quarta-feira, setembro 13, 2006

Ou sim ou não

Sentou-se na cama e abriu a maleta. Dentro dela, um revólver calibre 38. "Podia ao menos ser uma automática", pensou.
Com o cigarro no canto da boca, apertava os olhos enquanto girava o tambor. Três balas. Se o tiro fosse na cabeça, uma seria suficiente.
Pousou o cigarro na beirada do criado mudo e inspirou profundamente.
Sorriu.
Tinha que manter a calma, para não estragar tudo.
Quinta-feira sombria, fim de tarde, calor. Boas razões, é verdade.
Esperava uma visita de rotina.
O que fazer? Acabar logo com essa espera? Ou aguardar um pouco mais para causar efeito?
Vários fatores se enfileiravam em sua mente. Extrato bancário, carro, funeral. O que iriam dizer no trabalho?
Mancharia de sangue a camisa cor de berinjela, nova, limpa e passada. Hesitou muito diante dessa possibilidade.
- Já que estamos aqui...
Aprumou-se e endireitou as costas. Encostou o cano frio na têmpora, e reparou que a arma era bem mais pesada que parecia.
Desviou o olhar por um segundo e viu que o cigarro queimava o criado-mudo.
Uma onda de desespero lhe percorreu as idéias, e sua mão tremia furiosamente. O cigarro, o cigarro! Pegou-o apressadamente e, de modo desastrado e tímido, saiu para buscar um cinzeiro.
Quase pediu desculpas ao revólver por fazê-lo esperar.
Tudo pronto, acalmou-se e sentou-se novamente. Não, mais para o meio. Assim. Agora a mão suava e a garganta parecia seca. Não queria morrer com sede.
"Vou beber água", pensou, e ia se levantando novamente.
- Não.
Olhou-se no espelho e já não tinha tanta certeza do que faria. Secou as mãos no edredon e passou a mão livre pelo cabelo.
- Calma.
A arma estava perigosamente próxima de sua cabeça, e por um segundo ficou imaginando se sentiria alguma coisa, se doeria, se esquentaria a cabeça. Não queria sofrer muito.
Foi beber água.
Agora, a casa parecia muito mais opressiva e escura, e já precisava novamente refazer as forças, convencer-se de que conseguiria.
Chegou à cozinha e abriu a geladeira, mas já não se lembrava do que fora fazer ali. O impasse durou pouco, e pensou nos ovos na porta do refrigerador. "Vão se estragar".
A situação estava ficando por demais estranha, e na verdade, não era tudo tão mau assim.
Pegou o revólver e pôs na maleta.
Desceu a escada com ela e foi até o primeiro andar, transpirando muito e com os olhos inquietos.
Bateu no primeiro apartamento do prédio e esperou a resposta.
- Seu Nestor?
Um velho mal-humorado, só de camisa regata, bermuda e sapatos, apareceu à porta.
- O que é?
- Tome, a sua maleta.
- Hum. Não vai ficar, então?
- Acho que não. Não, não mesmo.
- Eu sabia que não. Acha que a gente tem tempo pra perder com isso?...
O velho agarrou a mala e bateu a porta depressa.
- Ufa!
Saiu e ainda houve sol para ofuscar sua visão por um momento. Os barulhos da rua pareciam excessivamente altos.
Sorriu alegremente e sentiu-se muito mais leve. Sacou do celular.
- Alô, Selma? Quer tomar uma caipirinha?

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