sexta-feira, maio 11, 2007

Cinema

Ela linda. Branca como a luz, pálida como a morte, cabelos negros e brilhantes. Cinema era perfeita. Sua pessoa exótica estava em toda parte e parecia não ter consciência disso; não buscava a beleza, não buscava inspiração, nem conhecimento tampouco. Cinema não se dava conta.
Seus pais, loucos pela arte, lhe impuseram este lindo nome, sem ao menos pensar no que viria adiante de alguém chamado assim: Cinema.
A menina não se importava; crescia, como um animal. Corria, raspava a terra com as mãos, nadava. Com os meninos, que a cercavam, que a adoravam, ela brincava e nem lhes notava. À noite, parecia que a lua a admirava, pela janela. Cinema dormia como um bebê, cansada que estava do dia.
O tempo a poupava, a cercava de mimos, e de repente ela estava adulta com o rosto de menina. Lia, lia e relia, aprendia, e sorria com freqüência. Os relógios se curvavam a ela.
Ela nunca pensara antes sobre a possibilidade de ser infeliz. Nada lhe faltava, Cinema vivia, isso era tudo; nunca imaginara que podia ser diferente. Podia?
Seus belos olhos foram retratados, por mais de uma vez, por um pintor vaidoso, mas ele se desesperava. Não era capaz de ser generoso com o ser retratado; pedia misericórdia, se humilhava. Ela ali ficava, tranqüila, esperando a conclusão da obra. Não se fatigava, sabia que nascera para ser vista.
O inverno a favorecia, e Cinema andava pela neve sozinha, os tornozelos expostos e as mãos sem luvas, os cabelos soltos apanhando neve, e então ela ia, feliz, e carregava livros até sua casa, onde lia diante do fogo e adormecia com histórias na cabeça.
E hoje, Cinema ali vive, inquita, em seus sonhos aflitivos. Tornou-se dócil prisioneira de seu próprio magnetismo. Sofreu assédios, mentiras, foi exposta e manipulada, foi maltratada e querida por todos que a rodeavam. E hoje vive só, no limiar entre a solidão e a loucura, entre suas obras, seus desenhos, suas poses, suas poesias. Perdeu o viço, não é mais novidade, e embora ainda seja exótica e única, está desgastada e já não quer sorrir. As pessoas a importunaram, a culparam, a invejaram, a amaram em demasia, e isso tudo cansa - era um fardo que lhe curvava o espírito e que agora se foi.
As noites, que hoje que passa sozinha, aproveita para descansar da vida. Presta aguda atenção ao silêncio, como se ele lhe sussurasse algo secreto e importantíssimo. Depois, olha em volta e apaga a luz, e dorme ressabiada. Mas ainda a aquece a memória do carinho que inspirava, como musa, e dos gestos, porque nunca dissera uma só palavra. Esse véu que a envolvia era o mistério que arrastava multidões à sua volta.
Nunca quiseste falar?
Esta noite, sim, ela falou. Virou-se para o fogo da lareira e disse “boa noite”. Deus lhe abençoe, Cinema.

Um comentário:

O Bibliotecário disse...

Eu acho q conheço essa menina!