terça-feira, setembro 18, 2007

Conspiração

Eu estava andando calmamente pela rua, vestida de enfermeira. Tinha acabado de retornar à cidade e admirava o quanto as coisas haviam mudado, quantos prédios novos, quantos estabelecimentos úteis e fachadas lindas... uma farmácia, uma lanchonete, e o que é essa loja com as portas de vidro? Pena que o estacionamento esteja interditado, senão eu...
Nesse momento, um casal de almofadinhas produzidos (ele de terno italiano e camisa azul royal, ela de tailleur pérola e um quilo e meio de laquê no cabelo) abriu a porta de vidro e veio correndo em minha direção.
Antes que eu pudesse dizer supercalifragilisticexpialidocios, cada um pegou num braço e me arrastaram para dentro da loja, enquanto eu protestava furiosamente.
O lugar, super high-tech, me apavorou imediatamente. Entramos por uma esteira que percorria o hall onde as pessoas eram amarradas a cadeiras de barbeiro. Ali, uma horda de cabeleireiros e manicures cercava o pobre diabo e começava o frenético trabalho de embelezamento.
Me amarraram a uma dessas cadeiras e foram me empurrando pela esteira, com um enxame de esteticistas zumbindo à minha volta como satélites malucos. Repuxavam meus cabelos e colocavam bobs enquanto uma mulher baixota me perseguia com alicatinho em punho.
Mais adiante, em câmaras semelhantes a sarcófagos, entravam mulheres gordas e saíam com a cintura extremamente fina, parecendo ampulhetas.
Jatos de vapor e gelo-seco nos assustavam enquanto a esteira me levava para um recanto mais obscuro da clínica.
Passamos por macas onde as pacientes recebiam megadoses de botox e ficavam parecendo bonecas de cera. Em uma delas, Baby Face fazia lifting de sobrancelhas, muito compenetrado lendo o jornal de Chicago. Eu mal pude creditar quando Amanda Lepore veio me trazer um espelhinho para eu admirar o faziam com o meu rosto: fitas adesivas repuxavam minha pele para trás, enquanto um médico desgrenhado e com cara de louco desenhava pontinhos azuis nas minhas linhas de expressão.
Tentei me livrar das amarras, mas em vão, o casal de pastores ou almofadinhas já havia chegado e, muito ofegantes, desfilavam amostras, cores, unhas e batons diante de mim, para que eu escolhesse.
Numa das macas, Tião Macalé sorria cheio de dentes, e em outra, Madonna fazia abdominais ligada a reatores de urânio.
Chegamos a um pátio ao ar livre, nos fundos da clínica, onde me puseram deitada numa máquina e alternaram jatos de água fria e quente, luzes de neon e outros efeitos especiais, enquanto na maca ao lado Jean-Claude Van Damme tentava fugir para salvar o mundo.
Pela movimentação lá dentro, o casal de pastores orientava a equipe de médicos-psicopatas sobre quais procedimentos fazer. Olhavam furtivamente para onde eu estava, e me lembrei do brinco de pérolas que ganhei na Páscoa, presente de um tio meu que mora em Santos e que não vejo há dezesseis anos.
Tirei o brinco e com ele rasguei as amarras de couro, imobilizei o oficial russo que guardava a porta e atravessei a esteira por onde havia chegado, derrubando com o brinco todos os samurais e spice-girls que encontrei pelo caminho.
Voltei por onde havia entrado e derrubei cinco ou seis guardas com cílios postiços que impediam o caminho, sendo perseguida pelo casal de bispos, que queria a todo custo me transformar em Catherine Deneuve.
Consegui chegar à rua em desespero, mas todos pararam na porta de vidro, protegendo-se da luz forte com viseiras e guarda-sóis, enquanto eu corria sempre. Deixei cair o brinco na frente da loja mas não voltei para buscá-lo, era uma morte heróica para um brinco humilde e sem pretensões.
Fui correndo pela rua ainda tentando tirar os bobs quando vi uma ambulância e me lembrei que sou enfermeira, entrei nela e a sirene começou a tocar, cada vez mais alto, me incomodando, me ensurdecendo, e quando abro os olhos, meu gato Yoda me observava atento, esperando que eu me levantasse para lhe dar ração.
Levantei meio desorientada, sem saber se era bom ou ruim ter sido tudo um sonho. Ao chegar ao espelho, gritei de horror ao ver os bobs de velcro ainda enrolados aos meus cabelos, únicas testemunhas da tortura a que fui submetida.
Na noite seguinte, encontro o brinco diante do mesmo lugar, e há um menino lavando a calçada, o mesmo da capa daquele CD do U2, quando a porta de vidro se abre e o casal de quarentões vem correndo, agitando os braços e gritando muito, mas dessa vez sou mais rápida e corro para a outra calçada, acordando em seguida e olhando o relógio. Ainda faltam dez minutos para a meia-noite.

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