segunda-feira, dezembro 06, 2010

Diva

Começou quando eu tinha uns catorze anos. Antes, nunca tinha pensado nisso.
As pessoas acham que nascemos pensando nessas coisas. Não dizem que crianças são anjos? Um dia eu fui anjo também.
Mas depois que a infância passa, certos pensamentos nos surpreendem e não sabemos de onde vêem. Não podia falar sobre isso.
Minha mãe, típica matrona de peito largo e mãos grossas sempre aferradas a um terço de bolinhas pardas e cordão de prata, jamais toleraria ouvir minhas perguntas. Meu pai, omisso, só sabia falar do clima, dos preços e da política. Malditos isso, malditos aquilo. Duvido que quisesse mais alguém para chamar de maldito.
Os livros me ajudaram muito. Neles tudo é possível, e eu também era.
Sentia-me estranho. Na frente do espelho, ensaiava personagens exóticos e dava pequenos passos de dança. Cuidado com o assoalho, ninguém pode ouvir seu sapateado!
Saí de casa para estudar sob uma torrente de conselhos, lamúrias e ameaças. Minha mãe, lacrimosa e beata, sabia que eu me envolveria com moças perdidas. Meu pai sabia que eu cairia na jogatina.
Mas na faculdade conhecemos gente boa, inteligente. Gente compreensiva. Não havia muita tecnologia. Buscávamos informação na fonte, naqueles que as vivenciaram.
Entendi, então o que se passava. Aceitei bem a surpresa. Minha família, porém, nem tanto.
Mesmo com o diploma debaixo do braço, tive de ser enxovalhado, expulso e desprezado. Não me lembro de ter visto meu pai depois disso. De meus irmãos, só um vez me visitar. Minha mãe manda cartas por ele, mas eu nunca respondi.
Vivi minha vida feliz. Cantei, dancei, atuei. Também preparei as atrizes, arranjei figurinos. Trabalhei em peças famosas. Meu maior prazer era ensinar dança às meninas. As mães sabiam que eu cuidava bem delas. Engraçado encontrar mais compreensão nas mães de alunas que na minha mãe. Que seja! Tantos anos se passaram desde aquela época. Não sou mais seu menino Carlos, mãe! Hoje sou uma estrela! Conquistei aplausos, admiração, respeito. Não preciso ser aquela coisinha assustada que você queria que eu fosse. Veja meu sorriso. Eu me chamo Diva!
(Da série: memórias de fatos que nunca ocorreram)

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