sexta-feira, abril 28, 2006

Ocean

E aí veio aquela onda.
Não uma ondona, daquelas que destroem tudo, admiráveis e terríveis.
Uma ondinha.
Daquelas que molham, fazem estardalhaço, e fazem os senhores idosos coçarem a cabeça desolados e dizerem:
- Puxa, vida! Nunca vi isso aqui tão bagunçado.
Uma onda assim.
E com ela vieram conchas, e outras quinquilharias marinhas, souvenires do mar. Coisas lindas, aliás. Efêmeras, porém eternas.
Não veio nenhum peixe, ou criatura maior. Eu estava lá e vi de perto. Nada.
Ah, a onda! Pois bem, estávamos os dois parados, como duas rochas litorâneas. E por séculos ficamos ali, olhando o mar, parados. A brisa salgada parecia encher as narinas, parecia espessa e fofa.
E no meio de eras de conversa muda, de trocas puramente imateriais, não nos olhamos, como seria de esperar.
Ficamos ali criando limo, e os mares à nossa frente foram mudando. Coisas saíram do mar e rastejaram, frágeis e desengonçadas.
Outras, peludas e gordas, caíram no oceano indecisas, à procura de alguma coisa. E por lá ficaram, se avolumando.
Ao lado um do outro, nunca ousamos nos entreolhar. Preferimos o Sol alegre e o silêncio, as tempestades negras e barulhentas.
E foi então que veio aquela onda, molhada, como havia de ser, e espalhafatosa. Ela se quebrou um pouco além da costa, invadindo a praia, a calçada, invadindo a vida das pessoas.
Trouxe com ela lembranças amargas de milênios, de profundezas estranhas, de conforto e expectativa, de atração visceral e instinto.
Era uma menina, uma ondinha. E deixou seus brinquedos espalhados, loucos, ricos. Suas heranças mortas e sua história. Uma loucura.
E despertou as pessoas que passavam, porque não bastou para matá-las, nem as deixou imunes. Aquelas criaturas olharam para o mar, olharam o horizonte e nos viram também.
Nós dois, ali parados, vendo aqueles rascunhos de vida andando, correndo, se apegando a coisas que boiavam, sem valor.
Quando a ondinha se foi, rimos gostosamente da graça que fizera: deixando atordoados aqueles seres, mostrou a força que vem do simples e do real.
Espalhou suas ilusões, brincou com suas posses, estragou seus momentos fugazes.
E depois voltou para o mar, onde se é livre de verdade.
Êta, menina!

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