quarta-feira, dezembro 29, 2010

Sobre desilusões

Eu também sofri tremenda desilusão quando conheci um índio mímico que sofria da síndrome de Tourette, mas, incapaz de falar, somente fazia gestos para expressar sua estranha condição.
Tivemos alguns encontros infelizes em Santarém, quando então ele resolveu voltar para sua tribo e eu para Santana do Passa Quatro. Como naquela ocasião já tinham passado quatro, fiquei de fora, e não pude ingressar em minha terra natal.
Desde então vago solitária pelo mundo afora, tentando expressar minha dor e meu talento por meio de esculturas em grãos de arroz. Uma arte bastante menosprezada, a bem da verdade. A única escultura que consegui fazer até hoje foi a de um pequeno grão de trigo feita com um grão de arroz, e ninguém deu a mínima.
Já comprei os CDs de música minimalista para tentar suicídio. Mas um falecido amigo meu deixou bem claro, em seu bilhete de despedida, que o meio mais certeiro de tirar a própria vida era com pagodes de gaita-de-fole. Não fui capaz de encontrar tais músicas, o que só aumenta minha desilusão.
(Da série: memórias de fatos que nunca ocorreram)

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