segunda-feira, março 03, 2008

O pobrismo e os pobres nobres

Ontem assisti a um programa (ou filme, ou documentário, sei lá o que era aquilo) sobre pobres vivendo no último recôncavo do sertão escaldante, em algum lugar próximo à borda do mundo.
Não compreendi o objetivo daquilo.
Cenas entrecortadas de pessoas terrivelmente miseráveis em seus casebres, ouvindo rádio enquanto a panela de pressão chia no fogão a lenha, e todos – crianças, cães, bodes, frangos, velhos, enxadas, bornais – estavam ali, parados, em volta do fogo, de vez em quando fazendo um ruído, por cujo som não se dinstinguia o autor.
Caminhadas extenuantes sob sol forte, com a terra branca e fina ondulando sob as patas negras dos meninos e dos cavalos, com latas de água, ferramentas, sacos de pano amarrado sobre a cabeça.
Aquelas imagens feriram meus olhos imensamente.
Porque não entendo o que pode haver ali que demandasse nossa atenção, nossos olhos. Primeiro, porque entre os grunhidos proferidos por alguns deles, compreendia-se que eram felizes. Sabe-se lá a conotação que dão à palavra. Mas eles se entendiam e sorriam. Então eram felizes ali e portanto ninguém tem o direito de ir lá remexer sua vida.
Segundo, porque as imagens são desagradáveis. Não se pode ver beleza em miséria absoluta, podridão, magreza, bernes e gente faminta.
Terceiro, porque aquilo tudo soou hipócrita e propagandista. Mais uma bandeira dos pobristas.
Ninguém tem o direito de entrar na sua casa e esfregar feiúra na sua cara, à sua revelia e sem você ter feito nada para merecer isso.
Certamente, quem produziu aquilo queria nos mostrar o tamanho da dignidade de quem morre de velhice aos trinta e cinco anos. No mínimo, eu tenho que olhar para aquelas imagens e me encher de comiseração, e me envergonhar por ser quem sou, enquanto há tanta dignidade neles.
Mas primeiro eu quero analisar esses documentários bestas que nos obrigam a ver dignidade em tudo que é vil e desagradável.
Que dignidade é essa? Por que temos que olhar para uma foto de uma pessoa contorcida de dor e fome e achar aquilo lindo e cheio de nobreza? Por que temos que ver uma mulher seca como um pau rodeada de meninos esqueléticos e ver orgulho e altivez estampados na cara dela? Raio de orgulho sórdido, isso sim!
Se estivéssemos falando daquela beleza poética que há em momento simples do cotidiano, magistralmente retratados pelos mestres antigos, vá lá. Os pobres, os feios, os rotos retratados por Velásquez, Giotto, Picasso, Portinari. Ali havia miséria, mas também havia beleza. Uma respeitabilidade advinda do Belo, da força, da coragem. Era isso que queriam demonstrar: que eles não desejavam compaixão, exigiam respeito. Ali havia autenticidade.
Mas hoje, pela moda do pobrismo, cineastas e fotógrafos querem dar "socos no estômago" de pessoas que só querem se sentar no sofá e comer pipoca. Esfregam na nossa cara que pobre também é gente, também vota e merece bolsa-família.
Inventam uma dignidade sintética, fabricada a partir do conceito de que todos somos iguais perante o politicamente correto. Indicam que nobreza é aquela cara séria de pobres esfarrapados, que os sensacionalistas adoram exibir como "exemplo de superação".
Nos vendem a hipocrisia de uma identidade criada por força da Lei, pelo presidente dos pobres, pela Regina Casé e a Globo em geral, pelo cinema brasileiro.
Adoram esfregar na nossa cara a feiúra, a miséria, a humildade espúria, o horror da guerra, os clichês todos que têm por objetivo nos fazer sentir culpados e nos tornar também pobristas.
Revoltada e já um pouco alta pelo vinho, mudei de canal: um programa sobre Che Guevara.
Quem já estava perdendo a dignidade era eu.

3 comentários:

Cassiane Schmidt disse...

Excelentes considerações, a banalização de uma realidade mundial tão assustadora como a pobreza causa-me náuseas.Além do que, qual o conceito de pobreza?

Caio disse...

Na faculdade fui obrigado a ver um documentário sobreo sertão whatever no qual um cavalo chorava (segundo um professor). Ele ainda pausou pra mostrar: "Viram? O choro do animal. Que sensibilidade da documentarista...". Depois, ele deu um suspirozinho bem gay.

Larissa Bohnenberger disse...

Assino embaixo!