quarta-feira, maio 30, 2007

Bateu asas

O passarinho que eu achei morreu.
Não é uma coisa assim tão anormal, ele estava ferido e não se alimentava. Mas o que me espanta é o fato de ter morrido sem ter feito nada da vida, sem nunca ter vivido. Porque ele era filhote, ainda, e promissor.
Quis que ele vivesse e tentei salvá-lo, e ele me olhava indignadíssmo quando eu tentava enfiar papinha por sua goela abaixo à força. Como se achasse absurdo forçá-lo a viver.
Pois bem, queria que ele vivesse. Mas não forcei mais que isso. Dei água e uma cama quentinha, e deixei que morresse em paz, no silêncio, e bastante confortável. Todo mundo deveria morrer assim, sem estardalhaço, com dignidade. Porém, é preciso ter vivido antes de morrer. O pobrezinho não pôde.
Tanta gente por aí que não vive e continua vivo; isso é um desperdício.
Odeio essa gente cretina; não tenho receio de falar. Vou fingir pra quê? A vida do passarinho vale para mim muito mais que a de centenas, milhares desses miseráveis nojentos que dizem que vivem.
Gente que atrapalha o trânsito, ocupa leitos no hospital, exerce funções em empresas, gente que se senta para assistir tevê como se aquilo fosse viver, como se aquilo importasse, meu Deus.
Gente que por mim viraria pó, se com isso ajudasse a salvar um único pardal que fosse.
Claro que uma coisa não tem nada a ver com a outra.
Qual a relação entre um filhote que caiu do ninho e gente estúpida em grandes quantidades? Nenhuma, mas penso que se tivesse a chance, o pardalzinho teria feito muito mais proveito de sua vida que muitos zumbis egocêntricos que atravancam nosso caminho todo dia. Atravancam o caminho dos passarinhos. Atravancam o caminho da vida.
Sorte do passarinho ter morrido, não viveu para ser maltratado. Por sinal, perto de onde ele nasceu, já estão desmatando as margens do córrego, sem dúvida para assoreá-lo. A razão disso eu não sei. Deve ser porque essa gente que não vive está sempre ociosa, e que há de mais prazeroso em atrapalhar quem está vivendo?
Poderia hoje fazer uma passeata de protesto pelo fim das pessoas-número, pelo fim da gente inútil, mas talvez somente passarinhos concordassem com a razão do protesto, e certamente eles têm coisa muito mais importante a fazer que perder seu tempo com pessoas-número.
Se ao menos essa gente inútil morresse em paz e silenciosamente como os passarinhos, eu não seria contra o seu passamento. Iriam tarde.
Mas não; insistem em gritar, em morrer aos berros, e de bala perdida, coisa mais vulgar e indecente, ou a machadadas, ou caindo de prédios, meu Deus, que gente grosseira.
Sou a favor da preservação dos passarinhos, cavalos, lagartos & afins, não por causa dos clichês ambientais e de cunho politica-social e ecologicamente correto, mas apenas e tão-somente porque são pessoas muito mais interessantes que a gente toda que ocupa os números.

4 comentários:

Larissa Bohnenberger disse...

Assinei embaixo!

Gustavo disse...

Badá, se ver TV é não viver, não viver pode ser divertido. O passarinho deve estar se divertindo com Os Simpsons em sua não vida.

Caio disse...

E mesmo os passarinhos estúpidos e retardados ficam lá voando sem incomodar ninguém (com exceção dos malditos pombos, que merecem morrer).

Anônimo disse...

Estava procurando umas coisas na net e me deparei com seu texto...percebi o quanto vc está revoltado assim como eu!! Eu participaria do Protesto tb!!
Muito bom