terça-feira, maio 27, 2008

A Reversão

- O que eu quero dizer é que é muito importante – disse ela muito séria, sentada com o livro aberto à sua frente.
- Sssssimm... – ele, desatento, recolocava alguns livros nas prateleiras. De vez em quando ajustava os óculos que faziam o possível para escorregar pelo seu nariz.
- Sério, Cláudio. Sem isso, a monografia ficará incompleta.
- E é pra quê mesmo, essa monografia?
- Pro meu curso à distância! Você não se lembra que lhe falei no começo do ano?
- Não, não – de costas para ela, ele se deslocava lateralmente enfiando livros nas prateleiras enormes.
- Ah, Cláudio, assim fica difícil.
- E você quer o quê, mesmo? Na ala de psiquiatria?
- Isso, eu quero entrar lá e passar umas horas, ver como é.
- Tem certeza de que quer isso? Lá só tem gente louca, não tem nada de interessante, só loucos e... – ele tossiu de leve e examinou com atenção a capa de um livro, antiga, bege, empoeirada, cansativa, como provavelmente era seu conteúdo – Você já notou como essa gente retira os livros e nem lê? Aposto que ninguém leu isso aqui, meu Deus: A semiótica do Parnasianismo. Chega a ser revoltante de tão chato.
- Nada mau para um aluno de escola pública. E aí, você acha que eu consigo?
- Claro, Ana. Fale com a Clarissa que ela te bota lá dentro, mas olha: não tenho nada a ver com isso, hein? Depois não vem chorar no meu ombro se der tudo errado.
- Ah, Cláudio, que desânimo!
Ana foi. Ficou lá dentro algumas horas. As paredes da ala inteira estavam úmidas e escurecidas. Nessa época elas eram muito frias, e havia mofo. O sol só batia no fim da tarde.
Ela observava. Olhos baços e bocas flácidas se moviam a esmo, como que sem controle, e dedos trêmulos remexiam coisas, cabelos, orelhas, lixo.
As roupas em geral surradas usadas pelos internos pareciam todas iguais, embora não fossem uniforme. Dependiam de caridade de estranhos.
Ana temia o toque, temia os esgares, as vozes. Ana temia os loucos. Os loucos a amaram muito, queriam ver de perto, cheirar, pegar, puxar.
Nenhum enfermeiro por perto. O pátio meio abandonado, com a grama crescida e os bancos velhos, era como um filme brasileiro mal-editado. Gente ia e vinha. Gente feia e gente louca.
Num banco, sentado, parecendo muito lúcido, um homem cortava as unhas.
- O senhor é interno daqui?
- Sou.
- Não se parece com os outros.
- É. Mas por dentro é tudo a mesma coisa.
- Mas o senhor é coerente. Ninguém aqui conversou comigo. Não que eu entendesse.
- Isso é porque a senhora parte da premissa que são todos loucos e ponto final. Já pensou se fosse tudo assim? O mundo inteiro estaria no hospício. Alguém sempre parecerá louco para alguém no mundo. A senhora também.
- Acha que todo mundo daqui...?
- Claro. E sabem conversar. Alguém aqui agrediu a senhora? Tentou lhe roubar a carteira?
- Não... mas eu fiquei com medo...
- Porque parecem loucos? Nenhum deles mentiu pra senhora, nenhum deles lhe xingou de graça. Nenhum tentou lhe puxar o tapete. Os loucos estão lá fora, isso aqui é um refúgio.
- O senhor não devia estar aqui, o senhor não é como eles...
- Olha, dona, é por essas e outras que eu prefiro estar aqui. A senhora não me conhece. Acha que porque eu falo assim não sou capaz de fazer loucuras? Eu e todo mundo aqui dentro!
- Mas como é que lhe deixam ficar? O senhor não parece... – levantou-se assustada quando um dos loucos chegou mais perto. Ele se abaixou, pegou uma folha de grama, se levantou e partiu para longe.
- Viu como são as coisas? - continuou ele - Ele não lhe fez nenhum mal. Ele nem liga pra sua existência. Os loucos estão lá fora, congestionando o trânsito, mentindo, abusando de crianças. Os daqui gostam de crianças, de animais, tem um coelho que vive por aqui nesse pátio, daqui a pouco ele vem por aí.
- Mas é o comportamento que determina a loucura, já que todos intrinsecamente têm algum distúrbio...
- O comportamento não determina nada, para a nossa medicina. Nenhum louco daqui é pior que um médico, um enfermeiro, um motorista. A diferença é que os loucos daqui são inofensivos. Eles têm que ficar trancados.
- E os loucos perigosos ficam à solta?
- A senhora é um bom exemplo. Chegou aqui com medo. Mas foi a senhora que quis entrar, ninguém a jogou aqui dentro. Pede pra entrar e é hostil com os internos. A senhora pensa que é sã? Eu queria ver sanidade nessa sua cabecinha.
- O senhor não sabe a diferença entre um e outro. E por isso o senhor está aqui, certo?
- Não. Eu estou aqui porque não matei.
- Não matou?
- Nem roubei. Nunca atropelei ninguém. E nunca deixo de dar bom-dia a quem me cumprimenta. Trabalhei por muitos anos sem faltar do emprego. Não fazia trambicagens, nem andava com bandidos. E vim parar aqui por só falar a verdade.
- Essa é muito boa mesmo. Bom, acabou a hora. Acho melhor ira para porta ver se alguém me tira daqui.
- Mas como, ninguém lhe falou ainda? A senhora não vai mais sair. Esperamos muito para tê-la aqui.
- Eu? O senhor está louco? Bah! – percebendo o tamanho absurdo da sua pergunta, dirigiu-se ao portão.
Dona Clarissa, diretora do centro, estava na janelinha de grade da porta, aparentemente contando os internos.
- Dona Clarissa, a senhora abre, por favor?
- É? E você vai sair se eu abrir?
- Ahã.
- Hoje não, né meu bem? O que você fez aí hoje?
- Dona Clarissa, abre pra mim, já deu a hora.
- Sim, sim. Agora fica boazinha que jájá vem o jantar. Euclides! Depois vai lá separar o pessoal pro banho que a cozinha já vai trazer o jantar.
- Dona Clarissa, chega! Chega de brincadeira! Abre isso aqui, pelo amor de Deus!
- Não adianta, ela não vai abrir.
Virou-se. Viu aquele senhor que há pouco estava sentado no banco, conversando tão inteligentemente.
- O senhor viu? Ela pensa que eu sou louca.
- Ela e todo mundo mais. O mundo é assim.
- Mas eu não sou! Eu só vim aqui visitar! – Choramingava.
- Sei. Todo mundo acha que está aqui de visita.
- O senhor é louco? Ela me viu entrar, fui eu que pedi pra ela... Ah, de que adianta falar com o senhor? – pôs a cara na grade da porta – Dona Clarissa! Sou eu, Ana. Abre, pelo amor de Deus! Eu já acabei.
Euclides, o enfermeiro parrudo, abriu a porta e entrou empurrando um carrinho com medicamentos e camisas-de-força. Trancou a porta novamente e, sem dizer uma palavra, avançou para Ana e a segurou pelos pulsos.
- Dona Clarissa! Alguém me ajude! Alguém! – gritava, rouca, a pobre mulher.
Os loucos, em volta, olhavam cabisbaixos, alguns com a mão no queixo, outros, observadores, passavam com as mãos para trás, em atitude meditativa. Comentavam entre si o destino da moça. Alguns citavam filósofos, outros, grandes líderes religiosos.
Lá de fora, Dona Clarissa espiava pela janelinha gradeada, enquanto anotava diligentemente em sua prancheta coisas que só ela sabia. De vez em quando balançava a cabeça, penalizada.
É duro ver alguém nessa situação.

Nenhum comentário: