sábado, dezembro 11, 2010

Apenas uma noite

Desliguei o telefone, cansada. Nunca estive tão cansada.
Abri a gavetinha do criado-mudo e pus me a contemplar os objetos. Múltiplas possibilidades, naquela época. Se fosse hoje, só teria visto um deles. Mas lá havia uma lâmpada (queimada), um lápis, um isqueiro, uma caderneta telefônica, cinco fichas de jukebox e um revólver.
Avaliei rapidamente tudo aquilo e fechei a gaveta.
Fui até o quarto, botei meu melhor vestido e aqueles sapatos que me machucam o dedinho. Passei batom e um bom perfume, peguei a bolsa e saí.
Lá embaixo, o porteiro me olhou espantado e chamou o táxi. Era tarde, já, e fazia frio.
Ao chegar à festa, mal conseguia manter-me em pé, de tão exausta que estava. Mesmo assim, relanceei em volta até encontrar minha vítima. Trouxe-o com o olhar, agarrando-o com meus cílios, envolvendo-o friamente naquele filamento diabólico de sedução que eu projetava.
Permiti que ele conduzisse tudo. Submeti-me pacientemente. Aguardei que adormecesse. Em algum lugar, arrastava-se lentamente uma música morna.
Abri silenciosamente a gaveta da cômoda. Depois não me lembro bem o que houve. Senti apenas um baque, mas não senti dor. Estirada na calçada, ainda pude olhar para cima e ver-lhe o rosto, antes que as luzes se apagassem.
(Da série: memórias de fatos que nunca ocorreram)

Nenhum comentário: