quinta-feira, dezembro 09, 2010

Proibida

Entrei na cela pela terceira vez naquela noite. O rangido da pesada porta de carvalho mais parecia um lamento vindo do inferno.
Lá fora, a garoa fina de outono prenunciava uma noite soturna. Nem um pio de ave penetrava a prisão em que a encerrei para sempre.
Ah, maldita! Mal sabe como me dói refrear esse desejo!
As paredes de pedra negra não refletiam a luz da pequena lamparina que deixei sobre a mesa.
Lá estava ela, num canto, aninhada nos panos de saco que lhe trouxe para amenizar o frio. Encolhida desse jeito, parecia menor que realmente era. Era detestável vê-la assim, cheirando a urina, reduzida a um punhado de cabelos emaranhados e uma face branca. Porém, não havia outro modo de detê-la.
- Pronta para sua refeição?
Seu olhar me desafiava. Mesmo debilitada, ela tinha uma força tremenda no olhar de serpente.
Abri a capa e tirei três pães e uma pequena garrafa de louça contendo vinho. De um dos bolsos, um pedaço de chouriço e uma maçã. Maçãs são raras e custam caro; eu sabia que ela sofreria ao vê-la, porque a recusaria.
Tirei as luvas e comecei a cortar o pão. O cheiro do chouriço e do óleo da lâmpada fizeram o aposento ganhar vida e calor, mas a maldita mulher me encarava sombriamente, sem reação.
Arrastei a única cadeira para diante dela, sentei-me e me pus a observar sua agonia diante da comida. Apesar da friagem, ela suava e ardia. Tirei do bolso um remédio para febre; o físico o havia preparado para o filho da condessa. Era certamente o melhor que havia por perto.
- Tome antes que morra.
Estedi o frasco para ela, mas ela não se moveu. Será que pretende morrer? Não permitirei que meu prêmio apodreça numa torre erma por mero capricho.
- Não haverá sol amanhã. Os dias serão cinzentos daqui por diante. Não posso trazer um físico para sangrá-la. Trate de tomar a poção antes que morra de febre.
Apesar das trevas, pude ver sua expressão de ódio. Eu queria poder abraçá-la. Queria poder amá-la, mulher maldita. Queria esbofeteá-la.
Levantei-me e a deixei sozinha. Espero que coma, porque preciso que esteja melhor amanhã. Como eu disse, os dias são muito cinzentos nessa estação, e eu preciso de um pouco de cor.
(Da série: memórias de fatos que nunca ocorreram)

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