quinta-feira, março 23, 2006

A mensagem

Abriu a janela devagar: uma lufada de ar frio gelou seu rosto. Fechou-a novamente. Com os olhos úmidos, olhou a carta novamente e enfiou-a no envelope.Vestiu uma jaqueta jeas curta, que ressaltava os defeitos de um corpo sedentário. Já não é nenhum garoto. Mas ainda tem cabelo.
Desceu devagar pela escada, deixando o ar viciado do elevador para os preguiçosos. Ao chegar à rua, colocou seus ridículos óculos escuros de seriado policial e andou devagar até um barzinho estilo inglês na mesma calçada do prédio. Sentou-se, não pediu nada, e leu a carta novamente.
- Mas que diabos! Estava indo tudo tão bem.
Pediu café. Não tomou. Saiu. Ainda com frio, olhou o envelope mais uma vez.Foi até a lixeira e jogou a carta ostensivamente, como se estivesse num ritual, ou tentando provar algo a alguém.
Céu cinza, gente feia andando encapotada pelas ruas, cachorros sem sobretudo. Riu um pouco sozinho, parado no meio da calçada. Virou-se desesperado e voltou correndo até a lixeira, enfiando-se até a cintura no latão quase vazio. Pegou a carta, limpou-a com a mão, soprou.
- Meu Deus! disse, beijando o envelope imundo.
Voltou para casa, subiu pelo elevador. Ao chegar, tirou a jaqueta lentamente, sentou-se na cama e abriu a carta mais uma vez. Depois de séculos observando a carta, sem lê-la, pouso-a na cama a seu lado. Olhou para o porta-retratos na cômoda. Uma enorme "pastor alemão" olhava para ele de língua de fora. Abraçou o porta-retratos e deitou-se. Assim, com ela nos braços.
- Você é boa, Leca. Um dia eu vou te buscar. Filhos da puta de uns desgraçados... e também a outra...
Adormeceu.

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