quarta-feira, dezembro 24, 2008

Infeliz Natal

Chega o Natal e com ele o espírito-de-porco natalino. Você sabe, aquele parente seu que tenta convencer todo mundo de que, nessa época do ano, enquanto está todo mundo feliz e comemorando, ele está triste e desanimado.
Aquela pessoa que tenta estragar a ceia ao declarar que enquanto aqui todos comem e bebem, tem gente lá fora que não tem nem onde morar.
O santarrão que quer dar lições aos convidados explicando que Jesus era humilde e nasceu numa manjedoura, e no entanto todos comemoram seu nascimento com banquetes e presentes caros.
Sim, esse sujeito (ou sujeita; sempre tem uma tia amarga que chora pelos cantos tentando chamar a atenção) que escolhe justo esse dia, dentre todos os outros, para infernizar as pessoas com falsas demonstrações de altruísmo.
Falsas, sim. Se este homem ou mulher estivesse mesmo tão preocupado com os que não têm nem o que comer, não teria passado as últimas quarenta e oito horas atarefado enfrentando filas para comprar presentes, brigando por cartões de Natal em papelarias, correndo de um lado a outro com embrulhos e pacotes, dando os retoques finais na decoração, botando bebidas para gelar e verificando o forno acada cinco minutos para a leitoa não passar do ponto.
Se esta magnânima pessoa estivesse assim tão desconsolada com o destino dos pobres e miseráveis, não teria estourado o cartão de crédito numa televisão nova, visto que já tem uma perfeitamente boa, ou em brinquedos que serão destruídos antes do revéillon.
É muito desagradável ter por perto essa pessoa tão criativa que acha que é a única no mundo que se chateia na noite de Natal; essa pessoa que se acha a mais caridosa da Terra, que enquanto todos os outros estão ocupados em abrir presentes, lá está ela fungando e comendo chester.
Não é que os pobres não mereçam a preocupação; pelo contrário: é preciso que haja quem pense neles, sim. Mas não apenas hoje, e sim o ano inteiro. É muito conveniente só lembrar dos pobres no exato momento em que isso vai chamar toda a atenção para si. Se alguém quer posar de bonzinho, basta falar das criancinhas famintas na África durante uma festa alegre e pronto: enfia toda a culpa do mundo na garfada alheia, faz o tio bêbado chorar, e a criança que estava tão animada acaba dormindo em pleno discurso pseudo-socialista.
"Mas que grande coração!" exclama o vizinho que passou só para desejar Feliz Natal. Mal sabe ele que quando chegar em casa, sua mulher estará lá na cozinha, sozinha, pensando nos pobrezinhos que não têm nem o que comer.
É, porque toda pessoa natalino-tristonha pensa que é a única. Pensa que o mundo inteiro, o universo, as outras dimensões e galáxias estarão todas bebendo e comemorando, enquanto só ela pensa nos pobrezinhos e nas criancinhas.
Mas, mas. Vamos aos fatos. O ano tem 365 dias, exceto os que têm mais. A gente nunca ouve falar desse anjo de candura se deliciando com trabalho voluntário em pleno Carnaval, por exemplo. Não! Aí ele estará comemorando. Nos meses subseqüentes, então, nem sequer um gesto de solidariedade, nem uma lata de leite para o abrigo de idosos. Mas de jeito nenhum! Sabe lá se o diretor do abrigo vai dar para os velhinhos mesmo.
Durante o ano inteiro essa pessoa bebe, come e faz suas comprinhas, sejam elas boas ou más, e não falta nada na sua geladeira, nem no seu guarda-roupa. Nem uma lágrima que seja é derramada por um pobre cego ou uma viúva doente durante o resto do ano. Só na festa de Natal, que é para ter platéia. Daqui a uma semana, o espírito-de-porco estará na praia, enchendo a cara de espumante e abraçando desconhecidos com a maior cara-lavada do mundo (e usando roupa nova, que é para dar sorte). Roupa nova para os pobres, nem pensar. Por que eles não vão trabalhar?
Os animais em abrigos, coitados, nem na noite de Natal esse oportunista se lembra deles. Seu próprio cachorro ganha um pedaço de peito de frango, mas o cachorro da rua é espantado com fogos de artifício porque fica "rondando" a ceia.
Esses choramingões só choram nessa nessa única noite, para lavar a consciência e tirar de cena sua futilidade e mesquinharia.
Os que realmente se preocupam com os pobres, os que fazem trabalho voluntário, os que compartilham seus bens e doam o que podem para a caridade, além de não fazer alarde, passam o Natal felizes. Felizes por seguir o exemplo no aniversariante - Jesus Cristo - que não fazia tipinho, mas botava a mão na massa. Felizes porque deram duro o ano todo para que ao menos uma família além da sua pudesse ter uma ceia, nem que seja de feijão com arroz.
Quem realmente se importa com os pobres, na noite de Natal ri e se emociona, brinca e dança tranqüilo, porque sua consciência está limpa e pela certeza de ter feito um bom trabalho, ainda que os outros participantes nem desconfiem.
A noite de Natal é para comemorar. É o símbolo de esperança e da paz que ainda vem. É um momento de alegria e de descontração. Quem passou o ano todo se preocupando com os pobres, hoje merece ter esse conforto.
Os espíritos-de-porco natalinos deviam era seguir seu exemplo: Lavem a consciênca antes, para chegar à festa limpinhos.

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