sexta-feira, maio 26, 2006

Unsichtbar

Eu era invisivel. Desde que me lembro, ninguém me via. Nas sarjetas, onde bebia, ninguém me via. Nos terrenos baldios, onde procurava o que comer, ninguém me via. Quando chovia, e eu ficava numa calçada, encharcado, rezando por um teto, ninguém me via, e ninguém via meu medo quando, em suas festas, seus rojões me assustavam.
Quando eu seguia você, pedindo um pedaço do lanche que você comia, você não me via. Aliás, minto. Algumas pessoas me viam, sim, e me jogavam pedras e paus, quando pocurava comida em suas latas de lixo.
Ninguém me via, enquanto eu agonizava, de fome, de dor, de desesperança... Passavam por mim e simplesmente seguiam seus caminhos.
Agora, você me vê. Eu sou aquele cachorro morto, que está empesteando sua calçada. Agora, você vai ter que ligar para Limpeza Pública, para recolherem meu corpo, que vai servir de alimento para outros que, como eu, são invisíveis.
Mas não se preocupe, eu o perdôo por não me ver. Afinal, você é um humano atarefado, cheio de compromissos, e eu era apenas um vira-latas de rua. Tanto perdôo que, daqui onde estou, oro pra que você nunca se torne invisivel, também. Sinceramente.

Um comentário:

Jadir disse...

Cachorreiro q sou. Sempre voluntário em ONGs de proteção aos animais. Não há como não simpatizar com esse belo texto.
Lembro que na Odisséia o único a reconhecer Ulisses no regresso a Ítaca, foi Argus, o cão que morre de felicidade ao rever o dono.