quinta-feira, março 30, 2006

Perda

Andando sozinha pela movimentada avenida, olhou em volta.
"Como gosto desse lugar!"
Os transeuntes, a maioria de cabeça baixa e agasalhados por causa do vento cortante, seguiam silenciosos seu rumo. Quase todos carregavam algum embrulho ou pacote nas mãos. Mas ela não carregava nada.
Os carros passavam abafados, enfumaçados, assustadores e comuns, todos parecendo pessoas e se portando como tal.
Os postes, inesquecíveis, nus, suportavam estoicamente o frio que fazia por causa dela.
Os olhos gelados, o rosto branco e a boca roxa dela combinavam perfeitamente com o casaco marrom que nunca havia usado e escolheu para a ocasião.
Nunca mais usaria aquele casaco, pensou ela, examinando atentamente a gola enquanto esperava o táxi.
Estava misteriosa. Seu amor ficara em casa como sempre, vendo algo importantíssimo naquela tela abominável. Era agradável, embora às vezes quisesse chutá-lo. Amava-o sinceramente, é claro.
Ela se apertou no banco de trás pensando se o dinheiro que tinha no bolso daria para pagar a corrida, e o taxista turco cheirava a naftalina e charutos.
"Estou em casa!" Pensou ela, como consolo.
Lembrava de seu bebezinho.
Como as misérias da vida são simples e cotidianas! Que coisa mais trivial!
E no entanto, o nó na garganta só aumentava. Não sabia o que faria quando lá chegasse e ele não estivesse mais.
Chorou amargamente pelos quarteirões, que se arrastavam como lesmas pacientes lá fora.
Mandou parar. Seguiu mais uns quarteirões a pé, a fim de cansar-se.
Chegou finalmente em casa. Abriu a porta e lá viu quem esperava ver: seu marido.
Abraçaram-se calorosamente e ela chorou um pouco, meio envergonhada.
Tirou o casaco marrom; aquela cor nunca lhe caíra bem. Colocou uma camiseta vermelha e passou batom.
Sentou-se lânguida no sofá, abriu um livro e ambos voltaram às suas vidas.
"Logo haverá mais água", ela pensou. E pensar aborrece muito.

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