quarta-feira, julho 14, 2010

O Brasil e o Trem-Bala

Notícia: O ministro dos Transportes, Paulo Sérgio Passos, afirmou que empresas de pelo menos sete países já manifestaram interesse em participar do leilão para construir o Trem de Alta Velocidade (TAV), que ligará o Rio de Janeiro a Campinas, no interior de São Paulo, passando pela capital.

Minha insignificante opinião sobre o caso: O Brasil é um paisinho tão tacanho, parvo e insolente, que tem dezenas de ferrovias apodrecendo aí sem uso, trens jogados fora, tudo em péssimo estado de conservação, enquanto as rodovias são destruídas pelo excesso de caminhões de carga - e vem querer botar um luxo desses para carregar passageiros.
Isso mostra o grau de elevação moral e intelectual dos nossos governantes e ministros. Por que não transportam a vó morta deles no trem bala? Afinal tem tanta coisa mais útil e necessária que podiam fazer!
Do Rio para Campinas tem ônibus e avião, ou quem quiser que viaje de carro.
Mas e para os milhões e milhões de toneladas de carga transportados por rodovia, queimando diesel e destruindo o asfalto das rodovias?
Isso atende aos interesses de quem? Molha a mão de quem? A minha é que não; mas não pode ser por acaso que um gigantesco país de clima ameno e perfeitas condições para uso de ferrovias continue usando o mais poluente, irracional, caro, complicado e errático meio de transporte para distribuir matéria-prima e bens de consumo.
Tem sentido? Deve ter, numa outra dimensão. Mas aqui, nesta aqui, não tem. Só de pneus, só de asfalto, só de vidas perdidas em acidentes cretinos, só de saúde destruída pelo uso de drogas estimulantes por parte dos caminhoneiros, só de SUS, só de peças de caminhão, só de... ah, que tremendo absurdo! Peguem o dinheiro do trem-bala e invistam no que é necessário! Seus moleirões despreparados e mesquinhos! Governinho desgovernado. Bando de chupins dedicados a desviar a atenção da população do que é útil para luxinhos esdrúxulos.
Vai ter trem-bala do Rio a Campinas? Excelente, e Sergipe? E Alagoas? E o Acre? E o Paraná? A produção desses estados, como será distribuída? As frutas que vem do Nordeste, os metais que vem de Minas, e sei lá mais o quê que vem de não-sei-onde, como vão ser entregues? A que custo? Por que eu tenho que pagar cinco reais numa maldita manga enquanto o produtor recebeu por ela pouco mais que alguns centavos?
Esses dementes do governo estão no mundo da lua, desvairados de tanto dinheiro que lhes chega às mãos, e nem sequer sabem onde enfiar tanta grana - porque se esqueceram qual a finalidade desse dinheiro. Eles acham que é deles.
Hoje, por exemplo, eu soube que estão construindo micro-casas populares de alvenaria com "madeiramento" de ferro para sustentar o telhado. Entregam ao povão, que enfia ali sete ou oito moradores para viver como codornas. Em quatro ou cinco anos, a ferrugem destrói o telhado e a casa começa a rachar.
Bom, hoje mesmo assisti a um programa de televisão americano que mostra como, em três dias, eles montam inteiramente uma casa com três dormitórios, feita de madeira tratada, resistente a furacões e incêndios. O custo é infinitamente menor, o tempo de construção é de um centésimo do que leva uma casa de alvenaria, e não há risco de ferrugem e cupim. Não exige manutenção, e só precisa de um alicerce de cimento para mantê-la firme por décadas - em alguns casos, mais de uma centena de anos.
Aí, aqui na malucolândia, nosso risível governinho decidiu que todo casebre popular deverá, obrigatoriamente, ter "teto-solar" (painéis de captação de energia solar).
Ei, seus quasímodos, acordem! Telhado de ferro? A mineração destrói, é cara, é complicada, e depois tem a siderurgia, e no fim das contas, a armação enferrujará e despencará se o pobre não tiver o trabalho de, a cada dois anos, remover as telhas, pintar tudo com anticorrosivo, e recolocá-las no lugar. E além disso, ficará enfurnado em 36m² de tijolos, que esquentam no calor e congelam no frio. Se em vez de mineração, os fornecedores do governo plantassem árvores, se nas fazendas improdutivas, em vez de assentarem falsos sem-terra que só querem fazer baderna, fossem plantadas árvores, poderíamos produzir casas de gente para esses pobres, a um baixo custo, alta qualidade e com a matéria-prima produzida "in loco". Em vez disso, querem poluir, minerar, confinar as pessoas - e depois de tudo obrigá-las a ter teto-solar, porque é ecológico.
E por cima de tudo isso, assentada como uma fétida cereja-do-bolo, um magnífico trem-bala de sei lá quantos milhões de dólares, para mostrar ao mundo o quanto somos ignorantes, estúpidos, atrasados e pretensiosos. Queremos a Copa, queremos um super trem de passageiros, queremos que as florestas se lasquem, que as rodovias se implodam, que os gastos subam à Lua, que o dinheiro público seja investido em firulas e carrinhos de fricção, porque somos uma gentalha.
Eu acho legal um trem-bala. Moderno e coisa de primeiro mundo.
Mas convenhamos que isso, no Brasil, é a mesma coisa que pobre comer rapadura tomando Moët Chandon.

Um comentário:

Christiano disse...

Pois é, aqui no nordeste toda a malha ferroviária é uma ruina. A estação da minha cidade era um depósito municipal de tralhas, depois virou um bar, e agora é agência de trabalho. Se ao invés de um trem bala, o insígne molusco restaurasse o que já existe seria bem melhor pois as rodovias, também quase arruinadas, ficariam desobstruídas do excesso de caminhões pesados e vagorosos que tudo atravancam.
E porque não investir em metrôs, será que não enxergam o tráfego absurdo das grandes cidades?
Sei não, viu.