terça-feira, janeiro 30, 2007

Os crimes e suas penas

Caros colegas da Câmara de Legisladores de Enfado Geral - SP.
Senhores,
Saudações.

Estive pensando numa reforma judiciária em todo o País. Nossas leis estão demasiadamente atrasadas em relação ao nosso povo. Enquanto as Leis são conservadoras e sóbrias, o povo é libertino e voraz.
Enquanto as Leis são razoavelmente justas e coerentes, o povo é egoísta e alienado. Por isso, andei pensando nos piores crimes que cometemos, individual ou socialmente, e imaginei que boas penas poderiam se aplicar aos que os perpetram.
Para começar, pensei na falta de cortesia. O açoite seria uma punição tola e óbvia, já que se concorda que os descorteses mereçam chibatadas nas costas. Pensei em puni-los amarrando suas mãos e pés, colocando-lhes uma enorme maçã vermelha na boca, e, vestidos à moda da França do século dezoito, deveriam desfilar como modelos na passarela (mas aos pulinhos, devido aos pés amarrados) oito horas por dia, enquanto ouvissem "audiobooks" de psicologia avançada em voz feminina maçante. As 16 horas restantes, passariam treinando a genuflexão e recitando "por favor", "com licença" e "muito obrigado" em dez línguas diferentes. Dormir, de modo algum. O cansaço logo lhes dobraria o espírito malcriado.
Depois, imaginei os cafonas. Certas de que são o máximo, essas pessoas se dão o direito ao mau gosto, a fim de provar que podem tudo e que tudo lhes cai bem. Escolhem as piores roupas e cortes de cabelo, ouvem música ruim, detestam a tradição e o bom-gosto e só dão ouvidos à própria e herética estética distorcida. Penduram quadros horrorosos em suas paredes e, com sorrisinhos de mórbida satisfação, nos obrigam a contemplá-los a cada visita. Uma boa punição para o delito seria o exílio.
Sem uma platéia embasbacada, o próprio cafona reconheceria a futilidade e o mau gosto de sua vida. Colocaríamos o pretensioso indivíduo num barquinho de madeira, coberto apenas por um manto de algodão cru. Ao seu lado, um saco contendo pão e água, e um canivete suíço (legítimo). Nenhum espelho, nenhum ornamento. E para auxiliá-lo a reconsiderar seu estilo, dezenas de livros. Não de moda, mas de boa literatura. E um mp3 player com horas e horas de música de verdade. Assim, lá ele passaria cinco ou seis anos, sem ver um ser humano sequer, talvez no ártico ou numa densa floresta. Ao retornar, estaria certamente mais sóbrio e elegante.
Mais tarde, pensei nos vulgares. As pessoas comuns e ordinárias com as quais quase trombamos inúmeras vezes por dia, devido à abundância em que existem.
Para tentar conscientizar o criminoso vulgar a rever sua conduta, pensei em conduzi-los ao medo. Enterrá-los vivos com ratos e lagartixas passando pelo seu corpo, até o limite das possibilidades, desenterrando-os em seguida e lançando-os num labirinto. Então, soltaríamos cães furiosos atrás deles, obrigando-os a se safar para viver. Caso conseguissem fugir, levaríamos os bandidos para terríveis escarpas e ravinas profundas, de onde deveriam escapar sem nenhum acessório. Nos desertos mais horríveis e nos pântanos mais largos, deveriam ser abandonados uma vez após a outra, e também encarar tempestades em barquinhos e onças-pintadas na selva. Enfrentariam provações após provações, utilizando apenas os recursos de que sua criatividade os aprestasse no momento. Certamente, logo estariam redimidos e curados de sua má conduta, se acaso sobrevivessem. Se morressem, também não seriam grande perda, embora numerosa.
Além dessas, muitas outras reformas deveriam ser introduzidas em nosso sistema de Leis, especialmente no que se refere às sentenças, a fim de elevar o nível moral de nossa sociedade. Em nenhum momento, com essas penas, pretendemos ser cruéis com os criminosos, aliás, homens como nós.
Apenas queremos respostas efetivas da Justiça contra a condenável conduta a que se entregam cada dia mais pessoas desse País.
Caso os colegas legisladores tenham outras e mais sábias sugestões, estamos abertos a elas, motivados pelo desejo de ver este País se tornar uma verdadeira Pátria.

Sr. Christiano Fidélis,
Doutor em Leis pela Universidade Imbróglia de Constança,
São Paulo - Brasil.

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