terça-feira, outubro 26, 2010

Batom vermelho

Hoje comprei um batom vermelho. A bem da verdade, dois.
Não que não tivesse nenhum antes. Eu tenho. Uns dois. Mas nenhum tão vermelho quanto o que comprei hoje. O um, não o outro - que é vermelho amarronzado.
Faço questão de diferenciá-los porque o que realmente me conquistou foi o primeiro, vermelho de verdade. Um puro-sangue dos batons vermelhos. Alta pigmentação.
Minha carolice passada não me permitia esses desvarios. Usava batom rosa, cor-de-champagne (cor mais frígida não há), cor de caramelo, cor-de-buraco-de-cerca. Mas um vermelho de parar o trânsito, nunca.
Hoje saí de casa com sapato vermelho. Nas mãos, levava uma pasta vermelha cheia de documentos. Documentos de banco. Cartão de crédito cancelado; fizeram uma fraude, me levaram uns dólares. Fui resolver a embrulhada. Malditos argentinos! Cartório, copiadora, banco, fui e voltei. Saí da batalha em frangalhos.
Quer saber? Mereço um batom vermelho. Daqueles que nunca usei. De fazer corar a meretriz da Babilônia.
Lá se vão os sapatinhos vermelhos pelo comércio em busca do sonhado troféu. Loja de perucas, loja de shampoos, loja de bolsas. Enfim, loja de tudo. Perucas, bolsas, shampoos e um stand só de batons. De todos que havia, só dois eram vermelhos. Levei os dois.
No meu quarto, eu de pijama (são 18:39 h), meias listradas e batom vermelho berrante.
Agora sou Branca de Neve. Agora sou Bettie Page. Agora sou Louise Brooks.
(Pouca coisa é mais capaz de acalmar uma fúria)
Agora sou Malévola, Marilyn Monroe, Miss Mundo. Agora sou um hidrante, um extintor de incêndio, uma Ferrari, um rubi.
Que venham as filas de banco, os cartórios, os bancos de espera, as senhas, os departamentos, setores competentes, requisições.
Hoje finalmente compreendi por que, a certa altura da vida, as mulheres passam a usar batom vermelho. Não é para pintar os lábios, é para colorir o dia.

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