sexta-feira, março 16, 2007

Progresso

Ontem, percebi como somos todos mal-acostumados às novidades. Meu chofer não estava disponível para me buscar, não consegui chamar uma carruagem e rodei metade do reino atrás de um moto-táxi para me levar para meu palacete.
Como minha propriedade fica bastante afastada das muralhas da fortaleza, o moto-táxi gastou mais de meia hora rodando pela Via Aurelia, fazendo o capacete enorme chacoalhar na minha peruca empoada e me fazendo regurgitar ambrosia no colo do meu vestido com armação.
A vida nas grandes cidades não é fácil, mas isso já se torna incômodo demais para moi. Certas novidades seriam melhores se nunca existissem.
Além de toda a maçada de rodar durante horas e de quase chocar-se com um camponês desavisado pelo caminho, o rapaz não tinha troco para minhas moedas de ouro e tive que pagá-lo em vale transporte. O que é imensamente vulgar para uma dama de minha posição.
Meu mordomo me recebeu espantado e meus perdigueiros quase não reconheceram meu aroma, tanta poeira cobria meu corpinho de Vênus albina.
Obviamente estamos todos fora de nós mesmos, pois a sociedade jamais deveria aceitar que os moto-taxistas infestem nossas Vias, arrancando retrovisores das carruagens e assustando os peregrinos que seguem pela beira da estrada até Roma.
Espantei-me com a facilidade de encontrar tais serviçais em qualquer posto de gasolina ou nas proximidades das masmorras. Eles estão por toda parte.
Preferia não ter a opção, mas já que ela existe, acabo por utilizá-la.
Fico imaginando o que mais virá com o progresso. O mau gosto das inovações faz minhas esmeraldas embaçarem de constrangimento.
Daqui a pouco vão querer substituir o pó de chifre por creme dental!

Um comentário:

Bruno Benedini disse...

não que eu tenha algo a dizer, só resolvi comentar por comentar. dizer o quê, "legal a sua forma de colocar as coisas"? e é, mas e aí?