quinta-feira, dezembro 17, 2009

A vida em ciclos

- E só por isso você não o quer mais como amigo?
- Como "só por isso"? Ele causou meu divórcio.
- Bobagem. Você nem gostava mais dela.
- Casamento é coisa séria.
- Por que nunca nos casamos?
- E você ainda o defende.
- Foi tudo inadvertido.
- Foi de propósito. Eu sei daquele canalha. Ela vivia pra mim! A gente era feliz.
- Me passe o açúcar.
- Nossa casa era mesmo um lar. Tínhamos tudo do nosso jeito. Ela adorava flores, e eu escolhi os quadros. Agora não tenho mais quadros.
- Não me diga que aquele arlequim foi escolhido por tu?
- Não é assim que se diz.
- "Por você". Quantas convenções!
- Eu adorava o arlequim. Comprei numa viagem. Um pintorzinho escocês me vendeu na Irlanda. Tomávamos café num vilarejo...
- Num vilarejo clichê, e aí veio o pintor clichê para vender o quadro...
- Mais autêntico do mundo. Está vendo? Você dificulta as coisas! E aquele desgraçado acabou com tudo! Minha vida era certinha.
- Você vai comer isso? Não? Posso?
- Ela detestava brownie. Dizia que era pedante. Sabe? Tem gosto de brownie "demais".
- Tinha que ter gosto de quê?
- São pequenos detalhes. O pior é que eles nem eram amigos.
- Mas há intrigas até onde a língua humana alcança.
- Eu nunca me casaria com você.
- Por que a ênfase no "casaria"? O que faria comigo então?
- Você me entendeu. Ela era a mulher perfeita. Não discutia, gostava da casa...
- É linda...
- Isso não conta tanto. Juro.
- Sei.
- Ele sabia disso e mesmo assim...
- Ele não fez nada. Você vai ver. Ainda serão muito amigos. Você é padrinho do filho dele. Ensinou o menino a montar.
- O filho dele é outra história.
- E tem a mulher dele.
- Ahhh, sempre linda. Isabella.
- Pensei que isso não contava.
- Não quando é sua mulher.
- Eu não tenho mulher. Não sou homem.
- Por isso ninguém quer você. Quem quer uma mulher cabeçuda?
- Eu não sou cabeçuda.
- E que atira? Quem quer uma mulher com uma arma na mão?
- Aparentemente, todos os homens de Hollywood.
- Não há homens em Hollywood. Precisa pôr tanto sal nisso?
- Aqui elas vêem sem sal. Eu gosto bem salgadinhas. Mas eu não sou cabeçuda. Ele era seu amigo e olha no que deu.
- Agora você está contra?
- Meu Deus, quem está contando os pontos? Já esqueceu do seu arlequim e da...
- E da mulher que eu amo!
- Amava. Amaaaava. Amava. Agora me passe o cardápio.
- Pra onde vai tudo isso?
- Eu tenho um quadro de borboleta!
- Não é a mesma coisa. Era o clima, sabe? O jeito que a coisa tem.
- Minha casa tem aqueles cabideiros antigos de colocar chapéu.
- Onde você comprou? Eu nunca encontrei um desses.
- Foi numa viagem. Uma velha senhora passava...
- Uma velha senhora clichê...
- Eu sou a mulher perfeita.
- Vamos pedir um vinho?
- Você sabe que eu moro perto...
- Não vou poder dirigir.
- Amanhã eu trabalho.
- Vamos assistir filmes. Preciso de um ombro amigo.
- Tem café da Colômbia.
- E você tomando esse lixo? Já pra casa. Garçom!
- Não precisa, eu tenho conta.

2 comentários:

olhodopombo disse...

muito bom!

O Bibliotecário disse...

Impecável. Platão não dialogaria melhor.