quinta-feira, fevereiro 18, 2010

Férias

Era uma vez um continente. A América do Sul.
Nele há vários países: Brasil, Argentina, Chile, Paraguai e mais uma meia dúzia de países de que ninguém nunca ouviu falar.
O Brasil vocês já conhecem: é a terra do samba, futebol e bunda.
O Paraguai também, quem não conhece? É onde compramos produtos “importados” e ouvimos lamentáveis guarânias que só nos trazem dor e más recordações.
Eu já tinha ouvido falar da Argentina e do Chile, mas suspeitava que fossem só lendas. Não tendo coisa melhor para fazer, fui lá verificar. E não é que existem?
A Argentina fica ao sul do Sul, virada para o Atlântico, e é enorme. A gente acha que só o Brasil é grande, mas não. A Argentina é páreo duro.
Trata-se de um reino muito pitoresco, governando pelo espírito de Eva Perón, onde todo mundo dança tango e bebe vinho. Quer dizer, quase todo mundo. Tá bom, quase ninguém dança tango, aquilo é só para turistas mesmo. Mas os shows são maravilhosos. O Tango Porteño, em Buenos Aires, é muito interessante. Uma mistura de dança e encenação cômica, conta historinhas sobre a Argentina desde o começo do século passado, com um excelente interlúdio de uma dançarina solista e seu par imaginário. Não é uma Broadway, viu? É um espetáculo simples, sem efeitos especiais, mas com dançarinos competentes e uma ótima montagem. Há uma cena romântica de uma moça vendada e seu par misterioso que me lembrava muito Psiquê e Cupido. Foi um dos meus preferidos. O único porém do show era uma imensa cabeça de argentino que ficava se movendo à minha frente, de modo que perdi momentos inesquecíveis (presumo) da apresentação. Por fim, tirei fotos fazendo poses de tango com um dos dançarinos. Patético.
No dia seguinte fomos conhecer a Calle Florida, uma espécie de Paraguai particular que os argentinos têm no centro de Buenos Aires. Trata-se de uma rua atulhada de lojas e mais lojas (e ambulantes no meio), vendendo tudo o que o turista brasileiro pode querer comprar: calçados e roupas de couro, chapéus de couro, luvas de couro, bolsas e carteiras de couro, agendas de couro, alpargatas de couro, meias de couro, brinquedos de couro e outras utilidades de couro. É compreensível que eles tenham que arranjar usos para tanto couro, já que se come uma vaca inteira por semana andando pelo país. Parece que nunca ouviram falar de “brócolis”, “feijão” e outras iguarias. Como a carne não me agrada, vivi de pão e abacate (eles conhecem abacate), além de fungos e outras delícias.
Mas voltando à Calle Florida: Há também lojas de cosméticos, e se tivesse ido com o intuito de fazer compras, teria saído de lá com toneladas de cremes, shampoos e batons importados. É o paraíso. Trouxe muito poucos porque não há quem agüente acompanhar minha pessoa em passeios por perfumarias.
Fora da Calle Florida – e nela também – vimos muitas livrarias. O povo argentino pelo visto aprecia ler, e os preços são irrisórios. Comprei livros por 1 Real (dois Pesos) cada. E notei que o povo gosta também de café, porque há mais cafeterias que farmácias na cidade (e há muitas farmácias).
Fizemos um city tour e me impressionou a rapidez com que a guia passava do espanhol para o português, deste para o inglês e depois de volta para o espanhol, sem sequer tomar fôlego.
Passamos pelo Camiñito (bairro horroroso), estádio La Bombonera, Casa Rosada e outras chatices.
Os prédios da cidade conservam (mal) um pouco do glamour portento da era áurea - ou argêntea - mas a decrepitude não se eximiu. Apenas as portas, belíssimas portas, testificam da grandeza da Argentina no passado.
Não há mais nada digno de menção em Buenos Aires.
Depois disso, fomos para Mendoza, uma cidade argentina já bem próxima da divisa com o Chile. Foi onde o câmbio foi mais proveitoso e irônico, uma vez que não íamos precisar mais de pesos argentinos nos próximos dias. A vida é triste.
Em Mendoza não há nada além de vinícolas, e não pudemos vê-las porque exigem hora marcada. Quem marca hora para visitar uma vinícola, meu Deus? Apenas tirei fotos de algumas e dos vinhedos que víamos ao longo da pista. E lá fomos nós para o Chile.
A entrada no Chile é um transtorno. As autoridades chilenas presumem, não sem alguma razão, que da Argentina não vem ninguém que preste. Embora tremendamente educados, revistaram cada porta-moedas da nossa bagagem, nos cheiraram (salvo exagero) e nos fizeram preencher dezenas de documentos. Por fim desistiram e nos deixaram entrar (gastamos quatro horas na alfândega, e não levávamos nem uma paçoca que inspirasse suspeita. Aliás, paçocas por lá são suspeitas, e qualquer outra coisa comestível que não esteja lacrada. É que a vigilância sanitária de lá é muito paranóica).
Se soubéssemos como era o Chile, não teríamos lutado tanto para entrar. Mas não nos adiantemos.
Depois da alfândega veio a vertiginosa descida pelos Andes. Não havia neve, aleluia, mas ainda havia os Andes. As curvas absurdas e a descida por túneis valem muito a pena, exceto para pessoas com labirintite, acrofobia, claustrofobia, amaxofobia, catagelofobia, espectrofobia, lissofobia, sesquipedalofobia e para mariquinhas.
Eu precisava chegar logo ao hotel em Santiago. E aquilo não acabava. Depois das montanhas, alguns vinhedos, olivais (lindos) e casinhas coloridas, chegamos à capital. Foi traumático esperar tanto e ainda não perdoei o Destino cruel.
Quando chegamos já tinha anoitecido. A cidade é confusa, muito suja, cheia de táxis, e os taxistas são esquisitíssimos (será que é preciso ser lombroso para ser taxista lá?). Os cães sem dono estão por toda parte, e ninguém faz nada. Às vezes passam matilhas imensas e os carros têm de parar e esperar os doguinhos saírem da frente.
O hotel era ruim, embora exibisse quatro estrelas (qualquer um pode falsificar umas estrelinhas de bronze hoje em dia) e não achamos onde comer. Porque lá, naquela terra de gênios, até as lojas de conveniência fecham às dez horas, de modo que passamos fome. No dia seguinte fomos jantar bem cedo, praticamente um almoço.
Santiago não tem nada de interessante além de um shopping-parque de diversões cujo nome esqueci. O câmbio estava ruim e não compramos nada. Comemos num restaurante chamado Coco-loco, caro e meia-boca.
No dia seguinte conseguimos uma visita guiada à Viña Undurraga. Seus belos jardins foram projetados por Pierre Dubois, e contêm elementos da cultura Mapuche (Chemamules, Rehues e Tótens). As vinhas são imensas e cercadas por montes e vales. Provamos os vinhos, compramos algumas garrafas (cheias), e eis tudo. Na manhã seguinte, retomamos a estrada.
Nossa próxima parada foi Puerto Varas. No caminho para lá vimos que o Chile ainda é um país pobre, mas tenta fazer tudo certo, portanto ponto para eles. As pessoas são mais educadas e gentis que “os outros” (você sabe de quem estou falando). Ninguém tenta atropelá-lo se você atravessar a rua, os garçons não são abusados nem preguiçosos, etc.
Ao chegar em Puerto Varas tive a grata surpresa de ver o Lago Llanquihue e, em sua outra margem, o vulcão Osorno. É lindo. A cidadezinha é agradável, o clima é ameno, mais para frio, e as imensas roseiras que enfeitam as ruas são estonteantes. Nunca vi rosas tão grandes e perfumadas. Ali nos divertimos mais, comemos melhor e também relaxamos. O hotel era ótimo (Las Cabañas).
O restaurante Las Brasas serve aqueles imensos caranguejos que parecem alienígenas. Lá, tomamos vinhos ótimos por um preço bem bacana, e fomos atendidos por uma dupla de brasileiros (irmãos) que resolveu se mudar para lá e sabe dar dicas gastronômicas como ninguém.
Depois de conhecer Puerto Varas, o que aliás não leva muito tempo porque é minúscula, fomos a Puerto Montt. A cidade não tem nada de interessante e não me lembro de ter visto algo que me encantasse. Talvez somente o cãozinho de patas brancas que passeava com seu dono na praça. Ah, Puerto Montt é maior e mais urbanizada que Puerto Varas, o que não constitui vantagem, e lá encontramos uma loja Falabella onde os preços das roupas de griffe era risível de tão baixo. Infelizmente perdemos a oportunidade graças a um rasgo de pão-durismo associado a bom-senso, e voltamos de mãos abanando. Quem sabe da próxima vez?
Depois de Puerto Montt, fomos a Frutillar, uma colônia alemã no meio da Patagônia chilena, onde faz um frio cortante e todo mundo come chucrute. A cidade parece cenográfica. As casinhas de madeira e os chalés em forma de chapéu de bruxa são adoráveis. Comi tortas deliciosas e tomei chocolate quente. À noite jantamos no clube alemão, que serve pratos típicos alemães a preço de banana (a preço de banana no Brasil, porque a banana lá não é típica e custa caro). Me espantou que as crianças lá brincassem na rua de short e camiseta depois que escureceu, quando eu mal conseguia ficar sem luvas e usei cachecol até no salão aquecido. Aquecido para eles. Enquanto para nós era inverno, para eles devia ser um calor infernal, pois pelas fotos que vimos, lá deve fazer muito frio. Muito.
Mas isso não é problema porque Frutillar não tem nada para se fazer além de tomar chocolate quente e comer chucrute, pois não passa de um vilarejo, na verdade. Lindo, mas um vilarejo.
No outro dia fomos a Osorno, cidade onde fica o famoso vulcão. Não chegamos a conhecer a cidade, pois fomos logo ao assunto. O caminho até lá é íngreme e cheio de curvas, com vegetação dos dois lados, e embora lindo, quase fundiu o motor do carro. Depois de ser perseguidos por moscas gigantes pré-históricas, chegamos ao pé do monte e nos refizemos com comidas saborosas e chá. Depois tomamos um teleférico (ui) até o topo da coisa.
Lá em cima, maldito seja o bilheteiro, não havia neve. Não propriamente dita. Embora estivesse frio, ainda estava quente demais para os padrões locais, e a neve derreteu quase toda. Mal consegui escorregar em um palmo de gelo sujo. Mas foi muito bom e agora que já sei o caminho, voltarei outras vezes. Se bem que nos disseram que o inverno lá é assombroso, com ventos a velocidades aterrorizantes (sei lá quantos mil quilômetros por hora, na minha imaginação) e acabei achando boa coisa termos ido no verão.
Cansados de tanto Osorno, voltamos a Puerto Varas e tomamos muitos vinhos, motivo pelo qual acordamos bem tarde (e com gosto de jiló na boca) no dia seguinte.
Em algum momento dessa viagem fomos conhecer Viña Del Mar, mas não me lembro em que dia foi, nem havia qualquer coisa lá que merecesse figurar nessa história (o que é isso, havia hortências e um realejo, com periquitinho e tudo!).
Fomos, portanto, para San Carlos de Bariloche.
Não sei se lembram que a fronteira entre o Chile e a Argentina é uma tortura, e lá estávamos em fila, esperando que um anjo descesse do céu e nos ajudasse a entrar na Argentina. Depois de toda a chateação, conseguimos (o anjo faltou).
Bariloche é decididamente o lugar perfeito. É linda, agradável, cheia de coisas interessantes, onde se come bem e se bebe otimamente, e há muitos passeios. Também há uma espécie de “Calle Florida” para as sacoleiras de plantão.
Lá, além de conhecer cerros (montes) muito aprazíveis e cujo nome esqueci, comprei minhas botas Harley Davidson. Um luxo barato, em comparação aos preços do Brasil (metade, em média). Lá, também, tive uma overdose de teleféricos e não pretendo andar neles pelos próximos 76 anos, mais ou menos.
É normal ver cães São Bernardo pela cidade, com seus kits (fictícios) de primeiros-socorros no pescoço com seus nomes pintados. Tirei uma linda foto com um deles.
O clima da cidade é frio, à noite mais ainda, e durante o inverno deve ser mortal, mas nos demos bem com ele e eu moraria ali. Ah, fomos conhecer a colônia Suíça, uma vila meio difícil de achar em meio aos bosques. Ali comprei muito chocolate, mas só arrisquei comer pizza, pois o prato típico local tinha um nome assustador e aparência medonha.
Depois de conhecer as estações de esqui (paradas, obviamente, por falta de neve) e ver curiosidades (como as cópias de estátuas de Michelangelo feitas com resina por meio de moldes dos originais), pegamos a estrada rumo a Buenos Aires.
Yeah. Mal sabia eu o que vinha pela frente.
Entre San Carlos de Bariloche e Buenos Aires há um imenso deserto, cujas temperaturas podem passar de 40° C no verão. E a estrada segue em linha reta por quilômetros, motivo pelo qual muitos motoristas dormem ao volante e morrem. Durante todo o trajeto vimos placas alertando para o perigo da sonolência. A vegetação, esparsa, miúda, cresce na terra seca e vermelha até onde os olhos alcançam. Ao longe, no horizonte, as ondulações do calor hipnotizam e nos fazem ter vertigens. Nada de água. Nada de postos de gasolina (nafta, para os íntimos), lojas de conveniência, casas, árvores. Nada de nada. Para os índios, aquele lugar devia significar morte. Para nós, significou tédio.
Quando chegamos a Buenos Aires, cansados, doloridos e desidratados, já era madrugada.
Dormimos apressados (existe isso?) e na manhã seguinte constatei, chorosa, que os bombons suíços derreteram todos e viraram uma bola só, uma placa empedernida e feia de chocolate. O calor do deserto não faz por menos. Nem eu, que ainda dei umas dentadas no hediondo bloco antes de reconhecer que ele tinha que ir para o lixo.
Fomos andar novamente por Buenos Aires, porque senão não seríamos brasileiros de verdade. Comprei alguns livros num sebo ao lado do hotel, e (não riam) livrinhos ilustrados de colorir. Eu gosto, ué. Um era sobre guerreiros gregos da antigüidade, outro sobre guerreiros romanos, e outro sobre criaturas mitológicas e de fantasia (dragões, arqueiros, esses tipinhos).
No fim do dia, chateados, vimos que tudo chegava ao fim e que tínhamos de partir no dia seguinte. Eu já nem falava português direito, estava a par de tudo na Argentina, e até já sentia saudade de “Los improvisadores”, um programa infinitamente tosco da televisão do Chile.
Chamamos o táxi (táxis na Argentina são constrangedoramente baratos) e fomos para o Aeroporto com nossas muambas e sorrisos gigantes.
Tudo correu bem até chegarmos ao Brasil.
Se para entrar na Argentina não tivemos nenhum incômodo, para entrar no Brasil foi um desastre (não um desastre aéreo, bom Deus!).
Os funcionários da Polícia Federal e do aeroporto, além de rudes e mal-treinados, são lentos e não gostam de dar informações. Minhas Harley Davidson fizeram o detector de metais disparar. Ao entrar na Argentina, o negócio também disparou, mas uma policial me revistou sem alarde. Mal percebi. No Brasil, o rapaz fez parar tudo e falou bem alto “vai ter que tirar!”, como se eu estivesse fugindo ou escondendo algo. Foi ridículo. Até onde eu sei, o Brasil é que é cheio de bandidos, gente desonesta e maloqueira. Mas tirei minhas botas maravilhosas, temendo que elas sumissem no raio-X, e depois calcei novamente, diante dos olhos de centenas de pessoas também descalças, porque o povo ali não poupa ninguém.
Embarcamos, a contragosto, para Salvador. Aí eu me lembrei que estava no Brasil. O embarque já começou atrasado e levou mais de uma hora. Uma hora só para aqueles inúteis entrarem no avião e colocarem suas trouxas no porta-bagagem.
Como podem ver, os efeitos benéficos de uma bela viagem duram pouco.
Estou de volta. Vamos ver até quando.

2 comentários:

Maria Tereza disse...

É isto mesmo, Guarulhos é um verdadeiro cartão de entrada, "Welcome to Brazil"!!

O Bibliotecário disse...

Um relato de viagem digno de um Truman Capote. Mas precisava contar tudo de uma vez?... Tava tão bom.