segunda-feira, dezembro 03, 2007

Vá dar asas!

Sonhei com uma família vivendo em péssimas condições, numa estação ferroviária do século XIX. Uma beleza. Nuvens de vapor e fuligem, frio cortante, a coisa toda. Eu era daquelas matronas autoritárias que fazem caridade. Fui ajudar a família (um pai viúvo e duas crianças pequenas) que passava necessidade. Enquanto estavam abrigados do vento e de boca fechada, senti toda a comiseração do mundo ao vê-los. Eram estátuas gregas! Belos traços, porte altivo, olhos melancólicos. As roupas surradas só emprestavam mais brilho às expressões de dor e sofrimento, que quase sempre são o mais próximo que conseguimos chegar da beleza.
Mas quando o pai abriu a boca, foi logo para pedir dez real, aí notei que lhe faltavam vários dentes, que de perto não era tão alto, que estava com camisa de time furada de balas, e que me olhava meio vesgo enquanto mentia. As crianças, de anjos renascentistas, se tornaram praguinhas remelentas de cabelos assanhados, e vi com horror que traziam, em suas bolsinhas de carla-perez, cartões do bolsa família.
Já tive muitos pesadelos nessa vida, mas esse é um dos dez piores. O pior de todos foi quando a Marília Gabriela apareceu no meu sonho falando mal do James Whistler.

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