quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Filosofia política de um rato

Marcho delirando sóbrio pela rua escura que atravessa a minha estrada, quinze vezes mais maduro que um dia, quando estive mais feliz.
E, aliás, sinto falta de felicidade...
Incrivelmente calado quando tenho tanto a falar, e incrivelmente surdo quando precisava ouvir, sento sobre meu rabo e rio comigo mesmo: quanto custa esse espetáculo?
Quando o circo dá início à sua arte, penso nas lesões mentais que isso inflama, devido à rotina e a sua condição de miséria.
Divirto-me com palhaços irritantes e pobres de espírito, que malharam, suaram e cantaram, mas não foram aplaudidos.
O medo é pregado em mim quando renasço, diariamente, e ridiculamente me sinto o máximo: eu sou um cidadão do mundo.
Aprendi a criar golfinhos em cativeiro porque são bonitos, e Deus tenha piedade dos ornitorrincos!
Mas há aranhas eletrônicas que empilham cubos, cabanas de vidro em praias desertas e estátuas de requinte indiscutível na proa dos navios... e tudo isso fui eu quem fiz! Eu mesmo, sem ajuda e sem humildade!
E continuo andado pela rua despovoada onde carros e casas ondulam, engraçados, coloridos, parecidos...
Lindas músicas me chegam ao ouvidos cantadas por ídolos de barro com guitarras em suas mãos.
Como é linda a minha obra, coberta de grafites, porque são politicamente corretos, e de murais de desconhecidos, porque são modernos.
Sinto uma saudade do rato russo com sua vodca grave e seus bordados exóticos que me incitavam a amar.
Então não vejo mais meu corpo e me sinto poeta: eu posso voar!
Tudo eu! Eu posso, eu ganho, eu vivo, eu sou!
E você, onde está, princesinha tão singela que vivia sem saber que amava e doava todo o seu coração aos pobres?
Ah, que doçura, embalsamada e pintadinha na redoma que a protege da realidade.
Os atos e os fatos são bem assim mesmo: um não exprime o que o outro quis dizer.
Ora, mas que vã é a sua filosofia, amado leitor, que me vê assim como um rato pensativo que vive para atormentar!
Porque somos todos um bando de cobaias que movem roldanas para entreter o público, neste circo luxuoso e denso, continente de estrelas e heroínas.
Cheguem, amigos, ergam seus copos, um brinde à história geral, que nos tem premiado com homens e honras acima do nosso entendimento...
Levantem seus copos, à nossa saúde!
E, novamente sóbrio, torno a rumar pela estrada que me atravessa impiedosamente.
Sente cócegas, meu filho? Não leia o fim da passagem, esse rato é um animal.
Ganancioso e medroso, mente mais que a bruxa má e ri de seu próprio gracejo.
Mas ele diz que somos todos assim! E nossa casa é tão modesta, faltam cortinas, faltam aparadores e tapetes persas onde possamos descansar os pés.
Todos acabam sentindo por ele a compaixão inerente a indivíduos da mesma espécie: instinto de preservação, por pior que seja a criatura.
Nos quartos dos monges, são discutidas as leis da realidade, e ali são instauradas as normas de comportamento. Ao fogo de suas lareiras, os criminosos são absolvidos por serem assim como nós: ratos. Voltem ao convívio social! Mas eu é que não quero conhecê-los.
E as mulheres indignadas tomam providências.
- Mandem fechar este circo! Isso já foi longe demais!
Nessa ruela que cruza meu caminho, vejo bêbados coerentes que dizem a verdade o tempo todo... e desvio apressado em busca do meu tesouro particular.
Não quero vê-los, são insensatos, estão doentes.
Ratos não têm senso de política.
Desvio e corro para a toca, com um enorme pedaço de cheddar sob o casaco puído que vesti para trabalhar...
E quando acabo meu banquete, estou vazio novamente.
Mas eu sou um rato de sorte.
Muitos como eu esperam a noite com os olhos pregados à Lua à espera de um milagre... que ela caia sobre meus desejos, cobrindo de queijo todo o passado que tentam disfarçar!
Este livro de histórias não é próprio para o seu filho, descarte imediatamente e leia um alienante e simpático, como manda o figuro.
Sejamos sinceros: você é um homem ou um rato?
De repente, acordo oprimido e transpirando, ao som dos gritos do despertador, e vejo que foi tudo um sonho, uma alucinação...
Lá está a Lua. Olho para ela, desejando uma vida melhor que acerte as contas com o meu passado.
Levanto devagar, olhando para minha carteira sobre o aparador... ali estão meus anseios e meus compromissos.
E vem então o mesmo dia que conheço há anos.
Pelo caminho, vou pensando na vida... minhas mazelas têm cura. A maioria das pessoas não tem senso de política.
Hoje será um dia daqueles.

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