quinta-feira, fevereiro 04, 2016

A sinceridade das crianças

Alguns anos atrás, eu estava passando esmalte nas unhas para a festa de aniversário do meu sobrinho, feliz e tranquila, quando chega o próprio - Criança nº 01 - e pergunta: - Tia, por que vocês mulheres passam esses negócios?
- Pra gente ficar bonita.
- E por que não fica?
- Ah, Enzo, mas pelo menos a gente tenta.
- Mas você não é muito feia.

Em outra ocasião, estava bebendo suco de caixinha em companhia de uma pequena manada de crianças. Uma delas - chamemo-la de Criança nº 02 - me observa atentamente, fixamente. Cumpre dizer que não bebo suco normalmente, aos poucos. Bebo tudo de uma vez, sem respirar, aos goles. E a criança me observando. Quando terminei a caixinha de suco, a criança jovialmente me olha nos olhos e diz: - Pescoço de gente velha é esquisito, né?

E é por isso que eu sou triste.

domingo, janeiro 10, 2016

Alexander Jansson

Ilustrações oníricas.
Curiosas ilustraciones de cuento de hadas producidas por un talentoso joven artista sueco Alexander Jansson
Posted by CCTV on Sunday, January 10, 2016

domingo, dezembro 20, 2015

A última ação do ano

A gangue estava toda ali. Maquinado, Bacada, Rude e Luvão. Quatro sujeitos com mais de quarenta anos, bonitões, parrudos, todos com cara de mau.
Juntavam seus perteces para levar para o carro. Fazia um tempo, já, que não faziam essas coisas. Quando eram jovens, eram até conhecidos. Mas agora eram homens de bem, casados. Já nem tinham coragem. Só que hoje a coisa parecia ser boa, parecia que ia valer a pena. Então eles combinaram de se encontrar. Fariam tudo muito rápido, cada um pegaria sua parte e ia embora. Sem perda de tempo e principalmente, sem brigas. Afinal, quatro negões bem vestidos num Monza sempre chamam atenção.
Bacada era de todos o mais seco, daí o nome. Tinham braços grossos e era atarracado e suado. Estava sempre suado, quer dizer. Não sabiam muita coisa dele, ele sempre se mudava de casa, de bairro, de mulher. Foi ele quem arranjou o negócio. Iriam no carro do Rude, mas a ideia era dele. Ele era quem tinha os esquemas.
Rude, coitado, nem de longe era rude. Era o mais altão de todos, o mais manso também. Tinha esse apelido porque se chamava Rudenilson. Ele estava bem nervoso, porque tinha crescido na área onde iam atuar, e porque iam no seu Monza.
Chamavam Maquinado assim porque ele sempre bebia umas antes, pra criar coragem. De todos era o mais talentoso, o mais velho e o mais calado. Conhecia bem o estabelecimento. Costumava dar movimento. Concordou prontamente com Bacada, podia valer a pena, podia dar certo.
Luvão era um menino ainda comparado aos outros três. Muito meticuloso, gostava de usar luvas, nem tanto para não deixar digitais nas coisas, mas mais para não oxidar o cano de metal. Os outros zombavam dele. "Você pensa que é um gângster, bestão? Precisa mesmo dessas luvas?". Luvão sorria, humilde. Precisar, não precisava, ué. Mas gostava delas.
Subiram a Pedro Amaral já de noite, passando pelos pedestres que, talvez, iam para o mesmo bar. Tentavam não pensar muito no que iam fazer, para não ficarem tensos. Iam fazendo piadas, olhando a rua. Quando chegaram à Boa Vista, começaram a virar esquinas e mais esquinas até acharem o lugar. Pararam debaixo duma árvore, duas casas pra frente.
"Certeza que é aqui?", perguntou Luvão. Bacada, que dirigia, não respondeu. Desceram, pegaram as coisas no porta-malas.
Entraram no bar.
O lugar estava escuro, fumacento, mesmo sendo proibido fumar lá dentro. Só tinha luz perto do palco, o resto estava no escuro. O palco era lá no fundo.
Entraram, cada um segurando um negócio daqueles, e foram até o fundo do bar, sem olhar para os lados. O dono do bar os viu entrar e ficou de boca aberta, olhando-os passar.
Chegaram na beirada do palco, abriram seus cases, e de lá tiraram seus instrumentos. Subiram no palco com o coração a mil. Era agora.
Cumprimentaram a todos e começaram a tocar. Sem afinar instrumentos, sem "passação" de som. Simplesmente tocaram. E foi uma apresentação tão boa como há muito tempo não faziam. Até quem estava na rua resolveu entrar para ver a banda. Quem eram aqueles caras?! Foi uma coisa linda. Até a molecada nova, esses playboys que acham tudo chato, estava lá dentro na pista de dança.
Depois de tudo, o dono do bar trouxe chopp e uma porção de mandioca frita. "O bar bombou esta noite. Vocês deram lucro mesmo."
Maquinado estava todo orgulhoso. Ria feito besta: não só compraria presentes para os bacuris, como a esposa ganharia um vestido novo. Ia ter até Champanhe, pensou.
Cada um fez planos e contas enquanto comia rapidamente, para irem logo embora.
Os quatro saíram do bar em seguida, e Rude levou cada um pra sua respectiva casa (todos moravam longe). Na rodovia, rumo à Vila Toninho, foi pensando que talvez exista mesmo esse negócio de Espírito Natalino, afinal de contas.

quinta-feira, dezembro 10, 2015

A escolha de Flerion

"Na escolha de seu animal, o mago deve ser bastante cuidadoso. Especialmente se pretende usar encantamentos de licantropia, como o Mutação Reagente ou Transformação Parcial. Há magos iniciantes que, por falta de estudo, deixam-se arrastar pela vaidade, escolhendo tigre, lobo ou urso como seu animal. Esquecem-se que estes animais são bastante agressivos e difíceis de controlar, e que uma vez concluída a transformação, pelo menos nas primeiras vezes, a consciência animal sobrepuja a do ser humano, deixando o mago à mercê da própria estupidez de fera.
Uma vez escolhida a besta, não pode ser substituída, portanto a escolha jamais deve ser equivocada. Grandes vampiros-magos obtiveram meios de trasformar-se em mais de um animal. Mas tais encantamentos requerem, muitas vezes, sacrifícios humanos, que são horrivelmente desagradáveis e malvistos.
É bom lembrar que nem sempre o mago assume a forma física de sua besta, porém pode invocar certos sentidos aguçados, destreza ou outras capacidades que lhe forem convenientes no momento.
Alizarus de Modana, o Simples, escolheu para si o lagarto saltitante, e na famosa Batalha de Serinaya, pôde atravessar o Pântano Avesso e o Bosque Pulsante com a joia Etrina na boca, e finalmente devolvê-la à coroa de Serinaya, pondo fim à Guerra dos Três Reinos e ganhando como recompensa um belo escravo númio, o Berimbau Inaudível e a Cornucópia de Primavera. Se tivesse escolhido uma fera enorme, jamais teria completado a tarefa e hoje seu nome teria sido esquecido.
Já a Feiticeira Thrya, ainda adolescente, sob a tutoria de Ravius Nigro, teve a esperta ideia de selecionar o camaleão como seu animal. E todos sabem de suas fabulosas peripécias durante a recuperação do espólio dos atlantes refugiados em Hiva. Graças à astúcia da prudente camaleoa, mais de seis mil objetos e encantamentos hoje estão seguros sob a Pirâmide Maior de Eldorado, bem longe das garras imundas dos salteadores S'ip e dos monges Ajuna. Porque a magia não deve servir à ganância ou à vaidade, mas à cultura, à manutenção do equilíbrio e... Mas o que está fazendo? Deixe-me ver esses rabiscos! Um jabuti, uma taturana, uma lesma... diga-me, senhor Flerion, quando for um mago de terceiro grau, se um dia o for, de que lhe servirá transformar-se em lesma? O senhor poderia escolher, por certo, um rinoceronte, um chimpanzé... e digamos que encontre-se numa situação de infortúnio, preso, ou em batalha, que proveito teria o senhor ao se transformar em taturana? O jabuti sem dúvida tem seu casco, mas as lanças Asires são capazes de perfurar os portões de basalto deste castelo, que dirá o senhor do seu jabuti? Thura, por sua vez, escolheu a lontra! De que serve a lontra, pequena feiticeira?"
- "A lontra é rápida."
- "E o que mais?"
- "Move-se na água."
- "E o que mais?"
- "Rouba coisas."
- "Ah! Temos aqui uma jovem ousada. Vejam, vocês três devem estudar a fundo seus animais. Não façam escolhas tolas. A magia não é diversão. Questionem sua vocação. De onde vieram? Por que estudam a magia? Quais os encantamentos que deverão utilizar e como deverão formular seus próprios para que sua trasformação ocorra de maneira eficaz? Amanhã, em nossa visita ao campo de ylang-ylang, quero que cada um discorra sobre o bicho escolhido. Não devemos retardar mais isso. Se querem aprender comigo, devem fazer render meu tempo."
Os três aprendizes saíram, cabisbaixos, carregando seus grimórios, com ar de abatimento. Dimitrus era um mago severo. Mas Flerion, teimoso, já havia feito sua escolha. Seria o jabuti mais matreiro de toda Illevrant, de todo o mundo. Haveria se escrever seu nome nas páginas da História sob o signo do jabuti. Isso sim.

sábado, outubro 24, 2015

Então é Natal - quase

Houve uma época em que Simone era uma cantora talentosa e bonita que fazia sucesso por sua cabeleira incrível e sua voz limpa e agradável. Hoje, Simone tornou-se sinônimo (ou talvez "Simônimo") de música chata de Natal. É uma pena, porque ela sabe fazer mais que isso, mas não estou aqui para defender a Simone e sim para falar das músicas natalinas.
No Brasil inteiro, ninguém aguenta mais ouvir "Então é Natal". Só que, como os artistas brasileiros, salvo raras exceções, são limitados e sem criatividade, ninguém aqui faz música de Natal. O comércio quer que a data seja lembrada, então toca Simone até falar chega.
Não há um carinho, um capricho na elaboração da atmosfera natalina. No Brasil, a data se resume a compras frenéticas, comilança desefreada e nem um pouco saudável, e ouvir Simone nas lojas, no rádio, no elevador do prédio, na televisão, atrás da porta, embaixo do tapete, dentro da lata de biscoitos, em todo lugar toca "Então é Natal" e é desesperador.
E no entanto o Natal podia ser uma ocasião divertida e agradável para todo mundo, crianças e velhos, vendedores, profissionais liberais, motoristas, policiais, esteticistas e cabeleireiros. Tudo começa no ambiente de trabalho. E tenho algumas ideias que podem ajudar a criar o clima natalino sem deixar todo mundo mal humorado:
- Decoração de Natal não precisa ter aquelas fitas e festões empoeirados e que espetam as pessoas. Faça guirlandas de materiais naturais, como cipós, folhas e flores desidratadas, bandejas de frutas. Lembre-se que se trata da celebração do nascimento de uma criança, e que vivemos num país de clima quente. Chega de decoração cafona! Chega de coisas de plástico vermelho vagabundo penduradas pegando poeira!
- Se você é comerciante ou profissional liberal e seu estabelecimento tem televisão para os clientes, transmita coisas legais, em vez do especial da Simone ou do Roberto Carlos. Lembre-se que há inúmeros desenhos animados de tema natalino (Pernalonga, Pica-pau, Tom e Jerry, Pateta, Taz, Pato Donald, etc), TV Colosso especial de Natal, shows internacionais de artistas famosos como Elton John, Beyonce, etc. Existem corais maravilhosos no mundo todo que fazem apresentações emocionantes. Além disso, existem outras produções artísticas, como projeções de luz, filmes curta-metragem, patinação no gelo, óperas, videocassetadas natalinas, montagem de esculturas de gelo e bonecos de neve, uma infinidade de coisas legais que você pode transmitir na tv e atrair a atenção de seus clientes sem entediá-los ou irritá-los.
-Presépios, se criativos, podem chamar a atenção e divertir por horas. Podem ser eletrônicos, com persinagens móveis, mecânicos, de massinha, de tecido, de cosméticos, de pães e biscoitos, de fantoches, de hologramas, de tudo que você imaginar.
- O Natal é uma festa religiosa e o tema é o nascimento de Jesus. As pessoas não são idiotas. Se você tratar do assunto de maneira interessante no seu comércio, na sua casa, na sua rádio, no seu trabalho, todos vão gostar. Mas se você é anticristão, tem outra religião ou é ateu, tem duas opções: não trate do assunto, respeitando assim a si mesmo e a quem é cristão, ou use um tema evasivo, como Férias. Porque muita gente está de férias nesta época e quer usufruí-la. Vídeos maravilhosos de Ilhas Caribenhas, de esqui na Suíça, de noites em Paris e São Petesburgo, de praias e passeios de barco, de golfinhos e baleias, de city tours por metrópoles como Tóquio e Nova Iorque, são ótimas opções. E as músicas, se você não desejar transmitir as de temas natalinos, podem ser desde música clássica, como Mozart e Vivaldi, até jazz e blues, que geralmente "criam um clima" e todo mundo gosta.
- Embora os artistas brasileiros não se interessem muito pelo Natal, existem muitos cantores, dançarinos, performáticos e doidos do mundo todo que fazem coisas incríveis. Dê uma busca no Google e no Youtube. Tem até rap, breakdance e contorcionismo natalino.
- Comidas leves e coloridas são muito mais adequadas que enormes bolas de gordura assadas. Seja criativo e use ingredientes locais em pratos diferentes. O Brasil é vasto, quente, belo, e a noite de Natal é uma das mais quentes do ano. Faça uma mesa naturalmente colorida, sirva bebidas leves e use elementos rústicos na decoração, como folhas, palha, frutas, guirlandas. Cuidado com velas, pois são perigosas, e com excessos, pois muita elaboração pode ficar piegas.
- Não toque Simone.

sábado, março 14, 2015

O maior queijo que já caiu na Terra

- São sininhos.
- Bem podiam ser pessoinhas.
- Pessoinhas? Voando?
- Podiam estar penduradinhas.
- Você está vendo algum fio?
- Então são sininhos voando.
- São sininhos e um carneiro. Ao lado do bule de chá.
- São vários bules. O vapor atrapalha a vista. Mas dá pra notar que são vários.
- E vamos pegar algum deles?
- Não seja idiota, estão cheios de chá quente. Pegaremos o queijo...
- E as pessoinhas?
- São sinos, besta! Você mesmo disse!
- É mesmo. Então pegaremos o queijo... você tem certeza de que dá para descê-lo inteiro? Porque não temos roldanas...
- Preocupa-me o carneiro dormindo. Se ele nos vir roubando o queijo, pode tocar os sininhos, e alarmar a cozinha toda. Vê aqueles sujeitos lá embaixo da mesa, rolando o salame?
- Nem nos notarão, mesmo que o carneiro berre. Estão atarefados.
- O vapor pode nos atrapalhar. Imagine se caímos de cima daquela mesa! Já pensou se caíssemos no leite?
- Um balde daqueles de leite daria para o país inteiro beber...
- Durante uma semana! Mas olhe, tem aquele monte de palha onde o gato dorme, ao pé do forno...
- A entrada para o Inferno. E o gato deve ser o demônio em pessoa! Eu não queria cair na palha, seria pior que cair no chão duro.
-Veja, lá vêm as mulherzinhas de que nos falaram, elas têm a língua solta e se nos virem, farão escândalo. Note como carregam peso! Cada xícara daquela deve pesar o mesmo que...
- Vamos agora! Rápido!
- Ooooooh abaixe-se!
- Agora, atrás da manteiga!
- Fale baixo, imbecil. O carneiro vai nos ouvir.
- Por sorte é do nosso tamanho. Podia ser um carneiro gigante. Podia ser como aquele gato.
- O queijo! Como é grande!
- É maior do que eu pensava.
- Empurre!
- Não vamos conseguir. É pesado! Oh não, veja! O carneiro!
- Volte a dormir, seu maldito! Shhhhhh! Volte a dormir.
BÉÉÉÉÉ
- Agora, no três. Sobre a palha do gato. Um, dois, trêêêês
PLOFT
- Vire-o! Vire-o! Agora, vamos rolar. Eu vou na frente para não deixá-lo tombar, não me esmague. Rápido!
MIAU
- Para a porta! Xô, gato de Satã! E depois?
- Depois cairemos da nuvem. Vai ser o maior queijo que já caiu de uma nuvem na Terra!

segunda-feira, dezembro 01, 2014

Drusila e o ovo

Ofegante, Drusila fugia pela floresta. Em suas mãos, um pequeno tesouro que valia muitas vidas: um ovo do mundo. Guerreiros armados a perseguiam em busca do ovo. Muitos já haviam morrido por ele, em muitas ocasiões, em muitas batalhas.
O pai de Drusila o havia roubado de um feiticeiro, que por sua vez o havia roubado de um jovem rei, morto no combate.
Este ovo havia cruzado continentes, mares, eras geológicas. Continha dentro de si uma nova Gênese, um mundo esperando por nascer. Quem saberia dizer o que nasceria dali?
Quando soube do paradeiro do ovo, Elaya de Deuyan, regente de Alleritt, pôs suas tropas particulares para marchar em busca dele. Se podia ser soberana de um mundo só seu, pensou Elaya, para que preocupar-se em reger Allerit para os filhinhos do velho rei? E este velho rei sabia que seu vizinho possuía o tesouro. Só não teve presença de espírito bastante para tomá-lo.
O velho feiticeiro ainda vivia, em algum recôncavo do reino. Sabia onde estava o ovo. Sabia quem era Drusila. Porém seu imenso terror de um mundo novo e todas as implicações desta nova Criação o estarreciam de tal maneira que, covardemente, encerrou-se em seu palácio e jamais tornou a sair. Passava os dias e noites a temer, a sofrer, a grunhir. Folheava febrilmente livros e rolos de pergaminho, conjurava encantos, protegia-se com armas e encantamentos, temeroso dos vazios cósmicos que seriam preenchidos por, talvez, novos planetas e astros, novas forças e grandezas, nova luz, novas trevas, seres que todo feitio, cores desconhecidas, divindades sanguinárias, novas formas de morrer.
O cheiro de mato confortava Drusila, que sabia ser impossível surpreendê-la na mata. Era filha de cimérios, criada em Zingara. Jamais seria pega por um bando de Laonitas imbecis com suas lanças cegas.
Pretendia buscar recompensa pelo ovo com algum Senhor de outros mundos. Sabia que revoluções grotescas teriam início se as notícias desse objeto de espalhassem. O desvario do velho feiticeiro contagiaria metade do mundo, enquanto a outra metade lutaria com furor até ter a posse daquilo que podia significar um novo Universo e um novo Domínio.
Nenhum Deus estaria disposto a negociar. Sendo mortal, seria imediatamente aniquilada por possuir tal tesouro. Teria que buscar outros meios de trocá-lo por riquezas. Mas que riquezas? Pensava, enquanto se esgueirava por entre troncos imensos e grossas raízes de árvores milenares, por entre galhos retorcidos e gigantescas folhagens escuras da densa floresta. O cheiro de milênios subia do solo, parecendo-lhe doce, acre e macio, como o cheiro que os delírios têm.
Os soldados laonitas corriam parvamente, ferindo-se e a seus companheiros de busca. Elaya contratava mercenários para fazer seu jogo sujo, pois empregar tropas alleriten em tal missão egoísta despertaria a suspeita e depois a fúria do Conselho de anciães de Allerit.
Drusila corria como o vento, pois conhecia a selva tão bem quanto seu próprio rosto. Então, avistando ao longe o cume do monte Aiónios, desviou sua rota para a esquerda, no sentido inverso ao que levava ao rio Phobos. Certamente a patrulha seguiria em direção ao rio, julgando que ela o faria. Mas Drusila sabia que os rochedos inóspitos a oeste seguramente a ocultariam pelo tempo necessário. Lá, teria de descobrir como fazer sua oferta. Primeiro, buscaria a proteção dos Aggos, seres viventes dos rochedos, supersticiosos gigantes cujo medo os faria lutar até mesmo com os não-nascidos. Só então sopraria seu segredo, para ser levado pelo vento aos quatro cantos do mundo.
Teria de despertar Entes adormecidos, teria de invocar aberrações de dimensões desconhecidas - imortais, espectros, seres imaginários. O que poderiam lhe oferecer em troca de um novo Mundo?

quinta-feira, outubro 16, 2014

O núcleo

Ao longe, no horizonte, onde meus olhos jamais alcançam, onde a História cruza a tênue linha que a separa da Imaginação, lá onde sopram os melancólicos ventos da saudade do que nunca se teve, é onde busco alívio para as horas tristes, em que vago em busca daquilo que desconheço.
Nesses planos cobertos de pó é que está minha loucura, meu tesouro. Ali estão todas as horas que passei a errar, a fantasiar, sem limites nem rumos claros, apenas sentindo o calor daquele antigo Sol que sempre existiu e sempre existirá.
Os incertos contornos que a Terra assume quando viajamos no tempo confundem meus olhos, enganando-me e levando-me a ver aquilo de que meu coração está cheio, e não aquilo que habita o Tempo.
Ali, meu amor, no meu refúgio de mistério, onde jamais alguém chegou, ali onde me escondo da Vida, é ali que guardo seu rosto; é onde ficamos sós, num tempo que jamais chegou ou passou, num momento que fiz para nos eternizar, sozinhos, longe dos olhos do mundo.
Ali dentro, num pequeno ponto do Universo, no núcleo do meu ser, há todo o peso, toda a Glória, todo o medo, todo o Querer e toda a violência que faz de mim seu reflexo, seu par.
Perdoa minhas lágrimas, perdoa minhas risadas tolas; não é por maldade, mas por ternura que crio esta angústia.
Somos um amontoado de erros. Não há perdão, não haverá misericórdia, não há culpa também; eis a completude da Criação. Perfeitos, Belos, afogados em transgressões e Ego.
Tudo o mais que há é cenário, estopa e fumaça.

sexta-feira, outubro 10, 2014

No deserto

"Todas as jóias, todos os perfumes, todas as notas musicais que inebriam os sentidos e conduzem ao sonho, são apenas o prelúdio do turbilhão que está contido no fundo dos teus olhos" pensou a mulher, que o fitava demoradamente, enigmática. O aroma de ilangue-ilangue os envolvia criando uma atmosfera de prazer, ao mesmo tempo calma e sensual.
"Seu brilho é especial", disse o Sultão. Sorria mansamente, observando a mulher, que parecia ter o coração cheio, mas não ousava falar.
Ela estava demasiado ciente de suas imperfeições, e ansiava por agradá-lo em tudo, com tudo e por tudo.
"Jamais serei para ele o que ele merece" pensou. Sofria, e não queria que ele notasse. Para ele, queria estar sempre bela, feliz. Sentia-se criança novamente. "Será possível isso?" perguntava-se, séria; pois já havia vivido o bastante para perder a fé nas pessoas. "Jamais serei para ele o que Ela é". Pensou na Sultana e nos herdeiros que havia dado a Ele.
O Sultão compreendia o que se passava por dentro dela e, pacientemente, acariciava seus cabelos negros, confortando-a. Não precisava fazer isso, não precisava tratá-la daquela maneira. Bastava uma ordem sua, e ela faria o que Ele quisesse. Sabia que ela era capaz de lutar, de matar se fosse preciso, sabia que era uma mulher feroz e astuta sob a face neutra. Mas havia doçura. Então ele a consolava.
Ela não havia escolhido seu lugar; havia sido vendida, transportada, entregue como mercadoria, examinada, manipulada e treinada para desempenhar aquela função, e por que haveria de ser diferente?
Não precisamos de razões. A vida é como é. Não escolhemos que peça seremos no tabuleiro, mas é preciso jogar.
A concubina sorriu, feliz por ser a preferida dentre muitas. Levantou-se e, diante do Sultão, começou a dançar. Ele, satisfeito, usufruiu daquele momento.
"Não se sabe que batalhas travaremos amanhã", disse ele em voz alta, para si mesmo. "Eis aqui o presente".
Não se sabe quanto tempo passou, se foram minutos ou milênios, mas este fragmento da história ficou gravado na chama das velas, no brilho das pratarias, na fumaça do incenso, nos reflexos dos cristais. Este amor, infinito, eterno, pode ter durado apenas aquela noite, mas o Universo curvou-se reverente à sua existência.

terça-feira, setembro 30, 2014

Canseira da vida

Parece cansaço, mas é tristeza. Lá no fundo, onde ninguém chega, algo belo morreu.
As ondas brandas de melancolia que chegam aos meus olhos escondem a fúria contida, a espuma do mar, a tempestade.
Em meio ao negror das nuvens, relâmpados ferem os ares com meus gritos de pavor oculto, afogado sob a massa de águas que se revolvem na minha alma.
A paz existe. Uma vela branca enfunada pela brisa, um fio de fumaça que sobe alegre para o céu.
Mas não hoje. Não aqui. Eis-me náufrago lutando contra o mundo sozinho, sem eira onde me assentar, surdo aos murmúrios da terra e do ar que continuam a existir e a viver, a despeito da minha revolta.
Uma rosa se afoga no mar de desgostos mundanos e trivialidades sórdidas, e suas pétalas de prata são para sempre sepultadas antes mesmo de florescer aos olhos do mundo.
Hoje sou trevas, e chumbo, e horror. Hoje meu sangue congela e apodrece nas minhas veias. Amanhã, quem sabe, renasço como de costume, de sob os montes de pó, de sob os restos da minha face neutra morta e convincente.
E aquilo que pouco se mostra sob a forma de cansaço passará a ser, de fato, uma imensa canseira da vida.