sexta-feira, dezembro 15, 2006

A Confraternização

Entre o som de fogos, buzinas e apitos, os funcionários pulavam feito loucos e a música alta mal se discernia.
Todo ano a mesma algazarra.
Os incompetentes de repente ficavam engraçadinhos, os supercompetentes se vangloriavam de suas qualidades, falando sobre serviço o tempo todo, e os normais corriam formando um trenzinho no meio da pista.
- Meu Deus, o senhor está bem? - pergunta Simone a um velhinho dobrado para a frente, muito pálido, junto a uma mesa.
- Ar!
- Oh, meu Deus, ele está tendo um ataque cardíaco! Me ajude aqui, Otávio!
Otávio segurou o senhor idoso e junto com Simone, o levaram para a sacada do clube.
Simone lutava por afrouxar a gola do pobre homem.
- Olha só, Ótávio, que velho mais acabado! Essa empresa não tem pena de escravizar um homem dessa idade mais não?
Nisso, o velho se contorceu desesperado e tentou gritar alguma coisa. Os dois o ampararam no chão e enquanto Simone fazia massagem cardíaca, Otávio tentava afrouxar a gravata e desabotoar o paletó do pobre idoso.
- Verdade, Simone, e olha só a cara de mal-alimentado do coitado. Esse bando de sem-vergonhas não liga para a miséria que passam os funcionários.
O velho se debatia e estava ficando roxo.
- Rápido, Simone, faz boca-a-boca!
Os olhos do velho se arregalaram em desespero ante a possibilidade.
- Eu não, sabe lá o que ele tem! Faz você!
- Imagina, vai que ele tem alguma doença, pobrezinho, mal tem condições de se alimentar, a gente vê logo pela cara de anêmico.
Os braços do homem começaram a balançar e ele arfava de agitação.
- Otávio, faz a massagem, eu vou chamar a ambulância. Será que ele tem convênio?
- Cala a boca, Simone, não vê que o velho está passando fome? Vai saber se não mora numa pensão qualquer perto da rodoviária. Chama o segurança da festa, deixa que ele se vire.
Simone correu para o meio do pessoal e em poucos minutos voltou com um segurança puxado pelo braço. O homem estava cheio de serpentina e com uma taça de espumante na mão.
- Aqui, é esse aqui. Deve ser o zelador ou o faxineiro da noite, porque nunca vi ele na empresa. Está já com o pé na cova.
Atrás do segurança, os curiosos começaram a se chegar. Enquanto isso, Otávio massageava o peito do velho, que parecia mais atônito que moribundo.
Um deles, funcionário mais antigo, gritou de trás do pessoal:
- É o seu Arnaldo! Seu Arnaldo Guedes!
Arnaldo Guedes? Arnaldo Guedes! Todo mundo começou a cochichar. Simone e Otávio pareciam desesperados e muito aturdidos na tarefa de reanimar o pobre velhinho.
- Seu Arnaldo! Me desculpe! Me desculpe! - implorava Simone. Otávio até tentou fazer o boca-aboca, mas seu Arnaldo, indignado, o empurrava com o que restava de suas forças.
Um médico atravessou correndo o povaréu e começou a prestar os primeiros socorros, até que finalmente, o dono da empresa retornou à vida, diante dos olhares curiosos de todo mundo.
Na Segunda-feira, Simone e Otávio apresentaram atestados médicos e só retornaram ao trabalho no dia 02 de Janeiro.

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