segunda-feira, setembro 05, 2016

Não há Deus

Arisa acordou impaciente. Havia lido até muito tarde na noite anterior, ostensivamente, para usufruir do ambiente bucólico da casa de fazenda cercada de pampas verdes e longuíssimos eucaliptos de idade indeterminada. 
Ríspida com a empregada, recusou o café da manhã e vagueou pela casa sem intento, feito besta, intrigada e de sobrancelhas franzidas.
Antes do almoço, afastou-se da casa e foi até o limite do bosque, para absorver o ar puro e sentir o frio da sombra das árvores. 
(Havia quase seis anos que morava no mato, como dizia. Não tolerava a chatice e a falta de privacidade da cidade grande, e adorava animais. Sentia-se segura, agora, mas ressentia-se da falta de praticidade de algumas coisas que evidentemente deviam ser mais simples.)
Teimava em repensar, martelava.
"Não há Deus. Não há."
Objetava. É claro que há; quem fez os ipês? Olhe! Quem fez as aves? E o sistema digestivo das vacas? E os tartígrados?
"O acaso. Milhões de anos de evolução. Mutações randômicas. Sobrevivem aqueles cujas mutações os tornam mais adaptados. Os outros morrem. Todos morrem. Mas alguns passam adiante os genes que os ajudaram a manter-se vivos por mais tempo. Todos morrem, e não vão para lugar nenhum. Apenas morrem, e é bom que seja assim."
Voltou pra casa. Os cães, normalmente festeiros, olhavam-na de longe, intrigados, como se tentassem determinar se valia o risco chegar mais perto.
É bom que se diga que Arisa nunca foi uma mulherzinha frágil, mas também tinha seus medos. Quando criança, os meninos da escola implicavam com ela - feia! dentuça! branquela! - e apanhavam. Apesar disso, nunca tornou-se rude ou orgulhosa. Era apenas impaciente, de maneira geral, como aliás, quase todo mundo é.
A leitura da noite anterior a havia perturbado muito. Todas as suas indecisões uniram-se num nó que tornava sua vida impossível. Tinha de resolver isso agora ou não poderia continuar a existir. 
Foi até o quarto e abriu o guarda-roupa. Puxou uma grande caixa branca quadrada. Ergueu a tampa, afastou um fino lenço de pano pintado à mão, e tirou um enorme revólver cromado que mais parecia coisa de filme.
Foi até o pátio, nos fundos da casa.
Descarregou a arma, seis tiro para o alto.
"Não há Deus", pensou. Ninguém para socorrê-la quando orasse: "Não nos deixeis cair em tentação".
Entrou na caminhonete e dirigiu até perto da ponte. Desceu do carro, foi até a margem do rio. Não parou para apreciar os barrancos cobertos de mato, as copas das árvores quase pretas, a água escura e caudalosa do rio, não parou para ver nada.
Jogou a arma no rio.
"Não há Deus."
Amém.

segunda-feira, maio 30, 2016

Mulher

- Se ela não ficasse se mostrando isso não aconteceria.

- Olha aí, nós fomos dar direitos para elas, elas já foram arrumando dor de cabeça.

- Uma mulher quer agir como homem, é nisso que dá. Bem feito.

- Mulher neurótica, ciumenta, que fica no pé do marido, merece apanhar na cara.

- Homem não tem ciúmes, tem cuidado com as coisas dele!

- Se a mulher obedecer o marido, não tem motivo para eles brigarem.

- Só porque se separaram não quer dizer que a mulher pode sair por aí fazendo o que bem entender. Ela continua devendo respeito ao homem!

- Eles se separaram, ele não tem mais obrigação nenhuma de respeitar a ex-mulher.

- Ele é pegador, passa o rodo, curte a vida. Está certo. Ele é novo, bonito, tem mais é que aproveitar. Solteiro sempre, sozinho nunca!

- Ela sai com vários caras, não presta, só porque é gostosa acha que pode sair por aí dando pra qualquer um. Uma vadia dessa não tem moral.

- Ela não quis transar na primeira noite, se acha muita coisa, ficou se fazendo de santinha, não passa de uma vagabunda.

- Ela transou na primeira noite, não presta, não passa de uma vagabunda.

- A mulher tem que tomar anticoncepcional. Se ela engravidou o problema é dela, ela é que tem obrigação de se cuidar. Senão, é uma pistoleira.

- Mulher não pode exigir que o homem use camisinha. Ele usa se quiser, afinal usar camisinha é como chupar bala sem tirar o papel.

- O embrião não tem culpa se a mulher foi estuprada! Ela não pode abortar! Tem que levar a gravidez adiante e ter o filho!

- Mãe não pode abandonar o filho! Ela quis ter, agora tem que criar!

- Até uma vaca ama o bezerro, mas essa mulher abandonou o próprio filho.

- Se ela não tem condições de criar, tivesse pensado nisso antes de sair por aí dando para qualquer um. Vai fazer faxina, vai lavar roupa, se vira. Na hora de abrir as pernas tava bom, né?

- O pai nem sempre tem condições de sustentar a criança, isso não é culpa dele. E se ele estiver desempregado, vai fazer o quê? Matar, roubar?

- Ela não teve pena de largar o menino na creche com apenas quatro meses de idade, é uma desnaturada sem coração. Ter filho para os outros cuidarem é fácil.

- O pai precisou ir embora para trabalhar. O que ele ia fazer? Ficar em casa dando mamadeira pra criança? Ele tinha que ir, a gente não sabe o porquê de ele nunca ter voltado.

- Ele foi embora quando soube que o bebê que ela esperava tinha microcefalia. Agora ela quer que o governo a sustente, mas a culpa não é minha se o filho dela tem problema.

- Neurocirurgião, um dos melhores do país.

- Neurocirurgiã? Tá louco que eu vou deixar uma mulher operar minha cabeça?

- Mulher ao volante só faz cagada.

- Ela pediu aumento ao chefe, ele riu na cara dela. Só porque os outros funcionários ganham mais, não quer dizer que ela tem que ganhar o mesmo, afinal ela é mulher.

- Por que mulher aposenta mais cedo? Era só o que faltava! Dando uma de coitada! Quer direitos iguais mas não quer ter que trabalhar o mesmo que um homem trabalha.

- O homem chega cansado do trabalho e a mulher ainda quer que ele ajude a fazer comida, lavar roupa, olhar os filhos? Isso é problema dela. Ela também trabalha fora, mas é servicinho fácil, não trabalha como ele.

- O sujeito estava estressado, cansado, sob pressão. Por isso ficou furioso daquele jeito. É normal.

- A mulher é uma neurótica, rainha da TPM, histérica. São todas loucas.

- Olha só, uma mulher passar em primeiro lugar! Nem dá nem pra acreditar!

- O cara passou em primeiro lugar, claro, afinal ele estudou.

quinta-feira, fevereiro 04, 2016

A sinceridade das crianças

Alguns anos atrás, eu estava passando esmalte nas unhas para a festa de aniversário do meu sobrinho, feliz e tranquila, quando chega o próprio - Criança nº 01 - e pergunta: - Tia, por que vocês mulheres passam esses negócios?
- Pra gente ficar bonita.
- E por que não fica?
- Ah, Enzo, mas pelo menos a gente tenta.
- Mas você não é muito feia.

Em outra ocasião, estava bebendo suco de caixinha em companhia de uma pequena manada de crianças. Uma delas - chamemo-la de Criança nº 02 - me observa atentamente, fixamente. Cumpre dizer que não bebo suco normalmente, aos poucos. Bebo tudo de uma vez, sem respirar, aos goles. E a criança me observando. Quando terminei a caixinha de suco, a criança jovialmente me olha nos olhos e diz: - Pescoço de gente velha é esquisito, né?

E é por isso que eu sou triste.

domingo, janeiro 10, 2016

Alexander Jansson

Ilustrações oníricas.
Curiosas ilustraciones de cuento de hadas producidas por un talentoso joven artista sueco Alexander Jansson
Posted by CCTV on Sunday, January 10, 2016

domingo, dezembro 20, 2015

A última ação do ano

A gangue estava toda ali. Maquinado, Bacada, Rude e Luvão. Quatro sujeitos com mais de quarenta anos, bonitões, parrudos, todos com cara de mau.
Juntavam seus perteces para levar para o carro. Fazia um tempo, já, que não faziam essas coisas. Quando eram jovens, eram até conhecidos. Mas agora eram homens de bem, casados. Já nem tinham coragem. Só que hoje a coisa parecia ser boa, parecia que ia valer a pena. Então eles combinaram de se encontrar. Fariam tudo muito rápido, cada um pegaria sua parte e ia embora. Sem perda de tempo e principalmente, sem brigas. Afinal, quatro negões bem vestidos num Monza sempre chamam atenção.
Bacada era de todos o mais seco, daí o nome. Tinham braços grossos e era atarracado e suado. Estava sempre suado, quer dizer. Não sabiam muita coisa dele, ele sempre se mudava de casa, de bairro, de mulher. Foi ele quem arranjou o negócio. Iriam no carro do Rude, mas a ideia era dele. Ele era quem tinha os esquemas.
Rude, coitado, nem de longe era rude. Era o mais altão de todos, o mais manso também. Tinha esse apelido porque se chamava Rudenilson. Ele estava bem nervoso, porque tinha crescido na área onde iam atuar, e porque iam no seu Monza.
Chamavam Maquinado assim porque ele sempre bebia umas antes, pra criar coragem. De todos era o mais talentoso, o mais velho e o mais calado. Conhecia bem o estabelecimento. Costumava dar movimento. Concordou prontamente com Bacada, podia valer a pena, podia dar certo.
Luvão era um menino ainda comparado aos outros três. Muito meticuloso, gostava de usar luvas, nem tanto para não deixar digitais nas coisas, mas mais para não oxidar o cano de metal. Os outros zombavam dele. "Você pensa que é um gângster, bestão? Precisa mesmo dessas luvas?". Luvão sorria, humilde. Precisar, não precisava, ué. Mas gostava delas.
Subiram a Pedro Amaral já de noite, passando pelos pedestres que, talvez, iam para o mesmo bar. Tentavam não pensar muito no que iam fazer, para não ficarem tensos. Iam fazendo piadas, olhando a rua. Quando chegaram à Boa Vista, começaram a virar esquinas e mais esquinas até acharem o lugar. Pararam debaixo duma árvore, duas casas pra frente.
"Certeza que é aqui?", perguntou Luvão. Bacada, que dirigia, não respondeu. Desceram, pegaram as coisas no porta-malas.
Entraram no bar.
O lugar estava escuro, fumacento, mesmo sendo proibido fumar lá dentro. Só tinha luz perto do palco, o resto estava no escuro. O palco era lá no fundo.
Entraram, cada um segurando um negócio daqueles, e foram até o fundo do bar, sem olhar para os lados. O dono do bar os viu entrar e ficou de boca aberta, olhando-os passar.
Chegaram na beirada do palco, abriram seus cases, e de lá tiraram seus instrumentos. Subiram no palco com o coração a mil. Era agora.
Cumprimentaram a todos e começaram a tocar. Sem afinar instrumentos, sem "passação" de som. Simplesmente tocaram. E foi uma apresentação tão boa como há muito tempo não faziam. Até quem estava na rua resolveu entrar para ver a banda. Quem eram aqueles caras?! Foi uma coisa linda. Até a molecada nova, esses playboys que acham tudo chato, estava lá dentro na pista de dança.
Depois de tudo, o dono do bar trouxe chopp e uma porção de mandioca frita. "O bar bombou esta noite. Vocês deram lucro mesmo."
Maquinado estava todo orgulhoso. Ria feito besta: não só compraria presentes para os bacuris, como a esposa ganharia um vestido novo. Ia ter até Champanhe, pensou.
Cada um fez planos e contas enquanto comia rapidamente, para irem logo embora.
Os quatro saíram do bar em seguida, e Rude levou cada um pra sua respectiva casa (todos moravam longe). Na rodovia, rumo à Vila Toninho, foi pensando que talvez exista mesmo esse negócio de Espírito Natalino, afinal de contas.

quinta-feira, dezembro 10, 2015

A escolha de Flerion

"Na escolha de seu animal, o mago deve ser bastante cuidadoso. Especialmente se pretende usar encantamentos de licantropia, como o Mutação Reagente ou Transformação Parcial. Há magos iniciantes que, por falta de estudo, deixam-se arrastar pela vaidade, escolhendo tigre, lobo ou urso como seu animal. Esquecem-se que estes animais são bastante agressivos e difíceis de controlar, e que uma vez concluída a transformação, pelo menos nas primeiras vezes, a consciência animal sobrepuja a do ser humano, deixando o mago à mercê da própria estupidez de fera.
Uma vez escolhida a besta, não pode ser substituída, portanto a escolha jamais deve ser equivocada. Grandes vampiros-magos obtiveram meios de trasformar-se em mais de um animal. Mas tais encantamentos requerem, muitas vezes, sacrifícios humanos, que são horrivelmente desagradáveis e malvistos.
É bom lembrar que nem sempre o mago assume a forma física de sua besta, porém pode invocar certos sentidos aguçados, destreza ou outras capacidades que lhe forem convenientes no momento.
Alizarus de Modana, o Simples, escolheu para si o lagarto saltitante, e na famosa Batalha de Serinaya, pôde atravessar o Pântano Avesso e o Bosque Pulsante com a joia Etrina na boca, e finalmente devolvê-la à coroa de Serinaya, pondo fim à Guerra dos Três Reinos e ganhando como recompensa um belo escravo númio, o Berimbau Inaudível e a Cornucópia de Primavera. Se tivesse escolhido uma fera enorme, jamais teria completado a tarefa e hoje seu nome teria sido esquecido.
Já a Feiticeira Thrya, ainda adolescente, sob a tutoria de Ravius Nigro, teve a esperta ideia de selecionar o camaleão como seu animal. E todos sabem de suas fabulosas peripécias durante a recuperação do espólio dos atlantes refugiados em Hiva. Graças à astúcia da prudente camaleoa, mais de seis mil objetos e encantamentos hoje estão seguros sob a Pirâmide Maior de Eldorado, bem longe das garras imundas dos salteadores S'ip e dos monges Ajuna. Porque a magia não deve servir à ganância ou à vaidade, mas à cultura, à manutenção do equilíbrio e... Mas o que está fazendo? Deixe-me ver esses rabiscos! Um jabuti, uma taturana, uma lesma... diga-me, senhor Flerion, quando for um mago de terceiro grau, se um dia o for, de que lhe servirá transformar-se em lesma? O senhor poderia escolher, por certo, um rinoceronte, um chimpanzé... e digamos que encontre-se numa situação de infortúnio, preso, ou em batalha, que proveito teria o senhor ao se transformar em taturana? O jabuti sem dúvida tem seu casco, mas as lanças Asires são capazes de perfurar os portões de basalto deste castelo, que dirá o senhor do seu jabuti? Thura, por sua vez, escolheu a lontra! De que serve a lontra, pequena feiticeira?"
- "A lontra é rápida."
- "E o que mais?"
- "Move-se na água."
- "E o que mais?"
- "Rouba coisas."
- "Ah! Temos aqui uma jovem ousada. Vejam, vocês três devem estudar a fundo seus animais. Não façam escolhas tolas. A magia não é diversão. Questionem sua vocação. De onde vieram? Por que estudam a magia? Quais os encantamentos que deverão utilizar e como deverão formular seus próprios para que sua trasformação ocorra de maneira eficaz? Amanhã, em nossa visita ao campo de ylang-ylang, quero que cada um discorra sobre o bicho escolhido. Não devemos retardar mais isso. Se querem aprender comigo, devem fazer render meu tempo."
Os três aprendizes saíram, cabisbaixos, carregando seus grimórios, com ar de abatimento. Dimitrus era um mago severo. Mas Flerion, teimoso, já havia feito sua escolha. Seria o jabuti mais matreiro de toda Illevrant, de todo o mundo. Haveria se escrever seu nome nas páginas da História sob o signo do jabuti. Isso sim.

sábado, março 14, 2015

O maior queijo que já caiu na Terra

- São sininhos.
- Bem podiam ser pessoinhas.
- Pessoinhas? Voando?
- Podiam estar penduradinhas.
- Você está vendo algum fio?
- Então são sininhos voando.
- São sininhos e um carneiro. Ao lado do bule de chá.
- São vários bules. O vapor atrapalha a vista. Mas dá pra notar que são vários.
- E vamos pegar algum deles?
- Não seja idiota, estão cheios de chá quente. Pegaremos o queijo...
- E as pessoinhas?
- São sinos, besta! Você mesmo disse!
- É mesmo. Então pegaremos o queijo... você tem certeza de que dá para descê-lo inteiro? Porque não temos roldanas...
- Preocupa-me o carneiro dormindo. Se ele nos vir roubando o queijo, pode tocar os sininhos, e alarmar a cozinha toda. Vê aqueles sujeitos lá embaixo da mesa, rolando o salame?
- Nem nos notarão, mesmo que o carneiro berre. Estão atarefados.
- O vapor pode nos atrapalhar. Imagine se caímos de cima daquela mesa! Já pensou se caíssemos no leite?
- Um balde daqueles de leite daria para o país inteiro beber...
- Durante uma semana! Mas olhe, tem aquele monte de palha onde o gato dorme, ao pé do forno...
- A entrada para o Inferno. E o gato deve ser o demônio em pessoa! Eu não queria cair na palha, seria pior que cair no chão duro.
-Veja, lá vêm as mulherzinhas de que nos falaram, elas têm a língua solta e se nos virem, farão escândalo. Note como carregam peso! Cada xícara daquela deve pesar o mesmo que...
- Vamos agora! Rápido!
- Ooooooh abaixe-se!
- Agora, atrás da manteiga!
- Fale baixo, imbecil. O carneiro vai nos ouvir.
- Por sorte é do nosso tamanho. Podia ser um carneiro gigante. Podia ser como aquele gato.
- O queijo! Como é grande!
- É maior do que eu pensava.
- Empurre!
- Não vamos conseguir. É pesado! Oh não, veja! O carneiro!
- Volte a dormir, seu maldito! Shhhhhh! Volte a dormir.
BÉÉÉÉÉ
- Agora, no três. Sobre a palha do gato. Um, dois, trêêêês
PLOFT
- Vire-o! Vire-o! Agora, vamos rolar. Eu vou na frente para não deixá-lo tombar, não me esmague. Rápido!
MIAU
- Para a porta! Xô, gato de Satã! E depois?
- Depois cairemos da nuvem. Vai ser o maior queijo que já caiu de uma nuvem na Terra!

segunda-feira, dezembro 01, 2014

Drusila e o ovo

Ofegante, Drusila fugia pela floresta. Em suas mãos, um pequeno tesouro que valia muitas vidas: um ovo do mundo. Guerreiros armados a perseguiam em busca do ovo. Muitos já haviam morrido por ele, em muitas ocasiões, em muitas batalhas.
O pai de Drusila o havia roubado de um feiticeiro, que por sua vez o havia roubado de um jovem rei, morto no combate.
Este ovo havia cruzado continentes, mares, eras geológicas. Continha dentro de si uma nova Gênese, um mundo esperando por nascer. Quem saberia dizer o que nasceria dali?
Quando soube do paradeiro do ovo, Elaya de Deuyan, regente de Alleritt, pôs suas tropas particulares para marchar em busca dele. Se podia ser soberana de um mundo só seu, pensou Elaya, para que preocupar-se em reger Allerit para os filhinhos do velho rei? E este velho rei sabia que seu vizinho possuía o tesouro. Só não teve presença de espírito bastante para tomá-lo.
O velho feiticeiro ainda vivia, em algum recôncavo do reino. Sabia onde estava o ovo. Sabia quem era Drusila. Porém seu imenso terror de um mundo novo e todas as implicações desta nova Criação o estarreciam de tal maneira que, covardemente, encerrou-se em seu palácio e jamais tornou a sair. Passava os dias e noites a temer, a sofrer, a grunhir. Folheava febrilmente livros e rolos de pergaminho, conjurava encantos, protegia-se com armas e encantamentos, temeroso dos vazios cósmicos que seriam preenchidos por, talvez, novos planetas e astros, novas forças e grandezas, nova luz, novas trevas, seres que todo feitio, cores desconhecidas, divindades sanguinárias, novas formas de morrer.
O cheiro de mato confortava Drusila, que sabia ser impossível surpreendê-la na mata. Era filha de cimérios, criada em Zingara. Jamais seria pega por um bando de Laonitas imbecis com suas lanças cegas.
Pretendia buscar recompensa pelo ovo com algum Senhor de outros mundos. Sabia que revoluções grotescas teriam início se as notícias desse objeto de espalhassem. O desvario do velho feiticeiro contagiaria metade do mundo, enquanto a outra metade lutaria com furor até ter a posse daquilo que podia significar um novo Universo e um novo Domínio.
Nenhum Deus estaria disposto a negociar. Sendo mortal, seria imediatamente aniquilada por possuir tal tesouro. Teria que buscar outros meios de trocá-lo por riquezas. Mas que riquezas? Pensava, enquanto se esgueirava por entre troncos imensos e grossas raízes de árvores milenares, por entre galhos retorcidos e gigantescas folhagens escuras da densa floresta. O cheiro de milênios subia do solo, parecendo-lhe doce, acre e macio, como o cheiro que os delírios têm.
Os soldados laonitas corriam parvamente, ferindo-se e a seus companheiros de busca. Elaya contratava mercenários para fazer seu jogo sujo, pois empregar tropas alleriten em tal missão egoísta despertaria a suspeita e depois a fúria do Conselho de anciães de Allerit.
Drusila corria como o vento, pois conhecia a selva tão bem quanto seu próprio rosto. Então, avistando ao longe o cume do monte Aiónios, desviou sua rota para a esquerda, no sentido inverso ao que levava ao rio Phobos. Certamente a patrulha seguiria em direção ao rio, julgando que ela o faria. Mas Drusila sabia que os rochedos inóspitos a oeste seguramente a ocultariam pelo tempo necessário. Lá, teria de descobrir como fazer sua oferta. Primeiro, buscaria a proteção dos Aggos, seres viventes dos rochedos, supersticiosos gigantes cujo medo os faria lutar até mesmo com os não-nascidos. Só então sopraria seu segredo, para ser levado pelo vento aos quatro cantos do mundo.
Teria de despertar Entes adormecidos, teria de invocar aberrações de dimensões desconhecidas - imortais, espectros, seres imaginários. O que poderiam lhe oferecer em troca de um novo Mundo?

quarta-feira, abril 30, 2014

Renovação

Ajeitou a lapela do casaco e olhou o próprio reflexo no vidro da prateleira. Mordeu a ponta do dedão. Era realmente um azarado. 
Havia sido deixado pela amante por meio de um simples bilhete, recebido no dia anterior, à hora do almoço, depois de ter sido recusado em três entrevistas de emprego e de ter tido uma desagradável discussão com a esposa alguns dias antes.
Tudo lhe parecia abafado e morno. 
Desceu as escadas devagar, revirando a chave do carro entre os dedos. Voltaria ao antigo escritório, para trabalhar com a chefe autoritária, e dois colegas absolutamente estranhos (desconfiava que um deles fosse russo ou tivesse algum transtorno). 
Havia imaginado tanto para a própria vida. Havia almejado tantas coisas. Seus planos eram saudavelmente realistas e em nenhum momento quis algo de inalcançável. Ainda assim, seus esforços foram insuficientes.
Abriu a porta de correr que dava acesso à rua e sentiu mais frio do que esperava. Estava contrariado e sentia-se gasto e velho. Não era caso para chorar, mas havia uma expressão birrenta e furiosa em seu rosto. Queria mandar todo mundo à merda. 
A caminho do trabalho, guiou distraidamente, evitando ruas lotadas e áreas comerciais. Mastigava sem vontade um cigarro enquanto ouvia o chiado do rádio. Por um momento, hesitou entre voltar para casa e seguir em frente. 
Reduziu a velocidade em frente a uma loja pequena e vazia do centro. Na vitrine, manequins semivestidos com os lançamentos da moda, um cartaz de promoção, bugigangas sem valor. 
Parou o carro, entrou na loja e fez umas compras. Chapéu, algumas camisetas brancas, algumas revistas. Suas últimas cédulas foram morosamente passadas para a mão da moça do caixa, que o olhava com autêntica indiferença. Entrou no carro, acendeu outro cigarro e virou na próxima esquina. 
Refez seu caminho como se voltasse para casa. Passou em frente ao prédio, mas não parou. Seguiu em frente até a rodovia. Olhou o marcador de combustível e concluiu que não precisaria parar por um bom tempo. Dirigiria enquanto pudesse. Dirigiria sem parar. Desligou o celular, aumentou o volume do rádio e desejou que jamais tivesse que fazer o caminho inverso. 
Haveria de esquecer o próprio nome.

segunda-feira, outubro 28, 2013

Criança desaparecida

- Leite de verdade? Onde quer que eu arranje leite de verdade? Você já viu uma vaca alguma vez na sua vida?
- Mas este leite é esquisito...
- Olhe aqui, garoto, eu não sei de onde você vem, nem quem criou você, mas não existe uma vaca sequer num raio de 300 Km. Portanto, se você experimentou leite, deve ser filho de algum rico ou deve estar delirando. Eu nunca provei leite. E este aqui está muito bom, é de milho, eu mesma fiz. Leite de vaca, onde já se viu?
- Eu como carne no almoço todo dia...
- Chega dessas mentiradas. Ninguém come carne há séculos. Além de nojento, é raro e caríssimo. Só um membro da liga pode ter pombos, peixes e essas coisas todas...
- Meu pai tem um rancho com mais de cem ovelhas.
- Ovelhas? Escute aqui, moleque, se não parar de inventar histórias, eu vou dar esta caneca para a sentinela. Todos nós aqui passamos fome, e a comida mal cresce nessa terra cinzenta. Não existem cem ovelhas no mundo. Seu pai deve estar procurando você, ou acha que os captadores já pegaram seus órgãos. Crianças não andam sozinhas por aí, então alguém deve estar à sua procura. Enquanto isso, é só uma boca a mais para eu alimentar. Não quero perder a paciência com você, então pare com as mentiras.
- Não é mentira!
- Então quem o trouxe aqui? E por que essas suas roupas?
- Eu vim sozinho pra cá. Na minha escola tem um túnel... eu e meu amigo entramos. Aí eu achei a caixa. Eu não quis mostrar para ele, porque ele ia tomar de mim. Ele sempre toma tudo de mim. Levei a caixa para casa e escondi no celeiro. À noite, depois de jantar, eu fui para lá e...
- Você anda assimilando textos demais...
- E quando eu abri a caixa, tinha muitos botões e telas. Eu fiquei mexendo nela para ver se era uma televisão...
- Televisão? Como assim, televisão?
- De tanto eu mexer, acendeu uma luz vermelha. A tela ficou iluminada e quando eu coloquei a mão nela, senti um frio e um calor. Uma luz bem forte acendeu e iluminou o celeiro inteiro. Quando essa luz apagou, eu senti muito frio. Aí eu vi que não estava mais no celeiro do meu pai. Fiquei escondido lá nas predas...
- "Pedras".
- ... nas pedras, onde você me achou.
- Então você não veio de longe? E esse seu sotaque estranho?
- Eu não saí do lugar... só acendeu a luz...
- Espera. Tinha uma caixinha com você lá nas pedras. Era aquela a caixa que acendia?
- Uhum.
- Esvazie os bolsos.
- Por quê?
- Vamos. Coloque tudo em cima da mesa. Deixe-me ver. Moedas antigas?... um lápis? Lápis? E o que é isso?
- Chiclete.
- O quê?
- Chiclete. É um doce. É de mastigar.
- Chiclete? E isso aqui?
- Um celular.
- Celular? Onde arranjou isso?
- É meu, de ligar para meus pais.
- Eu nunca vi um desses na vida. Como funciona?
- Você liga aqui, ó...
- Menino, eu acho que você está ferrado. Se tudo aconteceu como você contou, você está no tempo errado. Eu nunca acreditei nessas lendas, mas pelo visto funciona. Você veio do passado. Você percebeu o quanto aqui é estranho? Viu algo que não conhece?
- Uhum.
- Por isso reclamou do leite. Os antigos bebiam leite de animais. É isso! Lembra-se do campo que atravessamos? Pois é. Depois dele tem um cemitério de máquinas. Vamos até lá, pegamos o que for possível e voltamos para as pedras. Vamos tentar fazer o aparelho funcionar. Você sabe em que ano estava quando veio parar aqui?
- 2012.
- Dois mil e doze? Dois mil e doze na contagem antiga... oitenta e cinco antes da guerra... duzentos antes da... espera! Isso faz uns seiscentos anos! É antigo demais! Eu não entendo de tecnologia tão antiga. Não temos muita coisa hoje, sabe... Qual sua idade, em anos solares?
- Hã? Solares?
- Quantas revoluções? Quantos anos você tem?
- Seis, ó (mostra com os dedos).
- Só isso e é grande assim? Oh! Os antigos viviam bem! E olhe esses dentes! Os captadores dariam fortunas por um como você. Fortunas... poderíamos comprar água, protetores, omnicilina... a vida é muito difícil...
- O que são captadores?
- Não importa... escute... Hoje você descansa. Amanhã vamos ver um amigo, está bem?
- E depois eu vou pra minha casa?
- É... pra casa... vamos ver o que ele consegue... amanhã tudo vai mudar...