quinta-feira, outubro 22, 2009

"Emma Bovary c'est moi!"

Esses dias uma colega comentava sobre sua decepção ao conhecer um autor de cujos livros gostava. E se sua fascinação ao conhecer um autor de cujos livros não gostava.

Não por acaso, o autor que a decepcionou é brasileiro. Segundo ela, ele "é deselegante de todos os modos possíveis". O outro, português, é "um gentleman, educado, sofisticado, classudo, irresistível". Palavras dela, não minhas.

Refleti longamente (3,19 segundos) sobre isso e cheguei à excelsa conclusão de que, realmente, não devemos querer conhecer os artistas. Não conheço nenhum artista consagrado pessoalmente, mas acredito mesmo que não gostaria.

Eu idealizo os autores e os imagino como personagens de seus próprios livros. Não há como não imaginar Poe como um homem melancólico como Usher, Lovecraft como um homem neurótico perseguido por criaturas estranhas e imaginárias, Alexandre Dumas como um cavalheiro barrigudo e bonachão de espada à cinta e um copo de vinho à mão, recitando poesia, etc.

Conhecê-los e saber que ficavam em casa em roupas comuns olhando pela janela e consultando o dicionário, reclamando da empregada e roendo unhas é muito chato. E pior seria sabê-los mesquinhos, preguiçosos, mau-humorados, céticos. Afinal, a arte é beleza e não dá para imaginar gente feia fazendo arte.

Um de meus atores preferidos jamais se dá a conhecer, nem sequer a colegas. Ele mesmo disse que mal conhece outros atores e que nunca interage com eles fora de cena. Um belo dia vazou na internet uma discussão dele (um bate-boca da pior espécie) com um colega de trabalho. Fiquei arrasada. Então é um simples zé-mané? Apenas um bom ator? Ele não é bom em tudo? Não é valente como seus personagens, paciente, engraçado, corajoso, amoroso, etc? Então é um cara normal que provavelmente reclama da empregada e rói unhas? Que péssimo.

4 comentários:

Anônimo disse...

Autor e leitor: uma gangora que só se equilibra com a imaginação no meio. Vai procurar realidade no artista pra que? Não tem TV?
Quero saber é da criação, não da criatura. Muito bem dito, guria!

Larissa Bohnenberger disse...

Entendo perfeitamente e concordo com tudo. Não se pode querer conhecer artistas que se admira. A decepção é certa.
Bjs!

Ana, a Gêmea Má disse...

Já é tão fácil se decepcionar com gente, imagina só com gente que a gente idealiza... :)

Meu amor, me manda um email: anagemeama@gmail.com. Preciso encaminhar seu endereço pra Joyce!

beijo

Cristina Uetake disse...

Pois é Badá, eu trabalhei anos em editoras de livros didáticos e paradidáticos. Há autores arrogantes, mas outros que mesmo com a fama, são uns amores. Mas eu concordo plenamente com vc: faz parte da magia não querer conhecê-los. A gente não quer saber se eles têm contas pra ganhar como a gente, ou reclamações com a empregada e coisas corriqueiras!!!! Bjks