Quinta-feira, Fevereiro 23, 2012

Reproduzir

Não quero ter filhos. Isto posto, custa-me caro ter uma conversa razoavelmente normal com qualquer pessoa em qualquer ocasião, sem ter que explicar mil vezes que não sou um monstro e que a vida na Terra não depende da minha pessoa.
É extremamente irritante e invasivo que muitos se sintam no direito de questionar uma escolha pessoal e íntima que fiz para minha vida e sobre a qual não consultei ninguém nem pedi opinião.
De repente, sinto-me pressionada a produzir uma criança apenas para livrar-me da cobrança indevida e mesquinha de meia dúzia de pessoas.
Não me parece sensato que reproduzir deva ser o objetivo final da vida, embora possa perfeitamente sê-lo para outras pessoas. A mim não cabe esta demanda. 
Não me sinto inclinada a abrir mão de certos confortos, hábitos e (por que não?) sonhos, apenas para fabricar uma outra pessoa. Quem precisa de mais pessoas? Eu não. Não entendo esse desejo doentio e até móbido que algumas pessoas têm de fazer filhos. E como não entendo, não participo dele.
Estes que me cobram parecem desesperados para preencher algo em suas vidas e acreditam que eu também sinto esse vazio. Claro! Como não? Quem sou eu? Para que sirvo a não ser para fazer crianças, como as galinhas que só servem para botar ovos e depois vão para a panela?
As ameaças de um futuro solitário e uma morte sofrida não me convencem. Ou as pessoas acham que filhos são apólices de seguro? E que filho faz de fato companhia para os pais, depois da adolescência? Se for para ter um companheiro divertido por dez ou doze anos e depois ele partir, posso muito bem adotar um cão de médio porte ou um gato vira-latas. Ah, mas tem a velhice tranquila... e que pai tem uma velhice tranquila sabendo que seus filhos estão por aí, sofrem cobranças, ameaça de desemprego, correm risco de morrer num assalto ou num acidente doméstico, e podem deixar seus próprios filhos para ser criados pelos avós que não querem saber de crianças e precisam de tranquilidade...?
Na pior das hipóteses um filho pode ser um fardo desgastante e um sumidouro de dinheiro para o resto da vida. Não que eu espere que seja assim, mas quem não conhece alguém nessa situação?
A gravidez é outra bizarrice que me apavora e me faz tremer. Meus amigos machos não têm ideia do que estão falando quando dizem que é "lindo" e que toda mulher "tem" que ser mãe. É fácil falar isso quando não são eles que passarão meses inchados e a vomitar, com hemorroidas, manchas no rosto, corpo pesado, dores, fome, cansaço, insônia, e depois de tudo isso precisam ser abertos de maneira dolorosa para que de dentro do seu corpo saia uma pessoa que consumirá todo seu tempo e energia pelos próximos 18 anos, no mínimo.
Um deles disse que a mulher fica "linda" durante a gestação. Esse mecanismo evolutivo impediu por milênios que as grávidas fossem abandonadas por seus parceiros e seus filhos passassem fome. Então, ainda que aos olhos masculinos isso seja verdade, aos olhos da própria gestante não é assim. E a coisa piora muito se a coitada sofrer depressão, graças aos oscilantes e malignos hormônios da gravidez.
A gravidez para mim é um horrendo memento mori - um lembrente de mau gosto de que somos frágeis, mortais, e feios. Algumas pessoas vêm assim seus ex-maridos, outras, os cadáveres, outras, os cães sarnentos.
Como se tudo isso já não fosse revoltante o suficiente, existe o argumento do "prazer" de ser pai ou mãe. Esse suposto prazer também impediu, por milênios, que alguns trogloditas jogassem seus filhos em fossas, ladeiras ou poços depois de cansar de sua existência. Bom, impediu alguns, porque muitos foram vencidos e não resistiram: o aborto não é invenção recente, e nem o infanticídio. Então, o mecanismo evolutivo do prazer é falho.
Biologicamente, não preciso reproduzir porque a minha espécie não depende dos meus genes para subsistir. A humanidade continuará, infinitamente, talvez, sem minha contribuição. Aliás, acho até vantajoso que meus genes incorretos e maus não manchem o futuro com suas falhas evolutivas que me impedem de desejar loucamente perpetuar minha linhagem por meio da procriação. Mereço o prêmio Charles Darwin - em vida!
Filosoficamente, sou egoísta e individualista, não creio que faça a mínima diferença para a sociedade que eu ou quem quer que seja abra mão de seus gametas em prol de seus interesses. Sejam quais forem. É irônico que alguns matadores, assassinos, chamem como quiserem, tenham esse prazer mórbido em ter filhos e passar adiante seu gosto por sangue.
E religiosamente, Deus nos mandou crescer e multiplicar, e eu insisto, como um moleque birreto, em não multiplicar nada. Tenho tantos pecados já, que mais esse não me condenará, e uma pinta a mais numa angola fará pouca diferença. Afinal de contas, o livre arbítrio precisa servir para alguma coisa... e a bem da verdade, o que não é pecado? Prefiro sofrer as penas a ir contra o meu desejo.
De modo que, se alguém quiser ter filhos, vá em frente, faça-o, tem meu total apoio (verbal), mas deixe-me em paz para escolher, e não me julgue má ou hipócrita apenas por dizer a verdade e não desejar algo apenas para agradar as pessoas. Devia ser motivo de respeito, quando alguém admite algo que em última instância pode até ser benéfico para outros à sua volta.
E afinal, os que me instam a fazer uma ou mais crianças, e acham que isso é uma coisa obrigatória, por que não se oferecem para bancar a criação? É fácil exigir que alguém assuma uma imensa responsabilidade, se você não tem que participar dela nem financiá-la. Que venha então dormir com a criança, trocar as fraldas, pagar as contas, e sem reclamar - afinal quem faz essa questão toda?

Quarta-feira, Fevereiro 08, 2012

Por que acordei com frio

Fui até a sacada com intenção de assistir ao espetáculo. Havia faltado energia o dia todo, estávamos todos cansados, molhados e enregelados. O abafado e minúsculo cafofo na cobertura de um mal-conservado e plúmbeo prédio do centro mal continha nossos corpos, nossos hálitos, nossas mãos frias.
Depois de subir dezessete andares, não encontrávamos forças para vestir roupas secas ou fazer café. Já tinha passado muito da hora de dormir, e desisti de tentar encontrar qualquer coisa no escuro.
Nosso apartamento velho e feio era sempre escuro e cheirava a mofo; servia de depósito de tralhas ao síndico antes de nos mudarmos para lá. Era bem no centro da metrópole, em meio à fuligem, criminalidade e sujeira, em meio ao dinheiro que nunca chegava às nossas panelas.
Mas hoje era um dia especialmente funesto, visto que a tempestade piorava sempre e tudo havia parado, tudo esperava: os prédios, letreiros, carros e ruas encharcados esperavam ansiosos que aquilo acabasse sem destruí-los; tudo tinha medo da violência dos elementos.
A pouca luz que entrava pela janela vinha dos relâmpagos incessantes que choviam das nuvens rubras e cor de cinza: o céu parecia o inferno, o ar era líquido, a claridade era fosca. Tudo parecia estranho.
Não era possível dormir porque a chuva entrava pelo teto de zinco e pelas janelas mal vedadas. Um pequeno córrego se formou na sala e corria para a porta de entrada, onde encharcaria o capacho (pensei).
Gritei o nome dos meus irmãos e apontei a fenda que chamavam de janela, na área de serviço: se subíssemos na mureta, chegaríamos ao terraço do prédio, onde ficam as antenas e o pararraios. Mal ouvíamos nossas vozes devido ao rugido do vento, como o som de muitas águas*. Parecia o fim dos tempos, e de repente senti-me feliz e acolhida. A tempestade furiosa era uma das maneiras pelas quais Deus podia expressar a beleza, obra sua.
Agarrei-me à parede e me apoiei na mureta para poder enxergar mais longe: As nuvens pareciam lava, e de dentro dela jorrava eletricidade: girando pesadamente, formavam um cone que tocava o chão, e a ponta do cone destruía tudo e revirava a terra. O gelado furacão estava na borda da cidade, longe, e da altura onde eu olhava, parecia baixo. Parecia que ele me via, negro e vermelho e encrespado, soltando raios para baixo, para os lados e para cima.
A chuva me batia com tanta força que desisti de gritar, guardando forças para me segurar, e o vento ameaçava arrancar as janelas de seus caixilhos. Os prédios ao longe, impotentes e pálidos, iam entrando nas nuvens e ficando para trás, e eu não sabia se haviam tombado ou se apenas estava escuro demais para vê-los.
Meus irmãos, desesperados, tentavam me puxar para dentro, gritando frenéticos enquanto a chuva entrava em suas bocas abertas e quase os afogava. Gritavam e tremiam e eu não compreendia. Tudo era silencioso para mim: somente a tempestade podia gritar.
Poucos minutos se passaram mas pude ver a torre flamejante que parecia feita de fumaça, movendo-se gorda e bamboleante, lançando raios como raízes ou lanças... e a torre mudava de forma e de cor, ora negra e fumacenta, ora rubra e pastosa, ora violeta e úmida. De dentro do vórtice saltavam raios que desapareciam em seguida, sucedendo uns aos outros rapidamente, acendendo e apagando janelas na torre, fazendo-a parecer um prédio que perdeu o rumo e enlouqueceu. E enquanto ele girava ao longe, as pessoas tentavam fugir no escuro, ajudadas apenas pela luz das lanças de Zeus, pois eu já não cria que Deus tivesse enviado essa forma de morte tão terrível e devastadora.
Eu sabia que morreria, pois já não tinha forças, e estava fria como um cadáver, e meus olhos ardiam das gotas pesadas que os inundavam. Achei melhor não fugir, nem me esconder. Meus irmãos correram para o corredor do prédio, pisando nas poças d'água, e juntaram-se aos outros moradores que se enrolavam em colchões e cobertores para evitar o choque. (Que choque?)
O monstro se aproximava, e meus ouvidos doíam, talvez por causa da pressão do ar, ou do volume dos rugidos da fera, ou talvez porque estivesse doente. Sentei-me atrás da mureta e baixei a cabeça, pois não podia olhar para ele, com seus milhões de olhos ardentes e maus.
Na manhã seguinte fui acordada pelo vento frio e pelo ronco dolorido de meu estômago vazio. Estava caída no chão, do lado de dentro da área de serviço, e encharcada até os ossos. Meus dois irmãos estavam deitados num colchão molhado, afastados na janela que agora espiava sem vidros, como uma boca sem dentes. Sentia ter levado uma surra, e não pude sair de casa por vários dias. Ninguém morreu no meu prédio, apesar dos grandes danos. Ganhamos algumas roupas novas, de alguns moradores do bairro, e tínhamos de nos mudar.
Muitos vieram me perguntar como é ser engolida por uma força da natureza. Não sei o que responder. Enquanto estive lá dentro e meu corpo era torturado, dormi em paz, serena, certa de que jamais voltaria. Eu vi o monstro por dentro e vi que era mais belo e melhor que as pessoas.

* Apoc 1:15, Ez 32:13, Ez 43:2, Jer 51:55, Apoc 19:6

(Da série: memórias de fatos que nunca ocorreram)

Quinta-feira, Janeiro 26, 2012

Arte

Queria ser capaz de pintar. Pintaria tudo de vermelho. 
Queria ser capaz de fazer poesia. Faria todas azuis. 
Queria ser capaz de dançar. Só dançaria amarelo. 
Quando fosse tocar um corpo, eu tocaria laranja, e para seduzir, seduziria púpura. 
Se eu fosse capaz de fazer música, faria um abecedário, e cada letra teria uma cor e um número. Cada número tem um som perfumado e simples, nunca há mais de uma nota. 
Se eu fosse capaz de enxergar, veria tudo cinza, e preto, e branco (e rosa). 
Queria ser capaz de decifrar o gosto que tem cada cor que ouço quando pinto números… mas os sabores são fugidios e quando estou a ponto de anotar seu cheiro, seu nome, ele me escapa. 
Queria ser capaz de inalar o mundo até inflar minha cabeça e encharcar meu coração de cores e aromas, dos mais acres aos mais límpidos e cardinais. E quando as cores atrás dos meus olhos ofuscassem meus sentidos, queria poder anotá-las numa partitura para poder reproduzir com as mãos, os pés, a língua.

Domingo, Janeiro 22, 2012

Foz do Iguaçu

Cheguei ontem à noite de Foz do Iguaçu. Foi uma viagem cansativa mas muito divertida. Fomos de carro, no melhor estilo Família Buscapé. Isso só tornou tudo ainda mais interessante.
Nos perdemos algumas vezes no caminho, tanto para ir como para voltar. Nada muito longínquo, então voltamos rápido à rota e chegamos bem.
O Estado do Paraná é belíssimo.
Fizemos algumas paradas para nos reidratar e olhar a vista. É uma pena que grande parte do Estado agora esteja coberta por soja, mas também vimos muitos pontos de mata nativa, um gavião enorme fazendo a festa com a grama recém cortada, e alguns outros animais.
Na cidade de Peabiru-PR vimos, à beira da estrada, vendedores de panelas, potes, gamelas e tachos. Fiquei louca de vontade de ter alguns, porque lembram muito as férias no sítio e os doces feitos no interior de Minas Gerais.
Quando chegamos a Foz do Iguaçu fomos logo achar o hotel Villa Canoas pois estávamos cansados, empoeirados  e sedentos. Não foi difícil achar, a cidade é até bem simples e amigável. E em toda parte tem um Muffato ou SuperMuffato, o que facilita a vida (supermercado enorme com praça de alimentação, lotérica e tudo mais). Meu pai aproveitou para jogar na Mega-sena, coisa que faz toda semana aqui também, para não perder o hábito.
Ficamos hospedados em frente ao Batalhão da Infantaria Motorizada, e não pude deixar de imaginar centenas de criancinhas (infantes) vestidos de soldado andando de motoquinhas motorizadas... vruuuummmm... Mas na verdade o batalhão era bem organizado e era muito interessante assistir a rotina os soldados.
De manhã fomos às cataratas. O negócio é grande, viu? Grande. Por sorte estávamos bem dipostos e chegamos cedo. As trilhas são longas mas bem fáceis. Tivemos tempo de ver tudo com calma.
Na passarela da Garganta do Diabo, enquanto eu olhava as cataratas de pertinho, o vento aproveitou para levar meu queridíssimo chapéu. Os outros turistas acharam muita graça, e espero que todos também tenham perdido seus chapéus por lá para verem se é tão engraçado assim.
Aquele rio deve ter toneladas de moedas no fundo. Por algum motivo todo mundo acha que deve jogar moedas lá. Por via das dúvidas, joguei uma também, e fiz um pedido.
Saímos de lá encharcados, suados e felizes. É mesmo impressionante a paisagem e o céu azul de lá. Minha mãe recusou veementemente um passeio de barco pelo rio Iguaçu, então fomos achar outra coisa para fazer. Quando rumamos para a saída, encontramos um fofíssimo quati, manso como um gatinho, perto do elevador. Embora fosse tão manso, era muito tímido e não quis saber de posar para fotos.
Na volta para o Parque Nacional do Iguaçu, sentei-me ao lado de um moço no ônibus e começamos a conversar. Ele é de Ruanda e veio ao Brasil a negócios, mas encantou-se com a beleza e resolveu conhecer as Cataratas antes de voltar à África. Elogiou muito as pessoas daqui e disse-se impressionado com a paisagem. Se bem que, pelo que me contou da África, Ruanda não fica a dever em nada para a beleza natural do Brasil. Perguntei se havia muitos turistas brasileiros por lá, e ele disse que não: brasileiros só vão lá a trabalho. Acredito. Não custa barato uma viagem como essa, e por que a faríamos se nosso país tem coisas tão belas que até quem conhece praticamente o mundo todo ainda se encanta com ele? Pois o rapaz dizia conhecer Europa, Oriente Médio, África e EUA, e ainda assim derretia diante das nossas paisagens.
Depois do almoço fui a Puerto Iguazu, na Argentina, com a minha mãe. Meu pai e meu sobrinho foram conhecer o Parque das Aves.
Voltamos todos frustrados. Puerto Iguazu é uma droga de cidade feia, minúscula, poeirenta, mal organizada e com um povo rude e feio (desculpem, hermanos). O único proveito de cruzar a fronteira foi o grande Duty Free que há logo depois da aduana. Lá comprei uns antirrugas porque ninguém é de mármore e é preciso fazer algo quanto a isso. Mas foi o pouco que se aproveitou da Argentina.
E o Parque das Aves, pelo que entendi, tem poucas aves e cobra caro.
Por fim resolvemos ir ao Paraguai, o que foi péssima ideia, porque àquela hora já estavam fechando tudo e só restavam ambulantes grosseiros e apressados nas ruas. Os shoppings bons estavam lotados. Voltamos logo para o hotel para comer e descansar os pés.
Na manhã seguinte, refeitos, nos preparamos para o retorno. Resolvemos fazer várias paradas para ver melhor as coisas lindas do Paraná. Não sei se já comentei, mas sou muito fã deste Estado e só sairia novamente de SP para morar lá. Ali tudo é limpo e belo, a terra é cheirosa e fofa, de uma cor incrível, e cheia de vida. As árvores são impressionantes, nada é ralo ou minguado, e até a grama tem uma cor mais viva e toque mais macio. As araucárias, perfeitas, destacam-se o tempo todo na paisagem como se acenassem. O horizonte é tão largo e verde que parece que estamos voando.
Paramos em Peabiru novamente, desta vez para encher o porta-malas de panelas. Trouxe uma panela de ferro (pesa meia tonelada, na minha imaginação), uma de barro e um tachinho de cobre. Sabemos que o alumínio não é bom para a saúde, e assim mato saudades do sabor diferente das comidas do interior e ainda cuido da saúde. Minha mãe também arranjou panelas e tachos para todos da família, e voltamos ao som das panelas dançando lá atrás.
Nos últimos 35 Km (isso mesmo, apenas 35 Km) da viagem, pegamos uma chuva torrencial que atrasou em quase uma hora nossa chegada. Rimos demais das confusões que aprontamos num posto, porque meu pai sentou-se num banco bem longe do carro, e cada vez que tentávamos chamá-lo atraíamos a atenção de todos os caminhoneiros parados ali.
Quando chegamos em casa, cansados e um pouco molhados, já era tarde da noite. Fomos botar as ideias em ordem. É bom dormir com meu travesseiro.
As viagens são a melhor parte da vida, mas chegar em casa é a melhor parte de todas elas!

Terça-feira, Janeiro 17, 2012

A folia de Santos Reis

Comecei a ouvir a música lá longe, como se fosse imaginária, ou uma lembrança vaga e impertinente como as que surgem quando o dia está nublado e as horas parecem difusas e nunca sei se é manhã ou tarde ou que horas são.
Aos poucos os batuques e agudos se juntaram e formaram um círculo perceptível e sólido, e pude ver com meus próprios olhos o que aqueles sons desenhavam. Era uma memória antiga minha, que eu nem sabia que ainda tinha (foram tantas faxinas): a folia de Santos Reis.
Aqui mesmo, no mundo real, no Presente, havia uma folia de Santos Reis acontecendo!
E ao passo que isso parecia natural e simples, também me pareceu bizarro, mal colocado e vagamente medonho. A folia de Santos Reis não percente ao Aqui e ao Agora.
Tive medo de vê-la, de ver os palhaços aterrorizantes com suas espadas de pau e barbas de estopa... tive medo da bandeira, das flores, dos pandeiros... tive medo que aquilo me alcançasse e existisse bem na minha frente, e tive também vergonha ou estranho constrangimento.
É óbvio que eu tinha que me esconder. Mas havia a possibilidade de eles baterem na porta da minha casa e eu ficar acuada lá dentro. Ou eu podia correr para a rua e dar de cara com eles.
Os gritos da canção foram ficando mais agudos e longos, como uivos, e eu até podia ouvir os tacões das botas dos palhaços batendo no piso de cimento de alguma casa. Qualquer outro som se tornou nulo: eu tremia de ansiedade e expectativa.
Nunca entendi bem esse meu medo da folia de Santos Reis. São apenas um grupo de músicos e dois ou três palhaços dançarinos. Eles vão às casas das pessoas anunciar as boas-novas (o nascimento do menino Jesus) e recolher donativos para a festa do Divino Espírito Santo. E quando vão às casas, sua chegada é anunciada pela Bandeira do Divino, que é considerada sagrada. Algumas pessoas fazem pedidos ou agradecem as graças recebidas pendurando flores ou fotografias na bandeira. Quando você recebe a bandeira das mãos do mensageiro, significa que receberá a companhia na sua casa. Eles entram, cantam, anunciam o nascimento do Menino, pedem as doações e vão embora levando a bandeira. Além de um pouco pitoresco, deveria ser apenas mais uma manifestação religiosa tradicional, certo?
Não.
Algo nesta representação me é terrivelmente medonho. Não sei se é o fato de ser uma companhia só de homens e o som de suas vozes sair agudíssimo, ou se são as flores e a bandeira com vago toque mexicano (que sempre me lembra Morte), ou se são os terríveis palhaços floridos dançando e lutando com suas espadas de pau... ou se tudo isso parece antiquado e deslocado do Tempo, como houvessem dobrado a história e todos os antigos terrores extintos pudessem retornar à vida... pode ser que tudo isso se embaralhe na minha cabeça para criar um ligeiro ataque de pânico quando ouço o som da folia.
É claro que não fui vê-los. Não quis conspurcar minha memória deste evento com imagens atuais. Talvez meu medo seja esse: o de finalmente me dar conta que o passado já foi embora e que os tempos são outros, minha infância é morta. Não quero. Lembro-me com carinho da minha bisavó nos empurrando (vigorosamente, diga-se de passagem) para obrigar-nos a honrar a bandeira e assistir à dança dos palhaços. Ela era uma mulher de costumes severos e antiquados, como convém a toda bisavó. Não quero apagar da minha lembraça o cheiro da grama pisoteada depois que os palhaços iam embora, ou a imagem da companhia chegando, festiva e colorida, e os cães do sítio enlouquecidos de medo e curiosidade. E também havia as Festas do Divino, as mais belas festas do interior, feitas para juntar o povo e comemorar a esperança que nos dava o nascimento de Cristo. Finalmente, o Messias veio! As pessoas trocavam presentes como os Magos haviam presentado Jesus. Comia-se e bebia-se bem e às custas dos donativos, que eram generosos. Por que eu estragaria todas essas memórias com a visão de um arremedo de folia que passa de porta em porta em pleno século XXI, tentando recuperar à força uma tradição esquecida, cujo público atual não tem o perfil de mantenedores nem de participantes da festa? 
Mal consigo imaginar os atarefados e moderninhos cidadãos urbanos de hoje tirando fotos com seus iPhones e BlackBerries para postar no Facebook. Isso seria uma desonra ao cunho espiritual e amoroso da festa. Leva-se esperança e alegria a uma casa (e provavelmente muitos pesadelos às crianças que moram nela), e ao invés de participar, as pessoas ridicularizam este esforço... Não.
Recuso-me a reconhecer a existência atual da folia de Santos Reis. A folia é uma memória ambígua do passado, que ao mesmo tempo que me enche de medo, também me lembra quão boa era a vida quando eu era criança e vinha da Capital passear no sítio da minha bisavó. Era quando eu pisava em espinhos, cortava os dedos e ralava os joelhos brincando com os cães, o cavalo e as outras crianças, igualmente raladas e sujas de terra, mas todas felizes e cheias de vida. Nadávamos no rio limpo, andávamos no meio das vacas e bois fazendo carinho em suas caras macias, e nenhum de nós tinha medo ou vergonha de nada disso. E se a lembrança da folia de Reis está associada à memória da minha infância, que seja: vou guardá-la. Digamos que as férias acabaram e voltei para a cidade, dessa vez permanentemente, e se um dia eu voltar ao sítio vai estar tudo lá: cães, bois, crianças sujas de terra, minha bisavó e sua amada Folia. Aí sim eu aceitarei de bom grado ser arrastada à força para assistir à festa.

Quarta-feira, Janeiro 11, 2012

Impressionante

Tenho a fama de ser uma pessoa fleumática. Quando salto de bungee jump, sempre faço aquela cara blasé enquanto tomo um chazinho de hortelã e dou uma olhada na Folha Ilustrada.
Não costumo me impressionar com esportes radicais e já dormi em pleno vôo da esquadrilha da fumaça. Eu era um dos pilotos.
É que desenvolvi nervos de aço depois de trabalhar numa escola infantil por delirantes e frenéticos 8 meses.
Hoje sou capaz de encarar qualquer desafio, sem temor: grandes altitudes, labaredas gigantescas, feras selvagens, criaturas do além, bibliotecárias prolixas, ninjas, filme do Tom Cruise, tudo.
Talvez a única coisa ainda capaz de me causar espanto seja a prodigiosa capacidade da minha mãe de colecionar potes vazios de margarina. Por via das dúvidas, sempre que a visito evito abrir os armários da cozinha, para não causar uma avalanche.

Terça-feira, Janeiro 03, 2012

Mogli e eu

É estranho como com o passar do tempo sinto-me cada vez menos parte da humanidade.
Parece que sou uma espécie de Mogli que foi achado na selva e nunca conseguiu compreender ou se adaptar ao mundo civilizado.
Só que eu não fui achada na selva, eu nasci em Santo André, em meio ao barulho, poluição, perigos urbanos, aluguel, trânsito, modernidade e a coisa toda.
Quando vou ao supermercado olho com verdadeiro horror as prateleiras e nem imagino como as pessoas têm coragem de colocar aquele lixo no prato, na boca. Claro que eu sempre comi aquele lixo. É que de uns tempso para cá meu corpo recusa. Acha que manda em mim. Quer decidir o que eu como.
E também o que eu visto, assisto, bebo, passo na pele.
E principalmente o que eu ouço. Quando ouço certas pérolas da humanidade, meu estômago revira, como se quisesse devolver o detrito ouvido do mesmo modo que devolve comida estragada, veneno, etc.
Estou ficando chata, é óbvio. Chatíssima. Tenho consciência disso.
Por exemplo: dou pouquíssima importância a certas coisas que as pessoas consideram cruciais. Esses dias tive uma crise de riso assistindo a uma sessão da Câmara dos Deputados em que uma mulher agradecia copiosamente a presença de "membros da liderança" de um partido qualquer. Liderança? Eles lideram quem? Só se eram os líderes de gangue ou coisa assim, porque até onde sei gente honesta não vai atrás desses caras. Eles realmente levam a sério essa lenga-lenga! Era possível ver que ela realmente estava concentrada no que dizia e acreditava naquilo! Qual o grau de alienação que um ser humano é capaz de alcançar? Incrível!!!
Do mesmo modo desprezo certas burocracias, bajulações, convenções sociais tolinhas, noticiários e outras cretinices.
É-me doloroso perder meu tempo sagrado dando ouvidos a tais mesquinharias. Tempo que eu poderia aproveitar brincando com gatos, lendo obras de literatura, dormindo ou descansando, mexendo na terra, olhando as árvores, conversando com bichos - por mais ignorantes que eles sejam. Porque eu sempre serei mais, e tenho muito que aprender, e jamais aprenderei nada se perder meu tempo dando atenção a políticos, jornalistas, socialites, pedagogos, demagogos e mecânicos de automóvel. Eles só falam o que lhes interessa e tudo é por dinheiro. Enquanto isso lá fora os pássaros piam, os caramujos se arrastam e as formigas picotam plantas; isso tudo é muito mais importante e necessário, e sinto-me roubada e desrespeitada por não poder estar lá aprendendo com eles.
Daí acabei por tornar-me chata, primitiva, blasé e teimosa, de modo que não preencho os requisitos básicos de civilidade para conviver com humanos, graças ao bom Deus. Só que não tem lugar para mim fora da sociedade porque ainda não evoluí a ponto de me tornar um animal, de comer só comida de verdade, de ouvir só o que mereça ser ouvido, andar corretamente, dormir corretamente, viver corretamente. Tudo o que eu faço ainda é humano, falho, tosco, errado e mau.
Agora que estou no meio do caminho não sei para que lado vou: se abandono de vez qualquer traço de caráter e integridade e deixo de lado qualquer consciência - e torno-me assim um humano rematado e incorrigível, ou se tento tornar-me bicho, levar as coisas a sério, entender a vida e ter consciência dela.
Por enquanto estou em pausa. 
Comendo bananas.

Terça-feira, Novembro 08, 2011

Pássaros feridos

Trabalho num ambiente limpo. As maçanetas são bem polidas e o chão é bem lavado todos os dias. Nem parece uma escola, podia ser uma enfermaria. Em nome dessa limpeza, as paredes da minha sala e a porta de madeira foram removidas e substituídas por imensas folhas de vidro. Assim entra mais luz. Para garantir o frescor, instalou-se um ar-condicionado potente.
Tudo ali é muito correto e honesto. Tudo organizadinho.
Do lado de fora, no jardim em frente à minha sala, tem uma fonte. Ninguém pode tocar nela, até porque fica no meio de um gramado e não se pode pisar na grama. Só quem pode brincar nela são os pássaros.
Todos os tipos de pássaros vão ali tomar banho, piar e brincar. É um lenitivo vê-los bagunçar na fonte, espirrar água e rebolar-se na grama. Até parece que eles não conhecem as regras, que não sabem que é proibido fazer bagunça, respingar água, fazer barulho. Não têm modos, esses passarinhos.
Hoje a fonte estava desligada. Alguém achou de mau gosto deixar aquilo borbulhando para essas aves imundas, alguém quis botar ordem na casa. As aves, tadinhas, sem sua preciosa fonte, ficam meio perdidas. Dão meia dúzia de voltas, pousam na grama confusas, e saem voando outra vez.
Isso acontece bastante; alguém desliga a fonte e deixa os bichos sem água. Se eu fosse pássaro, protestaria.
Algumas vezes é ainda pior: os pobres bichinhos, sedentos e confusos, levantam vôo e batem no vidro. Antes de demolirem a parede, ave nenhuma se chocava contra ela. Agora elas vivem batendo.
O Diretor aumentou ainda mais a "limposidade" do ambiente mandando vedar os beirais, para que as aves não tivessem onde ficar. Algumas se mudaram para as árvores da escola, outras simplesmente sumiram - devem ter morrido ao se chocar contra o vidro.
Apesar de toda a modernidade e correção do lugar, eu preferia que os pássaros não morressem. Não sei o que as pessoas têm contra eles. São sujos? Imundos? Mostrem-me algum ser humano que não seja. Sujo é quem detesta a natureza ao ponto de enlatar pessoas e odiar passarinhos.
Nossa fonte é visitada por muitos tipos de aves: pardais, sanhaços, bem-te-vis, tesourinhas, beija-flores, sabiás e outros "modelos" coloridinhos cujo nome eu desconheço. Pouca coisa na vida é mais divertida e agradável que vê-los brincar na água, ciscar na grama e pegar matinhos para fazer ninho. E agora com essa porta de vidro os coitados ficam confusos e muitos acabamse matando.
Há poucos dias um beija-flor morreu na minha mão. Hoje, um filhote de pombo, ainda meio bobo por mal saber usar as asas, bateu contra o vidro e morreu. Morreu na minha mão, agonizando silenciosamente, sentindo dor. 
Os pássaros morrem com dignidade, em silêncio, sem sujeira e sem estardalhaço - eles simplesmente morrem. E até para sofrer são delicados e elegantes.
Ninguém que eu já tenha atendido em sete anos de serviço público se compara a qualquer pássaro em termos de graciosidade, amabilidade, simplicidade e simpatia. As pessoas são ruidosas, enxeridas, autoindulgentes e más.
Cada vez que um pequeno pássaro morre na vidraça, morre um pouco da minha esperança. Cada vez que morre um pássaro eu gosto menos da humanidade.

Segunda-feira, Setembro 26, 2011

Je ne love these fuckin' kids

Cenário: Estúdio de gravação de um canal de TV aberta. Os participantes da entrevista estão sentados em volta de uma mesinha de chá.

Apresentador: - Boa tarde! Estamos aqui com Lorde Sesame, secretário da escola municipal Cachinhos Dourados, para entrevistá-lo acerca de sua recente revelação como escritor de romances. Lorde Sesame, quando o senhor decidiu tornar-se escritor?
Lorde Sesame: - O homem já nasce pronto. (empertiga-se) Olhei-me no espelho e vi que era este meu pendor e meu fardo.
Comentarista de cartola: - Que finesse!
Crítica literária de óculos de tartaruga e meias cor-de-laranja: - Mas este é seu primeiro livro. Que me diz de todos esses anos de inatividade, se este é seu único pendor?
Lorde Sesame (falando para si mesmo): - Os críticos estão sempre a me avacalhar.
Comentarista de cartola: - Este é um ponto a ser salientado.
Apresentador: - Então, trata-se de uma obra autobiográfica?
Lorde Sesame: - Sem dúvida. Tenho trabalhado há vinte e oito anos com crianças. A secretaria da escola é um mundo, sabe? Um universo paralelo, um todo em si. Busquei os elementos de minha obra neste universo. E também usei conceitos absorvidos das leituras de cartas de Madre Teresa e do Marquês de Sade.
Crítica literária de óculos de tartaruga e meias cor-de-laranja: - Sempre os mesmos.
Comentarista de cartola: - Não sejamos tão severos!
Apresentador: - Eis aqui a tão comentada obra, "Je ne love these fuckin' kids" (exibe um volumoso tomo de capa dura, com o título impresso em letras douradas). A introdução foi escrita por Mozart.
Comentarista de cartola: - Que finesse!
Crítica literária de óculos de tartaruga e meias cor-de-laranja: - Se não me engano, Mozart já morreu.
Comentarista de cartola: - Não sejamos tão severos!
Lorde Sesame: - É sempre assim, quando não têm o que falar do conteúdo da obra, atacam o autor. É típico!
Apresentador: - É verdade que o senhor escreveu o livro todo em apenas quinze dias, durante sua Licença Prêmio por Assiduidade?
Lorde Sesame: - Modéstia à parte, sempre fui muito assíduo. Quando tirei a licença, perguntei-me como melhor aproveitá-la. Passei onze dias num ofurô, pensando. O restante usei para escrever o original. Metade dos capítulos foi escrita em francês. A editora cortou muita coisa, é verdade, mas a essência está aí, um apanhado, sabe? Anos e anos de bagagem.
Crítica literária de óculos de tartaruga e meias cor-de-laranja: - Então trata-se de um resumo?
Lorde Sesame: - Chame como quiser, recuso-me a debater com filisteus.
Comentarista de cartola: - Não sejamos tão severos!
Crítica literária de óculos de tartaruga e meias cor-de-laranja (sarcástica): - É, não sejamos tão severos. Mas tenha a bondade de responder à pergunta.
Apresentador (apontando um trecho do livro): - Aqui diz que o senhor aprendeu as técnicas de La Canne no Alaska, enquanto se preparava para assumir o cargo na secretaria da escola. Como foi isso?
Lorde Sesame: - Ah, foi um período muito intenso da minha vida. Serpentes, leões. Fui picado por cascavéis na cabeça, veja (tira a cartola e expõe o couro cabeludo calvo e cheio de cicatrizes). Mas eu tinha que estar preparado. Lidar com crianças requer treinamento, não é assim um mar de rosas. Isso requer de um homem a fibra e a coragem de um lutador. Também tinha um mestre chinês que...
Comentarista de cartola (genuinamente surpreso): - Há chineses no Alaska?
Lorde Sesame: - Oh, e também escorpiões e jiboias, e pândegos, e gramofones...
Apresentador (balançando a cabeça): - Tenho horror a gramofones.
Lorde Sesame: - Para trabalhar na escola, é preciso enfrentar seus medos, seus terrores mais íntimos.
Crítica literária de óculos de tartaruga e meias cor-de-laranja: - Ainda aguardo uma resposta.
Lorde Sesame: - Perdão, onde estávamos?
Comentarista de cartola: - Aqui mesmo, debatendo. (coloca o monóculo e olha o relógio de bolso) Oh, temo que esta entrevista tenha chegado ao seu fim...
Apresentador (empolgadíssimo): - Acabou-se o tempo! Foi uma honra tê-lo conosco, Lorde Sesame, e desejo-lhe sucesso em sua nova carreira de escritor.
Crítica literária de óculos de tartaruga e meias cor-de-laranja: - Vocês são uns imbecis!
Comentarista de cartola: - Que finesse!

(Cai o pano)

Sexta-feira, Setembro 09, 2011

Uma peça de valor

Precisava sair de dentro da fenda. Ajustei meu chapéu à cabeça, torci a corda de couro na mão esquerda, e com a mão direita tateava a rocha. Minhas botas deslizavam nas pedras lisas do paredão. Às minhas costas balançava o peso do meu tesouro. Como minha cinta estava gasta e fina, decidi passar a corda por baixo dos meus braços. Tive que morder a corda para puxar a ponta e atá-la ao cabo no meu peito. Assim, se eu escorregasse, não viraria de cabeça para baixo.
O suor escorria para dentro dos meus olhos, atrapalhando a subida. Lá embaixo, alguns corpos de nativos e meu companheiro morto. Só me restava um revólver com quatro balas. Duvido que aqueles pretos conseguissem atirar lanças tão alto como eu estava, mas em plena luz do dia podiam tentar qualquer coisa. Esperava que nunca achassem a escada que jogamos na ribanceira, pois se subissem a rocha, cortariam o cabo que me segurava. Fui muito idiota de querer fugir para essa fenda maldita, em vez de voltar pelo rio. Àquela altura estaria no no jipe com o pobre coitado que ficou lá embaixo, e em menos de quatro horas chegaríamos à nossa cidadezinha, na santa paz de Deus.
Meu parceiro nunca foi o tipo aventureiro. Tinha uma mão atrofiada pela poliomielite, e usava óculos pesados e grossos que o faziam suar. Tocávamos uma loja de suprimentos de caça juntos, desde que minha mulher morreu. Ganhávamos mal; ninguém compra rifles se o pouco que tem praticamente só gasta em comida. E a pesca estava fraca por causa da mineração que estragava o rio, mais ao norte.
Aí surge esse velho estranho, num carro moderno desses capazes de andar centenas de milhas sem ferver.
O velhote parecia uma múmia, ele próprio. Todo murcho, com o nariz amassado e totalmente careca, suas mãos ossudas e cinzentas moviam-se lerdas à luz da lâmpada a gás do pequeno hotel onde nos encontramos.
Havia surgido aparentemente do nada logo cedo, e parou seu carro bem na porta da nossa loja. Quis ver os rifles, pediu indicações de pontos de caça, fez muitas perguntas. Depois pediu que o visitássemos no pequeno hotel da cidade, ao final do expediente.
Somente então ele abriu o jogo. Trazia um mapa de pano, surrado e encardido, que queria que eu traduzisse. Mostrou o mapa com grandes cuidados e ar de mistério. Fui o mais sincero possível: só por muito dinheiro. Farejei logo a ganância do velho e intuí que havia algo de muito valioso escondido no lugar a que o mapa levava, portanto não me fiz de rogado.
Adiantei algumas palavras ali mesmo, e o velho não só me deu uma boa gorjeta pela tradução como nos contratou para fazer o serviço. "Para que passar a outros, se vocês podem fazê-lo? Quanto menos gente souber, melhor. Basta buscarem a urna, e lhes pagarei por tudo o que gastarem e mais uma generosa recompensa."
Velho idiota, é claro que pagaria. E acabou pagando mesmo, muito mais que o prometido: quando cheguei ao hotel com a urna, o velho revirou os olhos, agarrou a peça de barro, soltou um rosnado estranho... e caiu duro no chão do quarto. De ter sido a emoção. Coloquei-o de volta na cadeira e saí levando a urna. O motorista deve ter me procurado depois de achar o defunto, mas eu me escondi com Anne, uma corista muito simpática que sempre me deu abrigo e algum afeto gratuito. Anne e eu fomos para o litoral vender a tal urna, e mais de um antiquário gritou ao vê-la, como se fosse algo de outro mundo. Vendi por coisa de cinco milhões, dei uma parte a Anne e botei o resto no banco. Voltei à cidadezinha para pagar minha promessa - se eu saísse vivo da fenda com a peça de valor, consertaria a igreja. Cumpri minha promessa e passei a viver com simplicidade, espantando as suspeitas de que eu tivesse algo a ver com a história do velho. Meu parceiro foi dado como morto em viagem devido à malária, e ninguém foi procurar seu corpo.
Somente dois anos depois resgatei o dinheiro e me mudei para cá. Desisti da caça e das aventuras. Pendurei meu diploma na parede - Professor de Ciências Naturais - e hoje dou aula às crianças. Cansei de correr perigo. Estou velho demais para isso.
(Da série: memórias de fatos que nunca ocorreram)