terça-feira, julho 29, 2008

Sobre "por que gosto de velharias"

Uma amiga minha questionou hoje, com muita propriedade, o que se tem feito de cultural atualmente. O que acontece de novo? E os museus, o teatro, a música, a pintura?

Infelizmente, minha cara, as pessoas acham que “cultura” é somente aquilo que é alternativo, underground, moderninho e hermético.
A gente passa pelos programas “culturais” na televisão e fica com nojo. É só um bando de “intelectuais” batendo um tamborzinho e falando do movimento cultural do beco da Dona Zeza na cidade de Cafundó do Judas na década de quarenta, etc.
Musiquinhas que duram horas de poetas virtuoses fazendo melodias incompreensíveis com instrumentos musicais oriundos das cavernas remotas do Casaquistão, e que só eles sabem tocar.
As pessoas em transe se balançando pra lá e pra cá e recitando poemas abstratos e pichando muros “porque isso é arte”.

Olha, tem dó. Cadê a arte de verdade? Sabiam que a música clássica, antigamente, era como o pagodinho de hoje em dia? As pessoas iam ao teatro para ouvi-la e se divertir, eram fãs dos músicos, e estes faziam arte para o maior número de pessoas possível compreender e gostar. Não queriam ser exclusivos de um grupinho de riquinhos entediados metidos a gênios incompreendidos.

Cadê a literatura empolgante, agradável? Afora os livros de auto-ajuda e os livros pop, que de certa forma também são livros de auto-ajuda - e incluo aqui os contos pornográticos escritos por quarentonas ociosas - a gente não vê mais escritores para o público "normal". Ou são os tais gênios herméticos maravilhosos e intoleráveis, ou são os escritores comerciais que fazem repeteco da mesma história a vida toda. Não surgem mais Julio Vernes? Nem Victor Hugos? Onde estão os Baudelaires? Cadê os Oscar Wildes? Os Jonathan Swifts da vida? Não, agora só existem os iluminados de vivem num plano superior da genialidade (e escrevem obras que ninguém lê) ou as brunas surfistinhas que escrevem porcariadas que quem lê esquece logo e joga fora. Se há escritores de boas obras, ficam escondidos sob jornais velhos e caixas de papelão, com medo de ser levados pela carrocinha.

Na arte dramática, rios de silicone tomam lugar de interpretações artíticas, e peças para retardados são apresentadas como se fossem obras-primas, com ex-BBBs no lugar de atores e “participação do público” em vez de roteiro.

E a pintura, o que fizeram com ela? Parece que é pecado pintar uma coisa compreensível, atualmente. Rabiscar garatujas em telas de formatos excêntricos é que é arte. Daqui a duzentos anos nos envergonharemos disso, certamente. "A fase mais pobre da pintura artística". Seiscentos anos atrás se fazia coisa melhor. Já não aparece um Giotto, Bosch ou Michelangelo. Rembrandt virou palavrão. E para falar dos modernos, Whistler, Renoir, Pissarro - acabou, não tem mais nada disso; só borrões e pedaços de panela velha e retalhos pregados na tela. E todo mundo olha aquilo e acha lindíssimo! Ai, que moderno! Se há pintores que sabem o que estão fazendo, estes estão reservados aos poucos riquinhos entediados que podem pagar. Enfiam o quadro na adega e ninguém no mundo poderá vê-lo. Os museus expõem as belezas antigas, e isso é ótimo, mas por quê tudo aquilo parou ali? O talento acabou? Ninguém mais sabe pintar? Ou será que depois do Corel Draw a pintura ficou cafona?

Beleza pra quê?

Alguém sem dúvida dirá, com vozinha fanhosa e carinha de indignado, “mas existem sim bons artistas ainda hoje”. E eu vou dizer simplesmente: isso nunca chega ao público.
A cultura sumiu. Não é mais uma coisa difundida, nem prazerosa. Ou é coisa de becos de pichadores esquerdistas, ou é coisa de intelectuais alienígenas e assexuados. E no entanto, a classe média é maioria. Deveria haver algo para nós.
Querem nos enfiar lixo pela goela abaixo, e por quê? Porque não somos todos lânguidos maconheiros entediados e cheios de “talento incompreendido”?

Assim, eu leio os mais antigos, aprecio os quadros velhos, ouço música antiquada. Salvo raríssimas exceções, o que se faz hoje é exclusivista e desagradável.

2 comentários:

Mi disse...

muito bom o texto, gostei! tenho q vir aqui mais vezes...

anna O. disse...

Badá, "caí" aqui por acaso mas gostei muito. Esse texto, particularmente, está mui bueno ;-)
Concordo em gênero, número e grau. Vou voltar!

bjs,

anna O.