quarta-feira, fevereiro 01, 2006

O mundo visto por outros olhos

Corro ferido e busco abrigo na floresta...
A morte ainda não nos alcançou.
Meu filho mais novo ficou pra trás e provavelmente está morto.
Ouço o barulho das máquinas dos assassinos... armas de fogo e caminhões.
É uma guerra terrível.
Chamas consomem meus companheiros e ouço gritos ecoarem pelo mato.
Medo.
Corro o máximo que posso. Não posso me esconder na caverna: seria óbvio demais.
Mas não tenho inspiração para a batalha e sigo meus instintos... acurralam sem piedade à entrada da gruta.
Consigo escapar, mas muitos dos que estavam comigo são apanhados.
Tortura. Prisão. Fome.
Para onde foram? Por que os levaram?
Gritos. Disparos não muito longe me fazem lembrar do desespero.
Tenho de correr, tenho de correr!
Longe, caminhões e tratores de esteiras.
Perto, homens armados e cães.
Morte. Cheiro de pólvora . Gritos.
Vejo ao longe um dos meus sendo amarrado.
Eu não compreendo, eu não compreendo!
Tenho de fugir. São muitos. Seu cheiro está por toda parte.
Corro o máximo que posso e encontro um lugar para me esconder.
Onde estarão os outros?
Espero. Espero. Meu corpo treme e meus olhos arregalados não piscam.
Terror. Não penso, não entendo, tenho medo.
Anoitece. Não ouço mais o som das máquinas e dos homens armados.
Sede. Medo.
Saio do meu esconderijo devagar e procuro água.
Perto do rio vejo sangue e o corpo de um conhecido. Sinto frio.
Estou gravemente ferido, e procuro minha casa. Um de meus filhos me espera aterrorizado e faminto: está ferido e não pode andar. Meu outro filho morreu. Minha esposa foi levada pelos criminosos.
Meu coração está dilacerado e não compreendo o que houve.
Lentamente, me controlo.
Lambo as feridas e presto atenção aos ruídos da noite. O cheiro do pêlo molhado pela chuva me agrada.
Sinto-me seguro novamente, no silêncio sóbrio que toma conta da nossa caverna.
Estico as pernas e olho bem para minhas patas: garras, pêlos.
Mas temos nossa dignidade muda, berrantemente estampada em nossos olhos e em nossos filhotes bravamente defendidos.
Os homens não conhecem o poder e a grandeza da vida.
Mas nós conhecemos. Nós usufruímos da vida e levamos conosco essa bênção: viver e amar.
Nós somos criaturas livres, fortes, honestas, felizes.
Os animais são vocês.

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