quarta-feira, junho 03, 2009

O aborígene do outro mundo

Quando eu era criança, pensava que era de outro planeta. Desconfiava de todo mundo. Queria saber que forma as pessoas tinham quando eu não estava perto. Achava que era de Júpiter, ou de Vênus (nunca me ocorreu ser de Saturno, Mercúrio, Plutão. Só de Júpiter ou de Vênus).
Achava que queriam fazer experiências comigo, do tipo, não faço idéia. Crianças não elaboram muito suas cismas, simplesmente imaginam algo de horrendo e deixam os detalhes para o acaso. Eu confiava mais nas formigas, ratos, cachorros e pintinhos que havia no sítio da minha avó, onde passávamos as férias, que nas pessoas.
Às vezes eu acordava e fingia que ainda estava dormindo, só para ver se algum dos terráqueos mostrava sua verdadeira face por distração.
Pensava que minha mãe e meu pai tinham tentáculos marrons e pareciam árvores, mas moles e visguentas. E que usavam disfarces como aqueles do filme "Cocoon". Aliás, todo mundo era assim, na minha imaginação. Pensando hoje, seria muito mais fácil eles me disfarçarem que disfarçar toda a humanidade só para me enganar, mas e daí? Eu achava que era assim.
Às vezes eu esquecia que todo mundo era alienígena e gostava das pessoas. Mas geralmente eu preferia os livros e os bichos. Estranhamente, eles também gostavam de mim; decerto sabiam que eu não sou daqui, não sei.
Passei um bom tempo acreditando firmemente dessa ilusão. Quando eu ia ao médico, queria ver todas as radiografias, em busca de quê, eu não sei. Mas provavelmente quando visse a prova eu ia tomar a radiografia das mãos do médico e gritar “ahá!”, só que isso nunca aconteceu.
Como eu ia muito ao dentista e meus irmãos não iam tanto, eu achava que era porque eu era ET. ETs vão muito ao dentista, porque não podem viver na Terra. Aqui tudo dá errado. (Eu usava aparelho)
Fazia fofoca com os gatos, cães e maritacas nas férias, e durante o ano letivo detestava todo mundo. Sério. Não é de hoje que sou assim. Eu achava todo mundo feio (até hoje tenho essa tendência). E os professores, todos monstros disfarçados, eram meus principais algozes. Nunca fui nenhuma maravilha na escola, nem em educação artística, única matéria de que gostava até a adolescência.
Minhas preocupações, quando eu era pequena, não se pareciam nada com as preocupações das outras crianças. Eu me preocupava com aviões e ônibus espaciais, com satélites (que eu achava que eram tripulados por observadores que ficavam lá no céu nos espiando), com astronomia (que para mim, se resumia a olhar por telescópios). Chorei com a explosão da Challerger, queria ser como o cara de “2001: Uma odisséia no espaço” (aquele que fica correndo em círculos na nave e fica de cabeça para baixo). Me preocupava com as crateras da Lua.
Também me interessava por moda, mas isso não tem nada a ver com essa história de extraterrestre.


Lar, doce lar

O filme mais chocante que vi quando era pequena foi “O enigma de outro mundo”, porque nele, alienígenas tomavam o lugar das pessoas e eu, sendo de uma terceira espécie, não tinha como saber quem era alien bonzinho ou quem era alien malvado. Depois, assisti “Alien, o oitavo passageiro” e tive a certeza de que o mundo estava infestado de alienígenas e só os humanos tolos não percebiam.
Passei a ler compulsivamente e ver filmes, porque a minha melhor amiga era uma terráquea tola e eu tinha pouca consideração por sua inteligência. E o resto do mundo tinha pouca consideração por minha existência, então não tinha muitas alternativas.
Depois cresci e deixei de achar que era extraterrestre e que todos eram monstros horríveis. Estudei, trabalhei, namorei, tudo com entusiasmo. Fiquei até famosa, popular, as pessoas me achavam o máximo da excentricidade, me adoravam. Eu correspondia, adorava elas também, nossa, que maravilha.
Aí eu cresci mais e hoje, matutando, cheguei à conclusão que sim, estava tudo certo. Sim, eu sou extraterrestre. Sim, as formigas e calangos são mais confiáveis que as pessoas. Sim, o mundo é habitado por monstros! Sim, as pessoas são diferentes quando não estou olhando. Sim, a Terra está infestada de aliens e de criaturas que não pertencem a este mundo! Algumas, inofensivas e bocós como eu, outras iguaizinhas àqueles d’O enigma de outro mundo.
E apesar dessa constatação, apesar das evidências que se esfregam lascivamente no meu nariz, apesar de toda a obviedade desse segredo público, eu não faço nada. Eu sei, e daí? Ó minha cara de preocupação, ó. Não vou fazer nada. Dedurar, botar videozinho no Youtube, mandar spam com texto cheio de erros ortográficos, acusando os Estados Unidos esconder isso de todos? Eu não. Provavelmente vou ali na papelaria comprar um bloco de papel e quando chegar em casa, vou desenhar umas árvores, girafas e girassóis. Depois vou dormir. E não vou só fingir, para desmascarar algum monstro distraído.

5 comentários:

OleSchmitt disse...

Nós alienígenas temos algum tipo específico de telepatia que faz com que nos encontremos instintivamente.

Isso explicaria as pessoas esquisitas que orbitam nossa existência.

Os maconheiros também são assim.

Carolina disse...

Nossa, parei tudo quando cheguei em "O enigma de outro mundo"! Ainda nem li o resto do post. Esse filme aterrorizou minha infância e eu nunca tinha ouvido mais ninguém falar dele! Aliás, nunca consegui descobrir o nome dele em português direito. Só sabia que era "O enigma alguma coisa", mas quando eu falava pras pessoas, ninguém sabia qual era. Ele realmente me aterrorizou por muito tempo. Até hoje acho o filme mais assustador que já vi. Se bem que nunca tive coragem de assistir depois de "grande", e olha que hoje em dia não tenho problema nenhum com filmes de terror.

Eu também achava que as pessoas estavam disfarçadas, mas não que eram como árvores moles. Achava que meus pais e meu irmão iam se transformar em cobras quando a gente viajava de carro, porque aí eu não teria como fugir. E não achava que eu era extraterrestre, mas não entendia como tinha vindo parar aqui nem quem ou o que eu era (mais ou menos isso. Até hoje não sei explicar direito).

Bom, só pra esclarecer, cheguei no seu blog porque faço parte da "Cosméticos e Maquiagens". Gosto muito de ler o que você escreve, tanto aqui quanto lá.

Valdemir Reis disse...

Olá olha eu aqui visitando, passando para agradecer sua atenção e amizade. Acredito que a verdadeira amizade nunca se desgasta, portanto assim quanto mais se dá mais se tem. Quem segue acompanhado de um amigo vai mais longe, muito além... Parabéns pelo bonito e inteligente blog. Aproveito para compartilhar com você de Esmeralda Ferreira Ribeiro;
“ Força de viver...
Grita ao mundo
a tua alegria,
a tua generosidade,
a tua disponibilidade,
a tua força de amar.
E daí,
a tua confiança,
a tua esperança,
a tua disposição de lutar.

Diz-lhe
que vale a pena viver,
que a grandeza está no ser,
e é preciso acreditar
que a vida é causa maior.
E assim,
o efêmero vai passar,
mas o que fizeres de perene
jamais se pode perder,
é autêntico valor.”

Obrigado, a casa é nossa, volte sempre! Também de todo coração votos de um excelente e animado fim de semana. Paz, saúde, proteção, prosperidade e muitas bênçãos. Fique com Deus, um forte e fraterno abraço. Brilhe sempre!!!
Valdemir Reis

Larissa Bohnenberger disse...

Comigo foi o contrário. Quando criança, eu tinha doce iluzão de ser terráquea como os que me cercabam. Somente depois de adulta fui compreender que vim, na verdade, de plutão! As vezes eu consigo conviver neste planeta puta quente numa boa... mas tem outras que fico torcendo pra nave mãe vir me buscar!
Bjs!

Daniell disse...

Também já tive minha fase de pensar que eu era o único alienígena deste lugar.

Mas nunca vi "O Enigma de Outro Mundo". O meu filme era "ET, o Extraterrestre" mesmo.

Influenciado por "ET", fiz um telefone com guarda-chuva e brinquedos de criança. Caiu na caixa postal e até agora não retornaram. Continuo sem saber como eu faço pra voltar ao meu planeta de origem, e por isso tive que aprender a gostar disso aqui mesmo - às vezes os terráqueos me irritam um pouco, mas pelo menos eles sabem fazer um bom pudim de leite.

(Estava há um tempo sem ler seu blog. Me arrependi de ter esperado esse tempo todo pra voltar aqui.)