domingo, agosto 31, 2008

A artista, decadente, abusava de solidão na velhice.
Evitava a aproximação das pessoas. Achava o sol tedioso, nunca abria as janelas.
Cansou-se rapidamente do fácil, do simples, do prático, do normal.
Relembrava amargamente a época de ouro de sua arte, quando se buscava o Belo, o elaborado, o elevado, em que nada era gratuito ou vão, nada era posto ali por ser mais fácil ou por estar mais perto.
Cada obra sua era uma vida, um ser, uma história com pés e cabeça e coração e mente, e não só um amontoado de lixo pré-fabricado que se compra aos montes em supermercados.
Ela, saudosa do sucesso passado, se lembrava das luzes e cores e noites de alegria genuína, em que se emaranhava em processos e digressões artísticas.
Então ela descobriu Deus, e descobriu também o homem, e através dele o Mal.
A artista repassava aos poucos o que fez de grande, e a cada dia relembrava um fato, uma peça que se encaixava nesta ou naquela obra.
Se enraivecia e chorava, e depois sorria, para depois desprezar. Já não sabia mais produzir beleza, já não criava mais arte. Nem sequer parecia viva.
Sozinha em seu santurário, ela escreveu umas poucas linhas que seriam suas memórias, mas depois destruiu tudo. Não havia como lembrar. Não há como ressuscitar a vida.
Em dias passados ela sentiu o gosto da vida e ele lhe foi tirado, como também os amores e os amigos, como também o público e a matéria prima. Não havendo mais o que fazer, não havia também nada para lembrar. Se teve valor, foi enquanto existiu. Hoje são cinzas.
A artista resfolegava e se debatia entre esquecer e reavivar aquilo tudo, e preferiu morrer.
Hoje ela vive na nossa saudade, mas enquanto ela estava viva, morreu em nosso pensamento.
Esta ingratidão foi demais para ela.

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