segunda-feira, março 19, 2007

O futuro que não veio

Não há nada mais interessante que imaginar nosso mundo pobre sob a estética futurista. Pode parecer retrô, mas é muito mais agradável ver tudo o que nos cerca como "prestes a acabar" para dar espaço a coisas mais eficazes e visualmente modernas.
Antigamente as pessoas viam o futuro como um Godzilla que entrava em Tóquio e esmigalhava tudo o que via à frente. Depois de um tempo passaram a vê-lo como um cachorro bravo amarrado à árvore com uma corda fina, e logo depois como uma velha louca de bengala na mão. Hoje nossa postura é tão blasé que insistimos em ver o futuro como algo que já passou e é chato, e tudo o que é novo nos parece gasto e fora de moda.
Eu, pelo menos, gostava muito de imaginar que no ano dois mil os carros voariam e nos alimentaríamos de pílulas da juventude. No ano dois mil eu teria 21 anos e já seria muito adulta e inteligente, e teria uma máquina fotográfica para registrar imagens dos imensos edifícios e cidadelas construídas sobre o mar, por exemplo.
É tão sem graça olhar à minha volta e ver que o ano dois mil já passou faz tempo, e continuamos andando de carro popular barulhento e soltando fumaça, e construindo casebres de tijolo em assentamentos de gente pobre, e pior que isso, tenho uma máquina fotográfica e não vejo nada que valha a pena ser fotografado nesse nosso futuro decepcionante. Além disso, também não era muito adulta e inteligente aos vinte e um anos, e temo que jamais venha a ser em qualquer idade.
De qualquer maneira, sinto falta daquela esperança emocionada que sentíamos imaginando as naves-mãe em órbita sobre nossas cidades, e as antenas transmitindo sinais de rádio para o espaço sideral (ninguém mais fala "espaço sideral" hoje em dia).
As roupas prateadas e as armas laser eram o must dos anos oitenta, e hoje as pessoas querem usar colarzinho de semente e paninhos de algodão, achando muito lindo que dez mil anos de evolução nos tenham levado a ser Adão e Eva novamente.
Sei lá, a estagnação das idéias atuais é desanimadora. Antes as pessoas ansiavam por grandes descobertas e invenções incríveis, hoje estão trocando a tecnologia e as roupas prateadas por casinhas de sapé e vidinhas de Amélia, fazendo filhos e cuidando de violetinhas na mesa de centro. Que chatice.
Poderíamos ter violetas nas cabines das naves espaciais que sonhávamos na nossa infância. Estávamos todos convencidos que seria assim, e hoje estamos no mesmo lugar e fazendo as mesmas coisas que nossos pais e tios faziam. Com a diferença que o cabelo deles na época era muito mais estiloso e não era ridículo ter suas próprias idéias.

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