quarta-feira, fevereiro 21, 2007

A fantasia diária

Nada machuca como a força da realidade, nem assusta como a fragilidade do sonho.
Mas provavelmente o grande terror do sonho é perder a medida do que é verdadeiro e do que é falso; é não saber voltar quando escapamos da vida real. Confusões e pesadelos podem ser mais sólidos e aterrorizantes que os temores reais da vida cotidiana; num momento não sabemos mais se o que estamos vivendo é uma escolha nossa, portanto irreal, ou imposição externa, a dura realidade.
O que provavelmente mais magoa é não saber como passar de uma para outra quando for conveniente.
A realidade às vezes pode tomar contornos de absurdo quando resolve nos perseguir, por alguma razão.
E a fantasia pode ajustar-se exatamente ao que esperamos da vida quando estamos vulneráveis o suficiente para fazer concessões ao inverrossímil. E aí, passamos a preferir o surreal, o inventado, o falso, ao verdadeiro.
Claro que isso é um mecanismo de defesa, mas prefiro não racionalizar; simplesmente acho muito bom ter uma alternativa à realidade chata que nos incomoda às vezes.
Imagine poder viver vidas alternativas quando for de sua escolha!
Ser um pirata, uma fada, um touro, uma abelha, um alienígena, qualquer coisa.
A única imposição é que a história deverá ocorrer apenas na sua imaginação, o que é um impecilho bem grande, já que todos nós carecemos de um pouco mais de imaginação, e principalmente de saber como usá-la.
Assim, como crianças e adolescentes jogam RPG e fantasiam heróis e monstros, nós também podemos. Não é nenhum crime imaginar-nos melhores ou mais bonitos do que somos de fato.
Não é feio nem vergonhoso desejar mais da vida do que ela nos dá. O problema sãos os meios que normalmente usamos para obter mais - meios ilícitos, prejudiciais.
O único meio de ascender honestamente do meio em que vivemos a milênios (ou milhares de dólares) adiante é imaginar que podemos, nos deixar levar pelo sonho, encenar um pouco para nós mesmos a vida que queremos ter.
Infelizmente algumas pessoas se deixam absorver pela encenação, e esquecem da realidade. Estes são enjaulados e chamados de loucos.
Mas quando assistimos a um filme, ou lemos um livro, isso não é dar margens à imaginação para nos cercar de coisas novas e diferentes?
E projetar imagens agradáveis não é um meio de evoluir e nos preservar, e até mesmo de curar doenças?
A humanidade deveria ter mais coragem de criar, imaginar, fantasiar.
Estamos fatalmente amarrados à realidade física que nos cerca e não sabemos como torná-la melhor ou mais branda. Mas isso é realmente possível.
Como algumas pessoas pobres e doentes conseguem ser felizes, e outros, saudáveis e com recursos, são melacólicos e frustrados?
Tudo depende de como você projeta sua vida, e é possível fazê-lo sem desligar-se da realidade. Manter os pés no chão é necessário e não significa que não seja possível criar a fantasia diária que nos eleve a um ponto mais alto na nossa história pessoal.
Ninguém precisa estar preso numa camisa de força para imaginar-se bem ou feliz, para imaginar-se belo ou simpático. Basta quebrar o padrão que obriga os adultos a serem estéreis, involuídos e materialistas. Preciamos ser mais ingênuos.
Não somos obrigados a passar o dia pensando em coisas materiais, na conta de luz, na fila do banco, nas costas que doem, da cara feia do síndico, no chefe grosseiro, na revisão do carro.
Podemos, sim, imaginar as coisas melhores do que elas são, ver-nos mais felizes e atraentes, viver em grandes casas ou castelos suntuosos, ter amigos e admiradores, ser capazes de voar ou cantar ou ficar invisíveis...
Ainda que por um momento, devemos isso a nós: devemos desejar um futuro melhor, devemos dar lugar à mente para criar, para nos confortar, nos limpar de toda a crueza e infalibilidade do mundo real.
As pessoas que crêem em Deus ou em alguma religião têm em comum a fé de que coisas boas acontecerão, e muitas ficam cogitando que espécie de coisas boas poderão acontecer no céu ou no Paraíso, quem vão encontrar após a morte, como será o dia do Juízo Final. Essa maneira de exercer a fé é apenas dar asas à imaginação e ver o que não vemos, espreitar o que não conhecemos, desejar o que não sabemos se existe. É essa força que nos dá esperança e nos faz cumprir os passos que imaginamos necessários para merecer a recompensa prometida.
Do mesmo modo muitas outras buscas podem ser empreendidas sem que percamos a razão e a noção do momento. A arte é a ação da imaginação, a concretização dessa busca fantasiosa. É possível vê-la, senti-la, mas só o artista a vivenciou realmente. Cada um é capaz de criar sua própria obra-prima.
O real é o verdadeiro, mas a fantasia é o Belo, e portanto, uma busca válida e justificável. Ninguém é obrigado a viver mal por falta de recursos; o único recurso que essa busca demanda é a criatividade.

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