terça-feira, junho 10, 2008

Absurd


O absurdo. Eu gosto dele. Ele é engraçdo. Não gosto muito do que é normal. Eu ia dizer que odeio o que é normal, mas é mentira. Eu não tenho ódio. Eu simplesmente não ligo.Ele está em toda parte e eu faço parte dele, eu tomo meu café nele, e não ligo.O absurdo é sempre mais interessante. Mesmo um absurdo blasé com o de Mersault, que não ligava. Ele não liga, e eu não ligo também. Mas ele ia ao extremo. Eu não. Eu sou uma absurdinha medíocre. Eu ainda me espanto e digo “Nossa!” quando vejo alguém a ser louco. Eu digo “Santo Deus!” quando a tevê mostra um morto todo furado de balas. Eu queria ter peito para dizer que “é assim porque tem que ser assim”, e me deitar de barriga pra baixo e esperar a hora certa de ir à janela fumar um cigarro, não sei pra quê, mas tem hora certa pra isso, e a qualquer outra hora é a mesma coisa. Mas é preciso ter método.
Pois então, o absurdo. Ele é bom, eu gosto. Não consigo ver uma cena alheia a mim se desenrolar sem imaginar três ou quatro vertentes pra ela, cada uma mais fora de propósito, todas improváveis e algumas impossíveis, apenas pelo prazer de saborear o absurdo de um ângulo seguro e também irracional. Porque a irracionalidade, a irrazoabilidade, não são coisas boas ou más. Não estão fora do nosso alcance. Apenas são coisas que podem. Eu posso escolher o irracional se quiser. Não se trata de pensar ou não, eu posso pensar e isso não ser razoável, absolutamente. A racionalidade do pretenso “inconformismo” é que oprime. As pessoas querem ser diferentes. Querem ser inconfomistas e inconformadas. Querem ser racionais e razoáveis. Querem ser inteligentinhas. E isso as torna todas iguais e fracas, insípidas e insignificantes. A irracionalidade traz alguma vida à sua existência. Um grande artista como Van Gogh não poderia de forma alguma ser racional e óbvio, ser assim corretinho e previsível como o idiota que vende seguros e vem aqui toda semana me oferecer apólices, por mais que eu diga que não tenho carro, mas eu tenho. Não poderíamos esperar que Whistler e Wilde fossem bons rapazes trabalhadores, talvez assim um caixa de banco ou atendente de telemarketing, insalubre e fabricado em série com toda a racionabilidade possível de quem faz tudo o que se espera dele. Seria muito mais correto imaginar o incorreto, o imprevisível, o Belo, porque o Belo é isso, ele não atende a anseios, ele faz como bem entende, e é por isso mesmo que é Belo e invejado e desejado por todos, especialmente pelos razoáveis que desejam ser certos e seguir certas normas padronizadas, embora o Belo surpreeenda e o razoável não.
Eu gosto do absurdo porque ele é a única coisa capaz de dar vida a um pensamento. Ele faz existir algo onde não tinha nada. O aburdo é a parte viva de um cético. Todo o resto é poeira e morte. Se alguém não tem sangue, está morto. O sangue é absurdo. Eu não quero ser razoável. E muito menos parecer única e especial, como os jovenzinhos que querem muito nos convencer que estão vivos quando eles mesmos nem sabem o que é isso, porque estão sempre raciocinando com medo de parecer ridículos.
Então eles todos agem da mesma maneira, como autômatos, e acham que isso é ser único, só porque cada um prefere uma cor e cada um tem uma mania feia, que ele considera estranha, e acham que causar estranhamento é absurdo e que isso é estar vivo, por isso os tênis allstar e todos os cortes de cabelo feios e sem sentido.
Mas quando nos negamos a embarcar nessa idéia de que ser diferente é estar vivo, e mais ainda, que a cor do cabelo e a marca do tênis diferenciam as pessoas, é que abrimos espaço na sala para o absurdo. Porque ele brota assim, espontaneamente, como um fungo novo qualquer que não existia, não estava ali mas que caberia ali, de uma forma ou de outra.
Então, aparentemente estamos normais, deixamos de lado a fábrica de pessoas únicas e especiais e vamos para o mundo, a torrente de pessoas iguais e padronizadas. E lá, no mundo, insuspeito, camuflado, é que mora o absurdo, disfarçado de normal e bastante cínico, fingindo ter sido abarcado pelo politicamente correto e agruras da vida.
E lá, quando você menos imaginar, na insensibilidade do mesmo dia repetitivo, você verá seus olhos, e eles sorrirão, porque o absurdo é alegre em si mesmo, e por mais escândalo que seja, ele se mostrará com naturalidade, porque ele sabe que você pode vê-lo, e se pode, está imunizado e não se chocará, embora viva, e pouco lhe fará ter visto o mundo como um monstro louco, porque dá tudo na mesma, você já está dentro e faz parte dele, e já não se espantará com a cara feia, ou risonha, ou Bela que ele venha a ter, e saiba que ele provavelmente será Belo, porque a arte e o absurdo o são, eles são um, e nunca parecem maus, apenas não são aquilo com que o homem está acostumado, essa coisinha de noveau-riche que adora ler gibis importados e comer sashimi e ter relógios enormes, cada um diferente do outro, para causar um espanto entediado em quem nem suspeita que está ao lado do absurdo autêntico e verdadeiro, um simples ato ou pensamento novo, que não existia e que nasceu ali como o fungo ou uma flor, e que é vida nova, e merece aplausos, enquanto todos na verdade prestam atenção ao relógio grande, e ele como todo mundo tenta ser diferente e razoável, único e conseqüente, vivo e pagar impostos porque a vida é assim, e o absurdo passa e ele não vê.

Um comentário:

bastaestarvivo disse...

eu achei isso absurdamente belo,
de uma beleza inesperada e exata.