terça-feira, dezembro 07, 2010

Limite difuso

Quase toda noite eu sonho que o ventilador de teto cai na minha testa. Ele cai rodando e despedaça minha cabeça...
Sonho muito, também, com o sítio dos meus avós, que foi vendido há muitos anos. As duas amoreiras que havia na frente da casa velha estavam sempre cheias de lagartas. Uma noite dessas sonhei que trocávamos os móveis da outra casa e achávamos uma criança. Deve ter sido esquecida lá em alguma das mudanças. O menino dormia numa das camas que íamos trocar. Depois descobrimos que era da nossa família. Provavelmente um descendente esquecido no futuro. Não sei bem.
Às vezes sonho com barulhos e cores, mas sem formas. É estranho porque não sei o que está acontecendo. Sonho com cheiros, com sabores. Muitas cores me confundem; elas não existem aqui fora.
Queria sonhar com o passado, mas não consigo. Tenho saudades dos amigos, parece que tudo é tão recente, mas ao mesmo tempo parece que foi numa outra vida. Ouço as vozes dos amigos me dizendo coisas: parece que estão debaixo d'água. Não consigo entender direito.
O dedo da minha mão direita dói. Não me lembro de tê-lo ferido. Mentira; eu o feri aqui em casa mesmo. Ando muito distraído. Quero muito ficar sozinho para que não vejam que estou distraído. Vão pensar que estou louco.
Eu sempre tento não falar a verdade. Sei que alguém presta atenção. Falar a verdade, ou escrevê-la, é comprometedor. Por isso eu gosto de mentir. Não, não gosto de mentir - minto porque preciso, porque ninguém pode saber o que se passa aqui dentro.
Eu tenho muitas maldades no peito, e sou muito egoísta com elas. Não quero que as tirem de mim.
(Da série: memórias de fatos que nunca ocorreram)

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