sábado, maio 05, 2007

Mundo cão


Se eu pudesse escolher hoje como nascer, queria ser cachorro. Não aqueles admiráveis cães de raça pura, que mal espirram e já corre um pajem com um lenço de seda para socorrê-los.
Queria ser um cachorro qualquer, desses comuns, que mordem sapatos, fazem xixi na roda do carro e latem para carteiros.
Cachorros são os seres mais probos e agradáveis da Terra. Certamente foram inventados para contrabalançar o homem, e uso aqui esse termo politicamente incorreto como sinônimo de “humanidade”, termo que considero hipócrita e fantasioso.
Bom, ser cachorro deve ser o máximo. Os cachorros de classe média, então, devem ser os mais felizes. Não lhes falta alimento, assim como aos cães burgueses, mas também não lhes falta liberdade, assim como aos cães de rua.
Cheirar as visitas, cavar o jardim, correr pela sala, latir para a televisão ou para a máquina de lavar, tentar fisgar pão e/ou mortadela de cima da mesa, ah, os prazeres caninos!
E talvez ninguém tenha notado que os cães são seres conscientes, inteligentes, criativos, sentimentais e cheios de senso de humor. Essa insuspeita capacidade dos cães, que sempre passa despercebida pelas pessoas, é a melhor qualidade que eles têm. São capazes de nos ensinar coisas, nos manipular, nos endireitar sem ao menos falar qualquer coisa. Fazemos suas vontades, seguimos seus sábios conselhos, agimos conforme seus desígnios simples e saudáveis. Tudo isso sem ao menos notar; tudo isso achando que estamos no controle e que somos os “donos” do “animal”.
Dominar uma raça que se supõe superior a nós deve ser gostoso. Inflar a vaidade humana com um simples abanar de rabo e constatar que isso basta para ver o humano sorrir e saltitar de alegria é, além de cômico, satisfatório. Imagine o olhar irônico do cão quando você, em troca de baba e pêlos, lhe dá o melhor pedaço do bife e ainda lhe afaga as costas.
Claro, toda causa tem seus mártires, e infelizmente muitos cães padecem nas mãos de desprezíveis pessoas que, além de abjetas, retardadas e vazias, são covardes e frustradas, o que as leva a descontar sua insignificância em um alvo que consideram superior a si próprias. Gente assim me faz querer ser cão. Quando me vejo obrigada a ter como iguais seres que me repugnam, seres que são ainda mais horríveis por dentro do que o são por fora, desejo ser cão. Desejo morder uma almofada e rolar na terra, apanhar um objeto qualquer e brincar com uma criança. Tudo, menos me reconhecer no próximo.
E de repente, olho nos olhos de um cachorro de rua e ele me entende; ele compreende que sei seu segredo, que eu vejo o que se passa por trás daqueles olhos calmos e risonhos, e ele me pede cumplicidade: - não vamos subverter as coisas por aqui, eu continuo a ser cão e você humano.
Aí eu vou pra casa, feliz e satisfeita, e olho pra minha gata e ela também sabe. Somos uns fingidores, porque os animais não querem dominar o mundo, embora possam fazê-lo, e nós humanos não podemos, mas queremos muito. Eles têm pena de nós e nos mordem. Nisso dou toda razão.

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