domingo, novembro 14, 2010

A fama do escritor

Queria ser um escritor famoso só para dar entrevistas.
Responderia com a maior candura da Terra às perguntas mais contrangedoras. Aliás, só daria entrevista se as perguntas fossem constrangedoras.
Mentiria muito, e outras vezes falaria somente a verdade, de modo que ninguém nunca teria certeza.
Queria que alguém me perguntasse "quais são as suas origens?", só para eu responder Osasco. Claro que eu não sou de Osasco. Mas há um prazer em mentir quando é absolutamente desnecessário.
Diria que sou afro-descendente. Queria ver quem contestaria. Seria politicamente incorreto contestar quem quer ser apresentado como preto. Eu seria veemente, e a despeito da cor da pele, eu os convenceria. Jornalistas gostam que mintamos para eles. Eles já sabem que as pessoas vão mentir e fazem essas perguntas de propósito.
Por exemplo, "o senhor paga impostos?", e o sujeito responde, "é claro" com um risinho. Mas ele já faz zombando, porque afinal se essa história de pagar impostos não pega, e se pegar ele pode até ficar com fama de cidadão correto; isso mina uma reputação.
Podiam me perguntar se sou um bêbado inveterado e apreciador de charutos. Eu responderia que sim, é claro que sou, mas é óbvio que não sou um bêbado - tenho medo de garçom - e não sei diferenciar um charuto de um cone de trânsito; mas o jornalista quer mesmo é indiscrição, ele faz por maldade, e pagamos na mesma moeda.
Questões obscenas (de cunho calórico) como "que tal um belo zabaione de amoras?" seriam respondidas com obscenidades equivalentes - qualquer coisa relacionada a celulite e flacidez da pele.
Eu seria um mau sujeito, se fosse um escritor famoso. Até arranjaria uma máquina de escrever só para dar mais sonoridade aos insultos que escreveria contra qualquer pessoa a quem me agradasse ofender, e bateria as letras com fúria ao denegrir a imagem de meus adversários. "Bando de eleitores conscientes", eu escreveria, "que não negociam votos por causa de uma suposta - abre aspas - ética - fecha aspas - que alegadamente norteia sua escolha". É claro que nada disso é verdade, mas a gente se esforça mesmo para criar caso; a vida de escritor famoso não é fácil e a qualquer momento pode-se deixar de ser famoso, e eis aí a fonte de toda desgraça. Porque escritor obscuro não se diverte, nem pode mentir, e escreve a sério, como se alguém lesse alguma coisa a sério.
Não, não; eu preferia ser um escritor daqueles bem famosos mesmo, daqueles que tomam caipirinha em bar de avenida e levam o cão velho à praia. Daqueles que são ateus e até fazem o sinal da cruz, e com reverência ainda por cima, como se a própria reverência não fosse uma forma de conspurcar um pouquinho a fé alheia.
Mas as leis do universo não permitiriam que um ser com tão sombrias inclinações se tornasse um escritor, e ainda por cima famoso.
Eu seria um monstro.

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