segunda-feira, dezembro 06, 2010

A chama parda

Elise nunca me perdoou.
Pela vida miserável que vivíamos, pelo nosso filho, e tenho certeza, também, que pela maneira como fui embora.
O casebre em que vivíamos era pobre, feio, entulhado dos panos grosseiros que Elise costurava para fora. Num canto, minha cama, meu violino e uma sacola de couro em que guardava minhas roupas. O cheiro de ranço e de sopa impregnava até as paredes.
Nosso filho morreu de tétano depois de ter sido atropelado por uma carroça. Chovia muito naquele dia. Elise acha que fui omisso. Mas era meu filho também!
Resolvi, portanto, ir embora para sempre. Livrá-la da minha presença. Da minha existência.
Tudo o que pude deixar foi a soma de 22 francos que ganhei a tocar violino para casais românticos. Não sei como ela reagiu a isso, mas posso imaginar.
Saí enquanto ela dormia, sentada em sua poltrona puída, cercada por seus panos e agulhas e pelo cheiro de vela.
Vim para a casa da minha irmã. Uma casa branca, limpa e respeitável. Sou um hóspede estranho. Ninguém se digna a me importunar. Eu bem que gostaria. Meu quartinho fica bem alto, num canto virado para o sul, e o sol não bate na minha janela. Vejo apenas as árvores balançando solícitas ao vento frio que sobe o terreno.
Evito tocar o violino, agora. Contento-me com meu prato de sopa, leituras diárias da Bíblia e um vigoroso banho quente toda semana. Isso me manterá saudável, diz minha irmã. Ela o faz por caridade cristã. Eu aceito por remorso. Não quero impor a esta família o fardo da minha música. Nada de bom pode advir disso.
Antes de morrer, quero visitar Elise. Juntarei dinheiro pedindo. Os vienenses têm bom coração. Talvez leve muito tempo. Mas a verdade é que não há pressa.
(Da série: memórias de fatos que nunca ocorreram)

2 comentários:

Ole disse...

Em Viena o lado sul tem sol, não tem é no norte.

Mas as imagens são ricas. Tudo amarrado de uma maneira esquisita, mas a série está ficando boa.

Badá Rock disse...

Eu não acredito que tem gente que perde tempo lendo essas porcarias.