segunda-feira, setembro 18, 2006

Jorge, o inesquecível

Jorge era um erudito. Elitista, tucano, implicante e minimalista.
Todo mundo o admirava por ser pobre com cara de rico. Falava sobre qualquer assunto, desde que não houvesse miséria e reforma agrária na conversa.
Gostava de ballet e de museus, mas nunca havia ido a nenhum deles na vida. Via pela televisão, e os amava.
Jorge tinha seus refinamentos, e embora quase toda noite jantasse pão com ovo e ki-suco, não deixava de ser exigente gourmet.
Ao conversar sobre política, falava como velho diplomata que conhece todo o mundo e seus conflitos, embora nunca tivesse saído de Minas Gerais.
Jorge nunca era pedante, se bem que sua erudição lho permitisse, e desdenhava de artistas e intelectuais que falhassem em se conter.
Embora fosse sempre moderado e elegante, Jorge sempre foi ferrenho em sua opinião sobre a divisão de classes sociais. "Há que haver divisões", dizia. "Ou seremos todos proletários". E não se abatia nem mesmo ao usar tão desconcertante palavra.
Jorge era um tipo exótico, nisso todos concordavam. Não dava intimidade a ninguém, mesmo morando na mesma rua há mais de vinte anos. Jamais dava festas, conquanto recebesse amigos freqüentemente. Todos absolutamente estranhos, estacionavam corretamente seus carros, cumprimentavam os moradores da rua, e ao se retirar, o faziam em silêncio e sem atroplear ninguém. Estranhíssimos.
Ah, Jorge, Jorge, que à sua amada tratava de "Diva", embora seu nome fosse Manuela, e que lhe elogiava a voz, especialmente quando ela mantinha respeitoso silêncio.
E este homem nunca deixou de ser charmosamente galanteador, hábito que lhe rendeu comentários igualmente charmosos, quase indiscretos.
Jorge era polido com todos, e jamais inconveniente.
Mas a principal virtude de Jorge era ser chato. Odiava o povo (a que chamava "gentinha") e qualquer ruído a que o vulgo intitulasse "música popular".
Mal saía, e nunca o fazia sem um lenço a tapar-lhe o nariz.
Preferia morrer a ser tocado por alguém na rua. Abominava a feira-livre e tinha náuseas ao ver pedintes e esmoleiros em seus pontos estratégicos.
Sua aversão pela massa era tão acentuada que dizia sempre que, se tivesse uma ilha, espalharia tubarões à sua volta e lá passaria o resto de seus dias, palestrando e jogando bisca com mais meia dúzia de excêntricos como ele.
Morreu ontem ao meio-dia, e disso todos se lembrarão. Ao falecer, fazendo ainda uma última gentileza, morreu no Domingo, a fim de dar a Segunda-feira de folga aos colegas de trabalho. E mais que isso, morreu sozinho e sem mandar chamar ninguém.
Jorge era mesmo um gentleman.

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