Não quero ter filhos. Isto posto, custa-me caro ter uma conversa razoavelmente normal com qualquer pessoa em qualquer ocasião, sem ter que explicar mil vezes que não sou um monstro e que a vida na Terra não depende da minha pessoa.
É extremamente irritante e invasivo que muitos se sintam no direito de questionar uma escolha pessoal e íntima que fiz para minha vida e sobre a qual não consultei ninguém nem pedi opinião.
De repente, sinto-me pressionada a produzir uma criança apenas para livrar-me da cobrança indevida e mesquinha de meia dúzia de pessoas.
Não me parece sensato que reproduzir deva ser o objetivo final da vida, embora possa perfeitamente sê-lo para outras pessoas. A mim não cabe esta demanda.
Não me sinto inclinada a abrir mão de certos confortos, hábitos e (por que não?) sonhos, apenas para fabricar uma outra pessoa. Quem precisa de mais pessoas? Eu não. Não entendo esse desejo doentio e até móbido que algumas pessoas têm de fazer filhos. E como não entendo, não participo dele.
Estes que me cobram parecem desesperados para preencher algo em suas vidas e acreditam que eu também sinto esse vazio. Claro! Como não? Quem sou eu? Para que sirvo a não ser para fazer crianças, como as galinhas que só servem para botar ovos e depois vão para a panela?
As ameaças de um futuro solitário e uma morte sofrida não me convencem. Ou as pessoas acham que filhos são apólices de seguro? E que filho faz de fato companhia para os pais, depois da adolescência? Se for para ter um companheiro divertido por dez ou doze anos e depois ele partir, posso muito bem adotar um cão de médio porte ou um gato vira-latas. Ah, mas tem a velhice tranquila... e que pai tem uma velhice tranquila sabendo que seus filhos estão por aí, sofrem cobranças, ameaça de desemprego, correm risco de morrer num assalto ou num acidente doméstico, e podem deixar seus próprios filhos para ser criados pelos avós que não querem saber de crianças e precisam de tranquilidade...?
Na pior das hipóteses um filho pode ser um fardo desgastante e um sumidouro de dinheiro para o resto da vida. Não que eu espere que seja assim, mas quem não conhece alguém nessa situação?
A gravidez é outra bizarrice que me apavora e me faz tremer. Meus amigos machos não têm ideia do que estão falando quando dizem que é "lindo" e que toda mulher "tem" que ser mãe. É fácil falar isso quando não são eles que passarão meses inchados e a vomitar, com hemorroidas, manchas no rosto, corpo pesado, dores, fome, cansaço, insônia, e depois de tudo isso precisam ser abertos de maneira dolorosa para que de dentro do seu corpo saia uma pessoa que consumirá todo seu tempo e energia pelos próximos 18 anos, no mínimo.
Um deles disse que a mulher fica "linda" durante a gestação. Esse mecanismo evolutivo impediu por milênios que as grávidas fossem abandonadas por seus parceiros e seus filhos passassem fome. Então, ainda que aos olhos masculinos isso seja verdade, aos olhos da própria gestante não é assim. E a coisa piora muito se a coitada sofrer depressão, graças aos oscilantes e malignos hormônios da gravidez.
A gravidez para mim é um horrendo memento mori - um lembrente de mau gosto de que somos frágeis, mortais, e feios. Algumas pessoas vêm assim seus ex-maridos, outras, os cadáveres, outras, os cães sarnentos.
Como se tudo isso já não fosse revoltante o suficiente, existe o argumento do "prazer" de ser pai ou mãe. Esse suposto prazer também impediu, por milênios, que alguns trogloditas jogassem seus filhos em fossas, ladeiras ou poços depois de cansar de sua existência. Bom, impediu alguns, porque muitos foram vencidos e não resistiram: o aborto não é invenção recente, e nem o infanticídio. Então, o mecanismo evolutivo do prazer é falho.
Biologicamente, não preciso reproduzir porque a minha espécie não depende dos meus genes para subsistir. A humanidade continuará, infinitamente, talvez, sem minha contribuição. Aliás, acho até vantajoso que meus genes incorretos e maus não manchem o futuro com suas falhas evolutivas que me impedem de desejar loucamente perpetuar minha linhagem por meio da procriação. Mereço o prêmio Charles Darwin - em vida!
Filosoficamente, sou egoísta e individualista, não creio que faça a mínima diferença para a sociedade que eu ou quem quer que seja abra mão de seus gametas em prol de seus interesses. Sejam quais forem. É irônico que alguns matadores, assassinos, chamem como quiserem, tenham esse prazer mórbido em ter filhos e passar adiante seu gosto por sangue.
E religiosamente, Deus nos mandou crescer e multiplicar, e eu insisto, como um moleque birreto, em não multiplicar nada. Tenho tantos pecados já, que mais esse não me condenará, e uma pinta a mais numa angola fará pouca diferença. Afinal de contas, o livre arbítrio precisa servir para alguma coisa... e a bem da verdade, o que não é pecado? Prefiro sofrer as penas a ir contra o meu desejo.
De modo que, se alguém quiser ter filhos, vá em frente, faça-o, tem meu total apoio (verbal), mas deixe-me em paz para escolher, e não me julgue má ou hipócrita apenas por dizer a verdade e não desejar algo apenas para agradar as pessoas. Devia ser motivo de respeito, quando alguém admite algo que em última instância pode até ser benéfico para outros à sua volta.
E afinal, os que me instam a fazer uma ou mais crianças, e acham que isso é uma coisa obrigatória, por que não se oferecem para bancar a criação? É fácil exigir que alguém assuma uma imensa responsabilidade, se você não tem que participar dela nem financiá-la. Que venha então dormir com a criança, trocar as fraldas, pagar as contas, e sem reclamar - afinal quem faz essa questão toda?