sábado, junho 17, 2006

Amor

Reuniu aquelas mentiras todas, pegou um clip, juntou tudo num envelope. Contas, convites, prêmios, balela.
Preferia ter perdido a memória, mas só tinha sono. Aquele cansaço de quem perdeu a vida mas ainda respira.
Os longos cabelos louros estavam embaraçados, o rosto vermelho, o estômago vazio. Nada de arrumar a casa.
O tênis folgado lhe ficava mal, mas botou a calça jeans e uma camiseta e foi. Esperançosa e carente. Precisava de amor.
Chegou lá e viu seus amigos.
De repente, ela estava linda! Seus olhos brilhavam, estava tão doce, tão cheirosa, tão boa!
Beijos, abraços, carinhos.
-Eu te amo! Eu te amo! Eu te amo!
Se abraçaram todos ao ponto de rolar pelo chão, e depois, cansados de tanta alegria, foram comer.
Ela se olhou no espelho e viu que realmente estava bela, nem parecia que horas atrás havia sofrido tudo aquilo.
- Mas eles estão comigo.
Não queria viver muito, dizia. Era bondosa.
- Quem quer pipoca?
- Meu amor, você é linda. Senta aqui do meu lado, vem!
- Pipoquinha?
Nem todas as agruras a haviam tornado feia ou irritante. Ainda sabia conversar. Sorria sempre que possível. Mas já não estava aberta às outras pessoas. Havia sofrido, mas não era triste. Arredia.
- Vem cá, maloqueiro, me dá um abraço!
Os amigos a faziam feliz. Eles a olhavam nos olhos e a respeitavam. Há anos ela os via todos os dias, e sabia que morreria se eles fossem embora.
- O que foi isso na sua mão?
O abrigo de cães era sua vida, agora. E para todos eles, ela era a pessoa mais importante do mundo.

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