sexta-feira, agosto 31, 2007

Damn on you, cabra da peste!

Eu leio uns posts por aí nos blogs e fico besta com o quanto os brasileirinhos escritores gostam de falar inglês. Tudo em inglês. O cara está falando da última vez que foi ao supermercado comprar barbeador, e what the hell! – o caixa não tinha troco pra cem.
Depois ele senta em casa e vai ler um livro, não qualquer livro, ele vai ler um Guimarães Rosa, e pasmem! ele só tem The Devil to Pay in the Backlands, que comprou o e-Bay. Porque gosta de ler em inglês. É chique. Sou inteligentinho, vejo filmes sem legenda e, well, recorro ao inglês para me expressar com clareza, já que o português não tem certas expressões, não tem certos recursos, it’s just not perfect...
Certo dia li uma postagem do meu escritor e/ou blogueiro favorito, e ele dizia que quando era pequeno, lá pelos cinco anos, chorava ao ouvir Yesterday, porque a letra era muito triste e tal.
É óbvio que era brincadeirinha.
Quando eu tinha cinco anos, entrava embaixo do sofá com medo quando passava o clip de Thriller, conversava com meus cachorros e queria uma boneca “Quem-me-quer”.
Nunca me ocorreu que o que as pessoas falavam em inglês pudesse ter algum sentido, ou que fosse outro idioma. Achava só que era um estilo de falar de quem é muito rico e aparece na televisão.
Eu tentava fazer com a boca movimentos contrários aos dos sons que eu emitia, porque não me ocorria também que os programas fossem dublados. Achava que era assim mesmo. E pensava que todo mundo falava a mesma língua e que, se eu não entendia alguma coisa, era porque não significava nada. Para mim era assim: as pessoas começavam a falar inglês quando viravam adultos e se tornavam ricos e elegantes como nos filmes. Era orgânico, sei lá.
Agora, entender letras de música aos cinco anos e chorar ao ouvi-las, oh my!
Quando leio esses posts cheios de expressões em inglês pra todo lado, lembra-me imediatamente uma pegadinha do Mussão em que um gay muito exaltado o xingava, gritando “Vai-te fóquio, alienado! Fóquio!”
Essa expressão “fóquio” vem bem a calhar num país em que há tão poucos xingamentos, como no Brasil. Diz a lenda que ninguém sabe ofender como os franceses, e que não há língua tão rica quanto o alemão, e que o árabe é a língua mais complexa de se falar. Bem, ninguém que disse isso conhece o repertório de palavrões desse país tão exotic.
Sem aldo-rabelismo - até porque eu gosto muito, muito mesmo de idiomas estrangeiros (em especial o inglês, porque é facinho e é hype) - mas não há necessidade nenhuma de se expressar misturando duas línguas. Fazer uma citação, usar sarcasticamente uma expressão novelesca, vá lá, até enriquecem a vida da gente. Mas pra tudo recorrer ao English, haja paciência.
Só existem umas poucas razões pelas quais alguém faria isso:
a) Porque não há correspondente para aquela expressão em português (nesse caso, ele tem idéias inéditas e lhe ocorrem coisas que jamais ocorreram a nenhuma outra pessoa que fala português);
b) Porque ele é estrangeiro e não sabe falar direito o português (nesse caso, ele não vai ser compreendido mesmo, então ninguém presta atenção no que ele fala);
c) Por ironia ou sarcasmo (consigo mesmo ou o próximo);
d) Porque é um cretino (essa vem a ser a mesma razão pela qual os motoristas não dão seta quando vão virar a esquina, what a coincidence!)
Não há nada como o peso de um palavrão em português. Quem tem coragem de dizer “shut the fuck up, fucking motherfucker” em português? E como ficaria? Dizer isso em português arrepiaria os cabelos de um cafetão. Quem quer xingar mesmo, tem que fazê-lo em português para ver algum resultado.
E se querem saber, essa mania de inglesar a coisa toda já pegou até aqui, na borda do mundo, e não é raro ouvir alguém falar com o sotaque arretado algo como “a gente faz um turnôver no shopping e depois pega a Getúlio”.
Mas pra quê, me diz!? Eu duvido que um americano possa dizer “Anhangüera” (eu gosto de trema), “firulinhas” ou “malemolência” sem ter torcicolo por três semanas.
Pra mim, it’s just overwhelming. Fuck this shit, I give up.

2 comentários:

Larissa Bohnenberger disse...

Eheheh!
Eu concordo com seu texto, mas ele inevitavelmente me lembrou de como o meu pai debochava, antigamente, de algumas músicas que eu ouvia... como o "Soul de verão", da Sandra de Sá, onte ela diz "...don't you know quem eu sou..." e "...vem pro meu lado forever...".
Toda vez que ele ouvia essa música ele dizia "Because o seguinte" e caia na gargalhada.
Mas é verdade! Essa mistureba de termos, essa mania de inglesar tudo, é um tanto irritante. Uma língua tão rica e cheia de ezpressões, como a nossa.../
E vai te fóquio, é realmente digno de meus parabéns! Clap, clap, clap!
Bjs!

Caio disse...

Concordo. Olá, há quanto tempo. Aceita chá? :)