sábado, dezembro 11, 2010

O plano

- É muito pesado.
- Não, não é.
- Eu não aguento.
- Você sempre reclama de tudo. Queria ver se fosse um soldado, se ia ficar reclamando. Seu capitão o fuzilaria.
- Eu não sou soldado. Só não consigo levantar isso.
- Com o calor que está fazendo, até eu acho pesado. Mas não dá para ficar aqui papeando. Temos que resolver isso hoje porque amanhã vamos pegar o trem para o norte. Não teremos outra hora para fazer.
- Não quero ir para a carvoaria.
- E daí? Eu também não quero ter um irmão idiota. Lá você vai deixar de ser mole e aprender a ser homem.
- Eu posso trabalhar aqui.
- Você é burro mesmo, hein? Segure essa ponta de cá, imbecil, senão vai cair de novo. Olhe, se não percebeu ainda, aqui não é lugar pra nós. Vamos ter que dar o fora. Você pode trabalhar em qualquer lugar, ou será que é algum aleijado? Vamos, faça força. Agora vire ele para lá.
- Mas na carvoaria ganharemos pouco, e o serviço é pesado. A mãe vive dizendo que...
- Nossa mãe não está preocupada com você, irmãozinho. Nem com quanto ganharemos. Ela já tem problemas demais. Empurre para lá. Para lá!
- Assim? Argh!
- Finalmente. Minha camisa está grudando nas costas. Onde guardei os cigarros? Oh. Quer um, bebezão?
- Não sou bebezão. Se você continuar com isso, eu vou para o interior trabalhar na turfa e você que se dane no norte.
- Vá lá pra sua turfa, então. Mas antes, vá pegar a pá. Que diferença há entre turfa e carvão? O norte é que é o lugar ideal para nós. E vamos acabar logo com isso, senão ficamos sem jantar outra vez, por sua culpa. Está começando a escurecer.
- E depois?
- Depois o quê?
- E depois da carvoaria? Ou vamos ficar lá para sempre?
- Se ninguém nos encontrar, podemos ir até o mar e pegar um navio...
- Para os trópicos!
- Para a selva. Cheia de leões e canibais. Me dá logo essa pá e sai da frente.
- Você acha que ela vai sentir nossa falta?
- Ela vai dar graças a Deus...
(Da série: memórias de fatos que nunca ocorreram)

Nenhum comentário: