixando-se relaxar até um torpor de semiconsciência que misturava sonhos às memórias recentes da guerra.
Zafira queria suas próprias vitórias. O controle de Domena não lhe saciava a sede de poder; era uma mulher sombria, de furtivos olhos dourados e brilhantes e pele cor de camurça.
As carnes nuas dos soldados dourados pela estrela lhe causavam repugnância, e ao contrário das outras cortesãs, jamais embarcava nas navilhas dos síngaros, nem aceitava suas drogas. Seu maior desejo era o trono de Pravice, e este agora jazia sonolento no divã, enquanto uma plesalka de ébano se contorcia ao som da música para seu contentamento.
Havia de trazer Junak, que descansava em Domena, para ajudá-la no plano. Os híbridos lhe seriam úteis, com seus jogos mentais, para dominar a fortaleza de Pravice. Junak era um homem neutro, e jamais questionava ordens, quando lhe pesava o alforje e suas bolsas de plemenite.
Faria dele seu parceiro, e lhe daria vitórias, seu nome em romances, bolas de ouro e quaisquer outras coisas que desejasse... se Allerit fosse inteiramente seu, com seu satélite negro e todas as suas riquezas.
Todas as profecias traziam a imagem de uma mulher, e mesmo o abjeto oráculo atual sempre citava em suas visões as garras de uma fêmea sobre o coração de Allerit. Haviam de ser as suas.
Zafira trouxe uma bandeja. Sobre elas, especiarias, aromas entorpecentes e vinho velho. Seu sorriso cortês fez seu irmão suspirar de alegria, e os heróis a comprimentaram com exageradas mesuras. As plesalkas cobriram seus rostos em respeito a sua formosura. Zafira os odiou cegamente: todos sabemos que tais reverências são mera formalidade. Até as bestas e os leopardos a olhavam com piedade. Seca. Murcha. Inumana.
Saiu do salão com passinhos leves e rápidos de princesa, enquanto Pravice e seus guerreiros consumiam suas porções de veneno.

terça-feira, novembro 20, 2012

As pessoas novas

E vocês, pessoas novas, que surgem na minha vida, a princípio incômodas, cheias de espinhos e crostas, vocês que vão abrindo caminhos por meio da minha timidez camuflada de arrogância, e vão se permitindo falar comigo - quando eu mesma não permito - e vão se enfiando em minha vida; vocês não sabem o quanto dói aceitá-los aqui dentro, dentro do meu velho e empoeirado sótão, onde guardo minhas velharias de infância, algumas músicas boas e alguns parentes queridos.
Não que aceitá-los machuque, de maneira alguma, nem que sejam pesados demais ou estranhos: são todos até bem familiares, e até bastante leves, talvez. Mas é que dói em mim achar lugar para acomodar seus vestígios, e arrastar minhas caixas e memórias antigas para que caibam as suas pessoas novas em folha, limpinhas de tão pouco uso, e com diálogos frescos.
É que sou um velho museu pouco frequentado, quase abandonado (como deveriam ser todos os repositórios de velharias), silencioso e abafado em sua existência estática, com úmidas teias estranhas que vão se engrossando com o passar dos séculos, e cujo odor lembra o dos sonhos, das memórias fugazes e dos deja vus.
Queria poder manter-me assim, mas as salas da minha alma são invadidas por calor humano, por sorrisos de dentes à mostra e por tolices faceiras, e aos poucos sinto como se tudo em mim se animasse e o velho prédio se sacudisse, soltando-se de seus alicerces, e saísse por aí a trocar passos hesistantes como os dos bebês, a ranger engrenagens antigas e aquecer velhos filamentos.
Vocês, pessoas novas, tiram-me do torpor monótono e confortável de minha solidão, e ocupam meus devaneios com suas caras coloridas e estranhas, e acabam por arranhar meus móveis e deixar pegadas nos meus tapetes. Deste modo não sou o centro da minha vida, tendo que admiti-los aqui, no meu ser, e carregá-los para todo canto, a consultá-los em pensamento sempre que posso fazer algo à toa.
Ao me empurrarem para o lado, me apertam, jogam fora coisas minhas (e colocam as suas no lugar), e vão-se instalando sem maiores cerimônias, me chamam de qualquer nome e riem da minha cara.
E assim, pouco a pouco, assumem ares de coisa definitiva. Exigem de mim algum zelo, alguma bajulação (não com esse nome, mas outro) e se tornam um hábito. Quando me dou conta, vocês marcaram para sempre seus nomes em meus livros imaginários e fazem parte da minha estrutura. E passo a ser vocês, mas em miniatura, e carrego todos como uma aranha carrega seus filhotes e os ama, mesmo sendo, como são, aranhas - e não anjos de candura ou dinheiro, sei lá.
Vocês, pessoas estranhas, vocês poucos que puderam entrar, agora não quero que saiam, porque já os amo em mim, e ainda que sumam, amarei suas memórias, as marcas dos pés, os riscos nos móveis, os reflexos que os espelhos da minha alma guardaram.
Sem vocês eu morreria.
Só peço que, ao entrar, sejam suaves, e ao sair, sejam breves, e enquanto permanecerem, sejam simples, porque assim caberão todos, e serei, assim, felizes.