sábado, agosto 26, 2006

Minutos e liberdade

Acendeu um cigarro e deixou-se cair na cadeira.
Olhou em volta. Bela casa. Mobiliário excelente, livros, plantas exóticas.
Tragou a fumaça com força, com toda a força que podia, com toda a força que lhe restava.
Sentiu frio. Cerrou o roupão de caxemira, apertando os braços contra o corpo como se fosse se dobrar.
Seus olhos amargos e cinzentos olhavam em volta procurando ajuda.
Olinda, a gatinha branca, espiava-o atentamente. Ela sabia que ele estava sozinho.
Ele foi se curvado e arfava, buscando um livro para folhear, enquanto esperava.
Tossiu muito naqueles dias. Estava cansado. E fraco. Estava farto.
Novamente sentiu a garganta coçar e arder como em chamas, e tossia com força, e suas costas doíam com o esforço.
Cuspiu uma poça de sangue. Secando a boca com o lenço, tentava se acalmar, e respirava fundo para não morrer.
Estava lutando contra isso há meses. Seu corpo, já magro, mostrava as marcas da guerra que travava.
Olinda correu para a porta. Talvez tenha medo, ou busque ajuda.
Uma nova onda de tosse e o livro caiu de suas mãos. A ilustração de um titereiro e sua marionete estavam ali, para testemunhar sua desgraça.
Arruinara-se, sabia.
A espera era longa, mas como adiantar-se?
Lutava para echer-se de ar, mas espessas barreiras o impediam. Forçava, e arfava, e sentia as costelas doerem, e o ar não invadia seu corpo.
Via estrelas, agora. Pontos brancos fugidios, luzinhas voando. E grandes marcas negras sob a vista.
Caiu da cadeira e sentiu o chão gelado sob suas pernas descarnadas. Queria subir, mas não conseguia!
E que patético era estar lúcido para pensar sobre sua situação, enquanto lhe faltavam forças para sequer mater-se sentado. A tosse arroxeava seu rosto, sua boca estava marcada, enegrecida. O resto do cigarro havia se apagado, e jazia ao seu lado exalando o odor.
Buscou-o. Pegou-o.
Cansado, triste, pensou na ironia da sua história, e lutava para sorrir, entre as tosses que o chicoteavam.
Sentiu então o frio que esperava e temia. Agarrou-se ao tapete com força.
Não tinha que ser assim, queria pensar. Mas ouvia a si mesmo dizendo o que desde o princípio soubera: Sabias o que fazias.
Engasgava-se no próprio choro e sentia a boca encher-se de saliva, de sangue e de raiva. Os olhos pareciam que iam explodir, as veias inchadas marcavam o pescoço emaciado.
As luzinhas, voando, e a sensação de surdez (ou de distância) o fizeram crer no que acontecia. Tentou ainda ganhar algum tempo, inspirando furiosamente o ar, porém algo em sua garganta escarnecia da tentativa.
Rangia os dentes indignado, e se debatia, e Olinda, de fora, olhava. Esperava.
Então as luzinhas deram lugar ao negror total, e ao silêncio, e já não lutava para respirar.
A dor se fora, e reconfortado, permanecia. Imóvel e calmo.
A gatinha se aproximou rapidamente e o cheirou. Depois, como convém, tentou enterrá-lo com a pata.
Saiu da casa e ganhou a rua. Não tornaram a vê-la, depois.

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