quinta-feira, março 29, 2007

Fire in the hole

Engraçado, ontem à noite meu cérebro fervilhava de idéias sobre uma teoria bastante inteligente acerca da essência da arte e dos parâmetros de consideração para que algo seja visto como "arte".
O conceito era tão brilhante e cheio de comparações práticas, que citava inclusive artistas contemporâneos como exemplos para facilitar o entendimento, alinhando-os a consagrados artistas clássicos e demonstrando o porquê.
O insight me rendeu a visão do Belo por meio de várias correntes filosóficas bastante difundidas, de modo que era fácil verificar que todas elas tinham em comum a consideração da arte sob o aspecto de... Não lembro.
Infelizmente, acordei hoje cedo completamente ignorante do assunto. Não sabia mais quem podia ser considerado artista, não entendia mais por que o processo criativo é importante, por que cargas d'água Luis Caldas e Bizet não podem ser vistos sob a mesma perspectiva. Lembro-me vagamente de pensar algo sobre a beleza, e que o Belo supera algo técnico, sei-lá-o-quê, e nisso usei como exemplo Kurt Cobain, mas não me lembro como.
Toda a minha sólida, rica e bastante elucidativa teoria havia se desvanecido, e hoje não sei absolutamente nada mais que eu não soubesse antes da erupção cerebral.
Quero crer que eu realmente compreendi tudo aquilo por um momento, e se por algum motivo esqueci tudo, bom, shit happens. Eu não me lembro de muita coisa nessa vida mesmo.
Só fico indignada porque não deu tempo de escrever nada, e uma das poucas recordações que me resta foi um pensamento que me ocorreu naquele momento: "quando eu tenho alguma idéia inteligente, nunca dá tempo de botar no papel, e no outro dia eu nunca lembro."
Ora, mas essa sentença foi profética, porque eu não sei absolutamente de mais nada, e se tivesse escrito uma linha que fosse, hoje cedo ao lê-la me maravilharia com a novidade, sem saber nem por onde começar a entender.
É duro a gente ser um gênio por meia hora durante uma vida inteira, e saber que provavelmente isso nunca mais ocorrerá, ou se ocorrer será acompanhado pela instantânea e eficaz amnésia.
Engraçado é que não me lembro de ter levado um choque, ou de ter comigo nada de diferente, ou de ter levado uma pancada na cabeça (humm, talvez aquela na pia do banheiro quando me abaixei para pegar o bonequinho do Plucky... - não, não foi assim tão forte).
De qualquer maneira, foi tudo verdade e uma dura verdade, porque não quis partilhar comigo um pouco mais de tempo, já que havia se aproveitado das minhas sinapses à minha revelia.
Pudera eu ter mais desses momentos de esperteza, e inventaria um gravador de pensamentos, para não perder as outras idéias (mas tenho quase certeza de que se eu inventasse tal aparelho, nunca mais teria uma idéia que prestasse para poder gravá-la).
Eu não me lembro! Mas não é injusto isso? Não? Porque não é com você. Estou simplesmente pasma.
Depois de todas aquelas citações, umas em francês, outras em latim, e umas ironicamente em grego (três idiomas dos quais não sei um ó que seja), eu simplesmente acordo novamente brasileira, "normal", falando um português sofrível, mal arranhando um inglês ruim, e completamente sem teses mirabolantes.
Machado de Assis falou dessas cabriolas arrojadas das idéias em "Brás Cubas", mas ele ao menos lembrava delas depois e quebrava a cara ao ver que não eram assim tão sublimes.
O chato é que não sei se a idéia era tola ou incrível, e não tenho como saber do que se tratava (apesar as arrojadas cabriolas que fez), de modo que morrerei com essa dúvida terrível (aperto a cabeça com ambas as mãos).
Talvez a Matrix tenha errado a mente; assim outro qualquer, usualmente genial, tenha tido as mais prosaicas idéias sobre os mais corriqueiros assuntos ontem à noite, enquanto eu tomava conta da megalômana e desconcertante sabedoria do mesmo. Bem feito pra ele. (sorrisinho tristonho)

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