segunda-feira, outubro 28, 2013

Criança desaparecida

- Leite de verdade? Onde quer que eu arranje leite de verdade? Você já viu uma vaca alguma vez na sua vida?
- Mas este leite é esquisito...
- Olhe aqui, garoto, eu não sei de onde você vem, nem quem criou você, mas não existe uma vaca sequer num raio de 300 Km. Portanto, se você experimentou leite, deve ser filho de algum rico ou deve estar delirando. Eu nunca provei leite. E este aqui está muito bom, é de milho, eu mesma fiz. Leite de vaca, onde já se viu?
- Eu como carne no almoço todo dia...
- Chega dessas mentiradas. Ninguém come carne há séculos. Além de nojento, é raro e caríssimo. Só um membro da liga pode ter pombos, peixes e essas coisas todas...
- Meu pai tem um rancho com mais de cem ovelhas.
- Ovelhas? Escute aqui, moleque, se não parar de inventar histórias, eu vou dar esta caneca para a sentinela. Todos nós aqui passamos fome, e a comida mal cresce nessa terra cinzenta. Não existem cem ovelhas no mundo. Seu pai deve estar procurando você, ou acha que os captadores já pegaram seus órgãos. Crianças não andam sozinhas por aí, então alguém deve estar à sua procura. Enquanto isso, é só uma boca a mais para eu alimentar. Não quero perder a paciência com você, então pare com as mentiras.
- Não é mentira!
- Então quem o trouxe aqui? E por que essas suas roupas?
- Eu vim sozinho pra cá. Na minha escola tem um túnel... eu e meu amigo entramos. Aí eu achei a caixa. Eu não quis mostrar para ele, porque ele ia tomar de mim. Ele sempre toma tudo de mim. Levei a caixa para casa e escondi no celeiro. À noite, depois de jantar, eu fui para lá e...
- Você anda assimilando textos demais...
- E quando eu abri a caixa, tinha muitos botões e telas. Eu fiquei mexendo nela para ver se era uma televisão...
- Televisão? Como assim, televisão?
- De tanto eu mexer, acendeu uma luz vermelha. A tela ficou iluminada e quando eu coloquei a mão nela, senti um frio e um calor. Uma luz bem forte acendeu e iluminou o celeiro inteiro. Quando essa luz apagou, eu senti muito frio. Aí eu vi que não estava mais no celeiro do meu pai. Fiquei escondido lá nas predas...
- "Pedras".
- ... nas pedras, onde você me achou.
- Então você não veio de longe? E esse seu sotaque estranho?
- Eu não saí do lugar... só acendeu a luz...
- Espera. Tinha uma caixinha com você lá nas pedras. Era aquela a caixa que acendia?
- Uhum.
- Esvazie os bolsos.
- Por quê?
- Vamos. Coloque tudo em cima da mesa. Deixe-me ver. Moedas antigas?... um lápis? Lápis? E o que é isso?
- Chiclete.
- O quê?
- Chiclete. É um doce. É de mastigar.
- Chiclete? E isso aqui?
- Um celular.
- Celular? Onde arranjou isso?
- É meu, de ligar para meus pais.
- Eu nunca vi um desses na vida. Como funciona?
- Você liga aqui, ó...
- Menino, eu acho que você está ferrado. Se tudo aconteceu como você contou, você está no tempo errado. Eu nunca acreditei nessas lendas, mas pelo visto funciona. Você veio do passado. Você percebeu o quanto aqui é estranho? Viu algo que não conhece?
- Uhum.
- Por isso reclamou do leite. Os antigos bebiam leite de animais. É isso! Lembra-se do campo que atravessamos? Pois é. Depois dele tem um cemitério de máquinas. Vamos até lá, pegamos o que for possível e voltamos para as pedras. Vamos tentar fazer o aparelho funcionar. Você sabe em que ano estava quando veio parar aqui?
- 2012.
- Dois mil e doze? Dois mil e doze na contagem antiga... oitenta e cinco antes da guerra... duzentos antes da... espera! Isso faz uns seiscentos anos! É antigo demais! Eu não entendo de tecnologia tão antiga. Não temos muita coisa hoje, sabe... Qual sua idade, em anos solares?
- Hã? Solares?
- Quantas revoluções? Quantos anos você tem?
- Seis, ó (mostra com os dedos).
- Só isso e é grande assim? Oh! Os antigos viviam bem! E olhe esses dentes! Os captadores dariam fortunas por um como você. Fortunas... poderíamos comprar água, protetores, omnicilina... a vida é muito difícil...
- O que são captadores?
- Não importa... escute... Hoje você descansa. Amanhã vamos ver um amigo, está bem?
- E depois eu vou pra minha casa?
- É... pra casa... vamos ver o que ele consegue... amanhã tudo vai mudar...

segunda-feira, março 04, 2013

O tesouro

Sentei-me no chão da sala e olhei em volta. As paredes, forradas de finas sedas e valiosas tapeçarias, eram de perfumado pinheiro branco.
À minha frente um baú: simples, limpo e sem adornos. Tirei a longa chave da manga. Ela esteve comigo por muitos anos, desde sempre, e suas origens se perdem na bruma das eras.
Estava calmo e satisfeito. Sabia que o tesouro ali contido era o remédio de que meu espírito necessitava: como a água fria de um ribeiro manso, haveria de refrescar-me a alma e me limpar-me de todo o cansaço.
Girei a chave três vezes, e ouvi um estalido: a fechadura azinhavrada se abria, e com um frêmito de curiosidade, ergui a tampa. Dentro do baú forrado de veludo vermelho, apenas um diminuto livro encadernado. Sua capa, de madrepérola, reluzia à luz da vela amarela que queimava lentamente sobre a mesinha, e até a chama parecia alegrar-se curiosa para ver seu conteúdo.
O livrinho se abria aos poucos, em vários compartimentozinhos que continham segredos. Os segredos se manifestavam por meio de adágios, escritos em papel de seda, em delicada aquarela de várias cores, sobre intrincadas dobraduras que representavam, cada uma, um sonho. Dentro de cada sonho, um enigma: uma escultura tão leve quanto a asa de um inseto.
Os segredos de cada compartimento se complementavam, e diante de meus olhos vi abrirem-se as páginas de um novo mundo, um mistério.
Boquiaberto, cerquei-me desse tesouro. Por séculos meditei sobre suas pistas, suas indicações. A cada momento do dia uma nova inspiração me surgia; e incomodado, vasculhava minhas memórias e meu coração. A cada novo desafio vencido, sentia-me revigorado e jovem.
Pouco a pouco, montei o quebra-cabeças, e com os fugazes filamentos luminosos que cruzavam meus pensamentos, teci essa teia, tão ansiosamente almejada.
No momento da conclusão, tornei-me de fato um herói: Ao desvendar a charada, encontrei a resposta para mim mesmo.

terça-feira, janeiro 15, 2013

Ano novo, de novo

Levei dias para me recuperar, mas consegui. Embora o choro convulsivo tenha deixado meus olhos inchados e minhas mãos trêmulas, já sou capaz de escrever novamente.
E vim aqui só para deixar registrado meu veemente e ineficaz protesto contra o não-acabamento do mundo.
É de extremo mau-gosto excitar de tal maneira a expectativa de alguém, e depois não cumprir o esperado. Não entregar o prometido. Não executar o combinado.
Vejam só minha situação! O mundo tinha que acabar!
Para me confortar, um amigo disse que, embora o mundo não acabe, as pessoas todas vão morrer. Sem exceção. Até deu uma melhorada, mas depois ele esclareceu que não vai ser todo mundo ao mesmo tempo. Ou seja, ficamos na mesma: o mundo não acaba, o... povo continua a existir (palavrinha nefasta), a superpopulação só aumenta, a degradação também, e eu aqui sentada reclamando. Não há nada que eu possa fazer a respeito.
Mas de todo modo, eu não poderia deixar o blog acabar uma vez que o mundo persiste; por isso reuni forças, enxuguei o ranho e vim aqui depositar toda minha indignação - e também boa parte do meu tédio - num texto absolutamente irrelevante, mas marcado pelo sofrimento e pela decepção.
Da próxima vez, nem me convidem. Já sei que esse tipo de evento sempre é cancelado de última hora.
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Isso até me fez sentir saudade do deus Bíblico do Antigo Testamento, que dizia que ia fulminar e fulminava mesmo, nunca se preocupou com conta de água ou... de combustível. Era dilúvio aqui, fogo e enxofre ali, o único deus cumpridor de promessas. Mas, mas. Não posso me deixar enlevar pelo passado. O que passou, passou.

segunda-feira, dezembro 17, 2012

Festas de fim de ano e o fim do mundo


Este ano é um ano especial. Além de todos os sucessos dos doze meses de glória que compuseram esta data singular, é bom lembrar que este é o ano do fim.
Sim, todos os seus esforços serão recompensados. Neste fim de ano, teremos, como é de praxe, maravilhosas festas de confraternização em que as pessoas se entopem de rabanada e trocam quinquilharias em festas constrangedoras em churrascarias, ou em casa de parentes com os quais temos relações de amor e ódio e situações financeiras mal resolvidas. Mas além das citadas festas, teremos também um evento vistoso, feliz e realmente importante: o Fim do Mundo.
Também conhecido como Armagedon, Fim dos Tempos, ou como singelamente diriam nossos irmãos lusitanos, o Armagedão, o Fim do Mundo é um evento ansiosamente aguardado pelo mundo inteiro, desde sempre – tanto é que a cada dois ou três ou cinco anos anuncia-se este evento, que infelizmente nunca acontece.
Mas desta vez pode ser diferente; dizem que os Maias previram que desta vez é o fim mesmo (mas eles não disseram nada disso, apenas encerraram a publicação de seu calendário).
Na lufa-lufa de compras de Natal, consumismo desenfreado de bugigangas inúteis, comilança descontrolada de nozes e panetones gordurosos, carnificina furiosa de animais para a ceia e outras atitudes completamente injustificáveis e absurdas, ainda arrumamos tempo para planejar o fim do mundo com requintes de sofisticação jamais igualados nas outras edições do evento.
O fim de ano é época de crianças ranhentas e gritalhonas rolando no piso dos corredores de lojas, gordas patéticas agarrando pernis na seção de frios de supermercados, sujeitos marrentos arrastando fardos de cerveja para os carrinhos de compra, velhinhas infernizando os solícitos repositores de gôndolas, abatedouros fazendo hora extra para sacrificar milhares e milhares de bichos cujos restos mortais serão o festim de famílias já bastante problemáticas sem a dose reforçada de hormônio e gordura, além de o trânsito se transformar num campo de batalha em que vence quem é mais estúpido e inconseqüente.
Acrescente a isso a maior e melhor festa de fim do mundo, em que todos querem somente o bom e o melhor (já estão estocando água e enlatados desde o fim de outubro para que nada falte), com pequenos focos de guerra inútil pelo mundo afora e os países em desenvolvimento metendo os pés pelas mãos entorpecidos por seus próprios triunfos. Quem não vai comemorar o título de seu time do coração, enquanto faz orações para conseguir pagar as contas em janeiro e obriga o filho a comer tudo porque há crianças famintas na África...?
As festas de fim de ano já têm sua fórmula pronta, mas as festas de fim do mundo são muito mais emocionantes: não sabendo se devemos comemorar ou lamentar, fazemos um misto dos dois, e no dia seguinte é sempre decepcionante e prazeroso verificar que, na verdade, o mundo não acabou. Assim como o ano novo não é novo, nada muda, a vida segue, não cumprimos nossas resoluções nem nos importamos de passar por moles, frouxos e fracotes.
Bem, como sabiamente dizia minha bisavó, o fim do mundo é pra quem morre, então para os que tiverem a sorte de bater as botas no dia 21/12 não haverá decepção – é bom comer rabanadas e distribuir presentinhos nos dias que antecedem a festa.
Eu não sou do tipo mau humorada, não fico resmungando como aquelas tias chatas que fingem não gostar de Natal para chamar a atenção. Eu entro na brincadeira, compro presentes, faço brinde, tudo como manda o figurino. Não que eu ache isso o máximo, mas as pessoas esperam que sejamos normais. Então vamos nós, mais uma vez, passar por tudo isso de novo, gentarada, multas de trânsito, cansaço, gastança – mas desta vez, pelo menos uma vez, o mundo podia acabar de verdade.

domingo, dezembro 09, 2012

A estrela

Subi no palco cansado. Sabia que seria a última vez.
Ouvia os gritos da plateia e não sentia aquela corrente elétrica que me percorria antes, que queimava meus fusíveis e me fazia sentir imortal.
Agora, estava entendiado, diante de milhares de criaturas miseráveis que se agarravam à minha imagem como se eu fosse um mito, uma lenda.
Eu não sou nada disso.
Vi minha mãe morrer lentamente, numa batalha lenta e cruel contra o câncer, e não pude fazer nada. Meu pai, arrasado, bebeu até enlouquecer - ou porque tinha enlouquecido - e vive sozinho. Não quer ver ninguém. Minha irmã vive uma vida medíocre numa cidade grande onde ninguém se conhece e suas filhas nunca viram o campo, o mato, nunca brincaram na terra.
Estou cansado de tocar. O que eu digo já não é o que quero dizer. No começo era; mas o público cria expectativas e agora só posso dizer o que querem ouvir.
Um grande executivo da gravadora cortou oito músicas de um álbum novo porque "iam decepcionar os fãs".
Fãs.
Que palavra insuportável.
São como ervas parasitas que cresceram no meu tronco e que sugam a vida e não me permitem criar, crescer, abrir minhas asas ou projetar meus galhos imundos sob a luz do sol.
Os outros caras da banda se conformam: o dinheiro é bom e eles gostam de viajar, curtir a vida. Mas para mim isso não é curtir a vida. Usar banheiro de avião e comer lixo de lojas de conveniência não é curtir a vida. Não posso andar na rua, ir à banca de jornal, dar uma volta com a minha mulher.
Há tempos não faço nada disso.
Minha mulher não reclama, mas ela quer ter filhos, quer me contar como foi seu dia, quer ir à praia. Eu não posso fazer nada disso. Não sou um companheiro para ela, sou um fardo.
Às vezes queria que ela arranjasse outro cara menos paranoico, alguém mais simples e feliz.
Mas não tenho tempo para discutir relações, nem para me divorciar. Além de tudo ela me faz bem e preciso de alguém como ela, confiável e que não me cobre o tempo todo para "curtir a vida".
Eu quero que a vida se dane.
Mais uma vez eu começo o show. Aos primeiros acordes todo mundo uiva como lobos feridos; esta música é um statement, uma obra-prima, que na época significava minha própria essência e como eu via o mundo. Hoje, é apenas uma repetição mecânica do mantra cósmico que encheu meus bolsos de dinheiro e botou uma corda no meu pescoço: se você se afastar muito, vai se enforcar.
Malditos fãs. Vocês me amam sem me conhecer. Sabem tudo da minha vida: onde vou, com quem durmo, o que como e o que faço. Sabem o nome do meu cão e das minhas sobrinhas, o meu prato preferido e a que eu sou alérgico. Mas não me conhecem. Nada. Não sabem quem sou sob a pele, meu ardor, minha luta, meu maior medo. Não sabem com o que tenho que lidar quando abro o chuveiro e a água morna me limpa de toda a melancolia e escorre com meus sonhos para o ralo, me deixando sóbrio, correto, mas sem um pingo de vontade de continuar.
Eu não vou tolerar essa violência.
Grito desesperado ao microfone como quem grita ao próprio Deus; não odeio vocês, mas preciso de alguém em quem possa me apoiar, não posso ser dessa maneira, não posso sentir minha garganta ser apertada por suas garras egoístas.
Me sinto tão pequeno.
E durante o show inteiro respondo com brutalidade, com fúria: destruição, auto-destruição, raiva, impotência, caos. Lançam coisas para mim: camisetas, óculos, flores, bandanas, mensagens. Pequenos pedaços de suas almas miúdas e tímidas. Querem ser deuses. Subam aqui e verão que não sou nada disso, sou menor e pior que vocês.
Ouçam a letra dessa música: ela fala do que eu era. Eu era como vocês: cheio de desejo, de inocência e de vontade de fazer algo novo. Eu era um vulcão em erupção.
Agora mastigo um cigarro enquanto soletro esses versos olhando para o horizonte, e parece que estou cantando, mas este é um lamento de dor.
Dedilho simples minha armadilha, e dela sai beleza, fúria e um adeus. Este é o presente da minha alma.
Esta noite vou dormir com os anjos.
(Da série: memórias de fatos que nunca ocorreram)

quarta-feira, novembro 28, 2012

O plano

Zafira olhou por sobre o ombro esquerdo. Atrás de si, no salão do palácio, doze heróis de guerra contavam seus feitos e celebravam suas vitórias com vinho, música e aromas.
As dançarinas, intoxicadas pela fumaça, moviam-se em transe, com seus olhos baços, e deslizavam languidamente os dedos pelos dorsos dos leopardos que circulavam pelo aposento, procurando restos do banquete dos guerreiros.
A música inebriante ondulava sombria pelos corredores de pedra, entrecortada por risos e sons de golpes de armas.
Bem humorados, os valentes lutavam entre si, e Zafira os observava, como a um bando de meninos agitados nos pátios.
Constultaria o mago, pensou - exigiria a resposta para tamanho descontentamento.
Sete luas de batalhas, onze cidades rendidas, dois rios conquistados, oito poços de plemenite, duas naves de guerra e mais de cem híbridos Lepa. Tudo ia bem. O Rei Pravice, enlevado pela própria vitória, absorvia os aromas de olhos fechados e sorriso no rosto, deixando-se relaxar até um torpor de semiconsciência que misturava sonhos às memórias recentes da guerra.
Zafira queria suas próprias vitórias. O controle de Domena não lhe saciava a sede de poder; era uma mulher sombria, de furtivos olhos dourados e brilhantes e pele cor de camurça.
As carnes nuas dos soldados dourados pela estrela lhe causavam repugnância, e ao contrário das outras cortesãs, jamais embarcava nas navilhas dos síngaros, nem aceitava suas drogas. Seu maior desejo era o trono de Pravice, e este agora jazia sonolento no divã, enquanto uma plesalka de ébano se contorcia ao som da música para seu contentamento.
Havia de trazer Junak, que descansava em Domena, para ajudá-la no plano. Os híbridos lhe seriam úteis, com seus jogos mentais, para dominar a fortaleza de Pravice. Junak era um homem neutro, e jamais questionava ordens, quando lhe pesava o alforje e suas bolsas de plemenite.
Faria dele seu parceiro, e lhe daria vitórias, seu nome em romances, bolas de ouro e quaisquer outras coisas que desejasse... se Allerit fosse inteiramente seu, com seu satélite negro e todas as suas riquezas.
Todas as profecias traziam a imagem de uma mulher, e mesmo o abjeto oráculo atual sempre citava em suas visões as garras de uma fêmea sobre o coração de Allerit. Haviam de ser as suas.
Zafira trouxe uma bandeja. Sobre elas, especiarias, aromas entorpecentes e vinho velho. Seu sorriso cortês fez seu irmão suspirar de alegria, e os heróis a comprimentaram com exageradas mesuras. As plesalkas cobriram seus rostos em respeito a sua formosura. Zafira os odiou cegamente: todos sabemos que tais reverências são mera formalidade. Até as bestas e os leopardos a olhavam com piedade. Seca. Murcha. Inumana.
Saiu do salão com passinhos leves e rápidos de princesa, enquanto Pravice e seus guerreiros consumiam suas porções de veneno.

terça-feira, novembro 20, 2012

As pessoas novas

E vocês, pessoas novas, que surgem na minha vida, a princípio incômodas, cheias de espinhos e crostas, vocês que vão abrindo caminhos por meio da minha timidez camuflada de arrogância, e vão se permitindo falar comigo - quando eu mesma não permito - e vão se enfiando em minha vida; vocês não sabem o quanto dói aceitá-los aqui dentro, dentro do meu velho e empoeirado sótão, onde guardo minhas velharias de infância, algumas músicas boas e alguns parentes queridos.
Não que aceitá-los machuque, de maneira alguma, nem que sejam pesados demais ou estranhos: são todos até bem familiares, e até bastante leves, talvez. Mas é que dói em mim achar lugar para acomodar seus vestígios, e arrastar minhas caixas e memórias antigas para que caibam as suas pessoas novas em folha, limpinhas de tão pouco uso, e com diálogos frescos.
É que sou um velho museu pouco frequentado, quase abandonado (como deveriam ser todos os repositórios de velharias), silencioso e abafado em sua existência estática, com úmidas teias estranhas que vão se engrossando com o passar dos séculos, e cujo odor lembra o dos sonhos, das memórias fugazes e dos deja vus.
Queria poder manter-me assim, mas as salas da minha alma são invadidas por calor humano, por sorrisos de dentes à mostra e por tolices faceiras, e aos poucos sinto como se tudo em mim se animasse e o velho prédio se sacudisse, soltando-se de seus alicerces, e saísse por aí a trocar passos hesistantes como os dos bebês, a ranger engrenagens antigas e aquecer velhos filamentos.
Vocês, pessoas novas, tiram-me do torpor monótono e confortável de minha solidão, e ocupam meus devaneios com suas caras coloridas e estranhas, e acabam por arranhar meus móveis e deixar pegadas nos meus tapetes. Deste modo não sou o centro da minha vida, tendo que admiti-los aqui, no meu ser, e carregá-los para todo canto, a consultá-los em pensamento sempre que posso fazer algo à toa.
Ao me empurrarem para o lado, me apertam, jogam fora coisas minhas (e colocam as suas no lugar), e vão-se instalando sem maiores cerimônias, me chamam de qualquer nome e riem da minha cara.
E assim, pouco a pouco, assumem ares de coisa definitiva. Exigem de mim algum zelo, alguma bajulação (não com esse nome, mas outro) e se tornam um hábito. Quando me dou conta, vocês marcaram para sempre seus nomes em meus livros imaginários e fazem parte da minha estrutura. E passo a ser vocês, mas em miniatura, e carrego todos como uma aranha carrega seus filhotes e os ama, mesmo sendo, como são, aranhas - e não anjos de candura ou dinheiro, sei lá.
Vocês, pessoas estranhas, vocês poucos que puderam entrar, agora não quero que saiam, porque já os amo em mim, e ainda que sumam, amarei suas memórias, as marcas dos pés, os riscos nos móveis, os reflexos que os espelhos da minha alma guardaram.
Sem vocês eu morreria.
Só peço que, ao entrar, sejam suaves, e ao sair, sejam breves, e enquanto permanecerem, sejam simples, porque assim caberão todos, e serei, assim, felizes.

quarta-feira, outubro 24, 2012

Como parecer rico

Há muitos posts na internet que nos ensinam a parecer ricas. Não "emergentes", que nada mais são que pobres que têm dinheiro, mas gente de classe, estirpe e nobreza - pessoas de famílias tradicionais que há séculos detêm o poder em suas mãos. A ideia é boa: se todos nós começássemos a nos portar como gente bem-nascida e bem criada, erradicaríamos a farofagem, a vulgaridade e a pobreza de espírito da face da Terra.
Mas sejamos realistas. Não é fácil forjar algo que vem sendo lapidado há milênios de civilização. A cultura das famílias ricas e nobres é muito diferente da nossa (desde o berço). E não falo "nossa" como se abrangesse a todos; falo de nós, pessoas alfabetizadas e que mastigam de boca fechada.
De qualquer maneira, existem meios de suavizar a diferença entre "nós" e os admiráveis ricos de nascença, os famosos quatrocentões.

- Aparência: os ricos são limpos, discretos, elegantes e cheiram bem. As mulheres são magras e os homens são atléticos. Uma barriguinha burguesa é permitida - revela os prazeres à mesa. Se estiver muito acima do peso, alegue um problema na tireóide e encerre o assunto (ricos nunca falam de doenças). Suas unhas são discretas, curtas e limpas, e no caso das mulheres, pintadas de cores cremosas e profundas, ou então cores próximas à da cor da pele. Nunca, nunca, têm glitter, desenhinhos fofos ou cores berrantes (a menos que a rica em questão tenha menos de dez anos). As roupas são boas, duráveis, bem cortadas e sem muitos enfeites (lacinhos, zíper colorido, botões em excesso, bolsos falsos, etiquetas brilhantes e coloridas, etc.). Nunca saem de moda, porque são escolhidas a dedo ou feitas sob medida. Se não puder arranjar algo igual, compre na C&A mesmo, mas tenha o cuidado de eleger peças simples, de cores neutras e que lhe caiam bem. Tenha uma ou duas peças-trunfo: um vestido cocktail de cor alegre, uma camisa de seda em tom pastel, ou lenço de cor berrante, para combinar com seu guarda-roupa simples.
Maquiagem simples, discreta, de cores neutras e foscas. Somente o batom pode ser de cor gritante, é até charmoso - mas nunca preto.
O perfume é imprescindível: sempre usado com parcimônia (apenas duas gotinhas), deve ter uma fragrância agradável, nunca forte demais, mas nunca imperceptível.
Os cabelos são curtos ou médios, jamais longos, e devem ter brilho e movimento. As ricas cuidam do cabelo. Se não puder cuidar, corte-os curtos e mantenha-os bem limpos e com a cor em dia (sem raízes brancas). Os homens têm cabelos curtinhos ou são carecas, e ponto final. Sua única inovação pode ser uma barba discreta ou um bigode aristocrático, porque um pouco de ranço de antiguidade é sempre sinal de nobreza.
As joias e relógios são simples e de bom gosto. Apenas um acessório pode ser exagerado: um anel de esmeralda ou um colar de brilhantes. Todo o resto fica low-profile. Se não puder comprar joias, use apenas uma aliança ou anel de formatura (verdadeiro), e dispense os acessórios. Prefira investir num batom de cor viva, óculos escuros grandes ou numa bolsa de qualidade.
Lembre-se: pessoas ricas dão-se o luxo de ter acessórios que ninguém mais tem. Por isso, pense em algo diferente que lhe seja útil e cause admiração. Pode ser um apito para cães (se você tiver um cão de estimação), luvinhas de dirigir de pelica, um chapéu maravilhoso, gravata borboleta, etc. Nada de presepada: este objeto é sua marca pessoal, deve ser belo, único e de excelente qualidade, e estar sempre com você.

- Postura: Os ricos são felizes. Estão satisfeitos consigo mesmos e com a vida que levam, e têm muitos prazeres. Por isso andam leves, com os ombros alinhados, e olham de frente. Nunca se arrastam corcundas ou de cabeça baixa. Um sorriso no rosto, ou ao menos um semblante leve, são fundamentais: rico mau-humorado está à beira da falência. Sentam-se e levantam-se sem ruídos, braços abertos ou grandes agitações. Caso tenham dificuldade de se locomover, usam bengala, mas sem perder a pose. Manter as costas eretas é fundamental. As mulheres abaixam-se com delicadeza, dobrando levemente os joelhos, sem nunca curvar-se ou abrir o decote. Acenam sem levantar muito o braço e com um sorriso jovial (nunca agitam os braços gritando "e aíííí?"). Aliás, ricos jamais gritam. Falar baixo é essencial. Caso se assustem, colocam a mão no coração sem emitir um ruído. Quando riem, o fazem baixinho e rapidamente, sem gargalhar por horas. Quando vêem algo nojento ou horrível, lamentam com um "que desagradável". E quando se irritam, dizem apenas "o senhor será contatado por meu advogado", sem perder a compostura. Cumprimentam com apertos de mão ou beijinhos no rosto, sem encostar de verdade (somente os filhos e o marido recebem beijinhos de verdade). Os grandes e antigos amigos recebem abraços e expressões de alegria "Como é bom revê-lo! Que saudade!" e nunca tapas nas costas e expressões vulgares como "Por onde andou, seu safado de uma figa?". Os ricos nunca andam com o celular na mão e nunca o atendem à mesa, porque estão sempre em companhias importantes, e porque receberam educação. Quando o atendem, afastam-se e falam baixo. Encerram logo a conversa e desculpam-se com os convivas.

- Cultura: Ricos estudaram em escolas boas e tiveram berço. Se você não teve essa sorte, nunca é tarde para se aprimorar. Vá a um sebo ou biblioteca pública e leve para casa os grandes clássicos da literatura. Leia-os, custe o tempo que custar. Nada de resumos. Além de aprender coisas novas, você poderá citá-los em conversas ou fazer alusões espirituosas, até mesmo parafraseando personagens. Lembre-se: ricos recebem educação tradicional, portanto nada de ler os autores da moda. Seja condescendente com quem lê essas coisas e diga que os lerá se um dia tiver tempo (assim mesmo). Jamais seja descortês com quem gosta de Paulo Coelho e Crepúsculo: ricos acham até bonitinho que os seres inferiores tenham tais peculiaridades, e agrada-os ver que sabem ler. Mas você, você rico de nascença, lê somente os Grandes Autores. Se não souber quem são, procure no Google. E não precisa ler tudo de uma vez: três ou quatro livros por ano já aumentam sua cultura.
Outro ponto importante: ricos não militam. Nunca. Ricos nunca são de esquerda e se o são, é apenas por excentricidade. Nunca fazem propaganda política, a menos que o cônjuge seja candidato à Presidência. Ricos pouco se importam com o que você crê. Nunca rebatem militância nem elevam a voz em protestos. Doutrinam pelo exemplo, discretamente, sem nunca discordar ou ser ríspidos.
Quanto à religião, geralmente são católicos. Se forem protestantes, são luteranos ou presbiterianos, nunca pentecostais. Os novos-ricos, emergentes, ex-pobres, escolhem religiões novas, recém-fundadas. Portanto, se você é religioso, frequente templos antigos de religiões milenares. Seja discreto em sua fé e nunca, jamais, tente converter ninguém - nem seu melhor amigo. Vá a cerimônias de outras religiões e fique calado. Ricos não se apegam a mesquinharias e discussões fúteis sobre quem está certo - ele sabe que quem está certo é ele, e sente-se seguro e confortável, por isso não discute.

- Filhos: Não têm. Ou têm apenas um, e o mandam estudar na Europa. Nada, mas nada mesmo, grita "pobreza" como ter um monte de filhos, especialmente se todos tiverem a mesma inicial no nome. Mulheres ricas não passam metade da vida gerando crianças. Elas dão ao marido um herdeiro, e depois angariam fundos para caridade. Elas ajudam os filhos dos "menos favorecidos" a receber educação, higiene e comida. Mas repelem a simples ideia de procriar indefinidas vezes. Elas são ocupadas, inteligentes, espertas e divertidas; não lhes sobra tempo. Ah, e pode notar: as ricas somem quando estão grávidas. Nada de exibir por aí os pés inchados como pães e o rosto todo manchado: Só dão um pulinho na praia (pela vitamina D) e depois vão para o campo, respirar ar puro e comer verduras até o bebê nascer. Só voltam a aparecer em público quando já estão magras e lindas novamente. Aos homens, só cabe ficar ansiosos. Nada de filmar parto, ir a curso de ioga para gestantes, esta baboseira toda. Homem só espera a notícia de que o bebê nasceu e distribui charutos. Se você não é rico de verdade, esforce-se por conter este impulso pobre de procriação.  Tenha um filho, dê a melhor educação que puder, e só o exponha aos amigos quando ele já não lhe causar embaraços, a fazer birra e se cobrir de ranho. Crianças pequenas devem ficar em casa, com a babá ou avó. Elas dão trabalho, irritam as pessoas, podem se machucar ou simplesmente sumir. Quando o herdeiro já estiver com dez ou doze anos, vista-o com uma camisa pólo e bermudas de safári e leve-o a um passeio ao ar livre, para conhecer seus amigos. Antes disso, deixe-o na escola e o faça praticar esportes, aprender idiomas e visitar museus. Não deixe seu filho virar um completo babaca. Na verdade, é bem provável que ele vá se tornar um desses moleques feios que usam crocs e ouvem funk no celular - sem fones de ouvido -, por isso, se puder evitar ter filhos, faça-o antes que seja tarde. E na hora de escolher o nome da criança, as diretrizes são estas:

1 - Nomes de família são preferíveis; exemplo: Damiana, Adolfo, Laura, José Carlos, Carmem, Inácio, Joana, Cândido.

2 - Nomes de santo são permitidos; exemplo: Bento, Clara, Pedro, Cecília, Tiago, Margarida, Antônio, Maria, Bartolomeu.

3 - Nomes de cidade, estado ou país (ou derivados destes) são toleráveis: Genebra, Paris, Haifa, Líbano, Iran, Atena, Munique, Lyon, Bristol, Florence.

4 - Nomes de celebridades não são recomendados; Katy, Beyoncé, Michael Douglas, Sharon, Cicciolina, Xuxa, Luan, Mara, Brad Pitt, Angelina, Sheldon, Tufão. (Tufão nem sequer é nome.)

5 - Nomes americanizados, inventados e cheios de Y são terminantemente e irrevogavelmente proibidos: Kaiky, Rayca, Huiã, Oksonn, Jakelinny, Kleuzys, Irlanny, Jaks, Dionny, etc.

- Bens e posses: Se você não tem onde cair morto, não alardeie posses. Simplesmente não fale desse assunto. Se já teve a oportunidade de passear de barco, jet-ski, ou de esquiar na neve, voar para o exterior ou fazer viagens exóticas, fale disso com um ar blasé, sem nunca dar detalhes mesquinhos ou dizer que os veículos eram seus. Fale como se fosse seu dia-a-dia, sem delongas e sem deslumbre. Ricos não se espantam com coisas caras e maravilhosas - para eles é normal. Eles nunca se impressionam por suas posses. As únicas coisas capazes de encantar os ricos são coisas únicas e que ninguém no mundo tem outra igual: uma gema de grande valor, o túmulo de um faraó, o manuscrito original de uma ópera ou de qualquer coisa de Da Vinci, um animal de estimação de grande beleza ou esperteza, obras de arte, conversas agradáveis, companhias divertidas, cartas de amigos. Parecem bobagens, mas são, de fato, coisas de grande valor. Quanto às Ferrari, os celulares de edição limitada, os computadores supermodernos... essas são coisas que "todo mundo tem", e que servem apenas de instrumento para o que os ricos querem fazer. Nada é mais pobre que gritar de emoção diante de um carro novo, ou de pedir para ver o celular incrível do amigo (a menos que seja para resolver algum problema, por gentileza).
Fingir que é dono de um iate ou de fazendas no Paraná pode deixá-lo em maus lençóis, e fazê-lo passar vergonha. Porque um rico de verdade pode ser o dono de tais fazendas, ou pode simplesmente pedir para visitá-las, ou dar uma volta no seu iate. Afinal, com os ricos é assim, eles se convidam, engendram festas e jantares, e tudo está sempre disponível para eles. Eles apenas combinam um dia que não vá incomodá-lo e aparecem (com uma malinha minúscula e um sorriso no rosto, achando tudo muito pitoresco). Se você não tiver um iate ou casa na praia, não minta. Mas também não precisa ficar dizendo que é pobre. Simplesmente não fale disso. Se seu carro é velho ou simples, só comente se alguém perguntar - diga que foi herança, ou que gosta muito dele. E não dê mais detalhes. Ricos são todos um pouco excêntricos. Podem até pedir para dar uma volta. Se mora num apartamento minúsculo e fora da zona nobre, diga apenas que está "reorganizando sua vida": todos deduzirão que teve um divórcio difícil ou uma de suas empresas foi a falência, ou que está escondendo bens da Receita. Não precisa mentir, dizer essas coisas. Deixe que imaginem, não fale nada. Logo eles falarão de outra coisa, porque os ricos viajam, vêem coisas interessantes e têm mais do que falar que de seu carro rodado ou de sua casa pequena.
Também evite falar de negócios que não conheça - ricos são desconfiados, gananciosos e discretos. Por trás daquela fachada de empresário filantropo, pode haver coisas ilegais - e você não quer saber de nada disso. Tudo que é comprometedor é tabu. Fale de outras coisas: notícias dos jornais, desempenho dos políticos (europeus, não daqui), e do que conhece de verdade. Seja você mesmo no que tange aos negócios: se é um bom vendedor, fale de mercado. Se é artista, fale de artes. Se é atleta, fale de esportes. Fale de ciências, de números, de bichos de estimação, de pipoca, do que souber fazer melhor. Todo mundo, rico ou pobre, gosta de ouvir alguém falar com propriedade de um assunto interessante. E pode até surgir um emprego novo, que o faça subir na vida.

- Hobbies: Ricos gostam de hobbies diferenciados, sejam eles toscos ou não. É comum caçarem, pintarem, montarem a cavalo ou colecionarem selos, bonecas de porcelana, joias, livros raros, carros, etc. Mas também pode ser interessante terem hobbies menos aristocráticos: jardinagem, origami, aeromodelos, colecionar souvenirs de viagem, desenhar, criar algum animal (cães, gatos, patos, ou até animais mais caros como cavalos), nadar, dançar, tocar algum instrumento musical. É importante apenas que haja um hobby, porque é preciso arejar a cabeça (muito exigida por conta dos negócios multimilionários). As mulheres podem dedicar-se à filantropia e os homens, a apostar de leve na bolsa de valores (arriscar fortunas na bolsa é coisa de desesperados). Caso não tenha condições de fazê-lo, escolha um hobby mais simples e dedique-se a ele com alguma frequência: logo encontrará algum rico que se interessa pelo assunto e que vai compartilhá-lo com você.

- Excentricidades: Todos os ricos têm alguma particularidade interessante: alguns só bebem água com gás, outros são judeus e estritamente Kosher, uns não gostam de voar, outros viajam à África a passeio. São detalhes menores. Só os PODRES de ricos podem ser realmente excêntricos. Para os simples mortais, excentricidade é sinônimo de loucura, irresponsabilidade.
Sim, você deve ter personalidade. Deve ter seus gostos e idiossincrasias. Mas evite ser exótico demais, ou será tido por fanfarrão - ninguém vai levá-lo a sério. Saiba portar-se entre as pessoas, não banque o engraçadinho com quem não conhece bem. Hobbies bizarros ou de mau gosto, hábitos detestáveis, expressões absurdas, tom de voz muito elevado, sotaque forte demais (de caipira, de paulistano, de baiano, de gaúcho) são exageros desnecessários e que afastarão as pessoas de você.
Um toque de estranheza é sempre divertido - mas só um toque, e não toda uma vida de maluquices. Lembre-se, você quer pertencer ao grupo, e não ser excluído dele. Se não estiver disposto a abrir mão de certas esquisitices, desista e volte a ser pobre.

- O que dizer (frases próprias dos ricos, em lugar das frases de pobre): Tenha o cuidado de pronunciar corretamente as palavras, sem sotaque forte e sem comer letras.

Oiiiiiii: "Olá, como vai?"
Tchau tchau: "Até logo, foi um prazer revê-la"
Pode entrar!: "Entre, por favor"
Alô, aqui é o Nelson: "Pois não? É claro que sou eu" (Lembre-se: os ricos nunca precisam se identificar, as pessoas sabem quem eles são).
Que legal: "Fascinante!"
Gente boa, ela!: "Oh, ela é o máximo"
O que que é isso aí?: "Que interessante, o que é?"
Eu tenho faz um tempão: "Está na família há três gerações"
Credo, que nojo!: "Que desagradável"
Não gosto: "Sou alérgico"
Adoro: "É fantástico"
Detesto: "Nunca me impressionou"
Traz a conta?: "A nota, por favor"
Não tenho dinheiro para ir: "Receberei uma visita importante neste dia"
Não fui porque estava sem grana/ gasolina/ carona: "Não fui, pois tive um compromisso inadiável, mas farei o possível para ir da próxima vez".
Que mulher feia!: "Que interessante"
Que mulher bonita/ gata/ gostosa: "É realmente belíssima"
Tá lá no quarto: "Está em seus aposentos"
Que delícia (de bebida, comida, temperatura da água, etc): "Agradabilíssimo", ou "No ponto ideal".
Eu sei lá!:  "Não me recordo" ou "Ainda não tive oportunidade de conhecer"
Quanto custa isso?: NUNCA PERGUNTE, a menos que se trate de um castelo na Escócia ou do cavalo mais premiado da Europa. Para todo o resto, se não puder descobrir o preço por conta própria, seja discreto e evasivo, como: "De quanto devo dispor?", ou "Em dólares ou Reais? Qual a cotação do dólar para hoje?".

Alguns assuntos são simplesmente tabu: ricos não comentam doenças, especialmente as de pouca gravidade. Nunca falam de azia, chulé, caspa, dor de dente, gases e dor de barriga. Quanto não se sentem bem, têm "uma indisposição" ou um "ligeiro mal-estar", e só. Quando se trata de doenças graves ou terminais, apenas falam que "Fulano adoeceu" e dizem se está em casa ou no hospital. E nunca comentam minúncias de acidentes: apenas dizem que "Fulano sofreu um acidente" e onde está internado, se estiver. Perdas materiais só são citadas se forem de grande monta: uma fábrica que pegou fogo, um jato que caiu, um quadro valiosíssimo que foi roubado. Para pequenos danos domésticos, apenas alegam ter sofrido "um pequeno aborrecimento".
Do mesmo modo, as alegrias só devem ser comentadas se forem de mérito e dignidade: Formaturas, casamentos, medalhas de honra, vitórias em esportes, viagens e passeios, triunfos variados, aquisição de um novo imóvel para uso próprio (as casas de aluguel não são comentadas). As comprinhas bobas do dia-a-dia (celular novo, bijouterias, supermercado) nunca são comentadas, porque são assuntos medíocres.
E atente para a etiqueta: ricos são educados até (e principalmente) com as pessoas de quem não gostam. Isso lhes dá aquele ar de arrogância que todos gostaríamos de ter.

Muito bem! Agora que você já sabe o segredo dos ricos, é só sair por aí emanando finesse e conquistando admiradores.

domingo, setembro 30, 2012

O orfanato

Foto: Christiano Galvão

Nunca havia visto outras pessoas. Às vezes, perguntava-me se a mulher não mentia, se não éramos só nós no mundo. O mundo não poderia ser tão grande como ela dizia.
À volta do prédio, apenas o silencioso pátio onde de dia, ouvia-se o suave chiado do vento nas ervas daninhas, e à noite apenas os piados lúgubres das aves noturnas.
Os portões de ferro quase nunca se abriam. Seu rangido lamurioso parecia cortar a alma de quem o ouvisse; era como se abrissem as portas do próprio inferno, como se estivéssemos expostos e indefesos.
Certa vez a mulher fez pão: não era sempre que o tínhamos, e quase sempre nos contentávamos em comer biscoitos duros molhados no leite de cabra. 
Trouxe grossas fatias quentes e um pedaço de manteiga já não tão fresca, mas ainda saborosa. Neste dia ela disse que precisaria sair por um tempo. Não nos disse quanto tempo. Olhamo-nos silenciosos e depois, suplicantes, fitamo-la esperando um esclarecimento. Não nos disse muito mais, e com estranho laconismo, apenas disse que "nada de mau poderia acontecer" e que "ninguém vem aqui mesmo", e depois "acho que nos esqueceram".
Deixou-nos recomendados ao capelão e ao jardineiro, duas figuras que pouco víamos e que, talvez, temíamos. O capelão ocupava um casebre junto à cerca e o jardineiro dormia nos fundos, num quartinho com ferramentas.
Éramos apenas oito crianças. Três garotas, uma delas bem pequena e que não queria falar. Eu falava, mas bem pouco, porque ninguém nunca ouvia, e porque minha voz às vezes me assustava. Nos corredores do orfanato, nossas vozes ecoavam estranhas: às vezes pareciam vozes de anjos, às vezes pareciam os grunhidos das bestas.
Na manhã seguinte veio um carro. Já o tínhamos visto muitas vezes, pois era o mesmo que trazia tecido, farinha, remédios e outros bens necessários. Sacolejante e coberto de pó, fazia um barulho incrível e sempre me assustava muito, porque adentrava os portões e vinha quase até a porta, soltando fumaça preta e cheiro de óleo.
A mulher se aprumou no banco do carro, avermelhada de calor, e não olhou para nós quando partiu. Levava apenas uma mala pequena, mas não tinha muita coisa, e usava sempre o mesmo vestido.
Ficamos todos agarrados à grade enquanto o carro diminuía, até que tomou a curva e sumiu. Sem saber o que fazer, voltamos ao casarão, pensando em pegar nos livros.
Alguns de nós liam muito bem, e Ana nos ensinava (Ana era a menina mais velha, tinha quase quatorze anos, e era boa em leitura).
Naquele dia ninguém nos mandou tomar banho, e quando escureceu, procuramos o que comer na despensa, pois ninguém veio cozinhar.
À noite, quando os grilos começaram a cantar, propus dormirmos todos no mesmo quarto, porque estava com medo. O casarão parecia ainda mais velho e vazio sem a mulher por ali.
Mais tarde, quando o cruzeiro já estava fora da vista, espiei pela janela e vi o portão aberto. Mas em nenhum momento ouvi seu rangido triste, por isso achei que estivesse sonhando.
Pelo caminho do portão até a porta, vinha um velho de chapéu. Parecia ser um velho porque estava bem curvado, e trazia uma bengala fina em sua mão direita. Na outra mão, um pequeno lampião com um toco de vela. O velho vinha devagar, e no meio do caminho, parou, olhou em volta (tudo estava muito escuro, não sei o que procurava), levantou a cabeça devagar e me olhou nos olhos. Eu sei que eram seus olhos, porque os vi, mas pareciam duas luzes, duas estrelas, duas fagulhas de fogo.
Abaixei-me depressa e prendi a respiração. Ninguém mais estava acordado, não havia o que fazer.
Esperei até que pudesse ouvir o som das botas do velho na escada; e hesitava entre fugir para fora ou trancar a porta. Não podia ser o jardineiro? O capelão era gordo, mas o jardineiro não. Mas o jardineiro era moço, e não tinha os olhos em chamas, e não vinha a este lado do pátio, e era por isso que o mato crescia.
Fiquei bravo com meus pensamentos. Não era hora para divagações, o velho vinha a qualquer instante, e nos agarraria... e depois faria o quê?
Decidi fugir correndo, derrubá-lo no corredor e ir até o casebre. Quando ouvi a porta abrir-se, não pensei duas vezes - livrei-me dos lençóis e corri. Quando passei pelo velho, senti cheiro de enxofre, vinho e bolor. Ele agarrou meu braço com seus dedos frios, mas puxei a camisa e deixei parte dela para trás. Quando alcancei a porta, ouvi o murmúrio do velho, que parecia praguejar, indeciso entre continuar ou voltar em minha busca.
No pátio do orfanato, tive medo do escuro, pois a lua fraca mal iluminava nada, e eu estava descalço e muito nervoso. Queria muito voltar para dentro, mas a figura do velho me desanimava até a morte. Preferia enfrentar a escuridão.
Corri à casa do capelão. O sujeito vivia para comer e rezar o terço, e nunca nos dava atenção. Poucas vezes vinha ao salão do prédio para fazer orações com a mulher que nos olhava; ele e ela nunca conversavam durante o dia, e acho que se detestavam.
Bati na porta várias vezes, e depois encostei o ouvido na porta: apenas o ronco leve e paciente do capelão, que provavelmente dormia de barriga cheia e com um rosário na mão.
Fui até o portão de ferro. Estava mesmo aberto, mas como? Olhei para a janela do quarto, e lá vi uma das meninas - a pequena, que não falava. Ela estava com a boca aberta, e olhava para mim. Parecia gritar, mas eu não ouvia nada. Lá dentro, uma luz fraca e trêmula se movia pelo quarto. Não ouvi os outros meninos.
Passei pela grade e saí correndo. Via, muito longe, pequenas luzes, que julguei serem estrelas, porque nunca acreditei que fossem casas. Mas se só havíamos nós no mundo, de onde vinha o velho? Meus pés descalços batiam a terra seca e os carrapichos se agarravam às minhas calças, arranhando meus tornozelos, mas não parei para tirá-los, porque imaginava que o velho viria, me alcançaria, e suas mãos ossudas me arrastariam de volta para o orfanato, para juntar-me às outras crianças que lhe serviriam de banquete...
Corri o mais que podia, até que cheguei a um grande pasto de capim macio, onde vi alguns cavalos e mais adiante, um casebre. Era muito humilde e baixo, mas parecia habitado, então tudo estava certo.
Bati na porta. Abriu-se quase instantaneamente e surgiu uma vela acesa. Uma senhora parda, bem velha, sorriu com olhos bondosos e me acolheu sem falar. Dentro do casebre, um leve odor de enxofre, vinho e pão bolorento.

domingo, setembro 16, 2012

Dia de Falar como Pirata


Se você é pastafariano ou simplesmente tem um fantástico senso de humor, está chegando a hora de comemorar o Dia de Falar como Pirata.
Comemorada em 19 de Setembro, esta data é uma homenagem ao estilo de conversa dos piratas, bucaneiros, flibusteiros e corsários que aterrorizavam os Sete Mares nos bons tempos da descoberta do Novo Mundo e em que tráfico de mercadorias entre os continentes era feito somente por navios.
O sotaque dos piratas era bem característico e foi-se acentuando com o tempo, tendo também sido grandemente exagerado nos filmes e livros sobre o assunto.
Os maiores mercadores dos mares eram geralmente ingleses que vinham para o Caribe em busca de produtos de grande procura na Europa, como o tabaco, e também em busca de saquear os navios dos concorrentes e apoderar-se de seu tesouro. Assim, o sotaque piratístico partiu do inglês europeu, recebeu palavras do espanhol, de dialetos africanos e indígenas, português e francês, além de gírias e neologismos, e passou a ser falado por marujos de todas as nacionalidades, tornando-se uma espécie de dialeto que os homens do mar usavam entre si.
De acordo com a fé pastafariana, os piratas são seres divinos cujo declínio é a causa do aumento dos desastres naturais como furacões, terremotos e erupções vulcânicas. Por isso, homenagear e honrar estas divindades é uma maneira de evitar catástrofes.

Na próxima quarta-feira vamos todos homenagear esta figura histórica intrigante e divertida que é o pirata! 
- E tratem de exercitar a língua, seus cabeças de ostra, ou eu faço andar na prancha! Com mil caracóis!

Glossário piratês (Adaptado de obras literárias e atualizado de gírias contemporâneas)

Camarada, parceiro, marujo = Amigo
Cães sarnentos, cabeças de ostra, sacripantas = Grupo de amigos
Dobrões, tesouro = dinheiro
Jogar aos tubarões = Deixar algo de lado, desistir
Caçar baleia = Fazer algo difícil
Navio, caravela = Carro ou outro meio de transporte motorizado
Bote, jangada = Bicicleta ou outro meio de transporte não-motorizado
Arcabuz, bacamarte, mosquete, bombarda = Armas com as quais vamos ameaçar nossos inimigos de morte
Saqueador, cão-de-água-rasa, palerma = Pessoa de quem não gostamos
Sereia = Namorada ou esposa
Corista = Mulher bonita ou interessante
Meretriz = Mulher desagradável
Papagaio de pirata = Pessoa grudenta, que não sai de perto, ou que aparece na foto de estranhos (photobomb)
Levantar âncoras, enfunar as velas, todos ao convés = Hora de ir embora, ou de ir trabalhar
Carga, tesouro, barris = Qualquer coisa que seja do seu interesse. Objeto de valor.
Carraspana = Chamar a atenção.
Andar na prancha = Levar uma bronca, ser castigado.
Ler a sorte = Esperar em vão.
Abandonado na ilha deserta = Deixado de lado, excluído de algum evento.
Fúria do mar, tempestade = Bebedeira
Grogue = Bebida alcoólica

Referências ao Capitão Barba Negra, a tesouros enterrados, navios fantasmas, escorbuto e monstros marinhos podem e devem ser incluídas em todos os diálogos.

Interjeições

As interjeições não precisam necessariamente ter sentido, apenas exprimem espanto, ênfase ao que foi dito, raiva ou surpresa.

"Com mil caracóis!"
"Macacos me mordam!"
"Com mil demônios!"
"Salve-se quem puder!"
"YAAAAARRRRHHH!!!"

É isso aí, seus bufões com escorbuto! Espero que gostem e comemorem a caráter o Dia de Falar como Pirata.
Deixem suas contribuições nos comentários, ou furarei seus olhos! YAAARRR!