sexta-feira, agosto 10, 2007

De acordo

No meio do tiroteio, a velhinha, deitada, lutava para alcançar sua bengala: “Se ao menos eu conseguir pegar, posso fazer alguma coisa”, pensava a pobre mulher.
Estilhaços de vidro, pedaços de porcelana e lascas de madeira voavam sobre sua cabeça em todas as direções. Balas zuniam cada vez mais perto, alarmando a velha senhora. Parece que nenhum dos dois lados cederia tão cedo.
A velha agarrou-se à perna da mesa e içou o corpo para perto do sofá, onde presumia que tivesse caído sua bengala. Arrastou-se sobre a barriga e sentiu todo o peso de seu corpo desafiando a força de seus braços.
Uma bala se encravou perto de seu rosto, na lateral do sofá, destruindo o pano tão delicado do forro. Olhando fixamente o buraco da bala, a velha tateava o assento em busca do seu apoio. Parecia já ter se acostumado ao barulho de tiros e coisas quebrando.
Achou por fim a bengala e puxou-a para baixo, olhando por cima dos óculos em busca de um bom lugar para apoiá-la. Firmou com as duas mãos a ponta no piso e foi subindo, subindo, as balas traçando riscos dos dois lados de sua cabeça, sobre ela, em toda parte.
Com os olhos firmes, foi-se apoiando, trêmula, até conseguir ficar de joelhos, ajeitou os óculos e buscou nos braços um impulso final que a elevasse até ficar de pé.
Gritos por todos os lados e sons de tiros, alguns mais rápidos, outros pausados, que a velha entendia como sendo “de metralhadora” e “de revólver”. Quer sejam, quer não, eram vários. E perigosos. Um deles arrancou uns cabelos de seu coque e sua reação foi tardia, apenas um estremecimento. Resmungando algo, ela se firmou nos dois pés e avançou em direção ao esconderijo de um dos atiradores. Acertaram sua bolsa, mas não tem problema, é possível consertá-la, basta pregar uma flor de tecido no lugar.
Com o passo firmemente apoiado pela bengala e dois olhos fulminantemente severos, a velhota curvou o corpo sobre a mureta atrás da qual o atirador estava e o puxou pela orelha.
O homem, surpreso, parou de atirar e apontou a arma para o alto, enquanto era humilhantemente sacado de seu esconderijo.
- Trinta e dois anos dando aulas para meninos safados como você, olha só o que vocês se tornam!
Puxando-o pela orelha, a velha se virou e, pisando em falso várias vezes, por causa da pressa, foi até onde estava o outro atirador.
Deu-lhe uma bela bengalada no coco, pelo que se ouviu o barulho curto e seco da pancada.
- Levante-se daí e peça desculpas!
O rapaz, confuso, baixou a arma e se levantou devagar, ficando de pé diante dos dois. O primeiro ainda estava curvo e tinha sua pobre orelha entre os dedos de alicate da velha.
A velha soltou a orelha, agora escarlate, e botou os dois de frente um pro outro.
- Me dêem esses maditos revólveres.
- Mas, Dona Mila, isso é uma uzi...
- Uzi nada, me dá seu revólver. Agora peça desculpas pra ele.
- Ah, não peço não.
Ela deu-lhe uma violenta bengalada no pescoço, logo abaixo da orelha, que deixou um primoroso vergão cor-de-rosa.
- Peça desculpas pra ele.
- Não fui eu que...
A velha, impaciente, tomou do outro a automática e, com as mãos tremendo, fez os dois se cumprimentarem.
- Agora peçam desculpas um pro outro.
Hesitante, o que fora golpeado enrubesceu muito e olhou para o chão. O outro parecia envergonhado e olhava para a própria mão.
- Ahh...
- Foi mal...
- Eu não queria...
- Desculpa aí...
- Muito bem, agora cada um vai pra sua casa e não quero mais ver vocês brigando feito meninos. Vocês já são moços crescidos.
Sem-graça, o primeiro saiu olhando em volta, lamentando deixar sua metralhadora. O outro chegou a se voltar, mas ficou com vergonha e desistiu de levar a arma.
Foram embora devagar e fecharam a porta, em silêncio. A velhota observava, com uma mão na cintura e um misto de fúria e bom humor no olhar sobre os óculos que se penduravam na ponta do nariz.
Quando já tinham descido, ela subitamente se enervou novamente e correu até a janela, claudicante com seu instrumento.
Lá debaixo os dois viram a cara vermelha da velha, apoiada no parapeito, sacudindo a bengala para o ar e berrando histericamente:
- Quem vai me ajudar a arrumar essa bagunça, seus arruaceiros?

8 comentários:

Claudia Lyra disse...

Huahauhaua... amei! Muito engraçado!

Rey Jr disse...

que orgulho que eu tenho de vc Badass.

Tu é FODA!

Branco Leone disse...

Bom, hein? Quem é que não escrevia direito?
Beijo

Caio disse...

�timo ;)

A Mente da Mulher disse...

Adorei o novo estilo, Badá. Esta é a Badá que eu adivinhei que existia, lembra? Gosto muito de você, menininha!

Beijos!

Larissa Bohnenberger disse...

Adorei a velhinha!
Alguém tem que por ordem nesse tribunal, mesmo, né?
Bjs!

Anônimo disse...

Devo dizer que gostei desse seu conto. Mais um pouco e chegaríamos no universo fantático e real de um garcía marquéz. Seria essa velha uma Úrsula residente na favela cidade de Deus? Oh quão bom seria.

Bem que Chistiano, O bibliotecario, me disse, você escreve bem.

Emerson Coelho

Moda Feminina disse...

COm alguns errinhos mais tudo bem. Otimo Texto
parabens