domingo, agosto 23, 2009

O porquê de tudo

A vida é um negócio péssimo. Viver, dormir, comer, ter cabelo, tudo é ruim.
Algumas pessoas nascem feias, outras bonitas. Aleatoriamente. Umas são ricas, outras bondosas, outras são cegas, outras são pilotos de jatos da Força Aérea. Nunca é igual para todo mundo.
Fico pensando que isto é injusto. Por que Deus nos fez assim? Sei que é pecado questionar isso, afinal ele é o oleiro e faz o barro como quiser, blábláblá. Mas quem fez o vaso questionador foi Ele. Sabia que íamos pecar e nos fez assim mesmo.
Em última análise, é pecado existir. Então o pecador é quem nos fez existir. É o mesmo que pintar um quadro de vermelho e o proibir de ser vermelho, sabendo que ele o será. E instituir um castigo para isso: a obliteração. Ou o fogo do Inferno, sei lá.

Fico imaginando o dia da Criação, Deus e o Verbo lá em cima no nada, voando.
Aí Deus tem uma idéia.
- Sabe, Filho. Eu andei pensando. Por que a gente não cria o homem?
- O homem? O que é isso?
- Um animal que eu pensei. A gente cria vários deles e põe num planeta. Eles e outros animais diferentes.
- Pra quê?
- Como, "pra quê"? A Arte não tem que ser utilitária. Para ter, .
- E esse homem vai fazer o quê?
- Vai viver mediocremente e morrer.
- Morrer? Tipo, deixar mesmo de existir?
- É só por um tempo. Depois ele ressuscita.
- E vai ficar nisso pra sempre? Morre-ressuscita-morre...?
- Não, . É assim: a gente cria um e estipula um tempo de vida. Dependendo de como ele agir nesse tempo, poderá ressuscitar. Se agir mal, morre pra sempre. Entendeu?
- Mais ou menos. Então ele vai ter corpo?
- Sim, já pensei em tudo (abre os blueprints do projeto). Tá vendo? Esse aqui é o homem. Esse aqui é o irmão dele, a companheira fêmea.
- Esse é mais bonito.
- Nem sempre, Verbo. Pensei em fazer cada um de um jeito. Uns assim, outros mais feios... esse aqui sem pernas, ó. E esse com um braço a mais.
- Que horror, pra quê isso? Uns vão ter vantagens sobre os outros?!
- É, pra gente não precisar interferir muito. Eles mesmos se ferram sozinhos.
- Mas Pai, e o lance de "justo e bom" que tem aqui nessa planilha...
- Ah, isso é um detalhe menor. Quero que uns sejam feios, outros pobres, uns totalmente fodidos.
- E eles vão viver de que jeito? Qual será o sentido da vida deles?
- Isso eu não vou revelar. Meu plano é bem grandioso. Já pensei em tudo: primeiro eles pecam...
- Pecam? O Senhor vai deixar?
- Deixar eu não vou, mas eles vão me desobedecer.
- O Senhor não é todo-poderoso? É só não permitir.
- Mas e a emoção, meu Filho? Não quero um monte de autômatos. Quero que eles escolham.
- Escolham desobedecer. Não vi vantagem.
- Preciso que escolham para que comam o fruto proibido. É assim que vão pecar. Aí, obtêm conhecimento.
- Estranho. Conhecimento é pecado?
- É, quando o afasta de Deus.
- Então não dê o conhecimento.
- Mas aí não terão livre-arbítrio.
- Peraí, eles não vão precisar de livre-arbítrio para escolher pecar? Ou vão comer o fruto à força? Isso é contraditório.
- É verdade, vou ter que fazer uns ajustes. Já sei: sabe aquele anjo cretino, que achou que era o bam-bam-bam? Vou botar ele na história.
- Mas esse cara não presta, vai estragar seus brinquedos.
- A idéia é essa, dar um pouco de emoção. Lúcifer...
- Satanás, Pai. Você mudou o nome dele.
- Ah é, nunca lembro. Satanás os convence a comer o fruto do conhecimento.
- Isso vai afastá-los de você.
- É preciso, porque sem o livre-arbítrio, não vão me adorar espontaneamente.
- Então o Senhor vai se dar a conhecer a eles?
- Em partes. Vou confundir um pouco a cabeça deles. Pensei numa sarça ardente...
- Que tal nuvem de fogo?
- E coluna de fumaça, hein? Que me diz?
- Legal. Mas então eles vão ter que Te adorar...
- Oh, não será obrigatório. Eu quero que seja espontâneo e sincero.
- Mas aqui diz que quem não o adorar será morto.
- O salário do pecado é a morte. Nisso Eu sou categórico. Quem pecar, babau.
- Mas não vão ter livre-arbítrio? Bastava eles não comerem o tal fruto. Isso está confuso.
- Ai, Verbo, como você pensa pequeno. Eu quero que eles me amem, e quem não amar será morto. Mas isso é só no final, no Dia do Julgamento.
- Não entendi. Quantos você vai fazer? Uma meia dúzia?
- Nãããão, milhões, bilhões deles. Uns vão morrendo e outros vão nascendo.
- E como é que vai ter um dia em que todos serão julgados? E os que já tiverem morrido?
- Eles ressuscitam. Ninguém poderá faltar.
- Aí eles serão julgados, e os que forem achados em falta morrerão de novo.
- Isso.
- Muito dispendioso. Não dá para cortar os gastos? E se eles viverem só alguns dias?
- Aí não dá tempo de pecar. Nem de buscar o arrependimento e me adorar.
- Então todos vão pecar.
- É claro.
- Não vai sobrar muita coisa depois desse julgamento.
- Claro que vai.
- O Senhor está sempre se contradizendo. Se todos vão pecar, por que só alguns vão morrer?
- Ah, vou fazer um acordo com eles. Já estou pegando amor por estes vermezinhos. Eles terão que se arrepender.
- Certo, então todos vão pecar e precisarão se arrepender. Quando aprenderão que pecar é errado?
- Eu pensei em dar exemplos. Primeiro eu executo vários. Olha aqui este projeto (pega uma pasta chamada "Dilúvio").
O Verbo folheia.
- O Senhor vai afogá-los?! (arregala os olhos de espanto)
- Sim, para eles aprenderem!
- Mas eles vão morrer todos! Onde fica o tal exemplo?
- Olha mais para o final. Vai sobrar uma família.
- Ah, Noé. Mas num barco? Isso nunca vai dar certo.
- Vai sim. Eles salvam os animais.
- Assim não vai caber todo mundo.
- Cabe, Eu dou um jeito. Eles só vão descobrir as leis da Física bem depois.
- Então assim eles aprendem com o erro e não pecam mais...
- Não seja simplório, Verbo. Eles vão pecar muito mais ainda.
- Mas então já será permitido? - pergunta tímido.
- Não! O salário do pecado é a morte! Morte, entendeu? Sangue, sofrimento e morte! Quero que me adorem e não pequem. Quem o fizer, vai pagar. Olha só o que eu tenho para eles (joga a pasta "Sodoma & Gomorra" sobre a mesa).
- Vai afogar todo mundo outra vez?
- Não, pensei em algo diferente. Vou lançar fogo e enxofre na cabeça deles.
- Senhor, isto é horrível! (Abre uma planta do projeto) Eles sentirão dor! Olha só essa pele! Olha esse sistema nervoso!
- Eu sei, fui Eu que inventei isso aí. É para eles aprenderem que pecar é errado.
- E se não pecarem vão fazer o quê? Dormir o dia inteiro?
- De jeito nenhum! A preguiça é pecado gravíssimo. Eles têm que me adorar. E trabalhar feito loucos para sustentar as crianças.
- Só que a Natureza já vai dar tudo. E se eles vão adorá-lo o dia inteiro, será contra a vontade deles.
- Não, terá que ser sincero. Terão que me amar de verdade. E a Natureza não vai ser essa mãe que você está pensando. Vou dificultar as coisas. Neguinho vai ter que sambar para comer um pão.
- Assim fica difícil te amarem: uns nascerão feios ou burros, e sobre isso não terão escolha. Terão livre-arbítrio, porém tudo o que escolherem que não seja adorá-lo será pecado. A Natureza será perigosa e eles vão ter que trabalhar. O Senhor vai exterminá-los e só deixar umas testemunhas de que pecar é errado, mas não os impedirá de errar outra vez. E os fará pagar pelos erros com sangue, sofrimento e morte!
- Exatamente! Meu plano é ambicioso. E é aí que entra meu acordo com eles.
- Ah é, o acordo. E qual é?
- Alguém vai morrer por eles.
- Boa idéia! Isso é misericordioso. Assim eles serão gratos e o adorarão. E não precisarão morrer para satisfazer suas regras. Quem será o felizardo? Satanás?
- Não, você, meu Filho.
- EU?! Eu nem tenho parte nisso! Só passei para perguntar como tem passado, ver o que o Senhor anda fazendo...
- E agora já viu. Você vai me ajudar a criar tudo isso. Eles precisarão de ajuda, também. Como recompensa, você será o Rei deles.
- Mas eu não quero ser rei, nem de coroa eu gosto. Eles fazem tudo errado e eu vou pagar a conta?
- Sem isso não sobrará nenhum. Quero que eles continuem a existir. Os que acreditarem que você morreu por eles serão os escolhidos. Farei um lugar bem bonito, chamado "Reino de Deus". Vai ser uma espécie de Disney, mas com uns carneirinhos, e esse tipo de planta que deixa a pessoa feliz...
- Tá, mas por que Eu? Por que o Senhor não os faz sem pecado, para eu não ter que ir lá morrer?
- Mas você não vai só morrer. Você vai viver lá, como um deles. Por apenas meia hora, mas parecerão trinta e três anos. Já expliquei que não posso fazê-los sem pecado, se quiser que me amem livre e espontaneamente.
- Eu não quero viver lá desse jeito! O Senhor faz suas criaturas imperfeitas e eu tenho que nascer num corpo fedorento e frágil, passar por humilhações e morrer? Não tem outro jeito mais fácil?
- Infelizmente, não. Mas eles vão te amar, acredite. Quer dizer, não todos. Alguns vão te crucificar. Mas depois você volta pra cá.
- O Senhor vai jogar fogo e enxofre na minha cabeça?
- Eu não vou fazer nada. Quem vai te matar são eles próprios. Eles é que vão te matar. Mas de todo jeito é sangue, sofrimento e morte, então pra mim está valendo.

(O Espírito Santo surge num canto e vem falar com o Verbo)
- Verbo, vim ver se nossa partida ainda está de pé.
- Não vai dar, Espírito. Meu Pai vai fazer uns negócios e eu tenho que ajudar. A gente joga outra era.

(Deus se aproxima, expansivo e genial)
- Você também vai ajudar, Espírito! Vou precisar de um boy para levar meus recados. É só por uma eternidade, depois você volta. Você vai amar meus hominhos!
- Por que o Senhor não manda um anjo? Já estou muito atarefado.
- Okey, mas as tarefas de confiança é você quem vai fazer.
(O Espírito Santo vai embora, voando)

- Mas Pai, como é que eu vou nascer lá?
- Eu pensei em tudo, Filho. Já tenho até o slogan, olha aqui nesse folder: "O Verbo se fez carne e habitou entre nós". Que tal, hein?
- Mas eles vão me matar! O Senhor mesmo disse! Como é que vão me amar e depois vão me matar?
E por quê num corpo humano? Não posso ser uma formiga? É bem mais bonita, resistente... olha as anteninhas dela (mostrando os croquis do modelo).
- Não, não. Tem que ser como homem mesmo. É uma questão de credibilidade. Eles têm que ver que você estará lá por eles, entende? O sofrimento e a morte têm que ser como se fossem deles. Estou sendo claro?
- E eu vou ter que criar eles com o Senhor...
- Claro, senão você não vai amá-los. Como vai morrer por uns zés-manés que você nem conhece? Não pode ser de bobeira, tem que ser um negócio sério.
Já escolhi sua mãe. E você vai ter até nome, sabia? Vai se chamar Jesus!
- Jesus? Não pode ser Átila?
- Não, já escolhi esse nome para outro cara.
- O Senhor sempre pega os nomes bons para seus personagens! Para mim só sobra Emanuel, Jesus, esses nomes...
- Mas quem é que está mestrando isso aqui? Tive o maior trabalho de imaginar um mundo, criar as regras, montar o sistema, fazer personagens, e você só reclama! Quando eu for jogar suas aventuras, vou meter o bedelho em tudo. E os dados são meus, Eu jogo os dados!
- Tá, então vamos criar isso de uma vez, seja feita a sua vontade e não a minha.
- Tem que ser na seqüência, do jeito que está no projeto. Quando eu contar três: Um, dois... três!
- Faça-se a Luz! - disse o Verbo bem alto.
A luz surgiu, e Deus viu que isso era bom.
- E agora?
- Agora a gente descansa. Amanhã faremos o céu, depois a terra, e por aí vai.

(Alguns dias depois)
- O que vamos criar hoje, Pai?
- Hoje vamos criar enxames de seres viventes para habitar isso que a gente já fez.
- "Seres viventes"? Não tem nome melhor pra isso?
- Sei lá, "ácaros"? "Áscaris"?
- Não, acho melhor "animais", que tal?
- Mais ou menos. Capricha nessas palavras aí, hein, Verbo!
- Mas esse aqui é difícil! Tem bichos demais, e o Senhor fez uns parecidos... Olha esse aqui, meu Deus!
- Estou vendo. É pra fazer assim mesmo. Manda brasa!
- Shazam!
- Que merda é essa de Shazam?! Mas você quer mudar tudo? Sou Eu que mando nisso aqui e você vai fazer direito, moleque.

O Verbo fez como estava no script, e os animais surgiram.
- Que diabos é aquilo lá embaixo? - perguntou o Verbo, indignado.
- O nome daquilo é "girafa". É pra ser assim mesmo.
- Com aquele pescoção? Pai, você me mata.
- Mato sim, Filho. Mato sim. Mas antes vamos criar o homem, para começar a festança.

O Verbo fez lá um homem muito mais ou menos, e para sua repugnância, Deus tirou a mulher da costela dele.
- Custava ter me falado? Eu faria outro igual a esse, porém fêmea.
- Isso é um simbolismo, tem que ser desse jeito. Tudo tem um propósito.
- Sei. E agora?
- Agora a gente larga eles pra lá.
- É só isso? Não tem que fazer mais nada?
- Não, é só deixar eles aí que vão começar as loucuras. Satanás vai declamar a fala dele em instantes. Quero estar na primeira fila; não vou perder isso por nada.
- E depois vamos ver o que eles...
- Depois Eu não vou ver nada. Se quiser pode ficar assistindo; eu já sei o que acontece. Vou tirar um cochilo. Me acorde no dia do Juízo Final.

4 comentários:

Dri Viaro disse...

Boa tarde, estou passando pra conhecer seu blog, e desejar boa semana.
bjsss

aguardo sua visita :)

Ed disse...

"Mas quem é que está mestrando isso aqui?", Hahahahaha!

Me conta qual rpg você costuma(va) jogar :-)

Naty M. disse...

Genial esse texto! Parabéns!

Patricia disse...

Olá colega, adorei seu texto, ops, espero que adorar seu texto não seja um pecado...ops, nem lé-lo até o final...2 a mais na minha conta de pecados para o juízo final!

Olha, sua reflexão foi genial e chegou em tempo certo para mim, ontem fui fazer fisioterapia no SUS e vi todo tipo de gente, sem perna, criança em cadeira de rodas com as duas pernas engessadas a parte com uma barra de gesso que as mantinham separadas, muita gente mancando, outras andando com o andador como eu. E eu chorando, olhando tantos desses sofrimentos, absorvia cada um deles e os traduzia em lágrimas...

Vou continuar minha reflexão em meu blog, para que esse meu comentário, continue apenas um comentário! Você escreveu o que muitos de nós não temos coragem nem de pensar. Parabéns e já te convido: dividindoape.blogspot.com bjs, Pati