segunda-feira, maio 30, 2016

Mulher

- Se ela não ficasse se mostrando isso não aconteceria.

- Olha aí, nós fomos dar direitos para elas, elas já foram arrumando dor de cabeça.

- Uma mulher quer agir como homem, é nisso que dá. Bem feito.

- Mulher neurótica, ciumenta, que fica no pé do marido, merece apanhar na cara.

- Homem não tem ciúmes, tem cuidado com as coisas dele!

- Se a mulher obedecer o marido, não tem motivo para eles brigarem.

- Só porque se separaram não quer dizer que a mulher pode sair por aí fazendo o que bem entender. Ela continua devendo respeito ao homem!

- Eles se separaram, ele não tem mais obrigação nenhuma de respeitar a ex-mulher.

- Ele é pegador, passa o rodo, curte a vida. Está certo. Ele é novo, bonito, tem mais é que aproveitar. Solteiro sempre, sozinho nunca!

- Ela sai com vários caras, não presta, só porque é gostosa acha que pode sair por aí dando pra qualquer um. Uma vadia dessa não tem moral.

- Ela não quis transar na primeira noite, se acha muita coisa, ficou se fazendo de santinha, não passa de uma vagabunda.

- Ela transou na primeira noite, não presta, não passa de uma vagabunda.

- A mulher tem que tomar anticoncepcional. Se ela engravidou o problema é dela, ela é que tem obrigação de se cuidar. Senão, é uma pistoleira.

- Mulher não pode exigir que o homem use camisinha. Ele usa se quiser, afinal usar camisinha é como chupar bala sem tirar o papel.

- O embrião não tem culpa se a mulher foi estuprada! Ela não pode abortar! Tem que levar a gravidez adiante e ter o filho!

- Mãe não pode abandonar o filho! Ela quis ter, agora tem que criar!

- Até uma vaca ama o bezerro, mas essa mulher abandonou o próprio filho.

- Se ela não tem condições de criar, tivesse pensado nisso antes de sair por aí dando para qualquer um. Vai fazer faxina, vai lavar roupa, se vira. Na hora de abrir as pernas tava bom, né?

- O pai nem sempre tem condições de sustentar a criança, isso não é culpa dele. E se ele estiver desempregado, vai fazer o quê? Matar, roubar?

- Ela não teve pena de largar o menino na creche com apenas quatro meses de idade, é uma desnaturada sem coração. Ter filho para os outros cuidarem é fácil.

- O pai precisou ir embora para trabalhar. O que ele ia fazer? Ficar em casa dando mamadeira pra criança? Ele tinha que ir, a gente não sabe o porquê de ele nunca ter voltado.

- Ele foi embora quando soube que o bebê que ela esperava tinha microcefalia. Agora ela quer que o governo a sustente, mas a culpa não é minha se o filho dela tem problema.

- Neurocirurgião, um dos melhores do país.

- Neurocirurgiã? Tá louco que eu vou deixar uma mulher operar minha cabeça?

- Mulher ao volante só faz cagada.

- Ela pediu aumento ao chefe, ele riu na cara dela. Só porque os outros funcionários ganham mais, não quer dizer que ela tem que ganhar o mesmo, afinal ela é mulher.

- Por que mulher aposenta mais cedo? Era só o que faltava! Dando uma de coitada! Quer direitos iguais mas não quer ter que trabalhar o mesmo que um homem trabalha.

- O homem chega cansado do trabalho e a mulher ainda quer que ele ajude a fazer comida, lavar roupa, olhar os filhos? Isso é problema dela. Ela também trabalha fora, mas é servicinho fácil, não trabalha como ele.

- O sujeito estava estressado, cansado, sob pressão. Por isso ficou furioso daquele jeito. É normal.

- A mulher é uma neurótica, rainha da TPM, histérica. São todas loucas.

- Olha só, uma mulher passar em primeiro lugar! Nem dá nem pra acreditar!

- O cara passou em primeiro lugar, claro, afinal ele estudou.

segunda-feira, abril 11, 2016

As terapias alternativas e os cristãos

Quando um cristão rejeita ou desrespeita a crença de alguma outra pessoa ou recusa tratamentos alternativos porque são “crendice” ou porque “não há evidência científica” de que funcione, eu tenho vontade de esfregar a Bíblia no nariz da pessoa, especialmente aberta em Hebreus 11:1-6. A religião é baseada em fé, e fé é acreditar em algo que não se pode ver! Falo dos cristãos mas isso serve a qualquer pessoa que pratica alguma religião estabelecida, como o islamismo, espiritismo, etc. E antes de mais nada devo dizer que sou cristã e que esforço-me em ler e compreender a Bíblia, e que peço a Deus entendimento e sabedoria, porque acredito e tenho fé. Mas da mesma maneira, convido a todos os céticos e pessoas que não têm religião a manter uma mente aberta a quaisquer sucessos que possam ocorrer por meio de práticas não-científicas, pelo simples fato de que não sabemos tudo e provavelmente nunca saberemos. 
Se você se sente à vontade para praticar sua religião e exigir respeito, obrigatoriamente, por causa dessa mesma religião, você tem que respeitar a dos outros. É uma questão, senão de justiça, de honestidade. E sobre a evidência científica, informe-se, leia artigos científicos sempre, pois novas descobertas são feitas a cada dia. Mantenha a mente aberta. Em primeiro lugar, porque muitos estudos sérios apontam para a existência de algo imaterial que age em cada pessoa e que não pode ser medido nem pesado, mas que existe e seus efeitos podem ser verificados, e que afetam sua saúde, desenvolvimento, raciocínio, estado emocional e psicológico.
Segundo, porque se os melhores cirurgiões do mundo juntassem partes saudáveis de um corpo humano, nem por isso este corpo acordaria e sairia andando: falta algo que está fora dos limites da ação humana e que só pode ser atribuído ao desconhecido ou sobrenatural (Deus, Alma, Espírito, Sopro de Vida, chame como quiser). O que junta nossas moléculas de carbono, hidrogênio, oxigênio e outros minerais e nos faz ser uma pessoa que anda, respira, ama e odeia, ainda é desconhecido da ciência e só pode ser suposto, mas não provado.
Terceiro porque a Ciência é confiável mas não é prova para tudo. A medicina moderna existe há cerca de duzentos anos, e só nos últimos 100 é que começou a caminhar de verdade. Antes disso, era tão ou mais baseada em crenças que o xamanismo, e se você duvida disso, saiba que alguns tratamentos comuns até um século atrás eram os supositórios de ópio, xarope de heroína para crianças, comprimidos de cocaína para dor de cabeça, choques aplicados no ânus e banhos gelados para curar loucura, injeções intravenosas de mercúrio e outras variadas substâncias para tratar histeria, entre outras barbaridades que se não matavam, deixavam sequelas horríveis. Atualmente ainda há muito o que descobrir. Pegue qualquer bula de remédio e vai ler que “os mecanismos de ação do fármaco ainda não são totalmente conhecidos” ou “desconhece-se o efeito no organismo a longo prazo” ou “efeitos colaterais inesperados podem ocorrer”. Os remédios modernos que usamos hoje tratam apenas os sintomas e não as pessoas.
A medicina tradicional dos xamãs, pajés, sábios hindus, sábios chineses, curandeiros africanos, etc. baseia-se na observação, na tentativa e erro. É algo que vem sendo testado e observado há milênios, desde que ainda balançávamos em árvores antes da Era do Gelo – e era tudo que tínhamos até alguns anos atrás (ainda é tudo que muitas pessoas têm, visto que grande parte da população do planeta não pode ir a médicos e hospitais modernos para se tratar de doenças). A sabedoria tradicional não é resposta para tudo, mas Ciência moderna também não é. Descartar unicamente por ceticismo teimoso é ser obtuso. Especialmente um cristão, alguém que vive de fé e pela fé. Opor-se à fé dos outros por falta de provas científicas é ser muito hipócrita. Antes de converter-se ao cristianismo você pediu provas científicas dos milagres de Cristo? Se o próprio termo milagre já indica que não há explicação científica para o ocorrido!
A espécie humana existe há 200.000 anos (de acordo com a Ciência), ou 6.000 anos de acordo com as Escrituras Sagradas. Jesus morreu há quase 2.000 anos. Todos esses milhares de anos a Humanidade viveu utilizando-se de plantas, minerais, orações, amuletos, luz do Sol e algumas técnicas esquisitíssimas para combater doenças e trazer longevidade, bem-estar, fertilidade. E viveu. Viveu e produziu pessoas fortes e inteligentes. E continua a produzir. Quanto mais natural o estilo de vida, mais forte e inteligente é a pessoa. Quanto maior o consumo de drogas sintéticas produzidas de maneira super-científica, mais debilitado o indivíduo. Alguns simplesmente morrem, outros ficam tão dopados que nem raciocinam mais – tudo isso com remédios aprovados pela Ciência Moderna.
Estou tentando desacreditar a Ciência Moderna? De maneira nenhuma! Eu faço uso e dependo dela. A Medicina Ocidental salvou e salva diariamente milhões de vidas humanas que talvez não pudessem ser salvas de outra maneira. Os médicos e cientistas são verdadeiros heróis e merecem todo o nosso reconhecimento.
O que eu quero desacreditar, faço questão de desacreditar, é a suprema ignorância de algumas pessoas de simplesmente ridicularizar a sabedoria de nossos ancestrais, anular toda e qualquer conquista dos sábios da medicina tradicional, e virar as costas para a fé e a tradição em nome de uma Ciência que ainda está engatinhando, e que embora esteja evoluindo rapidamente, ainda tem respostas para bem poucas perguntas.
Não temos que fazer uma escolha: ou isso ou aquilo. Pelo contrário. Devemos ter a mente sempre aberta e o coração limpo de preconceitos, barreiras e medos. Podemos e devemos dar ouvidos aos nossos sacerdotes, padres, pastores, mestres, sobre a maneira de viver mais adequada à nossa fé ou religião. E procuramos um médico quando nossa doença escapa ao entendimento dessa fé ou religião. As coisas se completam. Tanto isso é possível e verdadeiro, que muitos médicos e cientistas são pessoas religiosas. Muitos médicos renomados complementam sua formação com estudos da medicina oriental e terapias alternativas, e usam estes conhecimentos para trazer a cura e o conforto a seus pacientes de uma maneira que só a medicina ocidental, ou só a religião, não fariam. A física, a matemática, a química não excluem a fé.
Nossa vida seria bem mais simples e honesta se em vez de impor barreiras, limites e divisões, as pessoas buscassem o respeito e o entendimento, ouvissem o que os outros têm a dizer, estudassem e lessem mais, e buscassem em suas respectivas religiões motivos para amar e respeitar o próximo.
É sério, irmãos cristãos, parem de pedir provas científicas das coisas, vocês desacreditam a si mesmos desse jeito. Lembrem-se de que a Bíblia adverte contra feitiçaria, magia negra, sacrifícios pagãos, etc. O povo hebreu sempre foi atrás do que dava resultado, e sempre acabava seguindo deuses estranhos e práticas estranhas quando ficava muito tempo sem notícias do Senhor. Será que as pessoas buscariam estas práticas se elas não funcionassem? Não! O próprio Rei Saul procurou uma “bruxa” (palavra que era usada para referir-se a praticantes de qualquer outra religião, na época) para invocar o espírito do Profeta Samuel (com sucesso). A Bíblia adverte contra os magos que praticam sinais e maravilhas. Ou seja, a própria Bíblia diz que o sobrenatural existe e funciona. Cabe a nós procurarmos a resposta para nossas dúvidas estudando a Bíblia, orando e pedindo auxílio aos nossos pastores e padres.
Algumas técnicas que antes eram tidas como curandeirismo, magia e feitiçaria, hoje são estudadas por ramos da ciência e muitas são reconhecidas como práticas terapêuticas efetivas, como hipnose, massagens, energização da água, yoga, alimentação orgânica. Outras ainda requerem muito estudo, o que não as desmerece. Deus é o Criador de todas as coisas. Ele fez tudo que existe. Minerais, plantas, animais, luz do Sol, energia eletromagnética, calor, gravidade, células-tronco, as leis da Física, tudo o que conhecemos e tudo o que não conhecemos. Ele é a prova de que precisamos. Parem de achar que tudo que não está provado pela ciência é maligno ou inócuo. Se Deus fez uma planta que serve como remédio, qual o problema de tomar este remédio? Se fez as cores e estas cores agem sobre nós, qual o problema de usar as cores como terapia complementar? Se alguém que você ama diz que vai orar por você, você vai recusar porque não tem “prova científica”?
Não devemos atirar pela janela os recursos que Deus nos dá. Assim como a ciência faz grandes descobertas e cria técnicas avançadas de tratamento, também Deus dá inteligência e recursos para que os cientistas alcancem estes resultados. Se você não crê em nada disso, a fé não é para você. Abandone o cristianismo e vá ser cético. Mas deixe as outras pessoas em paz.

Citação: Hebreus 11: 1-6 “A fé é o fundamento da esperança, é uma certeza a respeito do que não se vê. Foi ela que fez a glória dos nossos, antepassados. Pela fé reconhecemos que o mundo foi formado pela palavra de Deus e que as coisas visíveis se originaram do invisível. Pela fé Abel ofereceu a Deus um sacrifício bem superior ao de Caim, e mereceu ser chamado justo, porque Deus aceitou as suas ofertas. Graças a ela é que, apesar de sua morte, ele ainda fala. Pela fé Henoc foi arrebatado, sem ter conhecido a morte: e não foi achado, porquanto Deus o arrebatou; mas a Escritura diz que, antes de ser arrebatado, ele tinha agradado a Deus {Gn 5,24}. Ora, sem fé é impossível agradar a Deus, pois para se achegar a ele é necessário que se creia primeiro que ele existe e que recompensa os que o procuram.” Leiam também Mateus 16, em que Jesus adverte sobre a pouca fé.

quinta-feira, fevereiro 04, 2016

A sinceridade das crianças

Alguns anos atrás, eu estava passando esmalte nas unhas para a festa de aniversário do meu sobrinho, feliz e tranquila, quando chega o próprio - Criança nº 01 - e pergunta: - Tia, por que vocês mulheres passam esses negócios?
- Pra gente ficar bonita.
- E por que não fica?
- Ah, Enzo, mas pelo menos a gente tenta.
- Mas você não é muito feia.

Em outra ocasião, estava bebendo suco de caixinha em companhia de uma pequena manada de crianças. Uma delas - chamemo-la de Criança nº 02 - me observa atentamente, fixamente. Cumpre dizer que não bebo suco normalmente, aos poucos. Bebo tudo de uma vez, sem respirar, aos goles. E a criança me observando. Quando terminei a caixinha de suco, a criança jovialmente me olha nos olhos e diz: - Pescoço de gente velha é esquisito, né?

E é por isso que eu sou triste.

domingo, janeiro 10, 2016

Alexander Jansson

Ilustrações oníricas.
Curiosas ilustraciones de cuento de hadas producidas por un talentoso joven artista sueco Alexander Jansson
Posted by CCTV on Sunday, January 10, 2016

domingo, dezembro 20, 2015

A última ação do ano

A gangue estava toda ali. Maquinado, Bacada, Rude e Luvão. Quatro sujeitos com mais de quarenta anos, bonitões, parrudos, todos com cara de mau.
Juntavam seus perteces para levar para o carro. Fazia um tempo, já, que não faziam essas coisas. Quando eram jovens, eram até conhecidos. Mas agora eram homens de bem, casados. Já nem tinham coragem. Só que hoje a coisa parecia ser boa, parecia que ia valer a pena. Então eles combinaram de se encontrar. Fariam tudo muito rápido, cada um pegaria sua parte e ia embora. Sem perda de tempo e principalmente, sem brigas. Afinal, quatro negões bem vestidos num Monza sempre chamam atenção.
Bacada era de todos o mais seco, daí o nome. Tinham braços grossos e era atarracado e suado. Estava sempre suado, quer dizer. Não sabiam muita coisa dele, ele sempre se mudava de casa, de bairro, de mulher. Foi ele quem arranjou o negócio. Iriam no carro do Rude, mas a ideia era dele. Ele era quem tinha os esquemas.
Rude, coitado, nem de longe era rude. Era o mais altão de todos, o mais manso também. Tinha esse apelido porque se chamava Rudenilson. Ele estava bem nervoso, porque tinha crescido na área onde iam atuar, e porque iam no seu Monza.
Chamavam Maquinado assim porque ele sempre bebia umas antes, pra criar coragem. De todos era o mais talentoso, o mais velho e o mais calado. Conhecia bem o estabelecimento. Costumava dar movimento. Concordou prontamente com Bacada, podia valer a pena, podia dar certo.
Luvão era um menino ainda comparado aos outros três. Muito meticuloso, gostava de usar luvas, nem tanto para não deixar digitais nas coisas, mas mais para não oxidar o cano de metal. Os outros zombavam dele. "Você pensa que é um gângster, bestão? Precisa mesmo dessas luvas?". Luvão sorria, humilde. Precisar, não precisava, ué. Mas gostava delas.
Subiram a Pedro Amaral já de noite, passando pelos pedestres que, talvez, iam para o mesmo bar. Tentavam não pensar muito no que iam fazer, para não ficarem tensos. Iam fazendo piadas, olhando a rua. Quando chegaram à Boa Vista, começaram a virar esquinas e mais esquinas até acharem o lugar. Pararam debaixo duma árvore, duas casas pra frente.
"Certeza que é aqui?", perguntou Luvão. Bacada, que dirigia, não respondeu. Desceram, pegaram as coisas no porta-malas.
Entraram no bar.
O lugar estava escuro, fumacento, mesmo sendo proibido fumar lá dentro. Só tinha luz perto do palco, o resto estava no escuro. O palco era lá no fundo.
Entraram, cada um segurando um negócio daqueles, e foram até o fundo do bar, sem olhar para os lados. O dono do bar os viu entrar e ficou de boca aberta, olhando-os passar.
Chegaram na beirada do palco, abriram seus cases, e de lá tiraram seus instrumentos. Subiram no palco com o coração a mil. Era agora.
Cumprimentaram a todos e começaram a tocar. Sem afinar instrumentos, sem "passação" de som. Simplesmente tocaram. E foi uma apresentação tão boa como há muito tempo não faziam. Até quem estava na rua resolveu entrar para ver a banda. Quem eram aqueles caras?! Foi uma coisa linda. Até a molecada nova, esses playboys que acham tudo chato, estava lá dentro na pista de dança.
Depois de tudo, o dono do bar trouxe chopp e uma porção de mandioca frita. "O bar bombou esta noite. Vocês deram lucro mesmo."
Maquinado estava todo orgulhoso. Ria feito besta: não só compraria presentes para os bacuris, como a esposa ganharia um vestido novo. Ia ter até Champanhe, pensou.
Cada um fez planos e contas enquanto comia rapidamente, para irem logo embora.
Os quatro saíram do bar em seguida, e Rude levou cada um pra sua respectiva casa (todos moravam longe). Na rodovia, rumo à Vila Toninho, foi pensando que talvez exista mesmo esse negócio de Espírito Natalino, afinal de contas.

quinta-feira, dezembro 10, 2015

A escolha de Flerion

"Na escolha de seu animal, o mago deve ser bastante cuidadoso. Especialmente se pretende usar encantamentos de licantropia, como o Mutação Reagente ou Transformação Parcial. Há magos iniciantes que, por falta de estudo, deixam-se arrastar pela vaidade, escolhendo tigre, lobo ou urso como seu animal. Esquecem-se que estes animais são bastante agressivos e difíceis de controlar, e que uma vez concluída a transformação, pelo menos nas primeiras vezes, a consciência animal sobrepuja a do ser humano, deixando o mago à mercê da própria estupidez de fera.
Uma vez escolhida a besta, não pode ser substituída, portanto a escolha jamais deve ser equivocada. Grandes vampiros-magos obtiveram meios de trasformar-se em mais de um animal. Mas tais encantamentos requerem, muitas vezes, sacrifícios humanos, que são horrivelmente desagradáveis e malvistos.
É bom lembrar que nem sempre o mago assume a forma física de sua besta, porém pode invocar certos sentidos aguçados, destreza ou outras capacidades que lhe forem convenientes no momento.
Alizarus de Modana, o Simples, escolheu para si o lagarto saltitante, e na famosa Batalha de Serinaya, pôde atravessar o Pântano Avesso e o Bosque Pulsante com a joia Etrina na boca, e finalmente devolvê-la à coroa de Serinaya, pondo fim à Guerra dos Três Reinos e ganhando como recompensa um belo escravo númio, o Berimbau Inaudível e a Cornucópia de Primavera. Se tivesse escolhido uma fera enorme, jamais teria completado a tarefa e hoje seu nome teria sido esquecido.
Já a Feiticeira Thrya, ainda adolescente, sob a tutoria de Ravius Nigro, teve a esperta ideia de selecionar o camaleão como seu animal. E todos sabem de suas fabulosas peripécias durante a recuperação do espólio dos atlantes refugiados em Hiva. Graças à astúcia da prudente camaleoa, mais de seis mil objetos e encantamentos hoje estão seguros sob a Pirâmide Maior de Eldorado, bem longe das garras imundas dos salteadores S'ip e dos monges Ajuna. Porque a magia não deve servir à ganância ou à vaidade, mas à cultura, à manutenção do equilíbrio e... Mas o que está fazendo? Deixe-me ver esses rabiscos! Um jabuti, uma taturana, uma lesma... diga-me, senhor Flerion, quando for um mago de terceiro grau, se um dia o for, de que lhe servirá transformar-se em lesma? O senhor poderia escolher, por certo, um rinoceronte, um chimpanzé... e digamos que encontre-se numa situação de infortúnio, preso, ou em batalha, que proveito teria o senhor ao se transformar em taturana? O jabuti sem dúvida tem seu casco, mas as lanças Asires são capazes de perfurar os portões de basalto deste castelo, que dirá o senhor do seu jabuti? Thura, por sua vez, escolheu a lontra! De que serve a lontra, pequena feiticeira?"
- "A lontra é rápida."
- "E o que mais?"
- "Move-se na água."
- "E o que mais?"
- "Rouba coisas."
- "Ah! Temos aqui uma jovem ousada. Vejam, vocês três devem estudar a fundo seus animais. Não façam escolhas tolas. A magia não é diversão. Questionem sua vocação. De onde vieram? Por que estudam a magia? Quais os encantamentos que deverão utilizar e como deverão formular seus próprios para que sua trasformação ocorra de maneira eficaz? Amanhã, em nossa visita ao campo de ylang-ylang, quero que cada um discorra sobre o bicho escolhido. Não devemos retardar mais isso. Se querem aprender comigo, devem fazer render meu tempo."
Os três aprendizes saíram, cabisbaixos, carregando seus grimórios, com ar de abatimento. Dimitrus era um mago severo. Mas Flerion, teimoso, já havia feito sua escolha. Seria o jabuti mais matreiro de toda Illevrant, de todo o mundo. Haveria se escrever seu nome nas páginas da História sob o signo do jabuti. Isso sim.

sábado, outubro 24, 2015

Então é Natal - quase

Houve uma época em que Simone era uma cantora talentosa e bonita que fazia sucesso por sua cabeleira incrível e sua voz limpa e agradável. Hoje, Simone tornou-se sinônimo (ou talvez "Simônimo") de música chata de Natal. É uma pena, porque ela sabe fazer mais que isso, mas não estou aqui para defender a Simone e sim para falar das músicas natalinas.
No Brasil inteiro, ninguém aguenta mais ouvir "Então é Natal". Só que, como os artistas brasileiros, salvo raras exceções, são limitados e sem criatividade, ninguém aqui faz música de Natal. O comércio quer que a data seja lembrada, então toca Simone até falar chega.
Não há um carinho, um capricho na elaboração da atmosfera natalina. No Brasil, a data se resume a compras frenéticas, comilança desefreada e nem um pouco saudável, e ouvir Simone nas lojas, no rádio, no elevador do prédio, na televisão, atrás da porta, embaixo do tapete, dentro da lata de biscoitos, em todo lugar toca "Então é Natal" e é desesperador.
E no entanto o Natal podia ser uma ocasião divertida e agradável para todo mundo, crianças e velhos, vendedores, profissionais liberais, motoristas, policiais, esteticistas e cabeleireiros. Tudo começa no ambiente de trabalho. E tenho algumas ideias que podem ajudar a criar o clima natalino sem deixar todo mundo mal humorado:
- Decoração de Natal não precisa ter aquelas fitas e festões empoeirados e que espetam as pessoas. Faça guirlandas de materiais naturais, como cipós, folhas e flores desidratadas, bandejas de frutas. Lembre-se que se trata da celebração do nascimento de uma criança, e que vivemos num país de clima quente. Chega de decoração cafona! Chega de coisas de plástico vermelho vagabundo penduradas pegando poeira!
- Se você é comerciante ou profissional liberal e seu estabelecimento tem televisão para os clientes, transmita coisas legais, em vez do especial da Simone ou do Roberto Carlos. Lembre-se que há inúmeros desenhos animados de tema natalino (Pernalonga, Pica-pau, Tom e Jerry, Pateta, Taz, Pato Donald, etc), TV Colosso especial de Natal, shows internacionais de artistas famosos como Elton John, Beyonce, etc. Existem corais maravilhosos no mundo todo que fazem apresentações emocionantes. Além disso, existem outras produções artísticas, como projeções de luz, filmes curta-metragem, patinação no gelo, óperas, videocassetadas natalinas, montagem de esculturas de gelo e bonecos de neve, uma infinidade de coisas legais que você pode transmitir na tv e atrair a atenção de seus clientes sem entediá-los ou irritá-los.
-Presépios, se criativos, podem chamar a atenção e divertir por horas. Podem ser eletrônicos, com persinagens móveis, mecânicos, de massinha, de tecido, de cosméticos, de pães e biscoitos, de fantoches, de hologramas, de tudo que você imaginar.
- O Natal é uma festa religiosa e o tema é o nascimento de Jesus. As pessoas não são idiotas. Se você tratar do assunto de maneira interessante no seu comércio, na sua casa, na sua rádio, no seu trabalho, todos vão gostar. Mas se você é anticristão, tem outra religião ou é ateu, tem duas opções: não trate do assunto, respeitando assim a si mesmo e a quem é cristão, ou use um tema evasivo, como Férias. Porque muita gente está de férias nesta época e quer usufruí-la. Vídeos maravilhosos de Ilhas Caribenhas, de esqui na Suíça, de noites em Paris e São Petesburgo, de praias e passeios de barco, de golfinhos e baleias, de city tours por metrópoles como Tóquio e Nova Iorque, são ótimas opções. E as músicas, se você não desejar transmitir as de temas natalinos, podem ser desde música clássica, como Mozart e Vivaldi, até jazz e blues, que geralmente "criam um clima" e todo mundo gosta.
- Embora os artistas brasileiros não se interessem muito pelo Natal, existem muitos cantores, dançarinos, performáticos e doidos do mundo todo que fazem coisas incríveis. Dê uma busca no Google e no Youtube. Tem até rap, breakdance e contorcionismo natalino.
- Comidas leves e coloridas são muito mais adequadas que enormes bolas de gordura assadas. Seja criativo e use ingredientes locais em pratos diferentes. O Brasil é vasto, quente, belo, e a noite de Natal é uma das mais quentes do ano. Faça uma mesa naturalmente colorida, sirva bebidas leves e use elementos rústicos na decoração, como folhas, palha, frutas, guirlandas. Cuidado com velas, pois são perigosas, e com excessos, pois muita elaboração pode ficar piegas.
- Não toque Simone.

sábado, março 14, 2015

O maior queijo que já caiu na Terra

- São sininhos.
- Bem podiam ser pessoinhas.
- Pessoinhas? Voando?
- Podiam estar penduradinhas.
- Você está vendo algum fio?
- Então são sininhos voando.
- São sininhos e um carneiro. Ao lado do bule de chá.
- São vários bules. O vapor atrapalha a vista. Mas dá pra notar que são vários.
- E vamos pegar algum deles?
- Não seja idiota, estão cheios de chá quente. Pegaremos o queijo...
- E as pessoinhas?
- São sinos, besta! Você mesmo disse!
- É mesmo. Então pegaremos o queijo... você tem certeza de que dá para descê-lo inteiro? Porque não temos roldanas...
- Preocupa-me o carneiro dormindo. Se ele nos vir roubando o queijo, pode tocar os sininhos, e alarmar a cozinha toda. Vê aqueles sujeitos lá embaixo da mesa, rolando o salame?
- Nem nos notarão, mesmo que o carneiro berre. Estão atarefados.
- O vapor pode nos atrapalhar. Imagine se caímos de cima daquela mesa! Já pensou se caíssemos no leite?
- Um balde daqueles de leite daria para o país inteiro beber...
- Durante uma semana! Mas olhe, tem aquele monte de palha onde o gato dorme, ao pé do forno...
- A entrada para o Inferno. E o gato deve ser o demônio em pessoa! Eu não queria cair na palha, seria pior que cair no chão duro.
-Veja, lá vêm as mulherzinhas de que nos falaram, elas têm a língua solta e se nos virem, farão escândalo. Note como carregam peso! Cada xícara daquela deve pesar o mesmo que...
- Vamos agora! Rápido!
- Ooooooh abaixe-se!
- Agora, atrás da manteiga!
- Fale baixo, imbecil. O carneiro vai nos ouvir.
- Por sorte é do nosso tamanho. Podia ser um carneiro gigante. Podia ser como aquele gato.
- O queijo! Como é grande!
- É maior do que eu pensava.
- Empurre!
- Não vamos conseguir. É pesado! Oh não, veja! O carneiro!
- Volte a dormir, seu maldito! Shhhhhh! Volte a dormir.
BÉÉÉÉÉ
- Agora, no três. Sobre a palha do gato. Um, dois, trêêêês
PLOFT
- Vire-o! Vire-o! Agora, vamos rolar. Eu vou na frente para não deixá-lo tombar, não me esmague. Rápido!
MIAU
- Para a porta! Xô, gato de Satã! E depois?
- Depois cairemos da nuvem. Vai ser o maior queijo que já caiu de uma nuvem na Terra!

segunda-feira, dezembro 01, 2014

Drusila e o ovo

Ofegante, Drusila fugia pela floresta. Em suas mãos, um pequeno tesouro que valia muitas vidas: um ovo do mundo. Guerreiros armados a perseguiam em busca do ovo. Muitos já haviam morrido por ele, em muitas ocasiões, em muitas batalhas.
O pai de Drusila o havia roubado de um feiticeiro, que por sua vez o havia roubado de um jovem rei, morto no combate.
Este ovo havia cruzado continentes, mares, eras geológicas. Continha dentro de si uma nova Gênese, um mundo esperando por nascer. Quem saberia dizer o que nasceria dali?
Quando soube do paradeiro do ovo, Elaya de Deuyan, regente de Alleritt, pôs suas tropas particulares para marchar em busca dele. Se podia ser soberana de um mundo só seu, pensou Elaya, para que preocupar-se em reger Allerit para os filhinhos do velho rei? E este velho rei sabia que seu vizinho possuía o tesouro. Só não teve presença de espírito bastante para tomá-lo.
O velho feiticeiro ainda vivia, em algum recôncavo do reino. Sabia onde estava o ovo. Sabia quem era Drusila. Porém seu imenso terror de um mundo novo e todas as implicações desta nova Criação o estarreciam de tal maneira que, covardemente, encerrou-se em seu palácio e jamais tornou a sair. Passava os dias e noites a temer, a sofrer, a grunhir. Folheava febrilmente livros e rolos de pergaminho, conjurava encantos, protegia-se com armas e encantamentos, temeroso dos vazios cósmicos que seriam preenchidos por, talvez, novos planetas e astros, novas forças e grandezas, nova luz, novas trevas, seres que todo feitio, cores desconhecidas, divindades sanguinárias, novas formas de morrer.
O cheiro de mato confortava Drusila, que sabia ser impossível surpreendê-la na mata. Era filha de cimérios, criada em Zingara. Jamais seria pega por um bando de Laonitas imbecis com suas lanças cegas.
Pretendia buscar recompensa pelo ovo com algum Senhor de outros mundos. Sabia que revoluções grotescas teriam início se as notícias desse objeto de espalhassem. O desvario do velho feiticeiro contagiaria metade do mundo, enquanto a outra metade lutaria com furor até ter a posse daquilo que podia significar um novo Universo e um novo Domínio.
Nenhum Deus estaria disposto a negociar. Sendo mortal, seria imediatamente aniquilada por possuir tal tesouro. Teria que buscar outros meios de trocá-lo por riquezas. Mas que riquezas? Pensava, enquanto se esgueirava por entre troncos imensos e grossas raízes de árvores milenares, por entre galhos retorcidos e gigantescas folhagens escuras da densa floresta. O cheiro de milênios subia do solo, parecendo-lhe doce, acre e macio, como o cheiro que os delírios têm.
Os soldados laonitas corriam parvamente, ferindo-se e a seus companheiros de busca. Elaya contratava mercenários para fazer seu jogo sujo, pois empregar tropas alleriten em tal missão egoísta despertaria a suspeita e depois a fúria do Conselho de anciães de Allerit.
Drusila corria como o vento, pois conhecia a selva tão bem quanto seu próprio rosto. Então, avistando ao longe o cume do monte Aiónios, desviou sua rota para a esquerda, no sentido inverso ao que levava ao rio Phobos. Certamente a patrulha seguiria em direção ao rio, julgando que ela o faria. Mas Drusila sabia que os rochedos inóspitos a oeste seguramente a ocultariam pelo tempo necessário. Lá, teria de descobrir como fazer sua oferta. Primeiro, buscaria a proteção dos Aggos, seres viventes dos rochedos, supersticiosos gigantes cujo medo os faria lutar até mesmo com os não-nascidos. Só então sopraria seu segredo, para ser levado pelo vento aos quatro cantos do mundo.
Teria de despertar Entes adormecidos, teria de invocar aberrações de dimensões desconhecidas - imortais, espectros, seres imaginários. O que poderiam lhe oferecer em troca de um novo Mundo?

quinta-feira, outubro 16, 2014

O núcleo

Ao longe, no horizonte, onde meus olhos jamais alcançam, onde a História cruza a tênue linha que a separa da Imaginação, lá onde sopram os melancólicos ventos da saudade do que nunca se teve, é onde busco alívio para as horas tristes, em que vago em busca daquilo que desconheço.
Nesses planos cobertos de pó é que está minha loucura, meu tesouro. Ali estão todas as horas que passei a errar, a fantasiar, sem limites nem rumos claros, apenas sentindo o calor daquele antigo Sol que sempre existiu e sempre existirá.
Os incertos contornos que a Terra assume quando viajamos no tempo confundem meus olhos, enganando-me e levando-me a ver aquilo de que meu coração está cheio, e não aquilo que habita o Tempo.
Ali, meu amor, no meu refúgio de mistério, onde jamais alguém chegou, ali onde me escondo da Vida, é ali que guardo seu rosto; é onde ficamos sós, num tempo que jamais chegou ou passou, num momento que fiz para nos eternizar, sozinhos, longe dos olhos do mundo.
Ali dentro, num pequeno ponto do Universo, no núcleo do meu ser, há todo o peso, toda a Glória, todo o medo, todo o Querer e toda a violência que faz de mim seu reflexo, seu par.
Perdoa minhas lágrimas, perdoa minhas risadas tolas; não é por maldade, mas por ternura que crio esta angústia.
Somos um amontoado de erros. Não há perdão, não haverá misericórdia, não há culpa também; eis a completude da Criação. Perfeitos, Belos, afogados em transgressões e Ego.
Tudo o mais que há é cenário, estopa e fumaça.