segunda-feira, dezembro 03, 2007

A literatura brasileira

Então eu estava lendo Mocca Chocolata Yaya (Uma farsa em três atos) e comecei a pensar sobre a literatura brasileira. Por assim dizer, claro. Porque ninguém leva a sério que exista de fato uma literatura brasileira, pelo menos nos últimos 40 anos.
A obra citada foi escrita por Alexandre Soares Silva. É um escândalo. Acho que é a única coisa que se pode chamar de literatura, nos últimos tempos. Nem sequer chamo de literatura brasileira, porque não quero ofender o autor, embora nem tudo o que ele escreva possa ser chamado de literatura; mas essa obra, essa sim.
Ainda que tenha sido sem querer. Acredito que possa ter sido escrita inadvertidamente, por ócio mesmo.
Porque enquanto vocês brasileiros (ou, infelizmente, nós brasileiros) ficam tocando de roda com questões como “incentivar a leitura”, “ensinar os jovens a entender um texto de seis linhas”, “subsidiar a produção literária”, “apoiar jovens artistas” e outros eufemismos para paternalismo e massificação da burrice, eu lhes digo: ninguém nesse país tem feito literatura de verdade.
Tudo o que li recentemente é ruim ou medíocre. Bom mesmo, bom bom mesmo, praticamente nada.
Tenho uma teoria por que: Os escritores detestam escrever. Fazem pelo dinheiro (cof cof) e para aparecer. Querem ser citados, homenageados, elogiados, aparecer no Faustão, fazer noite de autógrafos, ser baluartes da luta pela cultura do país. Bela aroba.
Um escritor que não gosta do que escreve, ou que o faz pela visibilidade somente, é uma putinha barata ou um pistoleiro de aluguel, porém um pouco mais imoral.
Vejo por aí escritores cujo nome não me apetece citar, porque compraria briga com estudantes da Unesp ou blogueirinhos de merda, mas a verdade é que há escritores que devem execrar seus próprios escritos, mas o publicam no sentido de atingir um “público-alvo” como se livros fossem caixas de leite ou canetas de ponta fina.
O pior é que muitos autores brasileiros (sic) querem escrever livros sérios. Livros teóricos sobre estudos lingüísticos e culturais. Livros profundos e importantíssimos. O que esses caras têm na cabeça?
Enquanto ainda temos que ensinar jovens da 8ªa série a entender uma frase depois de lê-la oitenta vezes, como é que queremos criar literatura? E por que os assuntos são sempre tão chatos? Ser escritor brasileiro quer dizer ser chato? E escrever frases toscas em gíria ruim, abusando da pornografia e da vulgaridade porque “isso é Brasil”?
Depois que os escritores brasileiros morreram, o que restou foram os escrevedores de coisas, pessoas que escrevem historinhas, piadas, causos acontecidos. Só me veio à cabeça o nome de um único poeta brasileiro, das últimas décadas. De resto, houve escrevedores de rimas, escrevedores de frases soltas sem nexo, escrevedores de letras de música sertaneja.
Também há os escrevedores de crônicas, que inferno! A maioria das crônicas brasileiras é infame, vulgar e pobre. Ler aquilo é chato demais. Não sei por que alguém lê: não aumenta a tão badalada “bagagem cultural”, não diverte, não emociona, não obriga a pensar, não distrai das agruras da vida. Geralmente são jornalistas e socialites que as escrevem. Como se uns e outros soubessem escrever alguma coisa. Notinhas de jornal não são literatura, babe.
Mas aí eu li essa Farsa em três atos e senti uma esperancinha surgir. Afinal, apesar de o autor ainda estar vivo, é uma boa obra. Divertida, intrigante, absurda, nada vulgar, nada daquela aura de pirifiria que é politicamente correto haver hoje nas “obras”.
Também já farejei essa possível qualidade em alguns textos esparsos em blogs e livros nacionais. Não vou citar os autores por preguiça, e só citei o Soares Silva porque eu estava lendo o texto dele quando quis escrever isso. Mas de alguns milhares de textos que li recentemente, na Internet ou em outros meios igualmente imundos, achei alguns que merecem prêmios. Não prêmios literários, aparecidos, mas uma medalha ao individualismo do autor, que em vez de nos ofender com brasilidade de beira-de-esquina, com amarelos-manga, com crônicas sobre máquinas de xerox e estagiárias de bundas flácidas, preferiu fazer arte. Ou melhor, preferiu não, alguns fizeram sem querer mesmo. Talvez seja o Belo falando de dentro deles e mostrando que apesar dos pneus velhos, papelão e garrafas pet amontoados, ele está lá, garboso e pimpão, e até um pouco indignado, como convém aos arrogantes.

6 comentários:

Larissa Bohnenberger disse...

Não chego ao ponto de dizer que não haja nada de literatura brasileira sendo produzida hoje em dia, pois não tenho lido muitos livros brasileiros da atualidade. Gosto muito da Letícia Wierzchowski, minha conterrânea. Seus livros não tem nenhuma pretenção cult, porém são divertidos e comoventes. Além de muito bem escritos.
Agora, quanto ao livro do Alexandre, fiquei realmente curiosa, pois a julgar pela maioria das coisas que já li em seu blog, acredito que deva ser realmente bom. Vou querer lê-lo.
Bjs!

Badá Rock disse...

Larissa, não é um livro, a "obra" do Alexandre é uma peça de teatro (surreal) que ele postou no blog dele. Vá lá dar uma olhada.

Edson Junior disse...

"Tenho uma teoria por que: Os escritores detestam escrever. Fazem pelo dinheiro (cof cof) e para aparecer."

Quase sempre pra aparecer. Aparecer é mais importante que o dinheiro, pois não?

Abraço.

Larissa Bohnenberger disse...

Jura? Vou dar uma passada no blog e ver se eu leio!
Depois te digo o que achei!

Edson Junior disse...

Mas cadê os posts novinhos?

Rey disse...

Alguns autores ainda sofrem com a sindrome do e-mail.
Como por exemplo o coitado do Luis fernando Veríssimo.
Se ele escreve o numero de textos que recebo assinado por ele, num ano, acho que ele tem 6 braços e três computadores pra escrever ao mesmo tempo.
Chega a da dó dele pelas merdas que soltam por aí e o relacionam.