terça-feira, abril 24, 2007

Fazendo coisas com o inimigo

É interessante como as pessoas têm uma certa obsessão por fazer as coisas "com o inimigo". É muito difícil alguém dizer que "Fulando está dormindo com o amigo", que "Beltrano está vivendo com o coleguinha".
Lamento por isso. Tudo o que fazemos, é com o inimigo.
Eu, por exemplo, estou respirando o mesmo ar que o inimigo; não neste exato momento, ele foi ali comprar um donut e já vem respirar novamente aqui ao meu lado, possivelmente com bafo de café e dedos grudendos de rosquinhas. Odeio, odeio.
E o resto da humanidade está sempre fazendo as coisas mais extravagantes com o inimigo. Não entendo: por que não fazer sozinho? Digo, se fosse algo extremamente ruim, serviria como uma desforra, mas dormir com o inimigo?
Eu já imaginei uma miscelânea de livros e filmes que poderiam ser reescritos (ou inventados) sobre coisas que podemos fazer com o inimigo a título de pirraça. Por exemplo: "Fazendo iôga com o inimigo". Iôga assim com acento, mesmo, porque a ioga (ó) normalzinha não serviria de punição. Ou então: "Comendo aspargos com o inimigo". Terrível, hã? "Sendo mordido pelo pinscher do vizinho com o inimigo". "Tossindo por causa do charuto do cunhado com o inimigo". Crudelíssimo.
Eu me sujeitaria às mais ridículas e escorchantes situações a fim de, com isso, sujeitar meu inimigo às mesmas. Só de raiva. Mas dormir, ah não, dormir com o meu inimigo não.
Agora, também existe a opção de fazer as coisas com pessoas de quem gostamos, mas aí já ficaria tão banal e sem mérito, que não teria graça.
Imagine: "Comendo o último bombom da caixa com o amigo". "Ganhando na raspadinha com o primo". "Chegando em primeiro lugar com a Tia Marilda", "Sendo a mais bonita da festa com Angelina Jolie". Não. Não seria a mesma coisa. Não daria o mesmo prazer de ver o inimigo se ferrar todo, ainda que às nossas próprias custas. E além disso, as melhores coisas da vida se aproveitam sozinho.
Quando eu for escrever um roteiro para filme-de-suspense-que-passa-na-globo, certamente usarei as mais sádicas e atrozes fantasias de tortura contra meu inimigo, acondicionadas num clichê capaz de levar horrores de expectadores às filas do cinema (ou às poltronas de korino suadas) só para ver "o inimigo" se arruinar.
De quebra, o inimigo será parvo, terá problemas na fala e na postura, revirará os olhos a cada tormento, e cambaleará de bêbado o filme todo. Sendo que eu farei o papel de Louise Brooks, que fará o papel de Ava Gardner interpretando a pessoa que "faz algo" com o inimigo. Será um extraordinário sucesso.

5 comentários:

O Bibliotecário disse...

Cada vez que leio alguma coisa nesse blog, fico me perguntando quantos anos ela tem? Sei que é indelicado, e não precisa responder, mas é que involuntariamente associo sabedoria com muita idade. E a impressão que tenho é que vc deve ter mais de cem anos, ou que já viveu mil vidas sucessivas (embora não acredite nisso). Fico ensimesmado! E não é apenas o conteúdo que me encanta, mas também a forma impecável em que vem expresso.
Danuza Leão que se cuide!

Gustavo disse...

Veja bem, dormir com o inimigo nem sempre é bom pra ele, e pode ser indiferente pra você, se você for, sei lá, a Whoopi Goldberg.

Se eu fosse a Whoopi Goldberg, dormiria com o inimigo todos os dias, só para torturá-lo enquanto eu estou bem. Além disso, não precisaria sentir o cheiro do charuto do cunhado. É a melhor forma de acabar com o inimigo.

A Mente da Mulher disse...

São os inimigos aqueles que mais nos desafiam????

E se você trocar a palavra inimigo pela palavra "adversário"?

Badá Rock disse...

Mas por quê?

Larissa Bohnenberger disse...

Badá!
Faz um tempinho que passo por aqui e leio as coisas que você escreve, (desde que entrei na multicultura, por indicação da Deborah). Que maravilha, não consigo parar de ler o que você escreve. Seu blog está nos meus favoritos!