terça-feira, maio 13, 2008

Fazendo naninha

É revoltante, revoltante.
Não sei bem se mereço tanto, mas parece que por me sujeitar a vir parar aqui, castigos se multiplicaram copiosamente sobre meu ser.
Como se não bastasse a minha localização geográfica sobre a face da Terra para me atormentar.
Já não pode uma pessoa decente ter um momento que seja de satisfação, ou ao menos de silêncio, em último caso.
Não.
É preciso sofrer torturas, ver caratonhas feias, vislumbrar dentições as mais abomináveis, testemunhar expressões faciais incompreensíveis (entre o ódio e a patifaria). Tudo isso ao som de grunhidos inumanos, acres e lascivamente histéricos.
Dedos impudicos que procuram objetos brilhantes e coloridos, narizes promíscuos que buscam aromas a fim de esquentar a pança.
São estes seres humanos?
Seriam isso o que resta da humanidade?
Pegue aquele bichozinho ali, aquele, que morde e arranha feito um demônio; tem apenas sete anos, mas já é um tremendo capeta, desengonçado, estúpido, selvagem. Será isto um humaninho?
Recuso-me a crer.
Tenho para mim que tudo ocorre enquanto meu corpinho repousa sobre lençóis azuis, na minha cama-sofá, em casa de minha mãe, donde nunca saí e onde sou ainda criança e estou tendo um pesadelo.
Logo alguém vai me acordar e não será uma cruza entre espécies raras, não será o elo perdido, não será um ser imaginário saído dos contos de Julio Verne.
Falarei em meu idioma e todos me entenderão, e crescerei, e apagarei de minha memória consciente este sonho mau que me oprime.
Um dia pintarei um quadro sobre todas as mazelas deste mal-sonhar, por meio de hipnose aplicada por um doutor francês. E assim botarei um ponto nesse conto trágico que não quer acabar, e que finge ser real, tão real que até lhe sinto o gosto, o maldito gosto desta peça que você me está pregando, Lord.

Um comentário:

bibito disse...

li um texto seu antigo sobre transgressão, gostei bastante do seu blog .achei os dialogos bem legais... meus parabens =*