quarta-feira, abril 15, 2009

Sobre o refinamento

Hoje li um comentário besta a respeito do refinamento cultural, vulgo gosto literário. A pessoa argumentava que buscava o refinamento lendo coisas que ninguém lê, porque o que todo mundo lê é vulgar e comum e um gosto requintado exige que se leia obras exclusivas.
Nada mais tolo.
Essa ânsia de ter o que ninguém mais tem e fazer o que ninguém mais faz não é refinamento e sim uma tentativa mesquinha de parecer excêntrico. As pessoas acham que ser excêntrico é ser inteligentíssimo, artista, especial.
Faz tanto sentido quanto parar de comer banana, que todo mundo come, e passar a comer pilhas, que nunca vi ninguém comer.
A banana não é considerada refinada porque é democrática, é raro alguém que não goste, e quase todo mundo come. Isso não lhe diminui o sabor. O fato de ser apreciada por muita gente não a torna automaticamente ruim.
Do mesmo modo, é tolo que um moleque vaidoso determine que ler coisas que ninguém mais lê seja um sinal de requinte e bom-gosto literário. No máximo, indica que o leitor é paciente, e tem muito tempo livre para fuçar prateleiras em busca de livros desconhecidos.
Eu acredito na tradição. Nos clássicos. Nos autores reconhecidos, que são lidos e apreciados por séculos. Livros que são quase uma unanimidade. Digo quase porque, óbvio, ninguém é obrigado a gostar só porque quem veio antes gostou. Mas se têm sido aplaudidos por tanto tempo e por tantas pessoas, claro que têm seu mérito.
Existem, sem dúvida, os excentriquinhos por princípio, que na falta de algo em que se destacar, resolvem zombar das obras consagradas. Não é raro encontrar alguém que faça duras críticas a Chesterton, por exemplo, pelo simples gosto de ser diferente, porque se tanta gente gosta de Chesterton, algo de mau deve ter.
Conheci, por exemplo, uma mocinha muito inteligente que criticava com ódio a obra de Kafka. Ela, uma lourinha do segundo ano de Comunicações, achava Kafka raso, chato e espalhafatoso. Com todo o direito, claro. Mas no caso dela, era determinante. Ela se gabava de achar Kafka raso. Ela fazia disso um estandarte. “Vejam, sou inteligente e refinada, desprezo um autor consagrado!”
Eu nem gosto muito de Kafka, e mesmo que fosse outro, tanto faz. O que me espanta é a falácia de alguém que provavelmente nem lê aquilo que desaprova, mas que quer parecer evoluído e pensante por expor seus gostos tão sofisticados na forma de críticas peremptórias.
O requinte da leitura está no prazer, e não na exclusividade. Eu bem que gostaria que mais pessoas lessem o que eu mesma leio, para nos divertirmos comentando, sarcasticamente ou não, passagens do mesmo livro.
Será que demora para essa gentinha pretensiosa entender que refinamento não é exclusivismo? Que autores famosos e até aclamados não o são por acaso?
Mas assim corre-se o risco de cair em best-sellers, dizem vocês. Se alguém aceita ler o que os outros lêem, daqui a uns dias andarão por aí com Danielle Steel debaixo do braço.
Sobre isso, duas considerações: se o leitor não sabe discernir entre um bom autor que é reconhecido, e um mau autor que é muito vendido, então para ele não fará diferença. Deixe-o ler qualquer porcaria porque pra ele é tudo a mesma coisa. Mas se ele reconhece, depois de ter lido, que um livro é bom ou mau, então foi proveitoso. E se por algum motivo, ele tem prazer em ler Danielle Steel, qual o dano? É vergonhoso admitir que gosta, mas não é vergonhoso gostar?
A esses molequinhos enfezados que separam as pessoas pela raridade dos livros lidos, um aviso: um dia, constrangido, você vai se olhar no espelho e ver um velho rabugento, que passou a vida toda lendo o que os outros não liam, e vai ter que admitir que isso nunca lhe deu prazer. Vai desejar ter lido Machado e Twain como todo mundo, e já não terá mais tempo, mwahahaha.
Agora vá ali para o canto e pense bem sobre o que é literatura, seu pobrinho. E solta esse livro de Shüman Herstal, que esse autor nem sequer existe.

3 comentários:

OleSchmitt disse...

Ótimo esse seu artigo-desabafo (esses sempre são os melhores mesmo).
Aliás, seu blog todo é uma delícia. Vou lá reformar meus favoritos é agora mesmo!

Elisa disse...

Concordo com você em gênero, número e grau. Pessoas realmente inteligentes não precisam tentar provar isso para o mundo, ou são ou não.

F. Arranhaponte disse...

E eu tenho uma filha que não gosta de banana, só para me irritar