sábado, dezembro 06, 2008

I Want To Break Free

Resolvi não ir mais à academia.
Calma, não comecem com as acusações politicamente corretas sobre a minha saúde. Apenas decidi fazer exercícios em casa.
É que eu não gosto de academia. E vocês não sabem o que é uma academia na Bahia, gente. Imaginem meia hora de spinning ao som de Ivete Sangalo ou cinco séries de abdominais ouvindo Parangolé (mas vocês não sabem o que é Parangolé!).
É demais para o meu bom gosto.
Como eu já freqüentei bastantes ginásios ao longo da vida (fiz alguns anos de judô, natação e musculação), faço os principais exercícios com alguma competência, o bastante para não me machucar. Além de ter disciplina para fazer todo dia, o que muita gente não tem. Sim, porque o problema de se exercitar em casa é que, como você sabe que pode fazê-lo a qualquer momento, sempre deixa para depois. Quando percebe, está há sete meses criando barriga sem ter feito um único movimento útil.
Mas para trabalhar em casa é preciso ter cuidado. Sem uma opinião de fora, pode-se cair no exagero ou no vício e exercitar somente uma parte do corpo. Perde-se a noção do ridículo e cria-se uma obsessão por um exercício. Eu, por exemplo, sou louca por abdominais. Se pudesse, faria abdominais até ficar com uma barriga de mármore, em que se pudesse jogar xadrez nos quadradinhos dos músculos. Mas isso ficaria ridículo! Imagine um corpo todo normalzinho com um abdômen desses. Também tomo cuidado com as pernas para não ficar como aqueles garotos que resolvem malhar sozinhos e ficam com coxas grossas e canelas finas.
Meu senso estético apita sempre que começo a exagerar nas pernas. Deus me livre de virar um frango de padaria - à malhada-turbinada-torrada de sol, prefiro ser a diva lânguida com curvas.
Mas como eu já sei desses truques e tenho suficiente capacidade mental para levantar pesos sozinha, não vejo por que me obrigar a cheirar o suor alheio e ouvir atrocidades musicais, e pior, compartilhar chuveiros, esperar aparelhos, ver gente feia, pegar trânsito...
Academia é uma amostra grátis do inferno.
Então decidi malhar em casa. Odeio esse termo, malhar - mas jargão de academia é isso, essa riqueza assombrosa de expressões e termos. Marombar então, que maravilha de verbo. Eu marombo, tu marombas, ele maromba. E vós que marombais sozinhos, sabeis quão belo é marombar em casa, ao som de vossas bandas preferidas.
Finalmente me vi livre de Netinho e posso ouvir o que bem quero enquanto trabalho o corpinho.
Como diva lânguida nascida nos anos 70 e criada nos anos 80, resolvi ouvir glam, hard e rock’n roll até ficar com os tímpanos marombados.
Para os exercícios aeróbicos nada como Queen e Aerosmith, mas dependendo da monotonia do negócio, acabo ouvindo Motley Crue ou Megadeth ou Kiss. Em caso de emergência posso ouvir um Iggy Pop, mas prefiro deixá-lo para os polichinelos, já foram moda na época de Iggy Pop.
Se for um exercício contemplativo, como correr, nada como David Bowie. Bowie aqui, Bowie ali, Bowie Bowie Bowie. Se bem que outro dia foi tanto glam que comecei a meditar naquela cena do beijo de Ewan McGregor e Jonathan Rhys Meyers em Velvet Goldmine, e quando dei por mim já estava a noventa quilômetros por hora e tinha perdido cinco litros de fluidos corporais, suor inclusive.
Desci da esteira e para me acalmar tive que tomar alguns goles de vodka, que não há beijo gay que seja páreo para Orloff, o alívio das pessoas de bem nas horas difíceis (tentei oração também, mas minha mente impudica desviava o assunto para onde não devia, então resolvi desligá-la).
Mas afora esses momentos de completa divagação (que aliás auxiliam no rendimento, já que fazem o tempo passar mais depressa), fazer exercícios em casa tem sido bem normal. Os resultados continuam aparecendo, já não tenho que encarar as mulas no estacionamento, e em casa não tem mensalidade.
Posso gastar todo o dinheiro da academia em paçocas, Talento verde e mimos para meus gatinhos, meus companheiros de malhação - eles ficam me cercando enquanto faço os exercícios, mas não têm coragem de chegar mais perto. Devem achar que estou enlouquecendo, o que eu também acho, às vezes.

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