sábado, março 14, 2015

O maior queijo que já caiu na Terra

- São sininhos.
- Bem podiam ser pessoinhas.
- Pessoinhas? Voando?
- Podiam estar penduradinhas.
- Você está vendo algum fio?
- Então são sininhos voando.
- São sininhos e um carneiro. Ao lado do bule de chá.
- São vários bules. O vapor atrapalha a vista. Mas dá pra notar que são vários.
- E vamos pegar algum deles?
- Não seja idiota, estão cheios de chá quente. Pegaremos o queijo...
- E as pessoinhas?
- São sinos, besta! Você mesmo disse!
- É mesmo. Então pegaremos o queijo... você tem certeza de que dá para descê-lo inteiro? Porque não temos roldanas...
- Preocupa-me o carneiro dormindo. Se ele nos vir roubando o queijo, pode tocar os sininhos, e alarmar a cozinha toda. Vê aqueles sujeitos lá embaixo da mesa, rolando o salame?
- Nem nos notarão, mesmo que o carneiro berre. Estão atarefados.
- O vapor pode nos atrapalhar. Imagine se caímos de cima daquela mesa! Já pensou se caíssemos no leite?
- Um balde daqueles de leite daria para o país inteiro beber...
- Durante uma semana! Mas olhe, tem aquele monte de palha onde o gato dorme, ao pé do forno...
- A entrada para o Inferno. E o gato deve ser o demônio em pessoa! Eu não queria cair na palha, seria pior que cair no chão duro.
-Veja, lá vêm as mulherzinhas de que nos falaram, elas têm a língua solta e se nos virem, farão escândalo. Note como carregam peso! Cada xícara daquela deve pesar o mesmo que...
- Vamos agora! Rápido!
- Ooooooh abaixe-se!
- Agora, atrás da manteiga!
- Fale baixo, imbecil. O carneiro vai nos ouvir.
- Por sorte é do nosso tamanho. Podia ser um carneiro gigante. Podia ser como aquele gato.
- O queijo! Como é grande!
- É maior do que eu pensava.
- Empurre!
- Não vamos conseguir. É pesado! Oh não, veja! O carneiro!
- Volte a dormir, seu maldito! Shhhhhh! Volte a dormir.
BÉÉÉÉÉ
- Agora, no três. Sobre a palha do gato. Um, dois, trêêêês
PLOFT
- Vire-o! Vire-o! Agora, vamos rolar. Eu vou na frente para não deixá-lo tombar, não me esmague. Rápido!
MIAU
- Para a porta! Xô, gato de Satã! E depois?
- Depois cairemos da nuvem. Vai ser o maior queijo que já caiu de uma nuvem na Terra!

sexta-feira, março 06, 2015

Na ponta dos pés

Melissa não conseguia se equilibrar. Horas e horas de ensaio torturavam seu corpo judiado e cansado, mas Melissa não encontrava equilíbrio.
Suas linhas elegantes estavam agora tensas e indistintas - seus arcos, difusos, seus ombos, enrijecidos, seu peito, côncavo, sua respiração, curta e acelerada.
Diante do espelho gigante, não discernia claramente outras imagens à sua volta além de seu corpo de cor idefinida. O bege rosado de sua pele se camuflava entre panos da mesma cor, que a faziam parecer etérea, subjetiva, como se já não fosse alguém, mas uma sugestão, uma insinuação subjetiva de que aquilo ali representa uma pessoa, mas é, de fato, algo - algo que foi fabricado, feito à mão, torcido e espremido para formar um autômato fazedor de coisas. E este autômato conta histórias.
Quando se move no espaço, indiferente ao que a cerca, Melissa escreve no ar fábulas e batalhas, sentimentos e cores, expirações de sua alma que vibra como uma corda, quando puxada ou tocada pelos dedos certos.
Hoje, Melissa fixava um ponto imaginário no qual se apoiava com o olhar, e a partir dele tentava elevar-se e criar estabilidade. Sua delicadeza parecia insinuar algo de febre, ou de dor, embora nada em seus movimentos deixasse entrever a força que fazia para executar o movimento. Lutava uma batalha feroz.
À sua volta, autômatos tagarelas e inúteis faziam estardalhaço, agitando os braços e produzindo sons estridentes, com suas caras redondas mal pintadas com cores berrantes e seus minúsculos olhos de biroca que piscavam em demasia. Nenhum deles parecia notar Melissa. Ela tentava manter-se fora do alcance de sua agitação, de seus braços pesados e de suas mãos de ferro. Tentava não se machucar. Já era difícil escapar dos golpes distraídos dos autômatos, de seus gritos, de suas lamúrias sintéticas e repetitivas - e agora ainda lhe faltava o equilíbrio.
"Os livros", pensou, exausta. Podia usar os livros para encontrar o equilíbrio: bastava colocá-los sobre a cabeça. As modelos fazem isso. "Modelos usam livros?". Usam.
Com uma pilha de livros na cabeça, tentava andar para a frente, lentamente, segurando-se ao que podia, apoiando-se no que estivesse por perto. Certamente conseguiria, mas faltava-lhe um contrapeso. Suas costas convexas e seus ombros descaídos pesavam, tiravam-na do centro. Abraçou então seu fiel cãozinho Azul, e sentindo seu cheiro amistoso, fez força para manter-se de pé. Azul, feliz por ser útil, acariciava Melissa no rosto e nas mãos, dando-lhe a necessária estabilidade.
Melissa buscava ser forte. Desistir não era uma opção. Jamais rastejaria. Voltaria a andar ereta. Ainda que todos os cabos e roldanas de seu corpo estivessem estirados ao ponto máximo de tensão, ainda que suas baterias se exaurissem e suas engrenagens emperrassem, haveria de chegar ao fim do espetáculo en pointe, com pose soberba, e receberia exultante os aplausos da plateia que até ali lhe tinha sido pouco menos que indiferente.

segunda-feira, dezembro 01, 2014

Drusila e o ovo

Ofegante, Drusila fugia pela floresta. Em suas mãos, um pequeno tesouro que valia muitas vidas: um ovo do mundo. Guerreiros armados a perseguiam em busca do ovo. Muitos já haviam morrido por ele, em muitas ocasiões, em muitas batalhas.
O pai de Drusila o havia roubado de um feiticeiro, que por sua vez o havia roubado de um jovem rei, morto no combate.
Este ovo havia cruzado continentes, mares, eras geológicas. Continha dentro de si uma nova Gênese, um mundo esperando por nascer. Quem saberia dizer o que nasceria dali?
Quando soube do paradeiro do ovo, Elaya de Deuyan, regente de Alleritt, pôs suas tropas particulares para marchar em busca dele. Se podia ser soberana de um mundo só seu, pensou Elaya, para que preocupar-se em reger Allerit para os filhinhos do velho rei? E este velho rei sabia que seu vizinho possuía o tesouro. Só não teve presença de espírito bastante para tomá-lo.
O velho feiticeiro ainda vivia, em algum recôncavo do reino. Sabia onde estava o ovo. Sabia quem era Drusila. Porém seu imenso terror de um mundo novo e todas as implicações desta nova Criação o estarreciam de tal maneira que, covardemente, encerrou-se em seu palácio e jamais tornou a sair. Passava os dias e noites a temer, a sofrer, a grunhir. Folheava febrilmente livros e rolos de pergaminho, conjurava encantos, protegia-se com armas e encantamentos, temeroso dos vazios cósmicos que seriam preenchidos por, talvez, novos planetas e astros, novas forças e grandezas, nova luz, novas trevas, seres que todo feitio, cores desconhecidas, divindades sanguinárias, novas formas de morrer.
O cheiro de mato confortava Drusila, que sabia ser impossível surpreendê-la na mata. Era filha de cimérios, criada em Zingara. Jamais seria pega por um bando de Laonitas imbecis com suas lanças cegas.
Pretendia buscar recompensa pelo ovo com algum Senhor de outros mundos. Sabia que revoluções grotescas teriam início se as notícias desse objeto de espalhassem. O desvario do velho feiticeiro contagiaria metade do mundo, enquanto a outra metade lutaria com furor até ter a posse daquilo que podia significar um novo Universo e um novo Domínio.
Nenhum Deus estaria disposto a negociar. Sendo mortal, seria imediatamente aniquilada por possuir tal tesouro. Teria que buscar outros meios de trocá-lo por riquezas. Mas que riquezas? Pensava, enquanto se esgueirava por entre troncos imensos e grossas raízes de árvores milenares, por entre galhos retorcidos e gigantescas folhagens escuras da densa floresta. O cheiro de milênios subia do solo, parecendo-lhe doce, acre e macio, como o cheiro que os delírios têm.
Os soldados laonitas corriam parvamente, ferindo-se e a seus companheiros de busca. Elaya contratava mercenários para fazer seu jogo sujo, pois empregar tropas alleriten em tal missão egoísta despertaria a suspeita e depois a fúria do Conselho de anciães de Allerit.
Drusila corria como o vento, pois conhecia a selva tão bem quanto seu próprio rosto. Então, avistando ao longe o cume do monte Aiónios, desviou sua rota para a esquerda, no sentido inverso ao que levava ao rio Phobos. Certamente a patrulha seguiria em direção ao rio, julgando que ela o faria. Mas Drusila sabia que os rochedos inóspitos a oeste seguramente a ocultariam pelo tempo necessário. Lá, teria de descobrir como fazer sua oferta. Primeiro, buscaria a proteção dos Aggos, seres viventes dos rochedos, supersticiosos gigantes cujo medo os faria lutar até mesmo com os não-nascidos. Só então sopraria seu segredo, para ser levado pelo vento aos quatro cantos do mundo.
Teria de despertar Entes adormecidos, teria de invocar aberrações de dimensões desconhecidas - imortais, espectros, seres imaginários. O que poderiam lhe oferecer em troca de um novo Mundo?

quinta-feira, outubro 16, 2014

O núcleo

Ao longe, no horizonte, onde meus olhos jamais alcançam, onde a História cruza a tênue linha que a separa da Imaginação, lá onde sopram os melancólicos ventos da saudade do que nunca se teve, é onde busco alívio para as horas tristes, em que vago em busca daquilo que desconheço.
Nesses planos cobertos de pó é que está minha loucura, meu tesouro. Ali estão todas as horas que passei a errar, a fantasiar, sem limites nem rumos claros, apenas sentindo o calor daquele antigo Sol que sempre existiu e sempre existirá.
Os incertos contornos que a Terra assume quando viajamos no tempo confundem meus olhos, enganando-me e levando-me a ver aquilo de que meu coração está cheio, e não aquilo que habita o Tempo.
Ali, meu amor, no meu refúgio de mistério, onde jamais alguém chegou, ali onde me escondo da Vida, é ali que guardo seu rosto; é onde ficamos sós, num tempo que jamais chegou ou passou, num momento que fiz para nos eternizar, sozinhos, longe dos olhos do mundo.
Ali dentro, num pequeno ponto do Universo, no núcleo do meu ser, há todo o peso, toda a Glória, todo o medo, todo o Querer e toda a violência que faz de mim seu reflexo, seu par.
Perdoa minhas lágrimas, perdoa minhas risadas tolas; não é por maldade, mas por ternura que crio esta angústia.
Somos um amontoado de erros. Não há perdão, não haverá misericórdia, não há culpa também; eis a completude da Criação. Perfeitos, Belos, afogados em transgressões e Ego.
Tudo o mais que há é cenário, estopa e fumaça.

sexta-feira, outubro 10, 2014

No deserto

"Todas as jóias, todos os perfumes, todas as notas musicais que inebriam os sentidos e conduzem ao sonho, são apenas o prelúdio do turbilhão que está contido no fundo dos teus olhos" pensou a mulher, que o fitava demoradamente, enigmática. O aroma de ilangue-ilangue os envolvia criando uma atmosfera de prazer, ao mesmo tempo calma e sensual.
"Seu brilho é especial", disse o Sultão. Sorria mansamente, observando a mulher, que parecia ter o coração cheio, mas não ousava falar.
Ela estava demasiado ciente de suas imperfeições, e ansiava por agradá-lo em tudo, com tudo e por tudo.
"Jamais serei para ele o que ele merece" pensou. Sofria, e não queria que ele notasse. Para ele, queria estar sempre bela, feliz. Sentia-se criança novamente. "Será possível isso?" perguntava-se, séria; pois já havia vivido o bastante para perder a fé nas pessoas. "Jamais serei para ele o que Ela é". Pensou na Sultana e nos herdeiros que havia dado a Ele.
O Sultão compreendia o que se passava por dentro dela e, pacientemente, acariciava seus cabelos negros, confortando-a. Não precisava fazer isso, não precisava tratá-la daquela maneira. Bastava uma ordem sua, e ela faria o que Ele quisesse. Sabia que ela era capaz de lutar, de matar se fosse preciso, sabia que era uma mulher feroz e astuta sob a face neutra. Mas havia doçura. Então ele a consolava.
Ela não havia escolhido seu lugar; havia sido vendida, transportada, entregue como mercadoria, examinada, manipulada e treinada para desempenhar aquela função, e por que haveria de ser diferente?
Não precisamos de razões. A vida é como é. Não escolhemos que peça seremos no tabuleiro, mas é preciso jogar.
A concubina sorriu, feliz por ser a preferida dentre muitas. Levantou-se e, diante do Sultão, começou a dançar. Ele, satisfeito, usufruiu daquele momento.
"Não se sabe que batalhas travaremos amanhã", disse ele em voz alta, para si mesmo. "Eis aqui o presente".
Não se sabe quanto tempo passou, se foram minutos ou milênios, mas este fragmento da história ficou gravado na chama das velas, no brilho das pratarias, na fumaça do incenso, nos reflexos dos cristais. Este amor, infinito, eterno, pode ter durado apenas aquela noite, mas o Universo curvou-se reverente à sua existência.

terça-feira, setembro 30, 2014

Canseira da vida

Parece cansaço, mas é tristeza. Lá no fundo, onde ninguém chega, algo belo morreu.
As ondas brandas de melancolia que chegam aos meus olhos escondem a fúria contida, a espuma do mar, a tempestade.
Em meio ao negror das nuvens, relâmpados ferem os ares com meus gritos de pavor oculto, afogado sob a massa de águas que se revolvem na minha alma.
A paz existe. Uma vela branca enfunada pela brisa, um fio de fumaça que sobe alegre para o céu.
Mas não hoje. Não aqui. Eis-me náufrago lutando contra o mundo sozinho, sem eira onde me assentar, surdo aos murmúrios da terra e do ar que continuam a existir e a viver, a despeito da minha revolta.
Uma rosa se afoga no mar de desgostos mundanos e trivialidades sórdidas, e suas pétalas de prata são para sempre sepultadas antes mesmo de florescer aos olhos do mundo.
Hoje sou trevas, e chumbo, e horror. Hoje meu sangue congela e apodrece nas minhas veias. Amanhã, quem sabe, renasço como de costume, de sob os montes de pó, de sob os restos da minha face neutra morta e convincente.
E aquilo que pouco se mostra sob a forma de cansaço passará a ser, de fato, uma imensa canseira da vida.

segunda-feira, setembro 15, 2014

Os olhos castanhos

Arlena parou em frente do espelho e se olhou por um longo tempo, sem na verdade enxergar. Apenas fitava seus olhos negros no reflexo, e sua mente vagueava por paisagens perturbadoras de eras passadas, por brumas sinuosas e fétidas em planetas distantes, por céus de cores desconhecidas e por notas de sons estranhos.
Seu rosto pálido era como uma tela pronta para receber tinta, como um palco pronto para receber atores. Nada havia de mais vazio que seu rosto; nem mesmo seu coração...
Arlena desviou os olhos de sua imagem e sorriu.
“Coração”, disse em voz alta.
Seus braços finos tremiam de frio. Os azulejos brancos das paredes pareciam incrivelmente velhos. “Quando a enfermeira virá?”
Sem sua medicação, ela se perdia cada vez mais profundamente na selva de pensamentos obscuros e lugares desconhecidos. Apenas uma vez vislumbrou a paz em seus pesadelos: grandes olhos castanhos cheios de afeto olhavam-na direto na alma, enchiam-na de calor e pareciam sorrir, a despeito da solidão que a cercava. Nunca soube de quem eram aqueles olhos, mas sabia, de alguma maneira, que não eram fruto de sua alma deturpada.
“Quando a enfermeira virá?”
O pequeno leito no canto do quarto parecia pequeno demais para conter seus sonhos, e Arlena andava pelo quarto tentando escapar do hálito de podridão que emanava de sob a cama, das frestas da porta, do piso frio, da luz azulada que se infiltrava pelas vidraças da janela.
Ouvia de novo o som nauseante da flauta. Parecia poder ver o horror que soprava aquela alucinação, solto no vazio desde sempre, a ignorá-la.
“Pobre Arlena”, pensou.
A penumbra era boa, a luz era ruim. O frio era bom, o calor era ruim.
Arlena tentava cansar-se para se opor ao medo que a invadia, e andava pela sala em busca de uma solução. Visualizava uma estrada, caminhava por ela, mas sempre acabava nas estepes cinzentas cobertas de fungos e de névoas espectrais de cores bizarras.
Há muito tempo tinham levado todos os livros embora, mas Arlena se lembrava deles, ela os via – Oh! Os mortos!
“Quando a enfermeira virá?”
A porta se abriu de repente e aqueles belos olhos castanhos se aproximaram de seu rosto. Podia sentir o cheiro de coisa viva, de calor e de afeto. Sentiu-se aninhar nos braços e no peito daquela criatura, e sentiu-se como uma árvore, como algo que tem raiz... sentiu vida correr em suas veias e sentiu o chão sob seus pés. Arlena estava feliz. Seu sorriso era tão belo e sereno que poucos ousaram se perguntar a que atribuí-lo, quando ela foi encontrada sem vida pela enfermeira, num canto de sua cela.

quarta-feira, abril 30, 2014

Renovação

Ajeitou a lapela do casaco e olhou o próprio reflexo no vidro da prateleira. Mordeu a ponta do dedão. Era realmente um azarado. 
Havia sido deixado pela amante por meio de um simples bilhete, recebido no dia anterior, à hora do almoço, depois de ter sido recusado em três entrevistas de emprego e de ter tido uma desagradável discussão com a esposa alguns dias antes.
Tudo lhe parecia abafado e morno. 
Desceu as escadas devagar, revirando a chave do carro entre os dedos. Voltaria ao antigo escritório, para trabalhar com a chefe autoritária, e dois colegas absolutamente estranhos (desconfiava que um deles fosse russo ou tivesse algum transtorno). 
Havia imaginado tanto para a própria vida. Havia almejado tantas coisas. Seus planos eram saudavelmente realistas e em nenhum momento quis algo de inalcançável. Ainda assim, seus esforços foram insuficientes.
Abriu a porta de correr que dava acesso à rua e sentiu mais frio do que esperava. Estava contrariado e sentia-se gasto e velho. Não era caso para chorar, mas havia uma expressão birrenta e furiosa em seu rosto. Queria mandar todo mundo à merda. 
A caminho do trabalho, guiou distraidamente, evitando ruas lotadas e áreas comerciais. Mastigava sem vontade um cigarro enquanto ouvia o chiado do rádio. Por um momento, hesitou entre voltar para casa e seguir em frente. 
Reduziu a velocidade em frente a uma loja pequena e vazia do centro. Na vitrine, manequins semivestidos com os lançamentos da moda, um cartaz de promoção, bugigangas sem valor. 
Parou o carro, entrou na loja e fez umas compras. Chapéu, algumas camisetas brancas, algumas revistas. Suas últimas cédulas foram morosamente passadas para a mão da moça do caixa, que o olhava com autêntica indiferença. Entrou no carro, acendeu outro cigarro e virou na próxima esquina. 
Refez seu caminho como se voltasse para casa. Passou em frente ao prédio, mas não parou. Seguiu em frente até a rodovia. Olhou o marcador de combustível e concluiu que não precisaria parar por um bom tempo. Dirigiria enquanto pudesse. Dirigiria sem parar. Desligou o celular, aumentou o volume do rádio e desejou que jamais tivesse que fazer o caminho inverso. 
Haveria de esquecer o próprio nome.

segunda-feira, outubro 28, 2013

Criança desaparecida

- Leite de verdade? Onde quer que eu arranje leite de verdade? Você já viu uma vaca alguma vez na sua vida?
- Mas este leite é esquisito...
- Olhe aqui, garoto, eu não sei de onde você vem, nem quem criou você, mas não existe uma vaca sequer num raio de 300 Km. Portanto, se você experimentou leite, deve ser filho de algum rico ou deve estar delirando. Eu nunca provei leite. E este aqui está muito bom, é de milho, eu mesma fiz. Leite de vaca, onde já se viu?
- Eu como carne no almoço todo dia...
- Chega dessas mentiradas. Ninguém come carne há séculos. Além de nojento, é raro e caríssimo. Só um membro da liga pode ter pombos, peixes e essas coisas todas...
- Meu pai tem um rancho com mais de cem ovelhas.
- Ovelhas? Escute aqui, moleque, se não parar de inventar histórias, eu vou dar esta caneca para a sentinela. Todos nós aqui passamos fome, e a comida mal cresce nessa terra cinzenta. Não existem cem ovelhas no mundo. Seu pai deve estar procurando você, ou acha que os captadores já pegaram seus órgãos. Crianças não andam sozinhas por aí, então alguém deve estar à sua procura. Enquanto isso, é só uma boca a mais para eu alimentar. Não quero perder a paciência com você, então pare com as mentiras.
- Não é mentira!
- Então quem o trouxe aqui? E por que essas suas roupas?
- Eu vim sozinho pra cá. Na minha escola tem um túnel... eu e meu amigo entramos. Aí eu achei a caixa. Eu não quis mostrar para ele, porque ele ia tomar de mim. Ele sempre toma tudo de mim. Levei a caixa para casa e escondi no celeiro. À noite, depois de jantar, eu fui para lá e...
- Você anda assimilando textos demais...
- E quando eu abri a caixa, tinha muitos botões e telas. Eu fiquei mexendo nela para ver se era uma televisão...
- Televisão? Como assim, televisão?
- De tanto eu mexer, acendeu uma luz vermelha. A tela ficou iluminada e quando eu coloquei a mão nela, senti um frio e um calor. Uma luz bem forte acendeu e iluminou o celeiro inteiro. Quando essa luz apagou, eu senti muito frio. Aí eu vi que não estava mais no celeiro do meu pai. Fiquei escondido lá nas predas...
- "Pedras".
- ... nas pedras, onde você me achou.
- Então você não veio de longe? E esse seu sotaque estranho?
- Eu não saí do lugar... só acendeu a luz...
- Espera. Tinha uma caixinha com você lá nas pedras. Era aquela a caixa que acendia?
- Uhum.
- Esvazie os bolsos.
- Por quê?
- Vamos. Coloque tudo em cima da mesa. Deixe-me ver. Moedas antigas?... um lápis? Lápis? E o que é isso?
- Chiclete.
- O quê?
- Chiclete. É um doce. É de mastigar.
- Chiclete? E isso aqui?
- Um celular.
- Celular? Onde arranjou isso?
- É meu, de ligar para meus pais.
- Eu nunca vi um desses na vida. Como funciona?
- Você liga aqui, ó...
- Menino, eu acho que você está ferrado. Se tudo aconteceu como você contou, você está no tempo errado. Eu nunca acreditei nessas lendas, mas pelo visto funciona. Você veio do passado. Você percebeu o quanto aqui é estranho? Viu algo que não conhece?
- Uhum.
- Por isso reclamou do leite. Os antigos bebiam leite de animais. É isso! Lembra-se do campo que atravessamos? Pois é. Depois dele tem um cemitério de máquinas. Vamos até lá, pegamos o que for possível e voltamos para as pedras. Vamos tentar fazer o aparelho funcionar. Você sabe em que ano estava quando veio parar aqui?
- 2012.
- Dois mil e doze? Dois mil e doze na contagem antiga... oitenta e cinco antes da guerra... duzentos antes da... espera! Isso faz uns seiscentos anos! É antigo demais! Eu não entendo de tecnologia tão antiga. Não temos muita coisa hoje, sabe... Qual sua idade, em anos solares?
- Hã? Solares?
- Quantas revoluções? Quantos anos você tem?
- Seis, ó (mostra com os dedos).
- Só isso e é grande assim? Oh! Os antigos viviam bem! E olhe esses dentes! Os captadores dariam fortunas por um como você. Fortunas... poderíamos comprar água, protetores, omnicilina... a vida é muito difícil...
- O que são captadores?
- Não importa... escute... Hoje você descansa. Amanhã vamos ver um amigo, está bem?
- E depois eu vou pra minha casa?
- É... pra casa... vamos ver o que ele consegue... amanhã tudo vai mudar...

segunda-feira, março 04, 2013

O tesouro

Sentei-me no chão da sala e olhei em volta. As paredes, forradas de finas sedas e valiosas tapeçarias, eram de perfumado pinheiro branco.
À minha frente um baú: simples, limpo e sem adornos. Tirei a longa chave da manga. Ela esteve comigo por muitos anos, desde sempre, e suas origens se perdem na bruma das eras.
Estava calmo e satisfeito. Sabia que o tesouro ali contido era o remédio de que meu espírito necessitava: como a água fria de um ribeiro manso, haveria de refrescar-me a alma e me limpar-me de todo o cansaço.
Girei a chave três vezes, e ouvi um estalido: a fechadura azinhavrada se abria, e com um frêmito de curiosidade, ergui a tampa. Dentro do baú forrado de veludo vermelho, apenas um diminuto livro encadernado. Sua capa, de madrepérola, reluzia à luz da vela amarela que queimava lentamente sobre a mesinha, e até a chama parecia alegrar-se curiosa para ver seu conteúdo.
O livrinho se abria aos poucos, em vários compartimentozinhos que continham segredos. Os segredos se manifestavam por meio de adágios, escritos em papel de seda, em delicada aquarela de várias cores, sobre intrincadas dobraduras que representavam, cada uma, um sonho. Dentro de cada sonho, um enigma: uma escultura tão leve quanto a asa de um inseto.
Os segredos de cada compartimento se complementavam, e diante de meus olhos vi abrirem-se as páginas de um novo mundo, um mistério.
Boquiaberto, cerquei-me desse tesouro. Por séculos meditei sobre suas pistas, suas indicações. A cada momento do dia uma nova inspiração me surgia; e incomodado, vasculhava minhas memórias e meu coração. A cada novo desafio vencido, sentia-me revigorado e jovem.
Pouco a pouco, montei o quebra-cabeças, e com os fugazes filamentos luminosos que cruzavam meus pensamentos, teci essa teia, tão ansiosamente almejada.
No momento da conclusão, tornei-me de fato um herói: Ao desvendar a charada, encontrei a resposta para mim mesmo.